|
|
|
100% escolheram Pegadas do Diabo de Devon. Sai em 25/09.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A vala de 160 quilômetros que a Nigéria atribui a uma rainha
Em volta de Ijebu-Ode, uma trincheira cavada por volta do ano 1000 leva o nome de Bilikisu Sungbo, e a tradição diz que ela ergueu a obra inteira
|
A vala do Eredo de Sungbo sob a mata
|
| ▼ |
|
FICHA DO ARQUIVO
Relato: uma vala de paredes quase verticais corre em anel irregular em volta de Ijebu-Ode, no sudoeste da Nigéria, escondida sob a mata.
Registro: o arqueólogo Patrick Darling mapeou cerca de 160 quilômetros de traçado na década de 1990 e datações de radiocarbono situaram a obra por volta do ano 1000.
Anomalia: a tradição local credita a vala inteira a uma só mulher, Bilikisu Sungbo, que a memória identifica com a rainha de Sabá.
|
|
O radiocarbono colhido pelo arqueólogo britânico Patrick Darling, da Universidade de Bournemouth, em escavações da década de 1990, situa a abertura da grande vala de Ijebu por volta do ano 1000 da era comum. A tradição oral guardada no santuário de Oke-Eri, a poucos quilômetros de Ijebu-Ode, credita a mesma vala a Bilikisu Sungbo, mulher que a memória local identifica com a rainha de Sabá, figura bíblica situada quase dois mil anos antes.
A obra se chama Eredo de Sungbo, e eredo, na língua iorubá, quer dizer vala ou fosso. Ela corre em anel irregular em volta de Ijebu-Ode, no estado de Ogun, sudoeste da Nigéria, e o levantamento de Darling mediu cerca de 160 quilômetros de perímetro. Em vários trechos, ele registrou cerca de 20 metros de profundidade, com paredes quase verticais cortadas no solo avermelhado.
Por séculos, a vala ficou invisível para quem vinha de fora. A mata tropical cresceu dentro dela e sobre as margens, e os moradores conheciam segmentos soltos, cada aldeia com o seu, sem enxergar o traçado completo. Só o mapeamento sistemático, segmento por segmento, fechou a linha num circuito que abraça um território inteiro, com vilas, roças e rios lá dentro.
O choque entre as duas datas vai além do calendário. Uma trincheira desse porte exige gente organizada, comida para quem cava e alguém com autoridade para mandar abrir a terra. Se a data de Darling vale, a vala nasceu junto do reino de Ijebu, um dos Estados iorubás mais antigos, e a questão passa a ser quem, dentro desse reino, teve poder para encomendá-la.
A lenda responde com uma pessoa só. A arqueologia responde com séculos de trabalho coletivo e nenhum nome. As duas versões convivem sem se anular, e os romeiros que visitam o túmulo da rainha seguem chegando a Oke-Eri todos os anos.
A investigação começa pela terra cortada: como a vala foi medida, o que as amostras dataram e que espaço ela fechava.
Continue lendo ↓
|
|
I O Registro
I, A trincheira que a mata escondia
|
|
O SÍTIO
Um trecho da vala do Eredo de Sungbo, perto de Ijebu-Ode, com as paredes de terra vermelha cobertas pela mata.
Foto: angiekake, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
|
O Eredo de Sungbo só ganhou forma de monumento quando alguém percorreu o circuito completo. Patrick Darling, que trabalhava com arqueologia de paisagem na África Ocidental, liderou equipes que caminharam o traçado na década de 1990, abrindo passagem na vegetação e marcando a posição da vala com GPS, aparelho de localização por satélite então recente no trabalho de campo.
O solo explica por que a trincheira ainda existe. A região assenta sobre laterita (terra vermelha rica em ferro que endurece em contato com o ar), material que aceita corte vertical sem desmoronar. Uma vala desse tipo cavada em areia teria desabado em poucas décadas; na laterita, as paredes seguram há cerca de mil anos.
A terra retirada não foi descartada ao acaso. Darling identificou aterros levantados com o material escavado, formando uma barreira dupla: o fosso fundo e, junto dele, a elevação de terra. Quem tentasse cruzar enfrentava a descida, a subida e a crista do aterro.
As datas saíram de carvão preso nas camadas associadas à obra. O radiocarbono (método que mede quanto carbono radioativo restou em matéria orgânica) apontou para o intervalo entre os séculos IX e XI, janela que coincide com a formação dos primeiros reinos iorubás e com o florescimento de Ifé, a cidade sagrada dos iorubás, a cerca de cem quilômetros dali.
O que a vala fechava
O traçado não cerca uma cidade murada no sentido europeu. Ele envolve Ijebu-Ode, que se tornou a capital do reino de Ijebu, e também um cinturão largo de terras agrícolas, florestas e aldeias. Darling interpretou o conjunto como marco de fronteira, a linha que dizia onde começava o domínio do governante de Ijebu, com função defensiva somada à simbólica.
A leitura encaixa num padrão regional. No antigo reino do Benin, a leste, uma rede de valas e aterros chamada iya (em língua edo, fosso com aterro) cercava a capital e as aldeias dependentes, obra que o próprio Darling estudou antes de chegar a Ijebu.
A vala não guardava uma cidade, ela desenhava no chão a borda de um reino. |
Em 1999, Darling declarou à BBC que o Eredo podia ser o maior monumento isolado da África, comparação que o levou às manchetes internacionais naquele ano. A frase se referia ao volume de terra movida e à extensão do circuito, e não à altura, terreno em que as pirâmides do Egito seguem sem rival.
A repercussão trouxe visitantes e também uma cobrança. Se a vala era tão grande, alguém a projetou, e a arqueologia não tinha nome algum para oferecer. A tradição local tinha, e havia séculos.
| |