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A cidade de 3 andares que a cinza achou vazia

Thera soterrou Akrotiri por volta de 1600 a.C.; desde 1967, a escavação achou casas de pé, um íbex de ouro e nenhum corpo

Ruínas de pedra de Akrotiri meio cobertas de cinza vulcânica

Akrotiri, Santorini, sob a cinza de Thera

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: erupção de Thera, c. 1600 a.C.

Registro: escavação desde 1967.

Anomalia: nenhum corpo, só um íbex.

As casas de Akrotiri, na ilha grega de Santorini, ainda tinham dois e três andares de pé quando a equipe de Spyridon Marinatos, da Sociedade Arqueológica de Atenas, abriu as primeiras valas em 1967, segundo os relatórios Excavations at Thera que ele publicou até 1974. Em meio século de escavação, a mesma equipe e as que vieram após ela não acharam um único corpo nas ruas, nas escadas ou nos quartos.

A cidade foi soterrada pela erupção do vulcão de Thera, a forma antiga de chamar Santorini, por volta de 1600 a.C. A pedra-pomes (a rocha leve e cheia de bolhas que o vulcão cospe) caiu primeiro. Por cima dela vieram camadas de cinza da altura de um prédio.

O que ficou embaixo parece uma cidade fechada às pressas. Há escadas de pedra com os degraus rachados, jarros de cerâmica alinhados nos depósitos, moinhos de grão nas cozinhas e paredes pintadas com andorinhas, lírios e meninos lutando boxe.

Na cinza endurecida, os escavadores acharam buracos com a forma de móveis de madeira que apodreceram. Encheram os vazios com gesso e tiraram de lá camas, banquinhos e mesas de três pés, a técnica usada em Pompeia.

Faltavam as pessoas, e faltava o que elas tinham de valor. As casas guardavam panelas, sementes e potes de óleo, mas nenhuma joia esquecida na pressa, nenhum cofre, nenhuma pilha de metal precioso.

A única peça de ouro de vulto apareceu só em 1999, trinta e dois anos após a primeira vala: a estatueta de um íbex (uma cabra-montesa de chifres longos e curvos), guardada numa caixa de madeira que estava dentro de um baú de barro.

Uma cidade com casas de três andares, canos de esgoto e pintura nas salas deixou para trás uma estatueta e nenhum outro objeto de ouro. Para onde foi o resto, e para onde foram os moradores, é o caso de hoje.

Ele começa pelo que a escavação registrou camada por camada, das rachaduras nas escadas ao baú que guardava o íbex.

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I  O Registro

As escadas rachadas antes da cinza

O SÍTIO

Ruas e casas de pedra de Akrotiri sob a cobertura moderna do sítio, em Santorini, com paredes de dois e três andares de pé.

Ruas e casas de pedra de Akrotiri sob a cobertura moderna do sítio, em Santorini, com paredes de dois e três andares de pé.

Foto: Xaris333, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Akrotiri era um porto da Idade do Bronze no sul de Thera, ligado pelo mar a Creta, onde floresceu a civilização minoica (a cultura do palácio de Cnossos, batizada em homenagem ao rei lendário Minos). A escavação de Spyridon Marinatos registrou a ordem dos acontecimentos nos meses finais da cidade.

O tremor que veio primeiro

Antes da primeira pedra-pomes, a terra tremeu. Escadas de pedra partiram ao meio, paredes inclinaram e parte das casas desabou. Os escavadores acharam esse estrago por baixo da camada vulcânica, prova de que ele veio antes da erupção.

Os moradores reagiram. Juntaram o entulho em montes nas ruas, escoraram paredes e começaram consertos. Christos Doumas, que assumiu a escavação em 1975 após a perda de Marinatos, descreveu no livro Thera: Pompeii of the Ancient Aegean, de 1983, sinais de equipes de reparo trabalhando na cidade quando o vulcão acordou.

As escadas quebraram antes da cinza cair, e alguém teve tempo de varrer o entulho.

As camas de gesso

A pedra-pomes e a cinza encheram os cômodos e endureceram. Os móveis de madeira apodreceram ali dentro e deixaram o molde. Marinatos mandou derramar gesso nesses vazios, e saíram camas com estrado trançado, banquinhos e mesas.

As pinturas ficaram nas paredes. Na Casa Oeste, um afresco (pintura feita sobre o reboco ainda úmido) mostra uma frota de barcos navegando entre cidades costeiras. No edifício que os arqueólogos chamam de Xeste 3, mulheres colhem flores de açafrão. No Edifício Beta, dois meninos lutam boxe com luva numa mão só.

O baú do íbex

Em 1999, durante obras para firmar os pilares de uma nova cobertura sobre o sítio, a equipe de Doumas abriu um poço junto ao edifício chamado Casa dos Bancos. Dentro de um baú de barro estava uma caixa de madeira, e dentro dela a estatueta de ouro do íbex. Ao lado do baú havia um amontoado de chifres de cabra.

A peça não tinha joias em volta, nem moedas, que ainda não existiam. Estava separada e embalada duas vezes, como objeto que alguém guardou com intenção.

O registro segue, então, uma ordem: tremor, consertos, ruas varridas, cinza e nenhum corpo em lugar algum. O íbex é a exceção ao vazio.

 

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II  A Pergunta em Aberto

A frota que ninguém viu partir

Uma cidade que esvazia sem deixar mortos levanta duas perguntas: quando os moradores saíram e para onde foram. A escavação responde a primeira em parte. A segunda segue sem resposta.

O aviso do chão

A leitura mais aceita, defendida por Doumas, é a de evacuação. O tremor foi o primeiro aviso. Os consertos mostram que as pessoas voltaram, mas a cidade sem objetos de valor sugere que um segundo sinal, talvez novos tremores ou a primeira chuva fina de cinza, as fez partir de vez, levando o que dava para carregar.

Partir de Thera significava partir de barco. A ilha é pequena, e a terra próxima com cidades grandes era Creta, a pouco mais de cem quilômetros ao sul.

Uma cidade sem mortos e sem ouro combina com gente que teve tempo de fazer as malas.

O rapaz de Çeşme

Até 2021, nenhum corpo ligado à erupção tinha aparecido em lugar algum. Naquele ano, a equipe do arqueólogo turco Vasıf Şahoğlu, da Universidade de Ancara, publicou na revista PNAS (a revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos) o esqueleto de um rapaz e o de um cachorro dentro do depósito de um tsunami (onda gigante causada por terremoto ou erupção) em Çeşme-Bağlararası, na costa da Turquia.

O depósito traz cinza de Thera misturada, o que liga a onda ao vulcão. O rapaz e o cachorro são as primeiras vítimas da erupção já achadas, e estavam a cerca de 230 quilômetros de Akrotiri.

A descoberta mostra que a erupção alcançou a costa vizinha com ondas fortes o bastante para soterrar gente. Quem fugiu de barco na hora errada pode ter navegado direto para o mar que ia virar onda.

Três destinos possíveis

1. Creta. Os moradores teriam ido para a ilha maior, com quem já comerciavam. A cerâmica de Creta após a erupção não mostra uma leva de recém-chegados que se distinga dos locais.

2. Ilhas vizinhas. Naxos, Ios ou Milos receberiam famílias em barcos pequenos. Nenhum sítio dessas ilhas tem, até hoje, uma camada que se possa ligar a refugiados de Thera.

3. O mar. Parte da população pode ter se perdido na travessia, nos tsunamis que a erupção soltou. O caso de Çeşme prova que essas ondas existiram, mas não que levaram os moradores de Akrotiri.

A pergunta em aberto tem, portanto, duas partes: se a evacuação deu certo e em que porto os sobreviventes desembarcaram.

 
 

III  O Que Falta Provar

A oliveira que mudou a data

O primeiro ponto que falta provar é a data exata. A cronologia clássica, montada pela cerâmica e pela lista dos faraós do Egito, punha a erupção por volta de 1500 a.C.

Em 2006, o geólogo Walter Friedrich, da Universidade de Aarhus, publicou na revista Science a datação por radiocarbono (a medida do carbono que resta em matéria que já foi viva) de um galho de oliveira enterrado ainda verde pela pedra-pomes em Santorini. O resultado caiu entre 1627 e 1600 a.C.

Em 2018, a equipe de Charlotte Pearson, da Universidade do Arizona, refez a calibração com anéis de árvores contados ano a ano e publicou na Science Advances uma faixa mais larga, que entra no século 16 a.C. A distância entre as datas ainda não fechou.

Um galho de oliveira e uma lista de faraós discordam em até um século.

O intervalo e o íbex

O segundo ponto é o intervalo. Ninguém sabe se entre o tremor e a erupção passaram semanas, meses ou anos, porque a camada de solo acima dos escombros é fina e não guarda plantas que marquem as estações.

O terceiro é o próprio íbex. Os chifres de cabra ao redor do baú levaram Doumas a ler a peça como objeto de culto, guardado num santuário e deixado de propósito. Nenhuma inscrição confirma, porque o Linear A (a escrita minoica) nunca foi decifrado.

O que separaria as hipóteses

Duas descobertas resolveriam o caso:

• Um assentamento em Creta ou nas Cíclades (as ilhas dispostas em círculo em volta de Delos) com casas novas, erguidas logo após a erupção, no estilo de Akrotiri.

• Restos humanos sob a pedra-pomes em outro ponto de Thera, fora da área escavada, que mostrassem quem ficou para trás.

A escavação cobre uma parte pequena da cidade, e o restante segue sob a cinza. Sem as duas provas, o destino dos moradores é desconhecido, e quem afirma uma rota faz por dedução.

O que se sabe com segurança é firme. Akrotiri era um porto rico ligado a Creta, sofreu um terremoto antes da erupção, teve as ruas varridas e os muros escorados e ficou vazia de gente e de ouro antes da pedra-pomes cair. O íbex no baú é a única peça de ouro que a cidade deixou.

O resto continua sem prova. Ninguém sabe se os barcos chegaram a algum porto.

Uma evacuação que funcionou, com famílias desembarcando em Creta e levando o ouro consigo, como sugerem as casas vazias e as ruas limpas, ou uma fuga que terminou no mar, como sugere o rapaz soterrado pelo tsunami em Çeşme. As duas leituras usam as pistas acima, e a escolha depende do peso que você dá a uma cidade sem corpos ou a um corpo sem cidade.

 
 
 
Quiz da edição

Em que ano a escavação achou a estatueta de ouro do íbex em Akrotiri?

A1974, no último relatório de Marinatos
B1999, em obras junto à Casa dos Bancos
C1983, no livro de Christos Doumas
D1967, na primeira vala aberta

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