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Os 12 pilares de pedra da Casa de Taga

Em Tinian, só um pilar de cinco metros ficou de pé, e em Rota a pedreira de As Nieves guarda outros ainda presos à rocha

Pilar de calcário com capitel de pedra numa ilha do Pacífico

O último pilar de pé da Casa de Taga, em Tinian

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: a Casa de Taga.

Local: Tinian e Rota, Marianas.

Anomalia: pilares presos à rocha.

A Casa de Taga, em Tinian, nas Ilhas Marianas, teve doze pilares de calcário de cerca de cinco metros, e os oficiais da expedição britânica de George Anson os desenharam todos de pé em 1742. Hoje um só continua erguido. Na ilha vizinha de Rota, a pedreira de As Nieves guarda colunas ainda maiores, presas à rocha, que nunca saíram do lugar.

Uma casa ficou pronta e desabou. A outra nem chegou a ser levantada.

Os pilares se chamam latte (as colunas de pedra das casas dos chamorro, o povo nativo das Marianas). Cada latte tem duas peças: o haligi, a coluna, e o tasa, o capitel em meia-esfera assentado por cima, com a face plana para o alto.

Sobre os capitéis corria o piso de madeira da casa, e por cima dele vinha o telhado de palha. A meia-esfera servia de barreira contra ratos, que não conseguiam subir pela curva.

A maioria dos latte das Marianas não passa da altura de um homem. Os de Taga somavam quase três vezes a altura de um homem, em duas fileiras de seis, e nenhuma outra casa conhecida nas ilhas chegou perto.

A esquadra de Anson chegou a Tinian com a tripulação arrasada pelo escorbuto e achou a ilha sem moradores. Os pilares estavam ali, cercados de mato, de coqueiros e de gado solto, sem ninguém que soubesse contar quem os ergueu.

O relato da viagem, escrito pelo capelão Richard Walter e publicado em Londres em 1748, trouxe a gravura das duas fileiras de colunas. A imagem correu a Europa e fez de Taga o monumento mais famoso da Micronésia.

Os chamorro tinham uma explicação própria. Contavam que Taga foi um maga'lahi (chefe de linhagem) de força descomunal, capaz de carregar sozinho pedras que vinte homens não moviam.

O registro começa pela pedreira de Rota, onde se vê como uma peça dessas nascia e onde o trabalho parou no meio.

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I  O Registro

A pedreira de As Nieves

A resposta de ontem

Por que Woolley chamou as estatuetas de Carneiro na Moita?

Woolley buscou o batismo no Gênesis, capítulo 22: Abraão ia sacrificar o filho Isaque quando viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto e o ofereceu no lugar. Woolley ligava Ur à Ur dos Caldeus, terra natal de Abraão na Bíblia, e quis ecoar a cena, embora o animal das estatuetas seja um bode.

O SÍTIO

O único pilar de pé da Casa de Taga, em Tinian, com o capitel em meia-esfera no alto e os outros caídos em volta.

O único pilar de pé da Casa de Taga, em Tinian, com o capitel em meia-esfera no alto e os outros caídos em volta.

Foto: CT Snow from Hsinchu, Taiwan, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

As Nieves fica no interior de Rota, a ilha ao sul de Tinian, num platô de calcário coberto de mata. Os canteiros chamorro cortavam ali as peças direto na rocha-mãe, sem soltar blocos antes.

O método aparece na própria pedreira. Primeiro cavavam uma vala estreita em volta do contorno da coluna, depois aprofundavam o corte até a peça ficar deitada no leito, presa à rocha só pela base.

O que ficou na rocha

Há colunas inteiras deitadas no fundo das valas, já com a forma final, e capitéis em meia-esfera ainda virados para cima. Nenhuma peça foi destacada do leito.

As peças estão em estágios diferentes. Algumas só têm o contorno riscado na superfície da rocha, outras estão quase soltas, com a vala aberta até o fundo.

As colunas de As Nieves passam dos pilares de Taga em comprimento e espessura. São, até onde se mediu, os maiores latte conhecidos em todo o arquipélago.

A pedreira entra assim na lenda. A tradição de Rota diz que Taga cortou ali as pedras da casa dele antes de mudar para Tinian, e que as colunas que ficaram são as que ele deixou para trás.

Com que ferramenta

Os chamorro não conheciam metal antes da chegada dos espanhóis. Trabalhavam o calcário com enxós de pedra e de concha gigante, as lâminas de tridacna (o molusco de concha grande dos recifes do Pacífico).

O calcário de recife é mole quando sai da terra e endurece depois de exposto ao ar. Cortar fresco e deixar secar era o caminho mais curto, e a pedreira guarda as marcas de golpe ao longo das valas.

O que se escavou em Taga

O antropólogo Alexander Spoehr, do Chicago Natural History Museum, escavou em volta dos pilares de Taga no começo dos anos 1950 e publicou os resultados no livro Marianas Prehistory, em 1957.

Entre as bases, Spoehr achou cerâmica, ferramentas de pedra e sepulturas. Os chamorro enterravam parentes debaixo da casa, e a Casa de Taga seguia o costume das casas comuns, só que em outra escala.

Spoehr situou o sítio no período latte, a fase final da pré-história das Marianas, que os arqueólogos fazem começar por volta do ano 1000 e terminar com a ocupação espanhola, a partir de 1668.

Em As Nieves, o trabalho parou com a pedra pronta para sair, e ninguém voltou para buscá-la.

A pedreira dá o como. Não dá o quando nem o porquê, e é desse silêncio que o caso de Taga depende.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Como se ergue uma coluna de cinco metros

Uma coluna de Taga e o capitel dela pesam várias toneladas cada. Os chamorro não tinham roda, nem animal de tração, nem guindaste, e mesmo assim puseram doze dessas peças de pé, alinhadas, com o capitel encaixado no topo.

Ninguém registrou como. Os missionários espanhóis que chegaram a Guam em 1668, com o jesuíta Diego Luis de San Vitores, descreveram casas sobre latte, mas nenhum deles viu erguerem um pilar do porte de Taga.

As hipóteses do transporte

A leitura mais aceita é a do arrasto sobre troncos roliços, com cordas de fibra de coco e muita gente puxando. Para Taga, o trajeto curto entre a rocha e a casa ajuda essa conta.

Para erguer, a hipótese corrente é a da rampa de terra. A coluna seria arrastada de pé por uma rampa e tombada para dentro de um buraco, e o capitel subiria por outra rampa até encaixar no alto.

Nenhuma escavação em Taga achou o vestígio de uma rampa, e a terra em volta foi remexida demais por séculos de lavoura e de guerra para guardar esse sinal.

A lenda contra a pedreira

A tradição oral dá a Taga o crédito inteiro. Numa das versões contadas em Rota e Tinian, ele brigou com os chefes de Rota, deixou a ilha e levou o ofício para Tinian, onde ergueu a casa maior.

A lenda explica a mudança de ilha, mas não fecha com a geologia. Os arqueólogos atribuem as pedras de Taga ao calcário do próprio Tinian, e não às colunas de As Nieves.

A história contra a lenda

Há uma segunda explicação para a pedreira parada, sem herói nenhum. Entre 1668 e o começo do século XVIII, as guerras com os espanhóis e as epidemias derrubaram a população chamorro.

Os espanhóis concentraram os sobreviventes do norte em Guam, na política de reunir os nativos em vilas controladas pela missão. Tinian ficou vazia, e foi vazia que a esquadra de Anson a encontrou em 1742.

Nessa leitura, ninguém largou As Nieves por briga ou mudança. O mundo que precisava de casas daquele porte acabou, e a obra ficou na vala.

Se a segunda leitura estiver certa, a pedreira de Rota é o retrato do dia em que uma arquitetura inteira parou.

Nenhuma das duas tem data na rocha. As colunas não trazem inscrição, e o carvão das fogueiras dos canteiros, se existiu, nunca foi datado.

 
 

III  O Que Falta Provar

Onze pilares no chão

Os desenhos de 1742 mostram as doze colunas de pé, com os capitéis no lugar. A queda veio depois, e ninguém sabe dizer em que ano caiu cada uma.

O que derrubou os pilares

Os relatos locais apontam terremotos e tufões, comuns nas Marianas. Um deles atribui parte da queda ao terremoto de 1902, que sacudiu Guam com força, mas nenhum registro da época diz quantas colunas tombaram naquele dia.

Hans Hornbostel, coletor a serviço do Bishop Museum, de Honolulu, fotografou e mediu latte nas Marianas nos anos 1920. As fotos dele já mostram Taga com a maior parte das peças no chão.

Hornbostel registrou também latte em Rota e Guam, e a coleção dele ficou no museu de Honolulu, onde ainda serve de base para quem estuda o período.

Em 1944, Tinian virou campo de batalha e base aérea americana. A pista de onde decolou o bombardeiro que levou a bomba de Hiroshima ficava na mesma ilha, e o sítio de Taga sobreviveu cercado de obra militar.

O que ninguém sabe

Não se sabe quem morou na Casa de Taga. O tamanho sugere uma linhagem de chefes, mas as sepulturas de Spoehr não trouxeram objeto que prove posição social acima das outras casas.

Também não se sabe se a casa chegou a ter piso e telhado. Ninguém achou o madeiramento, e a palha não dura séculos num clima de chuva e cupim.

Falta saber ainda por que a casa precisava de pilares tão altos. Uma leitura liga a altura ao prestígio da linhagem, outra à proteção contra enchente e bicho, e nenhuma das duas tem apoio de escavação.

O único pilar de pé

O pilar que resta virou símbolo das Marianas do Norte e aparece, desenhado atrás de uma estrela, na bandeira das Marianas do Norte. Os outros onze estão deitados em volta, com os capitéis rolados para o lado.

O que uma prova exigiria

1. Datar o carvão e a cerâmica sob as bases de Taga com métodos que Spoehr não tinha em 1957.

2. Comparar a química do calcário de Taga com a de As Nieves e das pedreiras de Tinian, para fechar de onde saiu cada coluna.

3. Mapear a pedreira de As Nieves inteira com laser, à procura de valas abandonadas em fases diferentes.

O pilar de pé e as colunas na vala contam a mesma arquitetura em dois estados, um depois do uso e outro antes dele.

Ler As Nieves como a obra que Taga largou ao mudar de ilha, ou como uma pedreira que parou quando os espanhóis esvaziaram as Marianas. As duas pistas estão na rocha de Rota.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que navio chegou a expedição britânica que desenhou os pilares de Taga em 1742?

 
 
 
Quiz da edição

No texto, qual era a função do capitel em meia-esfera (tasa) encaixado no topo dos pilares da Casa de Taga?

ADrenar a água da chuva para longe da base da coluna
BImpedir que ratos subissem até o piso de madeira da casa
CMarcar a altura máxima permitida para as colunas
DServir de apoio para rituais religiosos do povo chamorro

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