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O SÍTIO
O Baray Ocidental, reservatório retangular de quase oito quilômetros cavado no século XI em Angkor, com a ilha do Mebon Ocidental no centro.
Foto: Gabriella Clare Marino Gcmarino, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
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O Baray Ocidental, maior reservatório de Angkor, mede quase oito quilômetros por dois e foi aberto no século XI, nos reinados de Suryavarman I e Udayadityavarman II. Os diques de terra o cercam pelos quatro lados, e no centro fica uma ilha com o templo do Mebon Ocidental.
A estátua da ilha
Em 1936, o arqueólogo francês Maurice Glaize desenterrou na ilha a metade de cima de um Vishnu de bronze reclinado, hoje no Museu Nacional do Camboja, em Phnom Penh. Vishnu (o deus hindu que protege a ordem do mundo) aparece ali deitado sobre as águas do começo do universo, como nos mitos de criação.
O reservatório era também templo. Essa dupla função alimenta a briga mais antiga sobre Angkor: os barays serviam para irrigar arroz ou para encenar o oceano do mito. A resposta atual está na seção seguinte.
A cidade hidráulica
Em 1979, o arqueólogo francês Bernard-Philippe Groslier, que dirigiu a conservação de Angkor, publicou no boletim da Escola Francesa do Extremo Oriente o artigo La cité hydraulique angkorienne (A cidade hidráulica angkoriana). A tese dele: os barays alimentavam campos de arroz o ano inteiro, e a riqueza do império vinha da água controlada.
Groslier se apoiava num visitante chinês. Zhou Daguan, enviado da corte mongol da dinastia Yuan, passou quase um ano em Angkor entre 1296 e 1297 e escreveu o Zhenla fengtu ji (Relato dos Costumes do Camboja). O livro diz que ali se colhiam três ou quatro safras de arroz por ano.
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Um império que colhe arroz quatro vezes por ano depende da água certa na hora certa.
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O laser sob a floresta
A rede inteira só apareceu no século XXI. Em 2007, o arqueólogo Damian Evans e colegas do Greater Angkor Project (Projeto Grande Angkor, parceria entre a Universidade de Sydney e a autoridade cambojana Apsara) publicaram na PNAS um mapa feito com radar e fotos aéreas.
No mapa de Evans, de 2007, a cidade aparece espalhada por mil quilômetros quadrados de casas, campos, templos e canais ligados entre si. Os autores não acharam, no mundo pré-industrial, outro assentamento com área igual.
Em 2012, Evans voltou com o lidar (laser disparado de avião que atravessa a copa das árvores e desenha o relevo do chão). O sobrevoo revelou ruas, quadras e diques sob a mata das colinas de Kulen, e os resultados saíram na PNAS em 2013.
Somados, os canais e diques do mapa de 2007 passam de mil quilômetros. Eles levavam água das colinas para os barays e dos barays para o Tonlé Sap, numa descida suave, de poucos metros ao longo de dezenas de quilômetros.
Com a rede desenhada, a discussão mudou de lugar. Ninguém mais duvidava da obra hidráulica; restava saber para que ela servia e como deixou de funcionar.
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