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A vala de 160 quilômetros que a Nigéria atribui a uma rainha

Em volta de Ijebu-Ode, uma trincheira cavada por volta do ano 1000 leva o nome de Bilikisu Sungbo, e a tradição diz que ela ergueu a obra inteira

Trincheira funda de paredes verticais de terra vermelha cortando a mata tropical, mapa de levantamento preso por trena de latão e régua de aço em primeiro plano, sob luz âmbar

A vala do Eredo de Sungbo sob a mata

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: uma vala de paredes quase verticais corre em anel irregular em volta de Ijebu-Ode, no sudoeste da Nigéria, escondida sob a mata.

Registro: o arqueólogo Patrick Darling mapeou cerca de 160 quilômetros de traçado na década de 1990 e datações de radiocarbono situaram a obra por volta do ano 1000.

Anomalia: a tradição local credita a vala inteira a uma só mulher, Bilikisu Sungbo, que a memória identifica com a rainha de Sabá.

O radiocarbono colhido pelo arqueólogo britânico Patrick Darling, da Universidade de Bournemouth, em escavações da década de 1990, situa a abertura da grande vala de Ijebu por volta do ano 1000 da era comum. A tradição oral guardada no santuário de Oke-Eri, a poucos quilômetros de Ijebu-Ode, credita a mesma vala a Bilikisu Sungbo, mulher que a memória local identifica com a rainha de Sabá, figura bíblica situada quase dois mil anos antes.

A obra se chama Eredo de Sungbo, e eredo, na língua iorubá, quer dizer vala ou fosso. Ela corre em anel irregular em volta de Ijebu-Ode, no estado de Ogun, sudoeste da Nigéria, e o levantamento de Darling mediu cerca de 160 quilômetros de perímetro. Em vários trechos, ele registrou cerca de 20 metros de profundidade, com paredes quase verticais cortadas no solo avermelhado.

Por séculos, a vala ficou invisível para quem vinha de fora. A mata tropical cresceu dentro dela e sobre as margens, e os moradores conheciam segmentos soltos, cada aldeia com o seu, sem enxergar o traçado completo. Só o mapeamento sistemático, segmento por segmento, fechou a linha num circuito que abraça um território inteiro, com vilas, roças e rios lá dentro.

O choque entre as duas datas vai além do calendário. Uma trincheira desse porte exige gente organizada, comida para quem cava e alguém com autoridade para mandar abrir a terra. Se a data de Darling vale, a vala nasceu junto do reino de Ijebu, um dos Estados iorubás mais antigos, e a questão passa a ser quem, dentro desse reino, teve poder para encomendá-la.

A lenda responde com uma pessoa só. A arqueologia responde com séculos de trabalho coletivo e nenhum nome. As duas versões convivem sem se anular, e os romeiros que visitam o túmulo da rainha seguem chegando a Oke-Eri todos os anos.

A investigação começa pela terra cortada: como a vala foi medida, o que as amostras dataram e que espaço ela fechava.

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I  O Registro

I, A trincheira que a mata escondia

O SÍTIO

Um trecho da vala do Eredo de Sungbo, perto de Ijebu-Ode, com as paredes de terra vermelha cobertas pela mata.

Um trecho da vala do Eredo de Sungbo, perto de Ijebu-Ode, com as paredes de terra vermelha cobertas pela mata.

Foto: angiekake, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O Eredo de Sungbo só ganhou forma de monumento quando alguém percorreu o circuito completo. Patrick Darling, que trabalhava com arqueologia de paisagem na África Ocidental, liderou equipes que caminharam o traçado na década de 1990, abrindo passagem na vegetação e marcando a posição da vala com GPS, aparelho de localização por satélite então recente no trabalho de campo.

O solo explica por que a trincheira ainda existe. A região assenta sobre laterita (terra vermelha rica em ferro que endurece em contato com o ar), material que aceita corte vertical sem desmoronar. Uma vala desse tipo cavada em areia teria desabado em poucas décadas; na laterita, as paredes seguram há cerca de mil anos.

A terra retirada não foi descartada ao acaso. Darling identificou aterros levantados com o material escavado, formando uma barreira dupla: o fosso fundo e, junto dele, a elevação de terra. Quem tentasse cruzar enfrentava a descida, a subida e a crista do aterro.

As datas saíram de carvão preso nas camadas associadas à obra. O radiocarbono (método que mede quanto carbono radioativo restou em matéria orgânica) apontou para o intervalo entre os séculos IX e XI, janela que coincide com a formação dos primeiros reinos iorubás e com o florescimento de Ifé, a cidade sagrada dos iorubás, a cerca de cem quilômetros dali.

O que a vala fechava

O traçado não cerca uma cidade murada no sentido europeu. Ele envolve Ijebu-Ode, que se tornou a capital do reino de Ijebu, e também um cinturão largo de terras agrícolas, florestas e aldeias. Darling interpretou o conjunto como marco de fronteira, a linha que dizia onde começava o domínio do governante de Ijebu, com função defensiva somada à simbólica.

A leitura encaixa num padrão regional. No antigo reino do Benin, a leste, uma rede de valas e aterros chamada iya (em língua edo, fosso com aterro) cercava a capital e as aldeias dependentes, obra que o próprio Darling estudou antes de chegar a Ijebu.

A vala não guardava uma cidade, ela desenhava no chão a borda de um reino.

Em 1999, Darling declarou à BBC que o Eredo podia ser o maior monumento isolado da África, comparação que o levou às manchetes internacionais naquele ano. A frase se referia ao volume de terra movida e à extensão do circuito, e não à altura, terreno em que as pirâmides do Egito seguem sem rival.

A repercussão trouxe visitantes e também uma cobrança. Se a vala era tão grande, alguém a projetou, e a arqueologia não tinha nome algum para oferecer. A tradição local tinha, e havia séculos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, A viúva sem filhos de Oke-Eri

A tradição de Ijebu conta a história de Bilikisu Sungbo, mulher rica e poderosa que teria vivido na região e ficado viúva sem deixar filhos. Sem herdeiros para carregar sua memória, ela decidiu erguer uma obra que a lembrasse depois de partir, e mandou cavar a vala em volta das terras que controlava.

O túmulo atribuído a ela fica em Oke-Eri, perto de Ijebu-Ode, e funciona como santuário. Romeiros de várias religiões visitam o lugar, muçulmanos e cristãos entre eles, e deixam oferendas e pedidos. A devoção cresceu em torno da figura da rainha, e a vala virou prova material da história.

O primeiro nome dela abre a pista mais forte. Bilikisu é a forma iorubá de Bilqis, o nome que a tradição islâmica dá à rainha de Sabá, a soberana que, no relato bíblico do Primeiro Livro dos Reis e na Sura 27 do Alcorão (capítulo 27 do livro sagrado muçulmano), visita o rei Salomão.

Um nome que chegou depois da vala

O islamismo se firmou entre os iorubás muitos séculos depois do ano 1000. A identificação de Sungbo com a rainha de Sabá depende, portanto, de uma camada de tradição que não existia quando a vala foi aberta. Os estudiosos do tema leem a associação como acréscimo tardio: uma figura local, lembrada como fundadora poderosa, recebeu o nome da rainha mais famosa do mundo islâmico.

A lenda juntou duas mulheres de épocas diferentes num só túmulo.

A camada de Sabá, porém, não apaga Sungbo. Ela pode ter sido uma pessoa real, uma nobre ou governante local cuja memória cresceu até absorver a obra inteira. Mulheres com poder político aparecem na história iorubá em cargos titulados, como a iyalode (chefe das mulheres, com assento no conselho da cidade), e a hipótese de uma líder por trás da vala nada tem de absurda.

O obstáculo é de escala. Uma pessoa só não cava 160 quilômetros, e nem uma vida inteira basta para coordenar o trabalho, se a obra foi aberta em etapas. A versão da viúva que ergue tudo sozinha tem estrutura de narrativa fundadora: condensa num rosto o esforço de gerações.

Existe ainda um terceiro caminho. Sungbo pode ter comandado um segmento, ou a fase final, e a tradição estendeu o crédito ao circuito completo, como acontece com reis a quem se atribuem muralhas começadas por antecessores. Nessa leitura, a lenda guarda um núcleo verdadeiro e um contorno inflado.

Nenhuma das três versões foi testada no chão. O túmulo de Oke-Eri nunca passou por escavação arqueológica, e o respeito ao santuário, que segue ativo, torna improvável que passe.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Quem cavou, e em quantas gerações

A primeira lacuna está nas próprias datas. As amostras de Darling vieram de poucos pontos de um circuito de 160 quilômetros, e um conjunto pequeno de datas não diz se a vala foi aberta numa campanha só ou em séculos de trabalho intermitente. Um segmento pode ter o dobro da idade do vizinho sem que as amostras atuais percebam.

A segunda é a organização do trabalho. Darling calculou o volume de terra removida em milhões de metros cúbicos, mas não há registro de como a mão de obra era convocada: tributo em trabalho devido ao governante, esforço coletivo das aldeias ou equipes especializadas. A resposta mudaria a leitura política do reino de Ijebu no ano 1000.

A terceira é a função. Fronteira, defesa, marco religioso ou as três juntas: a vala comporta todas, e só escavação nas passagens, os pontos onde o fosso se interrompe para dar acesso, diria se havia portões vigiados, santuários de entrada ou apenas trilhas.

O que ameaça as respostas

A quarta lacuna é de preservação. Ijebu-Ode cresceu, e estradas, loteamentos e lixo cortaram ou aterraram segmentos da vala. A Nigéria inscreveu o Eredo de Sungbo na lista indicativa da UNESCO em 1995, etapa anterior à candidatura a patrimônio mundial, mas a inscrição nunca avançou para a lista principal, e parte do traçado se perde a cada nova obra urbana.

Cada segmento aterrado leva junto as amostras que poderiam datá-lo.

A quinta é documental. O reino de Ijebu daquela época não deixou escrita, e os primeiros relatos europeus sobre a região, de navegadores portugueses do século XVI, descrevem Ijebu como reino rico e populoso, sem referência conhecida à vala. A tradição oral é a única fonte que atravessa os mil anos, e ela chegou até hoje moldada pelo islamismo.

Três achados mudariam o quadro. Uma série de datas colhidas em dezenas de pontos do circuito diria se a obra tem um só momento ou vários. A escavação de uma passagem mostraria como se entrava no território. E o registro sistemático das versões da lenda em outras cidades ijebus revelaria se o nome de Sungbo sempre esteve ligado ao circuito completo ou só a um segmento dele.

O que se sustenta hoje é firme: uma sociedade iorubá organizada abriu, por volta do ano 1000, uma trincheira de cerca de 160 quilômetros em solo de laterita, e a memória local entregou a autoria a uma mulher cujo túmulo ainda recebe romeiros. Quem planejou e quantas gerações cavaram segue sem prova material.

Uma obra de gerações de chefes de Ijebu, que a memória resumiu num único rosto, ou o projeto de uma governante real chamada Sungbo, que a lenda de Sabá apenas vestiu com outro nome. As duas leituras estão na mesa acima.

 
 
 
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Quiz da edição

Segundo a edição, qual material do solo permite que as paredes quase verticais da vala de Ijebu resistam há cerca de mil anos?

AAreia fina, que se firma quando molhada
BArgila branca, que endurece com a chuva
CLaterita, terra vermelha rica em ferro
DCalcário, que forma paredes de pedra

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