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ED 119
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As 130 crianças que saíram de Hamelin em junho de 1284

O registro mais antigo do caso é um vitral com crianças e nenhum rato; o flautista que caça ratos só aparece em texto 275 anos depois

Bancada de exame à noite com o decalque de um vitral medieval aberto sobre a mesa, folha de pergaminho com versos góticos presa em pé, fragmento de arenito com letras esculpidas sobre feltro, paquímetro de bronze, lupa, escala dobrável, livro de registros da cidade e bússola, sob luz âmbar focal

A casa de 1602 que guarda a inscrição

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: 130 crianças nascidas em Hamelin saíram da cidade em 26 de junho de 1284, conduzidas por um homem vestido de roupa de muitas cores, e não voltaram.

Registro: o testemunho mais antigo era um vitral da igreja do mercado, montado por volta de 1300 e destruído em 1660, copiado em texto no manuscrito de Lüneburgo por volta de 1440 e gravado em pedra na fachada da Rattenfängerhaus em 1602.

Anomalia: nenhuma dessas fontes menciona rato, praga ou contrato quebrado; a caçada aos ratos entra na história por volta de 1559, na Crônica de Zimmern, quase três séculos depois do evento datado.

O testemunho mais antigo sobre o desaparecimento das crianças de Hamelin era um vitral da Marktkirche, a igreja do mercado da cidade, montado por volta de 1300 e desfeito em 1660. Quem o descreveu registrou figuras de crianças acompanhando um homem de roupa colorida, e nenhum rato no painel. O flautista que primeiro livra a cidade de uma praga de ratos e depois cobra o pagamento aparece em texto por volta de 1559, na crônica da família Zimmern, quase três séculos depois do evento datado.

A cidade fica no rio Weser, na Baixa Saxônia, e no século XIII vivia de moinhos, pedágio fluvial e lavoura.

O caso tem dia e mês. As fontes locais registram 26 de junho de 1284, festa dos santos João e Paulo no calendário litúrgico, e falam em 130 crianças nascidas em Hamelin, levadas para fora dos muros por um homem descrito apenas pela roupa de muitas cores.

O total aparece nas fontes em algarismo romano, CXXX, e atravessa quatro séculos de cópias sem mudar, repetido até por cronistas que discordam de todo o resto.

O que essas fontes antigas não trazem é qualquer praga. Não há rato, não há contrato de extermínio, não há prefeitura caloteira e não há vingança. Há um homem, uma saída da cidade e uma perda que a comunidade registrou na parede de uma igreja.

A cidade também mantinha contagem própria de tempo. Documentos municipais dos séculos XIV e XV datam acontecimentos pela distância até a saída das crianças, e uma rua da cidade velha passou a proibir música e tambor. Perda inventada não vira âncora de calendário de uma cidade inteira.

O registro de hoje começa pelo que as fontes escritas e a pedra ainda permitem afirmar sobre aquele dia, antes de qualquer explicação para o que houve com as crianças.

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I  O Registro

I, O vitral desfeito e a pedra que restou

O caso de Hamelin chega até nós por uma corrente curta de documentos, e cada elo dela tem lugar e ano conhecidos. O ponto de partida é o vitral da Marktkirche, encomendado por volta de 1300, dentro do intervalo de uma geração depois do evento.

O painel não existe mais. A igreja perdeu o vitral em 1660, e o que sobrou dele são as descrições feitas por gente que o viu de pé, com a figura do homem de roupa colorida e as crianças em procissão para fora da cidade.

O elo seguinte é de papel. O manuscrito de Lüneburgo, escrito por volta de 1440 e conservado num códice de textos diversos, traz em latim a frase que fixou o caso: no ano de 1284, no dia dos santos João e Paulo, 26 de junho, por um flautista vestido de muitas cores, 130 crianças nascidas em Hamelin foram levadas e se perderam no lugar do calvário, junto aos koppen, palavra do baixo-alemão para morros.

Existe ainda um registro perdido. O deão Lude, da colegiada de Hamelin, teria guardado por volta de 1384 um livro de coro com anotação em verso sobre a saída das crianças, escrita segundo a tradição local pela mãe de uma delas. O volume sumiu dos arquivos antes de qualquer exame moderno.

O elo mais sólido está de pé na Osterstraße. A Rattenfängerhaus, casa de fachada de pedra construída em 1602, traz numa viga a inscrição em baixo-alemão que repete o dia, a roupa e o total, e é o suporte material mais antigo do caso que se pode tocar.

Anno 1284 am dage Johannis et Pauli war der 26. junii dorch einen piper mit allerley farve bekledet gewesen cxxx kinder verledet binnen Hameln geboren to calvarie bi den koppen verloren.

Inscrição da Rattenfängerhaus, Hameln, 1602

A frase gravada traduz-se assim: no ano de 1284, no dia dos santos João e Paulo, 26 de junho, por um flautista vestido de todas as cores, 130 crianças nascidas em Hamelin foram levadas e se perderam no calvário junto aos morros.

Repare no que a pedra não diz. Ela não fala em rato, em praga, em pagamento recusado nem chama o homem de vingador. Ele é apenas um piper, tocador de flauta ou gaita, identificado pela roupa.

A caçada aos ratos entra na história por escrito na Zimmerische Chronik, a crônica da família nobre de Zimmern, redigida entre 1559 e 1565 no sul da Alemanha. Ali o flautista extermina os roedores da cidade, fica sem receber e leva as crianças como cobrança.

Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm recolheram a versão completa em 1816, na coletânea de lendas alemãs, e foi por ela que o caso rodou o mundo. O trecho do enredo que todo mundo conhece é, portanto, o mais recente de todos, e o mais distante do dia registrado.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Para onde 130 crianças podem ter ido

A leitura mais discutida hoje entre historiadores alemães é a de migração organizada. No século XIII, recrutadores contratados por senhores territoriais percorriam as cidades do Weser oferecendo terra a quem povoasse o leste, e essas campanhas levaram populações inteiras da Baixa Saxônia para a Pomerânia, a Morávia e a Prússia.

O que sustenta essa leitura é o vocabulário das fontes. No alemão medieval, kinder designa filhos de uma cidade, não necessariamente meninos pequenos, e jovens em idade de formar família eram exatamente o público que um recrutador procurava.

O linguista Jürgen Udolph, da Universidade de Leipzig, publicou nos anos 2000 um levantamento de nomes de lugar e de sobrenomes na Prignitz e na Uckermark, ao norte de Berlim, apontando concentração de topônimos e de famílias com raízes do vale do Weser na região colonizada.

O que a enfraquece é a falta do documento de saída. Nenhum contrato de assentamento, lista de colonos ou carta de senhor territorial nomeando Hamelin foi localizado nos arquivos alemães, e semelhança de nomes não prova quem saiu de onde.

A segunda leitura trata o episódio como acidente coletivo. A palavra koppen indica elevações fora dos muros, e a expressão sobre o calvário aponta um lugar determinado no terreno, o que abre a hipótese de desabamento, de afogamento no Weser ou de morte em massa num ponto específico do caminho.

O que sustenta essa leitura é a precisão geográfica das fontes, que insistem num lugar, e o fato de a cidade ter marcado o episódio numa rua, a Bungelosenstraße, onde música e dança seguiram proibidas por séculos, tratamento reservado a caminho de cortejo fúnebre.

O que a enfraquece é a ausência de ossos. Nenhuma vala coletiva do final do século XIII foi escavada nos morros ao redor de Hamelin, e uma perda de 130 jovens num só lugar deixaria depósito ósseo localizável.

A terceira leitura aposta em doença ou em surto de comportamento coletivo. Epidemias de dança, registradas na Renânia em 1374 e em Estrasburgo em 1518, levaram multidões a caminhar e a dançar em procissão por dias até o colapso, e a figura do músico conduzindo um grupo casa com esse tipo de evento.

O que a enfraquece é a cronologia. Os surtos de dança documentados vêm quase um século depois do caso de Hamelin, e nenhuma crônica do Weser do século XIII registra episódio parecido.

Há ainda uma quarta hipótese, mais antiga e frágil: a de que as crianças teriam seguido uma pregação de cruzada infantil, do tipo que atravessou a Europa em 1212. O que a derruba é a distância de mais de setenta anos entre aquele movimento e o dia registrado pelas fontes de Hamelin.

O que ninguém consegue afirmar é o destino das 130 pessoas. Não existe registro de chegada, não existe sepultamento identificado e não existe carta de quem tenha ido, e a escolha entre migração, acidente e doença hoje é preferência de leitura, não conclusão apoiada em documento.

"Uma cidade inteira passa a contar os anos a partir da saída dos próprios filhos, proíbe música numa rua por séculos, e não deixa uma linha dizendo para onde eles foram?"

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Os arquivos que ninguém abriu até o fim

A primeira lacuna é de arquivo alemão oriental. Os livros de fundação de vilas da Pomerânia, da Prignitz e da Morávia, com listas de colonos e cidade de procedência, nunca receberam busca sistemática pelo nome Hamelin, e uma varredura dessas séries daria confirmação ou descarte direto da migração.

A segunda é de escavação. Georradar nos morros a leste da cidade velha e no trecho apontado como calvário diria se existe vala coletiva do final do século XIII, e mesmo uma resposta negativa bem documentada já eliminaria a hipótese de acidente num ponto só.

A terceira é de reconstituição do vitral. As descrições de quem viu o painel antes de 1660 estão dispersas em relatos de viagem e crônicas manuscritas, e reuni-las numa edição crítica remontaria figura a figura o que a igreja exibia.

A quarta é de busca pelo livro do deão Lude. O volume com a anotação em verso pode ter sido desmembrado, reencadernado ou catalogado sob outro título em bibliotecas da Baixa Saxônia, e uma varredura de catálogos com descrição física do códice ainda tem chance de localizá-lo.

A quinta é demográfica. Os registros fiscais de Hamelin do final do século XIII permitem estimar a população, e comparar 130 jovens com o total de habitantes mediria o tamanho do golpe.

A sexta é de crítica textual da entrada dos ratos. Rastrear cópia por cópia como o roedor migrou das crônicas do sul da Alemanha para as versões de Hamelin, entre 1559 e 1816, mostraria quem acrescentou o quê.

O caso hoje sustenta duas leituras com as mesmas fontes na mesa. Ou 130 jovens de Hamelin partiram vivos num contrato de colonização para o leste, e a cidade transformou a perda demográfica numa história de rapto; ou 130 jovens se perderam num acidente coletivo junto aos morros, e a cidade guardou o lugar na proibição de música de uma rua.

A escolha decide onde gastar a próxima pesquisa. Apostar na partida é ir para os arquivos de fundação de vilas do leste e para os nomes de família da Prignitz; apostar na perda é levar georradar aos morros e abrir sondagem no trecho do calvário. As duas contas estão acima.

 
 
 
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Segundo o texto, quanto tempo depois do dia registrado em 1284 a caçada aos ratos aparece pela primeira vez por escrito, na Crônica de Zimmern?

APoucas décadas depois, ainda no século XIII
BQuase um século depois, já no século XIV
CQuase três séculos depois, entre 1559 e 1565
DNo mesmo ano do desaparecimento, em outro documento

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