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As figuras de gesso que ninguém chegou a usar
Duas covas em Ain Ghazal devolveram 15 estátuas e 15 bustos modelados sobre feixes de junco, quase sem marca de manuseio, entre 7200 e 6250 a.C.
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As covas de gesso abertas em Ain Ghazal
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: um povoado neolítico de cerca de 15 hectares na periferia norte de Amã, cortado por uma rodovia em 1974, guarda o maior conjunto conhecido de figuras humanas de gesso do Oriente Próximo antigo.
Registro: duas covas escavadas em 1983 e em 1985 pela equipe de Gary Rollefson e Zeidan Kafafi devolveram 15 estátuas de corpo inteiro e 15 bustos, modelados em gesso de cal sobre armações de feixes de junco amarrados, com datas entre 7200 e 6250 a.C.
Anomalia: as superfícies quase não registram desgaste de manuseio, as covas não continham corpos nem oferendas, e as peças foram depositadas deitadas sob pisos de casas já desocupadas.
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Em julho de 1983, uma cova aberta no sítio de Ain Ghazal, na periferia norte de Amã, devolveu um conjunto de figuras humanas de gesso de cal modeladas sobre feixes de junco amarrados, e a equipe de escavação dirigida por Gary Rollefson e Zeidan Kafafi datou o depósito na segunda metade do oitavo milênio antes da nossa era. Duas décadas de análise de material no laboratório de conservação do Smithsonian, publicadas por Carol Grissom no American Journal of Archaeology em 2000, mostraram que as superfícies dessas peças quase não trazem o desgaste que objetos manipulados acumulam.
São duas informações firmes que não se acomodam juntas. Fabricar uma figura de tamanho quase humano em gesso de cal exigia queimar calcário, preparar a pasta, montar a armação vegetal e modelar camada sobre camada, um investimento de trabalho alto para um povoado da época. E o resultado desse investimento foi para dentro de uma cova quase intacto.
O sítio já era conhecido por acidente. Em 1974, o traçado de uma rodovia cortou a encosta e expôs muros de pedra e pisos queimados de um povoado neolítico com cerca de 15 hectares, um dos maiores assentamentos do período conhecidos no Oriente Próximo, ocupado por volta de dois mil anos sem interrupção clara.
O primeiro depósito apareceu debaixo do piso de uma construção já abandonada na época em que a cova foi cavada. As figuras estavam deitadas de lado, encaixadas umas nas outras, sem corpo humano junto, sem cerâmica, sem oferenda de alimento, sem qualquer dos elementos que costumam acompanhar um enterramento na região.
Dois anos depois, em 1985, uma segunda cova apareceu a poucos metros da primeira, com o mesmo tipo de conteúdo e o mesmo tipo de arranjo. Somadas, as duas devolveram 15 estátuas de corpo inteiro, algumas passando de 90 centímetros, e 15 bustos, parte deles com dois pescoços e duas cabeças saindo de um tronco único.
Os olhos são a parte mais reconhecível de todas. Cada figura tem a órbita contornada em betume escuro sobre o gesso claro, um traço firme que sobreviveu nove mil anos debaixo da terra e continua encarando quem se aproxima da vitrine.
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I O Registro
Duas covas na estrada de Amã
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O material da fabricação abre o dossiê. As figuras não são de pedra nem de barro cozido: são de gesso de cal, obtido pela queima de calcário em fornos rústicos a temperatura alta, um processo caro em lenha e em tempo que o povoado dominava e usava também para revestir pisos e paredes.
A estrutura interna é o achado que muda a leitura das peças. Dentro do gesso corre uma armação de junco cortado e amarrado com cordão vegetal, montada antes da modelagem, exatamente como um escultor moderno monta um esqueleto de arame antes de aplicar a massa. A análise de conservação do Smithsonian, conduzida por Carol Grissom, identificou as impressões do junco e da corda no interior das cavidades depois que a matéria vegetal apodreceu.
A forma segue um padrão estreito. Corpo achatado e fino visto de lado, pernas curtas e pouco separadas, braços apenas sugeridos, tronco chapado. A cabeça recebe atenção desproporcional: rosto largo, nariz modelado, boca pequena e as órbitas contornadas em betume, o material asfáltico que a região oferece em afloramentos naturais perto do Mar Morto.
O grupo se divide em dois formatos. As estátuas de corpo inteiro chegam perto de um metro de altura, e os bustos param no tronco, com cerca de 35 centímetros. Entre os bustos, os exemplares de duas cabeças sobre um só corpo não têm paralelo direto em nenhum outro sítio neolítico escavado até hoje.
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As figuras foram construídas sobre feixes de junco amarrados que serviam de armação interna, e a natureza frágil dessa estrutura torna improvável um uso prolongado em pé.
Carol Grissom, Neolithic Statues from 'Ain Ghazal, American Journal of Archaeology, 2000
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O contexto do depósito é tão informativo quanto as peças. As duas covas foram cavadas dentro de casas que já não eram moradia, o preenchimento não trouxe ossada humana, e nada indica que as figuras tenham sido quebradas de propósito antes de entrar. Elas foram acomodadas, não descartadas.
A cronologia do sítio dá a moldura. Ain Ghazal foi ocupado ao longo do período que os arqueólogos chamam de Neolítico Pré-Cerâmico B e do que veio logo depois, com as datas de radiocarbono do assentamento cobrindo aproximadamente de 7200 a 6250 a.C. O conjunto de figuras se encaixa nesse intervalo, e o segundo depósito é mais recente que o primeiro por algumas gerações.
O mesmo povoado deixou outra prática documentada e separada dessa. Alguns crânios humanos foram retirados de sepultamentos, revestidos de gesso e remodelados com traços faciais, uma tradição registrada também em Jericó e em outros sítios do Levante. Crânio revestido e estátua de junco são duas técnicas com o mesmo material e destinos diferentes.
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