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FICHA DO ARQUIVO
Relato: a leste do encontro do Missouri com o Mississippi, no atual estado de Illinois, existiu uma cidade de terra com mais de cem montes artificiais e uma população estimada em mais de dez mil habitantes.
Registro: um monte baixo e alongado, catalogado como Monte 72, devolveu mais de 270 sepultamentos, entre eles uma vala com 53 mulheres jovens depositadas juntas e em fileiras ordenadas.
Anomalia: não há escrita, não há nome, não há inscrição e não há cena de guerra que explique nem os sepultamentos coletivos nem o esvaziamento completo da cidade por volta de 1350.
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Cidade grande na América do Norte antes da chegada dos europeus é ideia que demorou a entrar nos livros. Durante quase todo o século 19, o que se ensinava era o oposto: povos pequenos, móveis, sem arquitetura monumental e sem organização política de larga escala.
A várzea do Mississippi desmente essa versão de forma bruta. A cerca de treze quilômetros do ponto onde o Missouri deságua no Mississippi, no que hoje é o sul de Illinois, existe um conjunto de montes de terra construídos à mão, um deles com trinta metros de altura e uma base maior que a da Grande Pirâmide de Gizé.
O tamanho do lugar é o primeiro choque. As estimativas mais aceitas colocam a população do auge entre dez e vinte mil pessoas, o que fazia daquele ponto o maior assentamento ao norte do México e um dos maiores do continente inteiro.
O segundo choque é o calendário. A cidade cresceu rápido demais para o padrão da região, ficou de pé por volta de trezentos anos e depois esvaziou por completo, sem que ninguém tenha encontrado a camada de destruição que costuma acompanhar uma cidade que cai.
O terceiro choque está debaixo de um monte pequeno, fora do eixo central, que ninguém esperava que fosse importante. Ele é baixo, alongado e discreto, e foi catalogado com um número em vez de um nome.
Esse monte devolveu mais de duzentos e setenta sepultamentos, arranjados em grupos que não se parecem entre si. Um deles é um sepultamento coberto por dezenas de milhares de contas de concha marinha trazidas do golfo, a mais de mil quilômetros de distância.
Outros são valas coletivas com dezenas de pessoas depositadas juntas, em fileiras, sem sinal de pressa e sem sinal de desordem. A maior dessas valas guarda 53 mulheres jovens.
O que falta em Cahokia é justamente a camada que resolveria tudo. Não há escrita, não há inscrição, não há lista de nomes e não há nenhum registro contemporâneo feito por quem viveu ali.
O ponto de partida é a escavação do Monte 72 e o inventário exato do que saiu dele.
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O sítio se chama Cahokia Mounds, fica no condado de St. Clair, em Illinois, e é Patrimônio Mundial desde 1982. O nome não é o original: Cahokia era um grupo indígena que ocupava a região quando os franceses chegaram, séculos depois do abandono, e o rótulo colou por conveniência de mapa.
O núcleo do sítio tem cerca de cento e vinte montes catalogados, distribuídos em torno de uma grande praça central. O maior deles, chamado Monks Mound, tem cerca de trinta metros de altura, quatro terraços e uma base de aproximadamente cinco hectares.
O Monte 72 não chama atenção nenhuma no mapa. É um monte baixo, com pouco mais de dois metros de altura, situado a cerca de oitocentos metros ao sul do monte principal, e foi escavado entre 1967 e 1971 pela equipe do arqueólogo Melvin Fowler, da Universidade de Wisconsin.
Fowler abriu o monte por um motivo lateral: ele suspeitava que aquele ponto marcasse um alinhamento astronômico com o eixo central da cidade. O que encontrou dentro foi outra coisa.
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O Monte 72 não é um túmulo. É uma sequência de eventos separados no tempo, empilhados no mesmo lugar, e cada camada foi construída sobre a anterior de propósito.
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O inventário total passa de duzentos e setenta indivíduos, distribuídos em pelo menos vinte e cinco depósitos distintos. Os grupos não se parecem entre si nem no tratamento, nem na composição, nem no acompanhamento de objetos.
Um dos depósitos ficou conhecido como sepultamento de contas. Nele, dois corpos foram colocados sobre uma plataforma coberta por cerca de vinte mil contas de concha marinha, recortada em formato que muitos leem como um falcão de asas abertas.
A concha vem do golfo do México, a mais de mil quilômetros dali. Cada conta foi furada e polida à mão, e o conjunto representa um investimento de trabalho que só se explica por decisão coletiva e planejada.
E há as valas. Um dos depósitos reúne 53 mulheres jovens, a maioria em faixa etária entre quinze e vinte e cinco anos, dispostas em fileiras ordenadas e em duas camadas sobrepostas.
Outro grupo, encontrado em posição diferente do monte, reúne dezenas de indivíduos cujo estado indica desfecho violento, alguns depositados em desordem, o oposto exato do arranjo das fileiras.
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A escala e a organização do Monte 72 exigem uma autoridade capaz de mobilizar trabalho, gente e material a distâncias enormes.
Melvin L. Fowler, The Mound 72 Area: Dedicated and Sacred Space in Early Cahokia, 1999
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A datação por radiocarbono coloca a maior parte desses eventos entre 1000 e 1100 da nossa era, ou seja, no período de formação e ascensão da cidade, e não no fim dela.
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