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As câmaras vazias dos dólmens de Gochang

A península coreana guarda cerca de 35 mil dólmens, e muitos dos abertos em Gochang e Hwasun não devolveram osso, urna nem enxoval

Tampa de granito de um dólmen sobre câmara vazia em Gochang

Dólmens de Gochang, sudoeste da Coreia

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: tampas de granito em arrozais e quintais.

Registro: cerca de 35 mil dólmens na península.

Anomalia: câmaras abertas sem osso nem enxoval.

A península coreana guarda cerca de 35 mil dólmens, na conta da Administração do Patrimônio Cultural da Coreia apresentada à UNESCO em 2000, a maior concentração do planeta. No parecer que o ICOMOS (o conselho que avalia sítios para a UNESCO) escreveu sobre Gochang e Hwasun naquele mesmo ano, boa parte das câmaras abertas sob essas pedras não tinha osso, urna nem enxoval.

Um túmulo existe para guardar alguém. Milhares destes não guardam ninguém que se possa achar.

Dólmen vem do bretão e quer dizer mesa de pedra: lajes fincadas no chão e uma tampa enorme deitada por cima. Em coreano a palavra é goindol (pedra apoiada), e quem anda pelo interior do país encontra essas mesas em arrozais, quintais e beiras de estrada, como se fizessem parte da paisagem desde sempre.

Gochang fica no sudoeste da Coreia do Sul, na província de Jeolla do Norte, perto do mar Amarelo. Na aldeia de Jungnim-ri, ao pé de uma fileira de morros baixos, centenas de tampas de granito se estendem ao longo da encosta, umas coladas nas outras.

Hwasun fica mais ao sul, em Jeolla do Sul, num vale estreito cortado por um rio. Lá as pedras se espalham pelas duas margens, e no alto do morro ainda aparecem as faces de rocha de onde os blocos foram arrancados.

Algumas tampas têm o tamanho de um carro. Outras lembram o teto de uma casa pequena. Ninguém arrasta pedras assim sem uma aldeia inteira puxando cordas, e sem alguém com força para mandar puxar.

Os conjuntos de Gochang, de Hwasun e da ilha de Ganghwa, perto de Seul, entraram juntos na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em dezembro de 2000.

A inscrição reconheceu a quantidade e a variedade das pedras. Ela não explicou o silêncio debaixo delas.

Quem ergueu as mesas, para que serviam as câmaras vazias e para onde foram os mortos, se é que houve mortos, é o caso de hoje.

Ele começa pelo que os arqueólogos acharam, e pelo que não acharam, ao levantar as tampas.

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I  O Registro

I, As mesas de pedra de Jungnim-ri

O SÍTIO

Dólmens de Gochang, na Coreia do Sul: tampas de granito deitadas sobre pedras baixas, ao pé da encosta de Jungnim-ri.

Dólmens de Gochang, na Coreia do Sul: tampas de granito deitadas sobre pedras baixas, ao pé da encosta de Jungnim-ri.

Foto: Elswhs at Dutch Wikipedia (Original text: Els Slots), Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O grupo de Jungnim-ri, em Gochang, é o conjunto mais denso de dólmens da Coreia. O parecer do ICOMOS de 2000 contou ali mais de 440 pedras, distribuídas em faixa pela base dos morros, quase todas viradas para o vale.

A densidade surpreendeu os próprios avaliadores. Em poucas partes do mundo tantos monumentos de pedra dividem um terreno tão curto, e em Gochang eles convivem com casas, hortas e um museu aberto em 2008 para receber visitantes.

Mesa, tabuleiro e tampa

Os arqueólogos coreanos separam os dólmens em três formas, e Gochang tem as três:

• Takja-sik (em forma de mesa): lajes altas formam uma câmara acima do chão e a tampa repousa sobre elas. É o tipo mais comum no norte da península.

• Baduk-pan-sik (em forma de tabuleiro de baduk, o jogo coreano de pedras pretas e brancas): uma tampa grossa sobre pedrinhas baixas, com a câmara enterrada embaixo. Predomina no sul.

• Gaeseok-sik (só de tampa): a pedra deita direto sobre a cova, sem apoio à vista.

Em Gochang, as três formas dividem a mesma encosta.

A mistura importa. Se cada forma pertencesse a um povo ou a uma época, Gochang teria recebido várias levas de construtores, ou um único grupo que conhecia todos os modelos.

A pedreira de Hwasun

Os dólmens de Hwasun ficaram esquecidos no mato até 1995, quando uma prospecção (a busca de vestígios a pé, antes de qualquer escavação) do museu da Universidade Nacional de Mokpo registrou o conjunto no vale.

O que Hwasun tem de raro é a origem das pedras. Nas encostas sobre os dólmens ficaram as paredes de rocha cortadas e blocos abandonados no meio do caminho, prova de que a tampa era tirada do próprio morro e descida até o lugar da cova.

A idade veio da cerâmica. As câmaras que guardavam algo deram cacos do período Mumun (sem decoração, pela louça lisa que o define), a Idade do Bronze coreana, e o parecer da UNESCO situa a maior parte dos dólmens no primeiro milênio antes de Cristo.

O pouco que apareceu

Quando havia objetos, eram poucos e escolhidos. Surgiram adagas de pedra polida, pontas de flecha, potes de hongdo (a cerâmica vermelha brunida) e, em raros casos, a adaga de bronze em forma de alaúde, o bipa-hyeong donggeom, uma lâmina cara que nem toda aldeia possuía.

Muitas outras câmaras, quando abertas, devolveram só terra.

O registro fixa a forma, o número, a pedreira e a época. Ele não diz por que tanta câmara estava vazia.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Túmulo, altar ou marco de terra

Uma tampa de dezenas de toneladas pede trabalho coletivo, comida para quem trabalha e alguém que organize a obra. Quem pagou esse esforço queria marcar algo importante, e a dúvida é o quê.

O contexto ajuda. O período Mumun é o tempo em que o arroz irrigado se espalha pelo sul da península, e arroz em campo alagado exige canais, mutirão e terra que precisa ser defendida.

As três leituras

Três respostas disputam o sentido das pedras:

• Túmulos de famílias de chefe, ligados ao surgimento de desigualdade nas aldeias, leitura que Sarah Milledge Nelson desenvolve no livro The Archaeology of Korea, publicado pela Cambridge University Press em 1993.

• Altares, ou jedan (altar, em coreano), pedras de rito coletivo sem morto nenhum, leitura aplicada por arqueólogos coreanos sobretudo às grandes mesas sem câmara visível embaixo.

• Marcos de linhagem e de território, sinais que diziam a quem pertencia o vale, ideia que Gina Barnes discute no livro State Formation in Korea, de 2001, ao ligar os dólmens à disputa por terra boa de plantio.

Uma pedra enorme pode marcar um morto, um rito ou um dono.

A primeira leitura explica as adagas de bronze, que só um chefe teria, mas tropeça na quantidade. Com dezenas de milhares de dólmens, não sobram chefes para tantas tampas.

A segunda explica as câmaras vazias sem esforço, mas não serve para os baduk-pan-sik, cuja câmara está enterrada e foi feita para receber algo de tamanho humano.

A terceira explica a fileira de Jungnim-ri, pedras que funcionariam como cerca de uma família ao longo das gerações, mas ainda deixa sem resposta por que cavar uma câmara se o objetivo era só marcar o chão.

O cenotáfio

Há uma quarta hipótese, menor. Algumas câmaras podem ter sido cenotáfios (túmulos em memória de alguém enterrado em outro lugar), feitos para um parente perdido no mar ou na guerra, cujo corpo nunca voltou.

Nenhuma das quatro tem prova direta. Os dólmens não trazem inscrição, e a gente do Mumun não deixou escrita.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O osso que o solo comeu

O primeiro ponto que falta provar é o mais simples. A Coreia é um país de granito, e o solo que nasce do granito costuma ser ácido. Osso é feito sobretudo de fosfato de cálcio, que se desfaz devagar em terra ácida e úmida.

Em muitos sítios coreanos da Idade do Bronze, o esqueleto inteiro some. O vazio de Gochang e de Hwasun pode ser química, e não intenção: o morto entrou na câmara e o chão o dissolveu ao longo de quase três milênios.

O segundo ponto é o saque. Uma tampa visível de longe anuncia a cova embaixo, e séculos de lavradores, caçadores de tesouro e construtores tiveram tempo de abrir câmaras, levar o bronze e reaproveitar lajes em muros e alicerces.

O saque explica a falta de enxoval, mas não a de osso. Ladrão de bronze não costuma levar esqueleto.

O vazio pode ser obra do solo, do saqueador ou de quem ergueu a pedra.

O teste que ninguém fez em série

Existe um jeito de separar as três causas. O corpo que se decompõe deixa no chão fósforo e outras marcas químicas, mesmo quando o osso some. Medir o fósforo do piso de cada câmara diria se houve ali um morto.

Esse tipo de análise foi usado em sepulturas da Europa e da América. Nas publicações em inglês sobre Gochang e Hwasun, não aparece um levantamento sistemático dessas câmaras com esse método, e muitas foram escavadas décadas atrás, antes que ele se tornasse comum.

O terceiro ponto é a cronologia. Dizer primeiro milênio antes de Cristo é largo demais. Sem datas de radiocarbono (a medida do carbono que resta em carvão e matéria orgânica) para cada grupo, não se sabe se as mesas de Jungnim-ri subiram em uma geração ou em quinhentos anos.

O que se sabe com segurança é firme. Gente do período Mumun cortou granito nos morros de Hwasun, ergueu na península dezenas de milhares de mesas de pedra em três formas, concentrou centenas delas em Gochang e enterrou sob algumas adagas, flechas e cerâmica vermelha.

O resto continua sem prova. Falta saber se as câmaras vazias perderam o morto para o solo ou nunca receberam um.

Câmaras que guardaram gente até o granito ácido dissolver o último osso, como pede a lógica do túmulo de chefe, ou mesas erguidas para o rito e para marcar a terra, sem ninguém embaixo, como sugerem as tampas sem câmara e o arroz que precisava de dono. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá à química do solo ou ao silêncio das câmaras.

 
 
 

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Em que ano os conjuntos de Gochang, Hwasun e Ganghwa entraram na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO?

A1995, ano da prospecção que achou os dólmens de Hwasun
B2000, ano da inscrição dos três conjuntos na lista
C1993, ano do livro de Sarah Milledge Nelson
D2008, ano da abertura do museu em Gochang

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