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A leitura mais discutida hoje entre historiadores alemães é a de migração organizada. No século XIII, recrutadores contratados por senhores territoriais percorriam as cidades do Weser oferecendo terra a quem povoasse o leste, e essas campanhas levaram populações inteiras da Baixa Saxônia para a Pomerânia, a Morávia e a Prússia.
O que sustenta essa leitura é o vocabulário das fontes. No alemão medieval, kinder designa filhos de uma cidade, não necessariamente meninos pequenos, e jovens em idade de formar família eram exatamente o público que um recrutador procurava.
O linguista Jürgen Udolph, da Universidade de Leipzig, publicou nos anos 2000 um levantamento de nomes de lugar e de sobrenomes na Prignitz e na Uckermark, ao norte de Berlim, apontando concentração de topônimos e de famílias com raízes do vale do Weser na região colonizada.
O que a enfraquece é a falta do documento de saída. Nenhum contrato de assentamento, lista de colonos ou carta de senhor territorial nomeando Hamelin foi localizado nos arquivos alemães, e semelhança de nomes não prova quem saiu de onde.
A segunda leitura trata o episódio como acidente coletivo. A palavra koppen indica elevações fora dos muros, e a expressão sobre o calvário aponta um lugar determinado no terreno, o que abre a hipótese de desabamento, de afogamento no Weser ou de morte em massa num ponto específico do caminho.
O que sustenta essa leitura é a precisão geográfica das fontes, que insistem num lugar, e o fato de a cidade ter marcado o episódio numa rua, a Bungelosenstraße, onde música e dança seguiram proibidas por séculos, tratamento reservado a caminho de cortejo fúnebre.
O que a enfraquece é a ausência de ossos. Nenhuma vala coletiva do final do século XIII foi escavada nos morros ao redor de Hamelin, e uma perda de 130 jovens num só lugar deixaria depósito ósseo localizável.
A terceira leitura aposta em doença ou em surto de comportamento coletivo. Epidemias de dança, registradas na Renânia em 1374 e em Estrasburgo em 1518, levaram multidões a caminhar e a dançar em procissão por dias até o colapso, e a figura do músico conduzindo um grupo casa com esse tipo de evento.
O que a enfraquece é a cronologia. Os surtos de dança documentados vêm quase um século depois do caso de Hamelin, e nenhuma crônica do Weser do século XIII registra episódio parecido.
Há ainda uma quarta hipótese, mais antiga e frágil: a de que as crianças teriam seguido uma pregação de cruzada infantil, do tipo que atravessou a Europa em 1212. O que a derruba é a distância de mais de setenta anos entre aquele movimento e o dia registrado pelas fontes de Hamelin.
O que ninguém consegue afirmar é o destino das 130 pessoas. Não existe registro de chegada, não existe sepultamento identificado e não existe carta de quem tenha ido, e a escolha entre migração, acidente e doença hoje é preferência de leitura, não conclusão apoiada em documento.
"Uma cidade inteira passa a contar os anos a partir da saída dos próprios filhos, proíbe música numa rua por séculos, e não deixa uma linha dizendo para onde eles foram?"
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