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ED 080

Os 129 homens que o Ártico não devolveu

Dois navios saíram do Tâmisa em 1845 com provisão para três anos, e o Ártico devolveu uma única folha de papel em catorze anos de buscas.

O interior da câmara de um navio da Marinha britânica preso no gelo do Ártico à noite, com vigas de carvalho e uma janela de popa coberta de geada, um formulário impresso do Almirantado dobrado ao lado de um cilindro de latão aberto sobre a carta náutica de um estreito congelado, um sextante e um cronômetro parado, um prato de estanho e uma lata de conserva soldada com a tampa aberta, corda de cânhamo enrolada e a lâmina de um trenó encostada no canto, tudo sob luz âmbar focal de um lampião de óleo

O cilindro de latão e o formulário do Almirantado

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 19 de maio de 1845 os navios HMS Erebus e HMS Terror deixaram a Inglaterra com 129 homens e provisão para três anos, à procura da Passagem do Noroeste, e nenhum deles voltou.

Registro: um formulário do Almirantado achado sob um monte de pedras na ilha King William em 1859 traz duas mensagens na mesma folha, uma de 28 de maio de 1847 e outra de 25 de abril de 1848.

Anomalia: os dois cascos foram localizados quase intactos em 2014 e 2016, e um deles estava mais de cem quilômetros ao sul do ponto onde o papel diz que os navios foram abandonados.

Uma expedição polar britânica do século dezenove era, antes de tudo, uma máquina de produzir papel. A Marinha não mandava navios ao Ártico para explorar e contar a história na volta. Mandava para registrar enquanto acontecia.

A primeira camada do sistema era o formulário. Cada navio levava cilindros de metal e folhas impressas do Almirantado, com o mesmo pedido repetido em seis idiomas: quem achasse aquilo deveria anotar data e lugar e devolver o papel ao consulado mais próximo.

O procedimento era curto. Preencher, enrolar, lacrar no cilindro e enterrar sob um monte de pedras erguido num ponto alto da costa. No Ártico não há árvore para atrapalhar a vista, e uma pilha de pedras num cabo baixo se enxerga de longe.

A segunda camada era o diário de bordo. O oficial de quarto anotava rumo, estado do gelo, temperatura, doentes na enfermaria e serviço executado. Cada navio mantinha o próprio livro, e o comandante respondia por ele diante de uma corte marcial.

A terceira camada era o depósito. Comida, carvão e correspondência ficavam em pontos combinados da costa, e quem passava por lá deixava recado dizendo por onde pretendia seguir.

Nada dessa rotina dependia de heroísmo. Era serviço administrativo, cobrado em inspeção, e funcionava porque não exigia que alguém sobrevivesse para contar.

As três camadas serviam ao mesmo propósito. Se o pior acontecesse, a expedição perdida ainda contaria a própria história para quem viesse atrás, um monte de pedras por vez.

Em 1845, duas embarcações da Marinha britânica entraram no Ártico equipadas exatamente segundo esse manual, com cilindro, formulário, diário, depósito e provisão para três anos de gelo.

Catorze anos e mais de trinta expedições de busca depois, tudo que o Ártico tinha devolvido do sistema inteiro era uma única folha impressa, com duas mensagens escritas com onze meses de diferença.

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I  O Registro

As duas mensagens na mesma folha

O Erebus e o Terror não eram navios comuns. Tinham nascido como bombardeiros, com casco reforçado para aguentar o coice de morteiros pesados, e o Almirantado os converteu para o gelo.

A conversão foi cara: chapa de ferro na proa, locomotiva a vapor em cada porão movendo hélice retrátil, aquecimento a vapor nos alojamentos.

Os porões levavam provisão para três anos, com mais de oito mil latas de conserva de um contrato fechado às pressas com Stephan Goldner, semanas antes da partida.

Em 19 de maio de 1845, os dois navios desceram o Tâmisa sob o comando de sir John Franklin, oficial de 59 anos, com ordem de completar a Passagem do Noroeste.

Saíram com 134 homens. Na Groenlândia, cinco foram considerados inaptos e voltaram no navio de transporte. Seguiram para oeste 129.

No fim de julho de 1845, dois baleeiros cruzaram com eles na baía de Baffin, à espera de condição para entrar no estreito de Lancaster. Foi a última vez que europeus os viram.

O primeiro inverno ficou documentado. Em 1850, buscadores acharam na ilha Beechey o acampamento de 1845, com latas vazias às centenas e três sepulturas com nome e data na tábua de cabeceira.

Não havia bilhete nenhum na ilha Beechey. O primeiro invernal da expedição mais bem equipada da Marinha não deixou uma linha explicando para onde ia.

O documento apareceu nove anos depois. Em maio de 1859, o tenente William Hobson, da expedição de McClintock, abriu um monte de pedras na costa noroeste da ilha King William.

Dentro do cilindro estava um formulário do Almirantado, preenchido duas vezes. A primeira mensagem, de 28 de maio de 1847, é do tenente Graham Gore: a expedição tinha invernado, os navios estavam no gelo e tudo ia bem.

A segunda foi escrita em volta da margem da mesma folha, na letra de James Fitzjames, com assinatura de Francis Crozier, e leva a data de 25 de abril de 1848.

Onze meses separam as duas mensagens no mesmo pedaço de papel. A primeira diz que tudo ia bem. A segunda informa 24 baixas e a saída dos outros 105 no dia seguinte.

O texto da margem registra os navios presos no gelo desde 12 de setembro de 1846 e abandonados em 22 de abril de 1848, sir John Franklin perdido em 11 de junho de 1847, e a baixa de 9 oficiais e 15 tripulantes.

A última linha marca o destino: os 105 seguiriam no dia 26 para o rio Back, no continente, com o posto habitado mais próximo muito além.

Na mesma temporada, McClintock achou em outro ponto da ilha um bote sobre trenó, com dois corpos e uma carga difícil de entender: talheres com brasão, sabonete perfumado, chinelos e livros.

O bote apontava para o norte, de volta na direção dos navios.

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II  A Pergunta em Aberto

Por que os 105 saíram a pé em abril

A pergunta central cabe numa linha. Por que 105 homens deixaram dois navios equipados e saíram a pé pelo gelo em abril.

O chão firme é curto. Os navios ficaram presos em setembro de 1846, o papel de 1848 registra 24 baixas e a saída do grupo, e nenhum dos 129 voltou. O resto é leitura.

A primeira leitura é o chumbo. Nos anos 1980, o antropólogo Owen Beattie exumou os três sepultados na ilha Beechey e achou concentração alta no cabelo e no osso.

A suspeita caiu sobre as latas de Goldner, soldadas por dentro com liga de chumbo, e o quadro pareceu fechar: intoxicação lenta, julgamento comprometido, decisões ruins.

O buraco apareceu na comparação. Estudos posteriores, com isótopos e com a distribuição do metal no osso, mostraram que aqueles níveis batem com os da população naval britânica da época.

A segunda leitura é o escorbuto. Três invernos no gelo consomem qualquer estoque de vitamina C, e o suco de limão da Marinha perdia potência com o tempo de armazenagem.

Ossos recolhidos na ilha King William trazem lesões compatíveis com escorbuto avançado, o que explica fraqueza, hemorragia e ferida que não fecha.

O buraco é a data da partida. Escorbuto explica por que o grupo não chegou ao destino, e não explica a saída em abril arrastando bote e trenó, em vez da espera pelo degelo.

A terceira leitura é o gelo. O estreito de Vitória recebe gelo plurianual vindo do noroeste, e uma embarcação presa ali pode passar verões seguidos sem soltar.

A leitura explica o abandono. Depois de dois verões sem abertura, com carvão acabando, sair a pé vira a única aposta disponível.

O buraco é o que aconteceu depois. Um dos cascos apareceu bem ao sul do ponto onde o papel diz que os dois foram deixados, o que exige gente a bordo, ou deriva improvável de cem quilômetros.

Há um dado que nenhuma das leituras acomoda bem. Entre as 24 baixas anotadas até abril de 1848, 9 eram oficiais, num grupo de 24, e 15 eram tripulantes, num grupo de 105.

Proporcionalmente, os oficiais saíram de cena a um ritmo quase três vezes maior, e eram os que comiam melhor e faziam menos serviço pesado.

Nenhuma das leituras fecha sozinha. Cada uma explica bem um trecho da cronologia e trava no trecho seguinte.

Expedição montada para deixar rastro e nenhuma linha escrita depois de abril de 1848 é a combinação que não fecha. Cilindro e papel continuavam a bordo, e ninguém ergueu outro monte.

 
 

III  O Que Falta Provar

O relato inuíte que levou aos dois cascos

O caso teve testemunha ocular desde o começo, e ela foi recusada por mais de um século.

Em abril de 1854, na península de Boothia, o explorador John Rae, da Companhia da Baía de Hudson, encontrou caçadores inuítes com talheres de prata marcados com brasão de oficiais.

Rae anotou o que eles contaram. Quatro invernos antes, cerca de quarenta homens brancos e magros foram vistos arrastando um bote para o sul, e os corpos apareceram perto da foz de um grande rio.

O relato trazia um detalhe que Rae transcreveu com cuidado: o estado dos restos e das panelas indicava que o último grupo recorrera ao extremo.

Rae mandou o relatório ao Almirantado, o texto vazou para a imprensa, e a reação não foi investigar. Foi atacar a fonte.

Acreditamos que todo selvagem seja, no fundo do coração, cobiçoso, traiçoeiro e cruel.

Charles Dickens, The Lost Arctic Voyagers, na revista Household Words, 1854

Jane Franklin trabalhou na mesma direção, e Rae perdeu o crédito da descoberta.

Nas décadas seguintes, Charles Francis Hall e Frederick Schwatka recolheram mais relatos: um navio afundou em água funda perto de uma ilha a oeste da península de Adelaide, o outro foi esmagado.

A virada veio quando alguém tratou o testemunho como dado de navegação. O historiador inuíte Louie Kamookak cruzou a tradição oral de Gjoa Haven com os mapas das buscas antigas.

Em 2 de setembro de 2014, uma equipe da Parks Canada localizou o HMS Erebus em onze metros de água, cem quilômetros ao sul do ponto de abandono.

Dois anos depois, o tripulante inuíte Sammy Kogvik contou a uma equipe de busca que vira um mastro saindo do gelo numa baía da ilha King William.

Em 6 de setembro de 2016, o HMS Terror apareceu ali, em vinte e quatro metros de água, com escotilhas fechadas e louça nas prateleiras.

O que está sólido é a posição dos dois cascos. O que continua em aberto é a cronologia entre abril de 1848 e o fundo do mar.

A primeira medida que destrava o caso é a cabine do comandante do Terror. O sedimento selou o interior, papel com tinta de ferro sobrevive assim, e ali pode haver outro documento.

A segunda é o DNA. Em 2021, o engenheiro John Gregory foi identificado por comparação com um descendente vivo, e em 2024 o mesmo método deu nome a James Fitzjames.

Fica a regra do começo, virada do avesso. Cilindro, monte de pedras e diário existiam para que uma expedição perdida contasse a própria história.

Ele produziu uma folha. A história voltou pela voz de quem caçava naquela costa, foi recusada por mais de cento e cinquenta anos, e apontava para o lugar exato onde os dois cascos estavam.

 
 
 
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Segundo o bilhete achado sob o monte de pedras em 1859, quantos homens deixaram os navios Erebus e Terror para seguir a pé pelo gelo em abril de 1848?

A129 homens
B24 homens
C105 homens
D5 homens

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