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O primeiro problema é de identidade. Não há inscrição, selo, etiqueta ou objeto associado que diga quem eram aquelas pessoas.
A análise antropológica realizada sobre as peças recuperadas chegou a algumas conclusões físicas e parou onde a evidência para. A grande maioria é compatível com indivíduos adultos do sexo masculino, e há pelo menos uma peça cujos indicadores apontam possivelmente para o sexo feminino.
Essa única exceção desarruma a explicação mais fácil. Se todas as peças fossem masculinas e adultas, o troféu de campo militar fecharia sem esforço.
O segundo problema é de autoria da prática. O palácio é hicso, e os hicsos vinham do Levante, não do vale do Nilo.
Existe uma hipótese de que a cerimônia da contagem seja importação levantina trazida por essa dinastia e depois adotada pelo Egito, que a documentou em relevo durante o Novo Império. Existe também a hipótese inversa, de que a prática já circulava na região e os hicsos apenas a executaram em solo egípcio.
O material sozinho não decide entre as duas, porque falta comparação: não há outro depósito equivalente escavado em nenhum outro sítio, nem no Egito nem no Levante.
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A ausência de paralelo é o que impede o caso de virar série. Um achado único descreve um evento, não um costume.
Julia Gresky, Scientific Reports, 2023
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O terceiro problema é o do lugar escolhido. Troféu de guerra é objeto de exibição, e exibição pede superfície visível, não cova coberta.
Enterrar o material no piso do pátio retira a peça de circulação e a coloca dentro da arquitetura, num ponto de passagem obrigatória para quem vai ao trono. É um gesto mais próximo de depósito de fundação do que de vitrine.
O quarto problema é a origem das pessoas. Prisioneiro de guerra, inimigo abatido em campo, condenado interno e vítima ritual produzem o mesmo material físico, e nenhuma dessas quatro possibilidades deixa marca distinta na mão.
Sem crânio, sem dentes e sem osso longo, os métodos que costumam responder essa pergunta ficam fora de alcance. Isótopos de esmalte dentário revelam onde a pessoa cresceu, e não há dente no depósito.
O quinto problema é a data do gesto em relação à data das covas. As peças podem ter sido enterradas em um único evento cerimonial ou em ocasiões separadas, e a estratigrafia de piso de pátio, muito revolvida por uso, não separa bem eventos próximos no tempo.
Sobra uma cena que se descreve com precisão e não se explica. Dezesseis mãos direitas, arrumadas com palma para baixo, no caminho de quem entrava para ver o rei.
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