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O caçador do rei abateu a besta duas vezes
Dois animais foram apresentados como o bicho do Gévaudan, e nenhum laudo da época chegou a estabelecer a espécie
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O auto de caça sob luz rasante
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: entre 30 de junho de 1764 e 19 de junho de 1767, um animal não identificado atacou pastores e crianças no planalto do Gévaudan, hoje o departamento de Lozère, no centro-sul da França.
Registro: o levantamento de François de Beaufort, publicado em 1987, contou 210 ataques, 113 vítimas fatais e 49 feridos numa área de cerca de 90 por 80 quilômetros, e o historiador Jean-Marc Moriceau, da Universidade de Caen, chegou a números da mesma ordem em 2008 trabalhando sobre registros de paróquia.
Anomalia: Luís XV mandou caçadores profissionais ao planalto, dois animais foram abatidos e exibidos como sendo a besta, o segundo deles em junho de 1767, e nenhuma descrição da época estabeleceu a espécie do bicho.
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O levantamento de François de Beaufort, publicado em 1987, contou 210 ataques e 113 vítimas fatais no planalto do Gévaudan entre junho de 1764 e junho de 1767. No mesmo intervalo, dois animais foram abatidos, exibidos e declarados oficialmente como sendo a besta, e a espécie do bicho nunca foi estabelecida por nenhum laudo da época.
O território cabe num retângulo pequeno. Cerca de 90 quilômetros por 80, no que hoje é o departamento de Lozère e as bordas do Cantal, do Ardèche e do Haute-Loire, um planalto de granito a mil metros de altitude, coberto de pasto raso e mata baixa.
O padrão dos ataques é o que assusta na leitura fria dos registros. As vítimas eram em maioria pastores, e a maioria desses pastores tinha entre sete e dezoito anos, gente que passava o dia sozinha no alto do pasto tomando conta de vaca e de ovelha.
Luís XV entrou no caso pessoalmente, o que é raro para um problema de bicho de campo. A coroa ofereceu recompensa em dinheiro, mandou uma dupla de caçadores profissionais de lobo da Normandia em fevereiro de 1765 e, quando essa dupla voltou de mãos vazias, enviou o porta-arcabuz do próprio rei com uma tropa de batedores.
O primeiro animal caiu em 21 de setembro de 1765, perto da abadia de Chazes. Era um lobo grande, foi empalhado e mandado para Versalhes, e a corte encerrou o caso por escrito.
Os ataques recomeçaram em dezembro do mesmo ano e seguiram por mais dezoito meses, longe da atenção da corte, que já tinha declarado o assunto resolvido e não voltou a mandar tropa.
O segundo animal caiu em 19 de junho de 1767, numa batida organizada por um nobre local. O corpo apodreceu no calor antes de chegar a Paris, e o que sobrou da descrição são anotações de campo tomadas às pressas, sem exame comparativo com qualquer coleção de referência.
Depois dessa data, os ataques pararam. É esse o único argumento sólido de que o segundo bicho era o bicho certo, e ele é um argumento de coincidência de calendário, não de anatomia.
O registro de hoje começa pelos números, pelas datas e pelo que os livros de paróquia do planalto permitem afirmar sem hipótese.
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I O Registro
I, O que os livros de paróquia permitem contar
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A primeira entrada tem nome e data. Jeanne Boulet, catorze anos, da paróquia de Saint-Étienne-de-Lugdarès, foi registrada como morta por um animal feroz em 30 de junho de 1764, e o pároco anotou a causa no livro sem usar a palavra lobo.
Essa anotação é o tipo de fonte que sustenta o caso inteiro. Os registros paroquiais franceses do século XVIII eram feitos por obrigação civil, entrada por entrada, com nome, idade, paróquia e data, e é sobre esse material que os levantamentos modernos foram construídos.
O trabalho de François de Beaufort, publicado em 1987, cruzou essas entradas com a correspondência administrativa da intendência e chegou aos 210 ataques, com 113 vítimas fatais e 49 pessoas feridas que sobreviveram. Jean-Marc Moriceau, da Universidade de Caen, refez o levantamento a partir dos mesmos livros e publicou em 2008 números da mesma ordem de grandeza.
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Declaramos pelo presente auto que nunca vimos um lobo grande que possa ser comparado a este, e por essa razão acreditamos que seja o animal feroz que causou tanto dano.
François Antoine, auto de caça da abadia de Chazes, 21 de setembro de 1765
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O perfil das vítimas é uniforme demais para ser acaso. Pastores jovens no alto do pasto, quase sempre sozinhos, quase sempre no fim da tarde, com uma proporção alta de meninas e crianças pequenas em relação ao total de adultos atingidos.
O modo do ataque também repete. As descrições de sobreviventes e de testemunhas recolhidas pelos oficiais falam de um bicho que ia à cabeça e ao pescoço, e não às pernas, e boa parte das vítimas fatais foi encontrada parcialmente devorada.
A descrição física do animal, essa sim, varia muito. Testemunhas falaram em pelagem avermelhada com uma faixa escura na linha das costas, cauda longa e grossa, peito largo, cabeça comprida, tamanho de bezerro, e algumas mencionaram um bicho capaz de saltos longos e de ficar apoiado nas patas traseiras.
Nada disso foi tomado em condição de exame. Eram relatos de gente apavorada, colhidos por escrivães que já tinham lido as gazetas, e o Courrier d'Avignon e as folhas de Paris publicavam gravuras do monstro que circulavam de volta pelo planalto antes do depoimento seguinte.
O aparato de caça, ao contrário, está bem documentado. Jean-Charles Marc Antoine Vaumesle d'Enneval e o filho chegaram da Normandia em fevereiro de 1765 com matilha própria, e depois deles François Antoine, porta-arcabuz do rei, montou batidas com centenas de camponeses convocados como batedores.
O número de lobos abatidos nessas operações é a parte esquecida do caso. Foram dezenas de animais mortos no planalto ao longo dos três anos, e os ataques a pessoas continuaram durante e depois de cada uma dessas campanhas.
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