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ED 105
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O disco de Festos ao nascer do sol

Dezoito metros de quartzito rachados por um terremoto, 107 inscrições de visitantes nas pernas e um som ao amanhecer que parou depois do reparo.

Uma bancada de arquivo à noite com um fragmento de quartzito rachado sobre suporte, cópias em papel de inscrições gregas, diapasão de latão, um traçado de oscilograma impresso, amostras de blocos de arenito e um desenho de elevação da estátua sentada com cinco fiadas remontadas marcadas em vermelho, tudo sob luz âmbar focal

As pernas de pedra cobertas de inscrições

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: duas estátuas sentadas de quartzito, com cerca de 18 metros de altura cada, guardam a planície onde ficava o templo funerário de Amenhotep III, na margem oeste de Tebas.

Registro: depois de um terremoto datado pela tradição antiga em 27 a.C., que partiu a metade superior da estátua do norte, visitantes passaram a registrar um som emitido pela pedra logo depois do nascer do sol, e 107 inscrições em grego e latim foram gravadas nas pernas e no pé do colosso entre os anos 20 e 196 da nossa era.

Anomalia: o som só era relatado na estátua rachada, só ao amanhecer, e desapareceu dos registros depois que a metade quebrada foi remontada em blocos de arenito, obra atribuída a Septímio Severo.

Por volta de 20 a.C., o geógrafo Estrabão esteve ao pé de uma estátua colossal na margem oeste de Tebas, na companhia de Élio Galo, então prefeito romano do Egito, ouviu o som que atraía visitantes até ali e escreveu que não conseguia afirmar de onde ele vinha, se da base, se da pedra ou de alguém no meio do grupo. Quase dois séculos depois, Pausânias descreveu na Descrição da Grécia o mesmo som sem hesitação nenhuma, como a nota de uma corda de lira que arrebenta.

Os dois estiveram no mesmo lugar, diante do mesmo bloco de quartzito, e voltaram com relatos que não combinam sobre a questão mais simples de todas: o que soava ali.

O objeto que produzia a discussão continua de pé. São duas figuras sentadas, cada uma com cerca de 18 metros de altura contando o pedestal, talhadas em quartzito e instaladas por volta de 1350 a.C. para flanquear a entrada do templo funerário de Amenhotep III. O templo desapareceu quase inteiro sob o limo do Nilo e sob a reutilização de suas pedras; as duas sentinelas ficaram sozinhas na planície, sem o edifício que tinham a função de anunciar.

Nada nos primeiros treze séculos dessas estátuas indica que alguma delas fizesse barulho. O fenômeno tem uma data de nascimento razoavelmente clara na tradição antiga: um terremoto em 27 a.C., que arrancou a metade superior da figura ao norte e deixou o tronco partido acima da cintura, aberto ao céu e cheio de fraturas.

Foi depois do estrago que o som aparece nos textos. Sempre ao amanhecer, sempre naquela estátua, nunca na irmã intacta ao lado, e comparado por quem ouvia a uma pancada seca em metal ou a uma corda que se rompe.

A pedra virou destino de viagem. Prefeitos, poetas, oficiais do exército romano e um imperador foram até a planície para esperar o nascer do sol, e muitos deixaram por escrito, na própria perna da estátua, se tinham escutado ou não.

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I  O Registro

Cento e sete assinaturas nas pernas de pedra

O material é a primeira informação relevante. As duas figuras foram talhadas em quartzito, rocha dura e porosa, extraída de uma pedreira ao norte e trazida rio acima até a planície tebana. Cada monólito tem cerca de 18 metros com o pedestal e pesa centenas de toneladas.

A função original é conhecida. As figuras representam Amenhotep III sentado, mãos sobre os joelhos, olhando para o leste, e marcavam o pórtico do maior templo funerário construído em Tebas. Nas laterais do trono aparecem as personificações do Nilo, e ao lado das pernas, figuras menores da mãe e da esposa do rei.

O nome pelo qual as estátuas ficaram conhecidas veio depois, e de outra cultura. Visitantes gregos identificaram a figura sonora com Mêmnon, rei etíope filho da Aurora, morto por Aquiles diante de Troia. O som ao amanhecer virou, nessa leitura, a saudação do filho à mãe que nascia no horizonte todos os dias.

O terremoto de 27 a.C. é a virada do caso. A metade superior do colosso ao norte desabou, a pedra restante ficou atravessada de fissuras, e o interior do tronco passou a ser um espaço aberto e irregular. A estátua ao sul, que não sofreu esse dano, jamais foi descrita emitindo som nenhum.

Ouvi um som, mas não posso afirmar com segurança se veio do pedestal, ou do colosso, ou de alguma das pessoas que estavam em volta da base.

Estrabão, Geografia, livro XVII, cerca de 20 a.C.

O acervo mais valioso do caso não está em livro, está gravado na pedra. André Bernand e Étienne Bernand catalogaram 107 inscrições em grego e latim nas pernas e no pé da estátua ao norte, publicadas em Les inscriptions grecques et latines du Colosse de Memnon, em 1960. As datadas se distribuem entre o ano 20 e o ano 196 da nossa era.

O conteúdo dessas inscrições é o que torna o corpus incomum. Não são dedicatórias religiosas padronizadas. São testemunhos com nome, cargo, data e resultado: fulano, prefeito ou centurião ou poeta, esteve aqui em tal dia e escutou Mêmnon a tal hora. Algumas registram a frustração de quem esperou o amanhecer inteiro e não ouviu nada.

O visitante de maior patente aparece no ano 130. O imperador Adriano foi até a planície com a imperatriz Sabina e parte da corte, e a poeta Júlia Balbila deixou quatro poemas gravados na perna esquerda da estátua registrando a ocasião e o que o grupo escutou. É um dos raros episódios da antiguidade em que um evento acústico específico tem hora, testemunhas e assinatura na própria superfície do objeto.

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II  A Pergunta em Aberto

Um som que ninguém conseguiu repetir

A explicação com mais adesão hoje é térmica. O quartzito rachado absorve umidade durante a noite, o orvalho penetra nos poros e nas fissuras, e a primeira luz forte da manhã aquece a face voltada para o leste de forma rápida e desigual. A água presa evapora, lascas finas de pedra se movem, e a fricção entre superfícies em tensão produz um estalo curto.

O efeito tem paralelo conhecido: pedras em desertos de forte amplitude térmica estalam ao nascer e ao pôr do sol, e dependem de rachadura, porosidade e aquecimento abrupto, as três condições que o terremoto criou naquele tronco e não criou no da estátua vizinha.

O incômodo da explicação térmica também é claro. Ela prevê um evento incerto, fraco e irregular, e os relatos antigos descrevem um som audível para um grupo inteiro reunido a alguma distância, com regularidade suficiente para sustentar duzentos anos de turismo organizado até um ponto isolado da margem oeste.

A segunda linha de explicação é a que Estrabão já insinuava sem acusar ninguém. Havia interesse local no fenômeno, gente vivendo da visitação, e uma pancada bem colocada numa pedra ressonante dentro do tronco aberto produziria um estalo metálico sem que a plateia, sentada abaixo e olhando para o leste contra a luz, visse quem bateu.

A objeção a essa leitura é a duração e a qualidade das testemunhas. Um truque sustentado por dezessete décadas, diante de prefeitos do Egito, de oficiais do exército e de um imperador acompanhado da corte, precisaria de uma sucessão longa de operadores discretos e de nenhum denunciante entre os 107 registros gravados, inclusive entre os que reclamam de não ter ouvido.

A terceira via é acústica pura. Correntes de ar aquecido subindo pelas cavidades e fendas do tronco partido funcionariam como um instrumento de sopro tosco, e a mudança brusca de temperatura ao amanhecer daria o empurrão inicial. A objeção é que ninguém mediu a geometria interna do colosso antes do reparo, e sem essa geometria a hipótese não passa de analogia.

Um detalhe do corpus epigráfico atrapalha as três. Vários visitantes registram ter ouvido duas ou três vezes em manhãs seguidas, outros registram silêncio completo, e a distribuição desses resultados nunca foi cruzada de forma sistemática com estação do ano, hora exata e condição do céu. A informação que decidiria entre orvalho, ar e mão humana está gravada na pedra e continua sem análise estatística publicada.

E existe o dado que nenhuma das três explica com conforto: o som não foi ficando mais raro, como um fenômeno natural que se estabiliza. Ele simplesmente para de aparecer nos registros depois que a estátua foi consertada.

 
 

III  O Que Falta Provar

O reparo que fechou a rachadura

A metade superior do colosso ao norte está lá hoje, mas não é a original. O torso e a cabeça foram remontados com fiadas de blocos de arenito empilhados sobre a parte antiga, e o contraste de material salta aos olhos: o quartzito escuro e denso embaixo, o arenito claro e regular em cima. A obra é atribuída ao imperador Septímio Severo, que passou pelo Egito no fim do século II.

A cronologia é o argumento mais forte do caso inteiro. A última inscrição datada de alguém que escutou o som é do ano 196. O reparo vem logo depois. E nenhum autor posterior descreve o fenômeno como algo que ainda acontecia, embora o lugar continuasse conhecido e visitado.

O que falta provar começa pela própria obra. A datação independente da argamassa e dos blocos de arenito, por métodos de análise de material, diria se a remontagem é mesmo do fim do século II ou se veio depois, o que mudaria a leitura da coincidência entre o conserto e o silêncio.

A segunda lacuna é a geometria interna. Um levantamento por tomografia acústica ou por varredura interna do tronco mostraria qual era o volume de cavidade antes do preenchimento, quanto material novo entrou e se ainda existe espaço vazio capaz de ressoar dentro da estátua remontada.

A terceira é experimental e nunca foi feita com rigor no próprio sítio. Instrumentar o colosso com sensores de vibração e microfones durante várias madrugadas seguidas, ao longo de um ano inteiro, registraria se a pedra antiga ainda produz alguma emissão no amanhecer, mesmo abaixo do limiar da audição humana a alguma distância.

A quarta é o corpus epigráfico. As 107 inscrições trazem nome, cargo, data e resultado, e uma leitura sistemática que cruzasse quem ouviu com o mês e com a hora registrada testaria diretamente a previsão térmica: orvalho e amplitude de temperatura variam com a estação, e a distribuição dos sucessos deveria acompanhar essa variação.

O caso guarda uma assimetria rara para a antiguidade. O lado documental é abundante e datado: nome de quem foi, cargo, dia, hora, se ouviu ou não, tudo gravado na superfície do objeto e ainda legível depois de mil e oitocentos anos.

O lado físico é que ficou mudo. Uma pedra rachada que ganhou voz com o orvalho e a perdeu quando os blocos de arenito fecharam a fenda, ou um som fabricado por quem vivia da fama do lugar e sumiu quando a estátua deixou de render visitantes. As duas versões explicam o mesmo silêncio depois de 196, e nenhuma das duas foi testada na pedra que continua ali.

 
 
 
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ASeptímio Severo
BÉlio Galo
CO imperador Adriano
DAmenhotep III

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