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Os corpos sem crânio de Teouma e o DNA que contrariou a teoria

Um cemitério lapita em Vanuatu guarda corpos sem cabeça e crânios alheios sobre o peito, e os genes dos primeiros colonos surpreenderam

Vaso lapita quebrado numa escavação em Vanuatu

A baía de Teouma, na ilha de Efate, Vanuatu

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: um trator expôs cacos de cerâmica numa plantação de Vanuatu em 2003.

Registro: embaixo havia o cemitério mais antigo do Pacífico remoto.

Anomalia: os corpos estão sem crânio, e o DNA não bate com o dos vizinhos.

O s três esqueletos de Teouma que tiveram o genoma lido, publicados pelo geneticista Pontus Skoglund na revista Nature em 2016, quase não carregam ancestralidade papua. A população atual de Vanuatu carrega ancestralidade papua na maior parte do genoma, segundo o estudo de Cosimo Posth, do Instituto Max Planck, na Nature Ecology & Evolution em 2018.

Os mesmos ossos, duas populações que não se encaixam.

Teouma fica numa baía rasa no sul da ilha de Efate, a poucos quilômetros de Port Vila, a capital de Vanuatu. Vanuatu é um arquipélago de ilhas vulcânicas no Pacífico Sul, a leste da Austrália e ao norte da Nova Caledônia.

Debaixo de uma antiga plantação de coqueiros, a terra guardava o cemitério mais antigo conhecido do Pacífico remoto, a parte do oceano que nenhum ser humano tinha alcançado antes dos navegadores lapita.

Lapita é o nome que os arqueólogos dão a uma cultura reconhecida pela cerâmica. Os vasos trazem desenhos geométricos carimbados com um pente de dentes finos, em faixas que às vezes formam rostos estilizados. Onde essa cerâmica aparece, aparecem os primeiros moradores das ilhas.

Os navegadores lapita cruzaram centenas de quilômetros de mar aberto em canoas, de ilha em ilha, até Fiji, Tonga e Samoa. Teouma é um dos raros lugares onde eles deixaram os próprios corpos, além dos vasos.

Os enterros de Teouma têm um padrão que nenhum visitante esquece. A maioria dos corpos está deitada de costas, inteira do pescoço para baixo. O crânio não está lá.

Em algumas covas há crânios, mas não no lugar certo. Eles estão sobre o peito de outro esqueleto, ou dentro de um vaso de cerâmica, ou arrumados em fila.

Quem abriu as covas, quando e por quê, o sítio conta só em parte. E os genes desses colonos mudaram a pergunta sobre quem eles eram.

O caso começa com um trator e um monte de cacos.

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I  O Registro

I, Os cacos da plantação

Em 2003, uma escavadeira abria terreno para um viveiro de camarão numa propriedade particular em Teouma. A máquina revirou cacos de cerâmica decorada, e o dono da terra levou os pedaços ao Centro Cultural de Vanuatu, em Port Vila.

Os cacos tinham o carimbo de pente dos vasos lapita. O Centro Cultural, então dirigido por Ralph Regenvanu, chamou os arqueólogos Stuart Bedford e Matthew Spriggs, da Universidade Nacional Australiana, que já estudavam a pré-história do arquipélago.

As escavações começaram em 2004 e voltaram a cada temporada durante quase uma década. O primeiro relato saiu em 2006, na revista Antiquity, assinado por Bedford, Spriggs e Regenvanu, e já descrevia sepulturas com corpos sem a cabeça.

A idade veio do carbono 14 (método que mede quanto carbono radioativo um material orgânico perdeu com o tempo). A arqueóloga Fiona Petchey, da Universidade de Waikato, publicou em 2014 no Journal of Archaeological Science datas que situam o uso do cemitério há cerca de três mil anos, poucas gerações depois da chegada dos primeiros barcos.

Como eram as covas

A antropóloga francesa Frédérique Valentin, do CNRS, estudou os esqueletos um por um. Ela e a equipe mostraram que os mortos eram enterrados de costas, em covas rasas cavadas na rocha de coral, e que a cabeça era retirada depois.

O detalhe pesa. Os ossos do pescoço continuam no lugar em vários esqueletos, e não há marcas de corte nas vértebras. A cova era reaberta quando o corpo já tinha se decomposto, e alguém levantava o crânio com cuidado.

Em alguns casos, os ossos longos também saíram e voltaram arrumados de outro jeito. O cemitério recebeu visitas durante anos, e cada sepultura parece ter passado por mais de uma etapa.

O adulto dos três crânios

A sepultura mais citada do sítio, descrita por Bedford, Spriggs e Regenvanu no artigo de 2006, guarda um adulto sem cabeça. Sobre o peito dele há três crânios em fila, de outras pessoas, voltados para a mesma direção.

Outra cova trazia um crânio guardado dentro de um vaso lapita, com um prato de cerâmica tampando a boca do recipiente. Um dos vasos achados no sítio tem aves modeladas na borda, viradas para dentro, como se olhassem o conteúdo.

O corpo ficava na terra. A cabeça seguia outro caminho.

O registro mostra um cemitério de colonos, corpos reabertos depois de decompostos e crânios que mudavam de lugar. Ele não diz para onde foram as cabeças que faltam, nem de quem eram as que ficaram sobre os peitos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, A cabeça que viajava

O primeiro ponto em aberto é a conta que não fecha. Há mais corpos sem crânio do que crânios achados no sítio. Parte das cabeças retiradas saiu do cemitério e nunca voltou para a terra escavada.

A leitura mais aceita entre os escavadores é a do culto aos ancestrais. Em várias sociedades do Pacífico registradas por etnógrafos, o crânio de um parente importante era guardado em casa, exibido em cerimônias e às vezes enterrado de novo anos mais tarde.

Valentin e colegas defendem que Teouma mostra uma versão antiga desse costume. A cabeça seria a parte da pessoa que continuava no convívio dos vivos, enquanto o corpo ficava na cova.

De quem eram os crânios do peito

A pergunta seguinte é sobre os três crânios em fila. Se eram ancestrais do adulto enterrado, a cena seria uma reunião de família. Se eram de inimigos, seria um troféu.

O arqueólogo Alex Bentley, então na Universidade de Durham, mediu o estrôncio nos dentes de esqueletos de Teouma num estudo publicado na revista American Antiquity em 2007. O estrôncio dos dentes guarda a assinatura química do lugar onde a pessoa passou a infância.

O resultado mostrou que parte dos enterrados cresceu longe de Efate. Entre os primeiros moradores de Teouma havia gente que chegou já adulta, de outras ilhas, o que combina com uma colônia recém-fundada e ainda ligada a outros portos.

O estudo não respondeu se os crânios do peito eram de parentes ou de estranhos. Nenhuma análise publicada até agora ligou aqueles três crânios ao esqueleto que os carrega.

O DNA que mudou a pergunta

Em 2016, a equipe de Skoglund, com o geneticista David Reich, da Universidade Harvard, leu o genoma de três indivíduos de Teouma e de um de Talasiu, em Tonga. Os quatro tinham ancestralidade ligada aos povos de Taiwan e das Filipinas, e quase nada da herança papua das ilhas próximas da Nova Guiné.

Até ali, muitos pesquisadores imaginavam que os navegadores lapita fossem uma mistura antiga, formada na Melanésia antes da partida. O genoma de Teouma não mostrou essa mistura nos primeiros colonos.

Os vanuatuenses de hoje falam línguas austronésias, a mesma família da língua dos colonos lapita. No genoma, porém, a maior parte da herança deles é papua.

Os colonos vieram de longe, e os genes dos netos vieram de outro lugar.

O resultado deslocou o centro do caso. A pergunta deixou de ser só o que aquela gente fazia com as cabeças e passou a incluir quem chegou depois e ocupou o lugar dela.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O que os genes não contam

O primeiro ponto que falta provar é como a herança papua chegou. Em 2018, a equipe de Posth leu o genoma de 19 indivíduos antigos de Vanuatu, Tonga, Polinésia Francesa e Ilhas Salomão e concluiu que, há cerca de 2.500 anos, a ancestralidade papua já dominava o arquipélago.

A explicação proposta é uma série de chegadas vindas do arquipélago de Bismarck, perto da Nova Guiné, logo depois do período lapita. Os recém-chegados teriam trocado quase todo o genoma local e adotado a língua dos primeiros colonos.

A troca de genes sem troca de idioma é rara. O mecanismo exato, se casamento, migração de homens ou absorção gradual de aldeias, segue sem demonstração direta nos ossos.

A cerâmica acompanha a mudança. Depois da fase lapita, os vasos de Vanuatu perdem o carimbo de pente e ganham decoração incisa e aplicada, de estilos regionais. A troca de gente e a troca de estilo parecem andar juntas, mas a ordem entre as duas ainda não foi fixada.

Os limites da amostra

O segundo ponto é o tamanho da prova. O estudo de 2016 leu o genoma de três indivíduos de Teouma. Três esqueletos sustentam a afirmação de que os primeiros colonos não tinham herança papua, e os próprios autores trataram o resultado como o retrato de uma amostra pequena.

O clima tropical destrói o DNA antigo, e poucos ossos de Teouma renderam material legível. Mais genomas do cemitério mostrariam se havia gente de origem papua já na primeira geração, enterrada sem deixar rastro nas amostras lidas.

O terceiro ponto é a ligação entre os genes e o ritual. Nenhum estudo publicado comparou o DNA de um crânio deslocado com o do corpo sobre o qual ele foi posto. Um teste desses diria se a cena dos três crânios reúne parentes de sangue ou pessoas sem laço.

O cemitério tem a data, o rito e três genomas. Falta ligar os três.

O que se sabe com segurança é firme. O cemitério tem cerca de três mil anos pelas datas de Petchey, os corpos tiveram a cabeça retirada depois de decompostos, e os três genomas lidos não mostram herança papua.

Por que as cabeças eram retiradas, para onde foram as que faltam e de quem eram as que ficaram, ninguém conseguiu demonstrar. Faltam o DNA dos crânios e o dos corpos que os carregam.

Uma família lapita que guardava os crânios dos próprios ancestrais e os devolvia ao peito dos parentes, como propõem Valentin e os escavadores, ou um povo que exibia cabeças de gente de fora sobre os seus mortos. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá ao cuidado das covas reabertas ou aos colonos vindos de outras ilhas.

 
 
 

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Qual era a origem genética dos indivíduos de Teouma cujo genoma foi lido em 2016?

AAborígene australiana
BAfricana
CTaiwan e Filipinas
DPapua, das ilhas próximas da Nova Guiné

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