|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O disco de Festos ao nascer do sol
Dezoito metros de quartzito rachados por um terremoto, 107 inscrições de visitantes nas pernas e um som ao amanhecer que parou depois do reparo.
|
As pernas de pedra cobertas de inscrições
|
| ▼ |
|
FICHA DO ARQUIVO
Relato: duas estátuas sentadas de quartzito, com cerca de 18 metros de altura cada, guardam a planície onde ficava o templo funerário de Amenhotep III, na margem oeste de Tebas.
Registro: depois de um terremoto datado pela tradição antiga em 27 a.C., que partiu a metade superior da estátua do norte, visitantes passaram a registrar um som emitido pela pedra logo depois do nascer do sol, e 107 inscrições em grego e latim foram gravadas nas pernas e no pé do colosso entre os anos 20 e 196 da nossa era.
Anomalia: o som só era relatado na estátua rachada, só ao amanhecer, e desapareceu dos registros depois que a metade quebrada foi remontada em blocos de arenito, obra atribuída a Septímio Severo.
|
|
Por volta de 20 a.C., o geógrafo Estrabão esteve ao pé de uma estátua colossal na margem oeste de Tebas, na companhia de Élio Galo, então prefeito romano do Egito, ouviu o som que atraía visitantes até ali e escreveu que não conseguia afirmar de onde ele vinha, se da base, se da pedra ou de alguém no meio do grupo. Quase dois séculos depois, Pausânias descreveu na Descrição da Grécia o mesmo som sem hesitação nenhuma, como a nota de uma corda de lira que arrebenta.
Os dois estiveram no mesmo lugar, diante do mesmo bloco de quartzito, e voltaram com relatos que não combinam sobre a questão mais simples de todas: o que soava ali.
O objeto que produzia a discussão continua de pé. São duas figuras sentadas, cada uma com cerca de 18 metros de altura contando o pedestal, talhadas em quartzito e instaladas por volta de 1350 a.C. para flanquear a entrada do templo funerário de Amenhotep III. O templo desapareceu quase inteiro sob o limo do Nilo e sob a reutilização de suas pedras; as duas sentinelas ficaram sozinhas na planície, sem o edifício que tinham a função de anunciar.
Nada nos primeiros treze séculos dessas estátuas indica que alguma delas fizesse barulho. O fenômeno tem uma data de nascimento razoavelmente clara na tradição antiga: um terremoto em 27 a.C., que arrancou a metade superior da figura ao norte e deixou o tronco partido acima da cintura, aberto ao céu e cheio de fraturas.
Foi depois do estrago que o som aparece nos textos. Sempre ao amanhecer, sempre naquela estátua, nunca na irmã intacta ao lado, e comparado por quem ouvia a uma pancada seca em metal ou a uma corda que se rompe.
A pedra virou destino de viagem. Prefeitos, poetas, oficiais do exército romano e um imperador foram até a planície para esperar o nascer do sol, e muitos deixaram por escrito, na própria perna da estátua, se tinham escutado ou não.
Continue lendo ↓
|
|
I O Registro
Cento e sete assinaturas nas pernas de pedra
|
|
O material é a primeira informação relevante. As duas figuras foram talhadas em quartzito, rocha dura e porosa, extraída de uma pedreira ao norte e trazida rio acima até a planície tebana. Cada monólito tem cerca de 18 metros com o pedestal e pesa centenas de toneladas.
A função original é conhecida. As figuras representam Amenhotep III sentado, mãos sobre os joelhos, olhando para o leste, e marcavam o pórtico do maior templo funerário construído em Tebas. Nas laterais do trono aparecem as personificações do Nilo, e ao lado das pernas, figuras menores da mãe e da esposa do rei.
O nome pelo qual as estátuas ficaram conhecidas veio depois, e de outra cultura. Visitantes gregos identificaram a figura sonora com Mêmnon, rei etíope filho da Aurora, morto por Aquiles diante de Troia. O som ao amanhecer virou, nessa leitura, a saudação do filho à mãe que nascia no horizonte todos os dias.
O terremoto de 27 a.C. é a virada do caso. A metade superior do colosso ao norte desabou, a pedra restante ficou atravessada de fissuras, e o interior do tronco passou a ser um espaço aberto e irregular. A estátua ao sul, que não sofreu esse dano, jamais foi descrita emitindo som nenhum.
|
Ouvi um som, mas não posso afirmar com segurança se veio do pedestal, ou do colosso, ou de alguma das pessoas que estavam em volta da base.
Estrabão, Geografia, livro XVII, cerca de 20 a.C.
|
O acervo mais valioso do caso não está em livro, está gravado na pedra. André Bernand e Étienne Bernand catalogaram 107 inscrições em grego e latim nas pernas e no pé da estátua ao norte, publicadas em Les inscriptions grecques et latines du Colosse de Memnon, em 1960. As datadas se distribuem entre o ano 20 e o ano 196 da nossa era.
O conteúdo dessas inscrições é o que torna o corpus incomum. Não são dedicatórias religiosas padronizadas. São testemunhos com nome, cargo, data e resultado: fulano, prefeito ou centurião ou poeta, esteve aqui em tal dia e escutou Mêmnon a tal hora. Algumas registram a frustração de quem esperou o amanhecer inteiro e não ouviu nada.
O visitante de maior patente aparece no ano 130. O imperador Adriano foi até a planície com a imperatriz Sabina e parte da corte, e a poeta Júlia Balbila deixou quatro poemas gravados na perna esquerda da estátua registrando a ocasião e o que o grupo escutou. É um dos raros episódios da antiguidade em que um evento acústico específico tem hora, testemunhas e assinatura na própria superfície do objeto.
| |