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ED 093

As 53 jovens da vala do Monte 72

Uma cidade de terra às margens do Mississippi guardou mais de 270 sepultamentos num único monte, e depois foi abandonada sem explicação.

Uma tenda de campo à noite com o mapa de uma cidade de montes de terra na várzea do Mississippi sobre a mesa, um monte baixo circulado a vermelho, uma grade de escavação desenhada à mão, uma bandeja rasa com contas de concha marinha em fileiras sobre feltro cinza, caixas de arquivo cinza etiquetadas à mão, um paquímetro, um pincel macio e etiquetas numeradas, tudo sob luz âmbar focal

A vala ordenada sob o Monte 72

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: a leste do encontro do Missouri com o Mississippi, no atual estado de Illinois, existiu uma cidade de terra com mais de cem montes artificiais e uma população estimada em mais de dez mil habitantes.

Registro: um monte baixo e alongado, catalogado como Monte 72, devolveu mais de 270 sepultamentos, entre eles uma vala com 53 mulheres jovens depositadas juntas e em fileiras ordenadas.

Anomalia: não há escrita, não há nome, não há inscrição e não há cena de guerra que explique nem os sepultamentos coletivos nem o esvaziamento completo da cidade por volta de 1350.

Cidade grande na América do Norte antes da chegada dos europeus é ideia que demorou a entrar nos livros. Durante quase todo o século 19, o que se ensinava era o oposto: povos pequenos, móveis, sem arquitetura monumental e sem organização política de larga escala.

A várzea do Mississippi desmente essa versão de forma bruta. A cerca de treze quilômetros do ponto onde o Missouri deságua no Mississippi, no que hoje é o sul de Illinois, existe um conjunto de montes de terra construídos à mão, um deles com trinta metros de altura e uma base maior que a da Grande Pirâmide de Gizé.

O tamanho do lugar é o primeiro choque. As estimativas mais aceitas colocam a população do auge entre dez e vinte mil pessoas, o que fazia daquele ponto o maior assentamento ao norte do México e um dos maiores do continente inteiro.

O segundo choque é o calendário. A cidade cresceu rápido demais para o padrão da região, ficou de pé por volta de trezentos anos e depois esvaziou por completo, sem que ninguém tenha encontrado a camada de destruição que costuma acompanhar uma cidade que cai.

O terceiro choque está debaixo de um monte pequeno, fora do eixo central, que ninguém esperava que fosse importante. Ele é baixo, alongado e discreto, e foi catalogado com um número em vez de um nome.

Esse monte devolveu mais de duzentos e setenta sepultamentos, arranjados em grupos que não se parecem entre si. Um deles é um sepultamento coberto por dezenas de milhares de contas de concha marinha trazidas do golfo, a mais de mil quilômetros de distância.

Outros são valas coletivas com dezenas de pessoas depositadas juntas, em fileiras, sem sinal de pressa e sem sinal de desordem. A maior dessas valas guarda 53 mulheres jovens.

O que falta em Cahokia é justamente a camada que resolveria tudo. Não há escrita, não há inscrição, não há lista de nomes e não há nenhum registro contemporâneo feito por quem viveu ali.

O ponto de partida é a escavação do Monte 72 e o inventário exato do que saiu dele.

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I  O Registro

A vala e as contas de concha

O sítio se chama Cahokia Mounds, fica no condado de St. Clair, em Illinois, e é Patrimônio Mundial desde 1982. O nome não é o original: Cahokia era um grupo indígena que ocupava a região quando os franceses chegaram, séculos depois do abandono, e o rótulo colou por conveniência de mapa.

O núcleo do sítio tem cerca de cento e vinte montes catalogados, distribuídos em torno de uma grande praça central. O maior deles, chamado Monks Mound, tem cerca de trinta metros de altura, quatro terraços e uma base de aproximadamente cinco hectares.

O Monte 72 não chama atenção nenhuma no mapa. É um monte baixo, com pouco mais de dois metros de altura, situado a cerca de oitocentos metros ao sul do monte principal, e foi escavado entre 1967 e 1971 pela equipe do arqueólogo Melvin Fowler, da Universidade de Wisconsin.

Fowler abriu o monte por um motivo lateral: ele suspeitava que aquele ponto marcasse um alinhamento astronômico com o eixo central da cidade. O que encontrou dentro foi outra coisa.

O Monte 72 não é um túmulo. É uma sequência de eventos separados no tempo, empilhados no mesmo lugar, e cada camada foi construída sobre a anterior de propósito.

O inventário total passa de duzentos e setenta indivíduos, distribuídos em pelo menos vinte e cinco depósitos distintos. Os grupos não se parecem entre si nem no tratamento, nem na composição, nem no acompanhamento de objetos.

Um dos depósitos ficou conhecido como sepultamento de contas. Nele, dois corpos foram colocados sobre uma plataforma coberta por cerca de vinte mil contas de concha marinha, recortada em formato que muitos leem como um falcão de asas abertas.

A concha vem do golfo do México, a mais de mil quilômetros dali. Cada conta foi furada e polida à mão, e o conjunto representa um investimento de trabalho que só se explica por decisão coletiva e planejada.

E há as valas. Um dos depósitos reúne 53 mulheres jovens, a maioria em faixa etária entre quinze e vinte e cinco anos, dispostas em fileiras ordenadas e em duas camadas sobrepostas.

Outro grupo, encontrado em posição diferente do monte, reúne dezenas de indivíduos cujo estado indica desfecho violento, alguns depositados em desordem, o oposto exato do arranjo das fileiras.

A escala e a organização do Monte 72 exigem uma autoridade capaz de mobilizar trabalho, gente e material a distâncias enormes.

Melvin L. Fowler, The Mound 72 Area: Dedicated and Sacred Space in Early Cahokia, 1999

A datação por radiocarbono coloca a maior parte desses eventos entre 1000 e 1100 da nossa era, ou seja, no período de formação e ascensão da cidade, e não no fim dela.

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II  A Pergunta em Aberto

Quem eram as cinquenta e três

O primeiro problema é de leitura. Durante décadas, o Monte 72 foi contado como a história de um chefe: um grande homem sepultado sobre o falcão de contas e cercado por acompanhantes oferecidos no funeral dele.

Uma reanálise dos restos ósseos publicada em 2016 desmontou essa leitura pelo detalhe mais simples possível. O par central não é composto por dois homens, e sim por um homem e uma mulher, deitados lado a lado.

A diferença parece pequena e muda tudo. Se o centro do arranjo é um par, a estrutura simbólica deixa de ser a de um monarca solitário e passa a ser a de uma dualidade, o que aproxima Cahokia de sistemas de poder documentados etnograficamente em outras sociedades do continente.

O segundo problema é a identidade das 53. A análise de isótopos aplicada a parte do conjunto sugere que várias delas não cresceram na várzea de Cahokia, e sim em regiões distintas, o que abre pelo menos três interpretações incompatíveis.

Elas podem ter sido mulheres trazidas de comunidades tributárias como parte de uma obrigação política. Podem ter sido integrantes de um grupo religioso residente na cidade, recrutado de fora. Podem ainda ter chegado como cativas de conflitos regionais.

A composição etária e sexual desses depósitos é rígida demais para ser acaso. Alguém selecionou quem entrava em cada grupo.

Thomas E. Emerson, American Antiquity, 2016

O terceiro problema é a causa do desfecho. Nas fileiras ordenadas não há trauma perimortem evidente, e a hipótese que circula com mais força fala em veneno ou em outro método que não deixa marca no osso.

O quarto problema é o intervalo. As camadas do monte indicam eventos separados por anos ou décadas, não uma cerimônia única, e a estratigrafia de um monte construído em etapas não separa bem episódios próximos.

O quinto problema é o fim da cidade. Por volta de 1350, Cahokia estava vazia, e não há camada de incêndio generalizado, nem cemitério de epidemia, nem sinal de exército invasor.

Uma paliçada de troncos com bastiões defensivos foi levantada em torno do centro por volta de 1175 e reconstruída pelo menos três vezes, o que indica ameaça real e persistente. A ameaça, porém, nunca deixou o rastro de um ataque decisivo.

Sobra um lugar que se descreve com precisão e não se explica. Uma cidade que soube mover concha do golfo, cobre dos grandes lagos e mais de dez mil pessoas, e que saiu de cena sem deixar a razão.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que o solo de Cahokia ainda pode dizer

O que está firme cabe em poucas linhas. O sítio existe, é monumental, foi ocupado por milhares de pessoas, e o Monte 72 guarda sepultamentos coletivos organizados por critério de idade e sexo.

O que segue aberto é quem eram aquelas pessoas, de onde vieram, por decisão de quem foram depositadas ali, e por que a cidade inteira encerrou.

A primeira medida é ampliar a análise de isótopos de estrôncio e oxigênio para o conjunto completo do Monte 72. Cada dente devolve a assinatura química da água que a pessoa bebeu na infância, e um mapa dessas origens diria de uma vez se as 53 vieram do mesmo lugar ou de dez lugares diferentes.

A segunda é o DNA antigo. Um painel genético do monte inteiro responderia se os grupos têm parentesco entre si e se o par central é aparentado dos demais depósitos, o que separa linhagem hereditária de recrutamento externo.

A terceira é a análise química de resíduo nos ossos e nos dentes das fileiras ordenadas. Certos compostos vegetais deixam traço detectável em tecido mineralizado, e um resultado positivo transformaria a hipótese mais citada em evidência.

A quarta é a datação de alta precisão, camada por camada, com modelagem bayesiana. A técnica reduz a margem de cada evento e diria se os depósitos do monte estão separados por décadas ou concentrados em poucos anos.

Cahokia é a maior cidade pré-colombiana ao norte do México e continua sendo a menos compreendida, porque quem a construiu não deixou uma linha escrita.

Timothy R. Pauketat, Cahokia: Ancient America's Great City on the Mississippi, 2009

A quinta é a leitura ambiental do próprio sedimento. Um trabalho publicado em 2020 usou estanóis fecais preservados no fundo de um lago vizinho para reconstruir a curva populacional da cidade, e a mesma abordagem, aplicada a mais pontos da várzea, mediria a velocidade real do esvaziamento.

A sexta é a busca por enchente e por seca no registro do rio. Sequências de cheia extrema e de estiagem prolongada aparecem em depósito aluvial e em anel de árvore, e cruzar essas duas curvas com a curva populacional testa a explicação climática sem depender de suposição.

A assimetria do caso é toda de um lado. Sobre a cidade, sabemos o volume de terra movida, a origem da concha, a altura dos montes e o alinhamento das praças.

Sobre as 53 mulheres jovens da vala, o registro inteiro é a ordem em que foram deitadas.

 
 
 
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A reanálise dos ossos publicada em 2016 mostrou que o par central do Monte 72, antes lido como um chefe e seus acompanhantes, era na verdade:

ADois homens adultos
BUm homem e uma mulher
CDuas mulheres jovens
DUm homem e uma criança

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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