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O livro de 74 quilos que uma mão só escreveu
Noventa e dois centímetros de altura, 310 folhas de pergaminho e uma letra que não muda em nenhuma página, sem nome de copista em lugar nenhum.
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O volume que duas pessoas precisam abrir
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: um único volume de pergaminho, hoje na Biblioteca Nacional da Suécia, mede 92 centímetros de altura, pesa 74,8 quilos e precisa de duas pessoas para ser aberto sobre a mesa.
Registro: as 310 folhas conservadas foram escritas por uma só mão, no mosteiro beneditino de Podlažice, em algum ponto entre 1204 e 1230, e reúnem a Bíblia inteira, dois tratados de Josefo, a enciclopédia de Isidoro, uma crônica da Boêmia, textos de medicina, fórmulas de conjuração e um calendário com lista de mortos.
Anomalia: nenhuma linha do códice traz o nome de quem o copiou, a letra não envelhece do começo ao fim, e doze folhas foram removidas do miolo em data desconhecida, junto com o texto que estava nelas.
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Um livro pode ser grande demais para ser lido sozinho. O volume que hoje ocupa uma vitrine reforçada na Biblioteca Nacional da Suécia tem 92 centímetros de altura, cerca de meio metro de largura, 22 centímetros de lombada e pesa 74,8 quilos com as tábuas de madeira e o couro que o vestem. Para abrir a página certa, dois funcionários levantam a capa juntos e apoiam o corpo do códice em berços de espuma.
O peso não é ornamento, é matéria-prima. Cada folha saiu da pele de um animal, e a conta de couro necessária para as 310 folhas conservadas passa de uma centena de peles preparadas, curtidas, raspadas e cortadas no mesmo formato. Antes de a primeira letra existir, alguém precisou reunir um rebanho inteiro em forma de superfície de escrita.
Depois vem a segunda conta, a do tempo. A escrita ocupa duas colunas por página, com pauta traçada a seco, iniciais decoradas e capitulares grandes em vermelho e azul. Um copista medieval treinado avançava uma quantidade limitada de linhas por dia, e as estimativas modernas de quanto trabalho existe ali variam entre vinte e trinta anos de bancada contínua, sem contar a preparação do material.
O conteúdo é a terceira surpresa. O volume não é uma Bíblia com apêndices. É a Bíblia latina inteira, mais dois tratados de Flávio Josefo, mais a enciclopédia de Isidoro de Sevilha, mais uma crônica da Boêmia, mais textos de medicina, mais um penitencial, mais um calendário com registro de mortos do mosteiro, mais fórmulas de conjuração copiadas com a mesma calma do resto. É uma biblioteca inteira comprimida num objeto só.
E o objeto veio de um lugar pequeno. O mosteiro beneditino de Podlažice, na Boêmia oriental, era uma casa modesta, com poucos monges e recursos limitados, o tipo de comunidade que normalmente não produz nada dessa escala. O maior manuscrito medieval que sobreviveu ao tempo nasceu justamente onde ninguém esperaria capacidade para fazê-lo.
O que o códice registra sobre si mesmo, e o que se recusa a registrar, é o caso de hoje.
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I O Registro
Uma biblioteca inteira dentro de um volume só
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As medidas do objeto já bastariam para torná-lo excepcional. O bloco de folhas tem 89 centímetros de altura por 49 de largura, e a encadernação em tábua de madeira revestida de couro lavrado, com aplicações de metal, leva o conjunto a 92 centímetros e a 74,8 quilos. Nenhum outro manuscrito medieval conhecido chega perto dessa massa.
A datação vem do próprio texto. A crônica da Boêmia copiada no volume registra eventos até 1229, e o calendário com a lista de mortos do mosteiro acompanha nomes até a mesma faixa de anos. A janela aceita hoje pela paleografia vai de 1204 a 1230, com a maior parte do trabalho provavelmente concluída no fim desse intervalo.
A organização interna segue uma lógica de arquivo, não de devoção. Abre com o Antigo Testamento, interrompe a sequência bíblica para inserir as Antiguidades Judaicas e a Guerra dos Judeus de Flávio Josefo, retoma com o Novo Testamento, e então despeja o material de referência: as Etimologias de Isidoro, o corpo de textos médicos ligado a Constantino, o Africano, e a crônica de Cosmas de Praga.
O fecho do volume é o mais estranho. Depois da enciclopédia e da história, vêm um penitencial com a tabela de castigos por pecado, um calendário litúrgico com necrológio, listas de nomes, e um conjunto pequeno de fórmulas de conjuração e receitas de proteção, copiadas com a mesma mão e a mesma disciplina de traçado.
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A evidência codicológica e paleográfica indica que a totalidade do Codex Gigas foi escrita por um único escriba, num período relativamente curto.
Michael Gullick, The Codex Gigas: Palaeography and Codicology, in Codex Gigas, Kungliga biblioteket, Estocolmo, 2007
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A folha 290 recto quebra a rotina visual do livro. Ela traz, sozinha, uma figura de página inteira de um demônio agachado, com garras, chifres e um manto branco de arminho, desenhado com cuidado e sem texto ao redor. Na página vizinha aparece a representação da cidade celeste, e o par foi montado de propósito, um diante do outro.
O pergaminho em torno dessa abertura tem tom diferente do restante. As folhas ali estão visivelmente mais escuras e amareladas, efeito que os conservadores atribuem à exposição prolongada à luz, sinal de que aquele trecho ficou aberto para visitantes durante muito tempo, provavelmente séculos.
O percurso do objeto está documentado a partir do século treze. Podlažice o entregou como garantia de dívida, o volume passou por casas religiosas da Boêmia, chegou à coleção do imperador Rodolfo II em Praga em 1594, e em 1648, no saque final da Guerra dos Trinta Anos, o exército sueco o levou para Estocolmo, onde permanece.
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