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Um tanque de 8 km não salvou Angkor da seca

Canais e reservatórios moviam a água da cidade khmer; anéis de um cipreste do Vietnã mostram décadas de seca antes de 1431

Baray Ocidental de Angkor visto do alto

O Baray Ocidental, reservatório de 8 km em Angkor

▼

FICHA DO ARQUIVO

Sítio: Angkor, Camboja.

Obra: Baray Ocidental, 8 km.

Anomalia: seca nos anos 1300.

O Baray Ocidental de Angkor tem quase oito quilômetros de comprimento e foi escavado no século XI para guardar a água da monção. Nos anéis de um cipreste do sul do Vietnã, a equipe de Brendan Buckley, do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, leu décadas de chuva fraca nos anos 1300, num artigo da revista PNAS de 2010.

Uma cidade construída em torno da água ficou sem ela. Os dois fatos vêm de medições diferentes, uma feita em terra e pedra, outra em madeira, e apontam para o mesmo século.

Angkor foi a capital do Império Khmer (o reino que dominou boa parte do Sudeste Asiático entre os séculos IX e XV). No auge, ocupava uma planície no norte do atual Camboja, entre o grande lago Tonlé Sap e as colinas de Kulen.

A água chegava do alto. Rios que desciam das colinas eram desviados para canais retos, cavados à mão, que levavam o volume até reservatórios retangulares chamados barays (tanques rasos cercados por diques de terra).

Os templos ficaram famosos primeiro. A rede de água demorou a ser vista, porque corre rente ao chão, coberta de mato e de arrozal, e só aparece inteira do alto.

Em 1431, segundo as crônicas do reino de Ayutthaya (o reino siamês, na atual Tailândia), um exército siamês tomou a cidade. A corte khmer acabou se mudando para o sul, perto da atual Phnom Penh, e Angkor Wat ficou aos cuidados de monges budistas. Os templos de pedra resistiram; as casas de madeira e os diques de terra foram engolidos pela floresta.

Durante muito tempo, o saque bastou como explicação para o abandono. A madeira do Vietnã trouxe uma data anterior para o problema, e a terra de Angkor guarda canais entupidos de areia e diques rompidos.

O caso começa pelo reservatório maior e pela estátua de bronze enterrada na ilha do centro.

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I  O Registro

O reservatório com um templo no meio

O SÍTIO

O Baray Ocidental, reservatório retangular de quase oito quilômetros cavado no século XI em Angkor, com a ilha do Mebon Ocidental no centro.

O Baray Ocidental, reservatório retangular de quase oito quilômetros cavado no século XI em Angkor, com a ilha do Mebon Ocidental no centro.

Foto: Gabriella Clare Marino Gcmarino, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O Baray Ocidental, maior reservatório de Angkor, mede quase oito quilômetros por dois e foi aberto no século XI, nos reinados de Suryavarman I e Udayadityavarman II. Os diques de terra o cercam pelos quatro lados, e no centro fica uma ilha com o templo do Mebon Ocidental.

A estátua da ilha

Em 1936, o arqueólogo francês Maurice Glaize desenterrou na ilha a metade de cima de um Vishnu de bronze reclinado, hoje no Museu Nacional do Camboja, em Phnom Penh. Vishnu (o deus hindu que protege a ordem do mundo) aparece ali deitado sobre as águas do começo do universo, como nos mitos de criação.

O reservatório era também templo. Essa dupla função alimenta a briga mais antiga sobre Angkor: os barays serviam para irrigar arroz ou para encenar o oceano do mito. A resposta atual está na seção seguinte.

A cidade hidráulica

Em 1979, o arqueólogo francês Bernard-Philippe Groslier, que dirigiu a conservação de Angkor, publicou no boletim da Escola Francesa do Extremo Oriente o artigo La cité hydraulique angkorienne (A cidade hidráulica angkoriana). A tese dele: os barays alimentavam campos de arroz o ano inteiro, e a riqueza do império vinha da água controlada.

Groslier se apoiava num visitante chinês. Zhou Daguan, enviado da corte mongol da dinastia Yuan, passou quase um ano em Angkor entre 1296 e 1297 e escreveu o Zhenla fengtu ji (Relato dos Costumes do Camboja). O livro diz que ali se colhiam três ou quatro safras de arroz por ano.

Um império que colhe arroz quatro vezes por ano depende da água certa na hora certa.

O laser sob a floresta

A rede inteira só apareceu no século XXI. Em 2007, o arqueólogo Damian Evans e colegas do Greater Angkor Project (Projeto Grande Angkor, parceria entre a Universidade de Sydney e a autoridade cambojana Apsara) publicaram na PNAS um mapa feito com radar e fotos aéreas.

No mapa de Evans, de 2007, a cidade aparece espalhada por mil quilômetros quadrados de casas, campos, templos e canais ligados entre si. Os autores não acharam, no mundo pré-industrial, outro assentamento com área igual.

Em 2012, Evans voltou com o lidar (laser disparado de avião que atravessa a copa das árvores e desenha o relevo do chão). O sobrevoo revelou ruas, quadras e diques sob a mata das colinas de Kulen, e os resultados saíram na PNAS em 2013.

Somados, os canais e diques do mapa de 2007 passam de mil quilômetros. Eles levavam água das colinas para os barays e dos barays para o Tonlé Sap, numa descida suave, de poucos metros ao longo de dezenas de quilômetros.

Com a rede desenhada, a discussão mudou de lugar. Ninguém mais duvidava da obra hidráulica; restava saber para que ela servia e como deixou de funcionar.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Arroz, ritual e os anéis do cipreste

A tese de Groslier sobre o Baray Ocidental e os outros tanques de Angkor logo encontrou oposição. Em 1980, o engenheiro holandês W. J. van Liere, que trabalhou com irrigação na bacia do Mekong, escreveu na revista World Archaeology que os barays não tinham saídas capazes de regar campos grandes.

Em 1998, o geógrafo Robert Acker calculou, na revista South East Asia Research, que a água guardada nos barays regaria só uma parte pequena dos arrozais da planície. O resto dependia da chuva e da cheia do lago.

Para os dois, o baray era antes um templo: a réplica do oceano que cerca o monte Meru (a montanha sagrada no centro do universo hindu e budista). O rei que mandava cavar um tanque desse tamanho mostrava que governava a ordem do mundo.

O fundo do tanque

A resposta veio da lama. Em 2012, a geóloga Mary Beth Day, da Universidade de Cambridge, publicou na PNAS a análise de amostras retiradas do fundo do Baray Ocidental.

As camadas mostram que o reservatório recebeu água e sedimento sem parar desde o século XI, e que a entrada de água diminuiu a partir do século XIV. O tanque guardava água para uso, além de servir de espelho ao templo.

Roland Fletcher, diretor do Greater Angkor Project, propôs uma síntese: a rede não regava o arroz o ano inteiro, mas segurava a água da monção e distribuía o excesso, protegendo os campos da falta e da enchente.

O baray guardava água e fazia papel de oceano sagrado; as duas funções conviviam no mesmo tanque.

Os anéis do cipreste

Faltava saber o que o céu fez. No estudo da PNAS de 2010, Buckley e colegas mediram os anéis de ciprestes Fokienia hodginsii (uma conífera rara de montanha, chamada pomu pelos vietnamitas) do parque Bidoup Nui Ba, no sul do Vietnã. A série cobre 759 anos.

Anel largo indica ano de muita chuva; anel estreito, ano seco. A série de Buckley mostra uma seca longa entre as décadas de 1340 e 1360 e outra, mais dura, entre 1400 e 1420, com anos de monção violenta entre as duas.

Para uma rede feita para domar a monção, os dois extremos eram ruins. A seca esvaziava os tanques; a chuva forte que vinha depois arrastava areia para dentro dos canais.

Na leitura dos autores de 2010, o clima não destruiu Angkor sozinho. Ele enfraqueceu uma estrutura que já mostrava desgaste, décadas antes da chegada do exército de Ayutthaya.

 
 

III  O Que Falta Provar

Canais cheios de areia

Num artigo da revista Antiquity de 2008, Roland Fletcher e o geógrafo Dan Penny, do Greater Angkor Project, descrevem no sul de Angkor um canal largo cheio de areia até a borda e um dique rompido, com a água desviada para um leito novo. Para eles, a rede falhou em cascata: um trecho travado sobrecarregava o seguinte.

Três peças do caso

1. A seca. Os anéis medidos por Buckley marcam décadas de chuva fraca nos anos 1300 e no começo dos 1400.

2. A areia. A chuva forte depois da seca enchia os canais de sedimento, e cada reparo exigia braços que o reino talvez já não tivesse.

3. A guerra. As crônicas de Ayutthaya registram o ataque de 1431, e o comércio pelo mar já puxava o poder khmer para o sul, perto dos rios navegáveis.

Uma saída lenta

Em 2019, a equipe de Dan Penny publicou na revista PNAS a datação de sedimentos e pólen dos fossos de Angkor Thom (o recinto murado no centro da cidade). Os dados indicam que a elite foi saindo aos poucos ao longo do século XIV.

A cidade não esvaziou em 1431. Lavradores continuaram plantando, e Angkor Wat seguiu como santuário budista até o frade português António da Madalena descrevê-lo, nos anos 1580.

O saque de 1431 encontrou uma capital que já vinha perdendo gente havia décadas.

O que segue sem prova

Falta pôr as datas na mesma escala. Os anéis vêm de árvores a centenas de quilômetros de Angkor, e a série mais longa da região continua sendo a do Vietnã.

As camadas de areia nos canais têm datação larga, de décadas. Sem um marco mais fino, não se sabe se o entupimento começou com a seca dos anos 1340 ou antes, por falta de manutenção.

Também falta o registro escrito. As inscrições khmer em pedra, principal fonte da época, ficam raras depois do século XIII, e nenhuma conhecida descreve seca, fome ou canal rompido.

O que se sabe é firme: a rede existia, o Baray Ocidental guardava água, a chuva falhou por décadas nos anos 1300, e a cidade foi perdendo gente antes de 1431.

Angkor caiu porque o clima travou uma rede de água grande demais para consertar, como leem Buckley e Fletcher; ou caiu porque a corte já seguia para o sul atrás do comércio, e a seca só apressou a mudança, como sugere a saída lenta datada por Penny. As duas leituras usam as camadas acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
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