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ED 096

A erupção de 1808 que o gelo registrou e ninguém localizou

Duas calotas guardam a marca da segunda maior erupção em cinco séculos, e nenhum vulcão foi apontado por consenso como a origem.

Uma bancada de laboratório frio à noite com um testemunho de gelo cilíndrico numa bandeja, um gráfico impresso de concentração de sulfato com um pico marcado a vermelho, um caderno de observação astronômica do início do século 19, um mapa dobrado com a faixa tropical destacada, um paquímetro de latão e caixas de arquivo cinza etiquetadas à mão, tudo sob luz âmbar focal

O testemunho de gelo aberto sobre a bancada

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: testemunhos de gelo perfurados nos dois polos guardam, na camada correspondente ao fim de 1808, um pico de sulfato que só perde para o da erupção do Tambora, em 1815.

Registro: o sinal aparece na Groenlândia e na Antártida ao mesmo tempo, o que indica uma nuvem que subiu à estratosfera na faixa tropical e se espalhou pelos dois hemisférios em poucos meses.

Anomalia: nenhuma montanha foi apontada por consenso como a origem, e o evento segue catalogado apenas pela data que o gelo carimbou.

Uma erupção grande deixa três rastros: uma montanha alterada, um relato de quem estava perto e uma assinatura química no ar. O evento de 1808 tem o terceiro com precisão de estação do ano, e os dois primeiros faltam.

A assinatura mora no gelo. Cada verão derretido e recongelado nas calotas polares deixa uma camada distinta, e a neve que cai em cima sela o que estava no ar naquele ano, inclusive o ácido sulfúrico que uma erupção despeja na estratosfera.

Contar essas camadas para trás funciona como contar anel de árvore, e um testemunho perfurado na Groenlândia devolve cronologia anual até bem antes da era cristã.

Nos dois polos, na camada correspondente ao fim de 1808 e ao começo de 1809, existe um pico de sulfato que ninguém consegue atribuir. Ele é grande. Em depósito total, fica em segundo lugar entre tudo o que os últimos quinhentos anos registraram.

O primeiro lugar tem nome, data e testemunhas. O Tambora explodiu na ilha de Sumbawa em abril de 1815 e produziu no ano seguinte o verão que a Europa e a América do Norte não tiveram.

O segundo lugar não tem nada disso. Tem uma data que o gelo carimbou, tem um volume estimado de enxofre lançado, tem consequência climática medida em anel de árvore e em registro de colheita, e tem um espaço em branco no lugar onde deveria estar o nome da montanha.

Existe um detalhe que estreita o cerco. O sinal aparece nos dois hemisférios, com poucos meses de diferença entre um polo e o outro, e esse padrão bipolar só acontece quando a nuvem sobe alto o suficiente na faixa equatorial para ser distribuída pela circulação estratosférica.

Uma erupção de latitude alta deposita sulfato só do seu lado do planeta. O evento de 1808 marcou os dois. A conclusão é geográfica antes de ser vulcanológica: a origem está em algum ponto entre os trópicos.

A lista de suspeitos cai para a faixa que vai da Indonésia ao Pacífico central, passando pelas Filipinas e pela Melanésia. Em 1808, ela tinha pouquíssimos observadores dispostos a escrever o que viam.

O que existe de firme começa nas camadas, contadas uma a uma.

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I  O Registro

Duas calotas marcam o mesmo ano

A perfuração de gelo funciona como leitura de arquivo. O tubo retirado traz a sequência inteira de nevadas, e o laboratório mede em cada trecho a concentração de sulfato, de poeira e de sal marinho.

Em vários testemunhos independentes, o mesmo pico aparece na mesma posição. Ele foi identificado no gelo da Groenlândia e confirmado em locais antárticos distantes entre si, entre eles a região de Law Dome e o sítio de perfuração profunda do oeste antártico.

A concordância entre calotas é o dado central. Dois hemisférios, testemunhos furados por equipes diferentes em décadas diferentes, e o mesmo carimbo químico na mesma camada anual.

A datação foi afinada por contagem de camadas e por comparação com marcos conhecidos, com o pico do Tambora servindo de âncora seis anos acima na mesma coluna.

Um sinal de sulfato presente nos dois polos exige injeção estratosférica na faixa tropical, e a magnitude do evento de 1809 fica atrás apenas da do Tambora nos últimos quinhentos anos.

Jihong Cole-Dai, David Ferris, Alyson Lanciki, Joël Savarino, Mélanie Baroni e Mark Thiemens, Cold Decade (AD 1810-1819) Caused by Tambora (1815) and Another (1809) Stratospheric Volcanic Eruption, Geophysical Research Letters, 2009

A química do enxofre adicionou uma camada de prova. A composição isotópica do sulfato nessas amostras carrega a marca de reações que só ocorrem acima da camada de ozônio, o que separa enxofre vulcânico estratosférico de sulfato de origem local ou marinha.

O efeito no clima veio de outra fonte de dados. Séries de anel de crescimento de árvore no hemisfério norte registram verões frios na virada da década, e 1810 aparece entre os anos mais frios de todo o registro instrumental e proxy do período.

Registros de colheita e de preço de cereal na Europa acompanham o mesmo desenho. A década de 1810 entrou para a história climática como um bloco frio contínuo, e a explicação padrão atribuía tudo ao Tambora.

O gelo mostrou que a conta não fechava. O resfriamento começa antes de 1815, e o pico de 1808 explica exatamente o degrau que faltava.

Há ainda dois relatos humanos que sobreviveram, os dois vindos da América espanhola. O naturalista Francisco José de Caldas, que dirigia o observatório de Bogotá, anotou em dezembro de 1808 uma névoa persistente que apagava o brilho do sol sem impedir a leitura das estrelas.

Um vapor transparente cobre a face do céu desde o dia onze, tira do sol o seu esplendor e o reduz a um disco que se pode observar sem incômodo para a vista.

Francisco José de Caldas, Semanario del Nuevo Reyno de Granada, 1809

Em Lima, o médico José Hipólito Unanue descreveu no começo de 1809 crepúsculos avermelhados fora do comum, com o horizonte incandescente muito depois do pôr do sol.

São exatamente os dois efeitos ópticos que uma camada de aerossol na estratosfera produz, e as duas cidades ficam a milhares de quilômetros uma da outra na mesma faixa tropical.

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II  A Pergunta em Aberto

Cinco candidatos e nenhuma assinatura

A primeira dificuldade é o mapa. A faixa tropical concentra centenas de vulcões ativos, muitos deles em ilhas pequenas, e alguns inteiramente submarinos, sem cume acima da água para registrar cicatriz visível.

A segunda é o silêncio documental. Em 1808, a Espanha estava sob invasão francesa, as colônias americanas entravam em guerra de independência e boa parte do Pacífico não tinha administração colonial capaz de reportar nada.

Os candidatos que a literatura discute seguem duas linhas. A primeira aposta na Indonésia, onde o arco vulcânico é o mais produtivo do planeta e onde uma caldeira de tamanho compatível poderia ter passado sem registro escrito.

A segunda aposta no Pacífico sudoeste, com atenção especial para o arco de Tonga e para as ilhas de Vanuatu, onde erupções submarinas de grande porte deixam pouquíssima marca em terra firme.

O obstáculo comum às duas é a cicatriz. Uma erupção do porte que o gelo indica abre caldeira, altera linha de costa e deposita camada espessa de cinza nas ilhas vizinhas, e nenhuma estrutura da faixa tropical foi datada com segurança nesse ano.

A magnitude do evento sugere uma erupção de grande porte na faixa tropical, e ainda assim nenhuma fonte vulcânica foi identificada com confiança para o sinal de 1808 e 1809.

Alvaro Guevara-Murua, Erica Hendy, Alison Rust e Katharine Cashman, Observations of a Stratospheric Aerosol Veil from a Tropical Volcanic Eruption in December 1808, Climate of the Past, 2014

Há uma hipótese que dispensa a montanha. Uma erupção submarina profunda pode injetar enxofre sem construir cone emerso, e a coluna de água absorveria parte do material sólido enquanto o gás subiria.

O contra-argumento é energético. Água profunda tende a abafar a explosão em vez de amplificá-la, e injetar sulfato a mais de vinte quilômetros de altitude exige uma coluna que a coluna de água tende a impedir.

Uma leitura alternativa questiona a própria datação. Contagem de camadas acumula erro, e um deslize de um ou dois anos poderia aproximar o pico de uma erupção conhecida do período.

Ela esbarra na concordância entre testemunhos. Sítios distintos, com taxas de acumulação de neve muito diferentes, chegam ao mesmo intervalo, e os relatos de Bogotá e de Lima amarram a data de forma independente do gelo.

Existe ainda a possibilidade de dois eventos somados. Duas erupções médias em sequência curta produziriam um pico único no gelo, o que explicaria a ausência de uma cicatriz grande o suficiente para ser óbvia.

A objeção é o formato do sinal. Deposição em dois pulsos costuma deixar assimetria detectável na camada, e as amostras analisadas mostram o desenho de uma injeção concentrada.

Sobra uma erupção de porte quase continental, com efeito climático medido em três continentes, sem montanha, sem cinza datada e sem uma linha escrita por quem estava perto o bastante para ouvir.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que o gelo ainda não devolveu

O que está firme é o corpo físico da prova. O pico existe, aparece nos dois polos, tem assinatura isotópica de estratosfera e tem consequência climática registrada em anel de árvore e em série de colheita.

O que segue aberto é a localização, o tipo de edifício vulcânico envolvido e o volume real de magma, que hoje só é estimado a partir do enxofre depositado.

A primeira medida é a caça ao caco de vidro vulcânico. Fragmentos microscópicos presos na mesma camada de gelo carregam composição química específica, e essa composição funciona como impressão digital do magma de origem.

A segunda é o banco de comparação. Cada vulcão tropical tem uma assinatura geoquímica própria em depósitos já catalogados, e cruzar o caco do gelo com esse banco apontaria a origem sem precisar de nenhum relato escrito.

A terceira é a datação de campo em ilha remota. Depósitos de cinza sem data em Vanuatu, em Tonga e no leste da Indonésia podem ser amarrados por radiocarbono em material vegetal carbonizado sob a camada.

A quarta é o mapeamento submarino. Levantamento batimétrico detalhado do arco de Tonga e da região de Banda revelaria caldeiras submersas cuja idade ninguém mediu.

A quinta é o arquivo naval. Diários de bordo de navios mercantes e baleeiros que cruzaram o Pacífico entre 1808 e 1810 registram condições de céu, e uma varredura sistemática desses cadernos pode devolver a observação que falta.

A sexta é o registro de coral. Colônias de crescimento anual guardam variação de temperatura da água e de luz incidente, e um sinal simultâneo em recifes distantes daria o mapa da sombra que a nuvem projetou.

A sétima é a releitura dos relatos que já existem. As anotações de Caldas e de Unanue foram lidas de forma sistemática pela primeira vez há pouco mais de uma década, e arquivos hispano-americanos e asiáticos do mesmo período seguem sem varredura equivalente.

O caso tem uma assimetria difícil de engolir. Sobre o efeito, existe medição química, série climática, relato astronômico e data com precisão de mês.

Sobre a causa, o arquivo inteiro cabe num pico de gráfico que nenhuma montanha assumiu.

 
 
 
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