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As 7 túnicas furadas do califa al-Hakim

No Cairo de 1021, o califa al-Hakim subiu as colinas de Muqattam à noite; acharam o burro e a roupa, nunca o corpo

Colinas áridas de pedra ao luar, com um açude raso

As colinas de Muqattam, a leste do Cairo

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: o sumiço do califa al-Hakim.

Local: Muqattam, Cairo.

Anomalia: nenhum corpo.

O cronista egípcio al-Maqrizi, no século 15, registrou no livro Itti'az al-hunafa (a lição dos fiéis sinceros) que as sete túnicas do califa al-Hakim apareceram num açude ao pé das colinas de Muqattam, ainda abotoadas e com cortes de faca. As Epístolas da Sabedoria, os textos sagrados dos drusos reunidos no século 11, ensinam que o mesmo homem não sofreu ataque nenhum e apenas se retirou da vista dos homens.

As duas versões tratam da mesma noite de fevereiro de 1021, no Cairo.

O sumido se chamava Abu Ali al-Mansur e governava com o título al-Hakim bi-Amr Allah (o que governa por ordem de Deus, em árabe). Era o sexto califa fatímida, da dinastia xiita ismaelita (o ramo do islã que reconhece uma linha própria de imãs) que tomou o Egito em 969 e fundou o Cairo.

Subira ao trono com 11 anos, em 996. Em 1021 tinha 35 e um hábito conhecido de toda a cidade: sair à noite montado num burro, sem escolta grande, rumo às colinas de pedra a leste dos muros.

Muqattam é uma serra baixa de calcário que fecha o Cairo a leste. Os cronistas ligam as subidas noturnas ao gosto do califa pela astronomia: longe dos lampiões da cidade, o céu aparecia inteiro sobre a pedra.

Naquela noite saiu como de costume, com dois acompanhantes. No caminho, mandou os dois de volta e seguiu sozinho para o alto.

Não voltou de manhã. Os criados do palácio esperaram, depois procuraram, e por alguns dias a corte guardou a ausência em silêncio.

A busca achou primeiro o animal, ferido nas patas, numa encosta. Depois achou as roupas, dentro da água, sem ninguém dentro delas.

Nenhum corpo apareceu naquela semana, naquele ano ou nos mil anos seguintes. Nenhuma crônica diz onde al-Hakim foi enterrado, porque nenhuma sabe.

O registro começa pelo que o califa fez nos 25 anos de trono e pelo que a busca encontrou, dia a dia.

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I  O Registro

A noite de 13 de fevereiro

O SÍTIO

A mesquita de al-Hakim, terminada em 1013 junto à muralha norte do Cairo fatímida e restaurada em 1980.

A mesquita de al-Hakim, terminada em 1013 junto à muralha norte do Cairo fatímida e restaurada em 1980.

Foto: Mohamed abdelzaher, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Al-Hakim bi-Amr Allah nasceu no Cairo em 985, filho do califa al-Aziz. Herdou o trono criança, sob a tutela do eunuco Barjawan, e em 1000, aos 15 anos, mandou executar o tutor e passou a governar sozinho.

Um reinado de decretos

Os decretos dele ficaram famosos pela estranheza. Proibiu a mulukhiyya (o ensopado de folhas verdes mais comum do Egito), mandou os comércios abrirem à noite e, por anos, proibiu as mulheres de sair de casa, segundo as crônicas reunidas por al-Maqrizi.

Em 1005 abriu no Cairo a Dar al-Ilm (Casa do Saber, em árabe), biblioteca e escola pública com livros de lei, medicina e astronomia. Em 1013 terminou a grande mesquita que o pai começara junto à muralha norte, ainda de pé e conhecida hoje pelo nome dele.

Em 1009 ordenou a demolição da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que estava sob o domínio fatímido. O cronista cristão Yahya de Antioquia, que viveu na mesma época, descreveu a destruição e as perseguições a cristãos e judeus que vieram com ela.

O homem do burro

Nos últimos anos, al-Hakim trocou o luxo da corte pela lã simples, deixou o cabelo crescer e passou a andar pela cidade montado num burro, falando com quem o parasse na rua.

Gastava as noites em conversa com astrônomos e mandou erguer um posto de observação no alto de Muqattam, segundo as crônicas, embora nenhum vestígio dele tenha sido identificado.

Em 1017, um pregador persa chamado Hamza ibn Ali começou a ensinar no Cairo que o califa era a manifestação de Deus na Terra. Desse ensino nasceu a fé drusa, e a pregação provocou tumultos na cidade.

O califa saiu à noite para as colinas centenas de vezes, e só uma vez ninguém o viu descer.

Cinco dias de busca

A data guardada pelas crônicas é a noite de 13 de fevereiro de 1021, o dia 27 do mês de shawwal (o décimo mês do calendário islâmico) do ano 411 da Hégira.

Segundo al-Maqrizi, a corte esperou alguns dias pela volta. Depois, uma comitiva subiu às colinas e achou o burro cinzento do califa, chamado Qamar (lua, em árabe), com as patas da frente cortadas a golpe de espada.

Seguindo pegadas a partir do animal, a comitiva chegou a um açude a leste de Hulwan, ao sul do Cairo. Na água estavam as sete túnicas de al-Hakim, abotoadas, com os rasgos de faca descritos na crônica.

As pegadas, ainda segundo o mesmo relato, eram de um homem a pé e de dois outros que o seguiam. O rastro parava no açude, e ali a busca também parou.

 

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II  A Pergunta em Aberto

A irmã, o berbere e o confessor

O sumiço de al-Hakim tem quatro explicações em circulação há séculos, e nenhuma delas fecha com prova. A mais repetida aponta para dentro do palácio, para a meia-irmã do califa, Sitt al-Mulk.

A irmã e o chefe berbere

Sitt al-Mulk era filha de al-Aziz com uma mãe cristã, tinha 50 anos em 1021 e uma corte própria. Cronistas posteriores, como Ibn al-Athir no século 13, contam que ela brigou com o irmão e temia ser a próxima vítima dos expurgos dele.

Nessa versão, ela se aliou a Ibn Dawwas, chefe dos kutama (a tribo berbere do norte da África que levara os fatímidas ao poder), e os dois mandaram homens esperar o califa nas colinas.

O que se sabe com segurança é o que veio depois. Sitt al-Mulk pôs no trono o filho de al-Hakim, al-Zahir, de 16 anos, e governou o Egito como regente até a própria morte, em 1023.

Semanas depois da sucessão, Ibn Dawwas foi executado no palácio, acusado justamente da morte do califa. Quem defende a tese da irmã lê a execução como queima de arquivo; quem duvida lê como castigo de um culpado de fato.

A única pessoa acusada em público pelo crime foi executada antes de qualquer julgamento conhecido.

A confissão tardia

Uma segunda pista apareceu anos depois. Al-Maqrizi reproduz o relato de um homem preso no Alto Egito, por volta de 1025, que disse ter sido um dos quatro autores do ataque e mostrou um pedaço de pele da cabeça e um retalho de pano como prova.

Al-Maqrizi não diz se o preso foi interrogado por juiz ou se a confissão saiu sob pressão, e não dá o nome dele. A crônica guarda a cena, não o processo.

O homem nunca levou ninguém ao corpo, e o relato não informa o que foi feito dele. Sem corpo, a confissão vale como mais uma história.

A retirada voluntária

A terceira explicação vem do próprio comportamento do califa. Al-Hakim vinha jejuando, vestindo lã e se afastando da corte, e alguns autores sustentam que ele simplesmente partiu, talvez rumo ao Alto Egito, para viver como asceta (quem renuncia aos bens para rezar).

A quarta é a dos drusos. Para eles, al-Hakim entrou em ghayba (ocultação, em árabe) e voltará no fim dos tempos. A pregação drusa foi encerrada em 1043, e desde então a fé não aceita convertidos.

O historiador Paul E. Walker, no livro Caliph of Cairo (2009), tratou a tese da irmã com cautela: as crônicas que a contam foram escritas séculos depois, longe do palácio.

 
 

III  O Que Falta Provar

Um corpo sem cova

O primeiro limite do caso é o arquivo. O registro oficial da corte fatímida não chegou inteiro até hoje: as bibliotecas do palácio foram saqueadas em crises a partir de 1068 e dispersas depois que Saladino encerrou a dinastia, em 1171.

Cronistas longe da colina

Yahya de Antioquia escreveu no mesmo século, mas fora do Egito, e registra o sumiço sem resolver o autor. Ibn al-Athir escreveu dois séculos depois, em Mossul, no atual Iraque. Al-Maqrizi, o mais detalhado, escreveu quatro séculos depois, no Cairo.

Quanto mais tarde a crônica, mais detalhes ela traz: o nome do burro, o número de túnicas, as pegadas. Os historiadores ainda não sabem se os detalhes vieram de documentos perdidos ou foram acrescentados ao longo das cópias.

O relato mais rico sobre a noite de 1021 é também o mais distante dela.

Os falsos califas

Nas décadas seguintes, mais de um homem apareceu nas províncias dizendo ser al-Hakim de volta. As crônicas registram esses pretendentes como impostores, e nenhum convenceu a corte do Cairo.

Para os drusos, esses pretendentes nunca contaram: o retorno esperado é o do fim dos tempos, não o de um viajante qualquer chegando à cidade com o nome do califa.

Nenhuma tumba de al-Hakim foi identificada no Cairo ou fora dele. A mesquita que leva o nome dele, restaurada em 1980 por uma corrente ismaelita da Índia, guarda o nome e nada do corpo.

O sítio das colinas de Muqattam também mudou: pedreiras, cemitérios e bairros novos cobriram boa parte das encostas por onde a comitiva andou em 1021. O açude de Hulwan descrito por al-Maqrizi não tem localização exata conhecida.

O que uma prova exigiria

1. Achar um documento da corte fatímida de 1021, como uma carta da chancelaria, que nomeie o autor ou o destino do califa.

2. Localizar o açude descrito por al-Maqrizi e escavar as margens em busca de ossos da época.

3. Comparar com DNA qualquer osso achado e os restos de membros conhecidos da família fatímida, se algum sepulcro deles for encontrado.

Sobram duas leituras para a noite de fevereiro. Aceitar as túnicas furadas como prova de um ataque mandado de dentro do palácio, ou aceitar o burro ferido e as roupas deixadas como a encenação de um homem que quis sumir. As duas crônicas estão acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Na busca pelas colinas de Muqattam, o que a comitiva de al-Hakim encontrou primeiro?

AAs sete túnicas abotoadas dentro do açude
BO burro do califa, ferido nas patas
CPegadas de três homens que terminavam no açude
DUm pedaço de pele e um retalho de pano

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