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A flauta de 50 mil anos que pode ser mordida de hiena

Um fêmur de filhote de urso com furos alinhados saiu de uma caverna eslovena em 1995, e até hoje ninguém concorda sobre quem fez os buracos

Fêmur de filhote de urso com furos alinhados

O osso furado de Divje Babe, Eslovênia

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: um osso de urso com furos alinhados saiu de uma caverna da Eslovênia em 1995.

Registro: o museu nacional o expõe como flauta neandertal.

Anomalia: hienas deixam furos parecidos nos ossos que roem.

O Museu Nacional da Eslovênia expõe numa vitrine de Liubliana um osso de urso com furos alinhados e o apresenta como o instrumento musical mais antigo do mundo, feito por neandertais há mais de 50 mil anos. Em 2015, o paleontólogo Cajus Diedrich publicou na revista Royal Society Open Science que furos iguais aparecem aos montes em ossos de filhotes de urso roídos por hienas.

O mesmo osso, duas fichas de catálogo.

A peça cabe na palma da mão. É o fêmur (o osso da coxa) de um filhote de urso-das-cavernas, uma espécie grande e extinta que hibernava nas grutas da Europa durante a última era glacial. Tem pouco mais de 11 centímetros de comprimento e está quebrado nas duas pontas.

No meio do osso há dois furos redondos e completos. Nas pontas partidas aparecem as bordas de outros dois, um de cada lado. Vistos de cima, os quatro parecem seguir uma linha, como os buracos de uma flauta doce.

O osso saiu em 1995 de Divje Babe, uma caverna nas encostas do vale do rio Idrijca, no oeste da Eslovênia. O nome quer dizer Velhas Selvagens, em esloveno, e vem de uma lenda local sobre mulheres que viveriam lá dentro.

A gruta guarda camadas e mais camadas de sedimento com ossos de urso-das-cavernas, milhares deles. Os animais entravam para hibernar, e muitos não saíam. Ao longo de dezenas de milênios, os restos foram se empilhando no chão.

Na mesma camada do fêmur furado havia ferramentas de pedra lascada do tipo que os arqueólogos atribuem aos neandertais (a espécie humana que ocupou a Europa antes da nossa). Uma lareira apareceu perto do achado.

Foi essa vizinhança que transformou um osso de urso num caso. Se a mão que abriu os furos foi neandertal, a peça empurra a música para antes da chegada dos humanos modernos à Europa. Se foi a mandíbula de um bicho, ela vira mais um resto de refeição numa caverna cheia deles.

A investigação começa pelo dia da escavação e pelo homem que guardou o osso.

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I  O Registro

I, O fêmur da camada 8

A PEÇA

O fêmur de filhote de urso-das-cavernas achado em Divje Babe, com dois furos inteiros e as bordas de outros dois, exposto no Museu Nacional da Eslovênia.

O fêmur de filhote de urso-das-cavernas achado em Divje Babe, com dois furos inteiros e as bordas de outros dois, exposto no Museu Nacional da Eslovênia.

Foto: Petar Milošević, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O arqueólogo Ivan Turk, do Instituto de Arqueologia da Academia Eslovena de Ciências e Artes, dirigia as escavações em Divje Babe desde os anos 1980. Em 1995, a equipe dele tirou o fêmur da camada 8 da sequência da caverna, junto da lareira e das ferramentas de pedra.

Turk publicou o achado em 1997, num livro do próprio instituto, e o apresentou como flauta. O argumento dele era a posição dos furos: alinhados, de tamanhos parecidos, abertos no lado do osso que uma mão humana seguraria na hora de tocar.

A idade veio de duas frentes. O carbono 14 (método que mede quanto carbono radioativo um material orgânico perdeu com o tempo) dava resultados no limite do que a técnica alcança. A equipe então usou a ressonância de spin eletrônico (método que conta os elétrons presos nos dentes ao longo dos milênios) em dentes de urso da mesma camada.

As datas publicadas pela equipe de Turk situaram a camada entre 50 e 60 mil anos atrás. Nessa faixa, a Europa ainda pertencia aos neandertais. Os humanos modernos só se espalharam pelo continente milhares de anos depois.

Por que o osso virou estrela

A data não teria feito barulho sozinha. Pesou a comparação com as flautas aceitas por todos os arqueólogos. As mais antigas sem disputa vêm das cavernas de Hohle Fels e Geissenklösterle, no sul da Alemanha.

A flauta de osso de abutre de Hohle Fels, com cinco furos e um bocal entalhado, foi publicada pelo arqueólogo Nicholas Conard, da Universidade de Tübingen, na revista Nature em 2009, com idade de cerca de 40 mil anos. Ela é obra de humanos modernos, e ninguém discute que foi feita para soprar.

Divje Babe seria pelo menos 10 mil anos mais velha e de outra espécie humana. O museu de Liubliana montou, então, a vitrine dela como peça central da coleção pré-histórica.

O osso nas mãos de um músico

A equipe de Turk foi além da medição. O músico esloveno Ljuben Dimkaroski, tocador de instrumentos de sopro, construiu réplicas do fêmur com ossos de urso e passou anos tirando som delas.

Com a técnica certa, soprando de lado pela ponta quebrada, ele conseguiu escalas inteiras, e as gravações circularam em palestras e documentários. Turk e Dimkaroski apresentaram o resultado como prova de que o desenho funciona como instrumento.

O osso toca. A pergunta é quem o furou.

O registro mostra um fêmur de filhote, furos alinhados, uma camada com ferramentas neandertais e uma réplica que soa. Nenhum desses dados, sozinho, diz se a linha de furos nasceu de uma intenção.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Dentes que furam em linha

A objeção apareceu quase junto com o anúncio. Em 1998, o arqueólogo Francesco d'Errico, da Universidade de Bordeaux, publicou com colegas na revista Antiquity um estudo que examinou o fêmur e centenas de outros ossos de urso da mesma caverna.

A conclusão foi que furos redondos em ossos de filhote não são raros em Divje Babe. A equipe achou buracos parecidos em vários ossos sem qualquer sinal de uso, e boa parte deles tinha marcas típicas de mordida nas bordas.

O argumento dos críticos é anatômico. Um carnívoro grande, ao morder o osso fino de um filhote, crava os caninos de cima e os de baixo ao mesmo tempo. O resultado são furos de um lado e afundamentos do outro, em linha, porque a mandíbula fecha numa reta.

Quem estava roendo

O suspeito principal é a hiena-das-cavernas, um parente maior da hiena-malhada que vive hoje na África. Ela dividia as grutas da Europa com os ursos, e os filhotes mortos durante a hibernação viravam comida.

Em 2015, Cajus Diedrich publicou na Royal Society Open Science um estudo comparando o fêmur de Divje Babe com ossos de filhotes de urso de outras cavernas europeias onde viviam hienas. Ele achou o mesmo padrão: furos redondos, do mesmo tamanho, nos mesmos pontos do osso.

Para Diedrich, o tamanho dos furos bate com o diâmetro dos dentes da hiena, e a posição deles bate com o lugar onde o animal morderia para chegar à medula (o tutano dentro do osso). As pontas quebradas, que a flauta precisaria ter cortadas, também são as partes que as hienas roem primeiro.

A resposta dos defensores

A equipe de Turk respondeu com tomografia computadorizada (exame de raio X que monta imagens em fatias). Num artigo de 2018 na revista L'Anthropologie, Turk e colegas afirmaram que o interior dos furos não mostra o esmagamento esperado de uma mordida.

Eles também apontaram a falta de marcas de dente do outro lado do osso nos pontos onde a mandíbula teria apoiado. Para eles, os furos foram abertos com ferramenta de pedra, por pressão e raspagem.

Os críticos não aceitaram a leitura. Eles lembram que o osso passou dezenas de milênios enterrado, que o sedimento desgasta as bordas e que um furo antigo e liso pode esconder a origem.

A disputa nunca fechou. As duas equipes olham para os mesmos quatro buracos e leem neles mãos ou dentes, e nenhuma das duas conseguiu mostrar o instrumento usado, fosse lâmina, fosse canino.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, A prova que nenhum laboratório tirou

O primeiro ponto em aberto é a falta de companhia. Se neandertais faziam flautas, Divje Babe deveria ter vizinhas: outras peças furadas, em outras cavernas, da mesma época. Até agora nenhuma apareceu com aceitação geral.

Outros ossos furados atribuídos a neandertais surgiram em sítios da Europa, e todos receberam a mesma objeção das mordidas de carnívoro. O fêmur esloveno segue como candidato único, e candidato único pesa pouco em arqueologia.

O segundo ponto é o que os neandertais faziam além de comer e caçar. Esse quadro mudou nas últimas décadas. Em 2018, a equipe do geocronologista Dirk Hoffmann publicou na revista Science datas de mais de 64 mil anos para pinturas em cavernas espanholas, o que as poria antes da chegada dos humanos modernos à península.

Se os neandertais pintavam, a ideia de que também tocassem fica menos estranha. Mas uma pintura vermelha numa parede não prova uma flauta num osso. Cada caso precisa da própria evidência.

O que decidiria o caso

Três achados mudariam o placar. O primeiro seria uma marca de ferramenta inequívoca dentro de um dos furos, um risco de lâmina de pedra que nenhuma mordida faz. A tomografia de 2018 não mostrou um sinal desse tipo aceito pelos críticos.

O segundo seria uma segunda flauta neandertal num sítio sem hienas, onde a objeção das mordidas não pudesse ser feita. O terceiro seria um osso roído por hiena com quatro furos tão alinhados quanto os de Divje Babe, o que mostraria que o acaso faz o mesmo desenho.

A ciência tem a peça, a camada e a data. Falta o gesto.

O que se sabe com segurança é pouco e firme. O osso é de um filhote de urso-das-cavernas, tem mais de 50 mil anos segundo as datas da equipe de Turk e saiu de uma camada com ferramentas neandertais. Quem abriu os furos, ninguém conseguiu demonstrar, e o caso segue aberto.

O museu de Liubliana mantém a vitrine com o rótulo de flauta. Nos artigos dos críticos, o mesmo osso aparece em fotos de comparação com restos de refeição de hiena.

Um instrumento tocado por neandertais numa caverna eslovena, como defendem Turk e Dimkaroski, ou o resto de um filhote de urso roído por uma hiena faminta, como sustentam d'Errico e Diedrich. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá aos furos alinhados ou aos ossos mordidos que lotam a mesma caverna.

 
 
 
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Quiz da edição

Segundo os críticos da flauta, como um carnívoro deixa uma linha de furos num osso fino de filhote?

AMorde com um canino de cada vez, girando o osso até abrir cada furo.
BCrava os caninos de cima e os de baixo ao mesmo tempo, porque a mandíbula fecha numa reta.
CLambe o osso até a superfície amolecer e formar os furos, sem usar os dentes.
DAbre os furos com ferramentas de pedra lascada, como as encontradas na mesma camada.

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