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FICHA DO ARQUIVO
Relato: desde 1928, a lavra de estanho no platô de Jos, no centro da Nigéria, vem trazendo à superfície cabeças e corpos de terracota junto com o cascalho lavado dos depósitos aluviais.
Registro: as peças são de barro cozido com desengordurante grosso, têm olhos em triângulo ou em segmento de círculo com pupila furada, penteados elaborados, e as datações por termoluminescência e por radiocarbono cobrem cerca de mil e quinhentos anos de produção.
Anomalia: a imensa maioria das peças chegou aos museus e ao mercado sem camada, sem posição registrada e sem material associado, e a cultura que as modelou some do registro por volta de 500 da era cristã.
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Um objeto arqueológico vale duas vezes: pelo que ele é e pelo lugar exato de onde saiu. A camada de terra que o cobria, o que estava deitado ao lado dele, o pedaço de carvão a poucos centímetros que permite datar o conjunto inteiro. Retire essa moldura e sobra uma forma bonita sem endereço no tempo.
No centro da Nigéria existe um planalto de terra vermelha e granito decomposto, o platô de Jos, que passou o século 20 sendo revirado por causa de um metal. O estanho ali não vem de galeria profunda, vem de depósito aluvial: o mineral se soltou da rocha, foi carregado pela água e se acumulou em cascalho a poucos metros da superfície.
Para chegar nele, a lavra faz o mais simples e o mais destrutivo. Jatos de água derrubam a terra, o material solto é lavado em canaletas, o estanho pesado fica no fundo e o resto vai embora com a lama. É um método que desmancha em uma tarde qualquer sequência de camadas que a terra levou dois mil anos para empilhar.
Foi de dentro desse cascalho lavado que começaram a sair figuras de barro cozido. Uma delas apareceu em 1928, numa lavra perto de um povoado chamado Nok, e ganhou o nome do lugar por falta de qualquer outra referência. Nos anos seguintes vieram centenas, depois milhares, quase sempre já fora do chão, já misturadas ao rejeito, já sem quem soubesse dizer a que profundidade estavam.
O resultado é uma inversão desconfortável. Existe hoje um acervo enorme de arte antiga africana em terracota, com traços faciais reconhecíveis a metros de distância, e existe quase nenhuma informação de contexto sobre a gente que a produziu. Quem eram, como viviam, o que faziam com aquelas peças e por que a cultura inteira desaparece do registro por volta de 500 da era cristã.
O que sobrou para interrogar são as peças em si: o barro, a técnica de queima, a proporção, a fratura. E, mais recentemente, um punhado de sítios que escaparam da lavra e da picareta de saqueador tempo suficiente para serem escavados direito.
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A primeira peça catalogada é uma cabeça de macaco em barro cozido, tirada de uma lavra de estanho em 1928. A segunda veio em 1943, também do cascalho, e foi parar nas mãos de um funcionário colonial de administração de minas que tinha formação em arqueologia. Ele passou as duas décadas seguintes comprando, rastreando e registrando tudo o que os mineradores encontravam.
Esse trabalho montou o acervo que define a chamada cultura Nok e fixou o nome na literatura. Também deixou claro o tamanho do problema: as peças chegavam de dezenas de lavras espalhadas por uma área de centenas de quilômetros, quase sempre em fragmentos, quase sempre sem indicação de profundidade ou de material associado.
As figuras são de argila com desengordurante grosso, feita de grãos de quartzo e de cerâmica moída, o que permite paredes espessas sem trincar na secagem. Elas foram modeladas à mão, com paredes ocas em boa parte dos casos, e queimadas em fogueira aberta ou em fossa, a temperatura relativamente baixa.
O rosto é o que dá identificação imediata. Os olhos aparecem em triângulo, em segmento de círculo ou em forma de D, com a pupila perfurada de lado a lado. As narinas e os cantos da boca também são furados, o que provavelmente serviu para deixar o ar sair durante a queima e evitar que a peça estourasse.
O penteado é o campo de maior invenção. Há tranças, coques, cristas, feixes atados, cabelos divididos em bolas simétricas, tudo modelado com um cuidado que sugere código social legível: idade, posição, função. Muitas figuras usam contas ao pescoço, braceletes, tornozeleiras e cintos, e algumas seguram objetos que parecem instrumentos ou armas.
A cronologia veio depois, por dois caminhos independentes. A termoluminescência mede a última vez que o barro foi aquecido acima de certa temperatura e dá idade para a própria peça. O radiocarbono mede carvão associado e dá idade para o sedimento em volta.
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As terracotas Nok chegaram até nós, em sua quase totalidade, por meio da mineração de estanho, e é essa origem que explica a pobreza de informação estratigráfica que acompanha o material.
Bernard Fagg, Nok Terracottas, Ethnographica e The National Museum Lagos, 1977
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Os resultados combinados colocam a produção entre algo em torno do século 10 antes da era cristã e o século 5 da era cristã, com um pico de intensidade nos últimos séculos antes da era cristã. É uma janela larga, de mais de mil anos, e não uma moda de duas gerações.
Há um segundo achado que muda o peso do caso. Escavações em sítios da mesma região encontraram fornos de redução de ferro e escória associados a material Nok, o que coloca a metalurgia do ferro na África ocidental subsaariana em data bem recuada e ao lado de uma tradição de escultura em barro já madura.
Do lado da vida cotidiana, os sítios escavados devolveram fragmentos de vasilhas domésticas, machados de pedra polida, restos de sementes carbonizadas e vestígios de habitação. A base era agrícola, com plantio de cereais nativos, e as figuras não saíram de uma sociedade de caçadores itinerantes.
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