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A PEÇA
O fêmur de filhote de urso-das-cavernas achado em Divje Babe, com dois furos inteiros e as bordas de outros dois, exposto no Museu Nacional da Eslovênia.
Foto: Petar Milošević, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
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O arqueólogo Ivan Turk, do Instituto de Arqueologia da Academia Eslovena de Ciências e Artes, dirigia as escavações em Divje Babe desde os anos 1980. Em 1995, a equipe dele tirou o fêmur da camada 8 da sequência da caverna, junto da lareira e das ferramentas de pedra.
Turk publicou o achado em 1997, num livro do próprio instituto, e o apresentou como flauta. O argumento dele era a posição dos furos: alinhados, de tamanhos parecidos, abertos no lado do osso que uma mão humana seguraria na hora de tocar.
A idade veio de duas frentes. O carbono 14 (método que mede quanto carbono radioativo um material orgânico perdeu com o tempo) dava resultados no limite do que a técnica alcança. A equipe então usou a ressonância de spin eletrônico (método que conta os elétrons presos nos dentes ao longo dos milênios) em dentes de urso da mesma camada.
As datas publicadas pela equipe de Turk situaram a camada entre 50 e 60 mil anos atrás. Nessa faixa, a Europa ainda pertencia aos neandertais. Os humanos modernos só se espalharam pelo continente milhares de anos depois.
Por que o osso virou estrela
A data não teria feito barulho sozinha. Pesou a comparação com as flautas aceitas por todos os arqueólogos. As mais antigas sem disputa vêm das cavernas de Hohle Fels e Geissenklösterle, no sul da Alemanha.
A flauta de osso de abutre de Hohle Fels, com cinco furos e um bocal entalhado, foi publicada pelo arqueólogo Nicholas Conard, da Universidade de Tübingen, na revista Nature em 2009, com idade de cerca de 40 mil anos. Ela é obra de humanos modernos, e ninguém discute que foi feita para soprar.
Divje Babe seria pelo menos 10 mil anos mais velha e de outra espécie humana. O museu de Liubliana montou, então, a vitrine dela como peça central da coleção pré-histórica.
O osso nas mãos de um músico
A equipe de Turk foi além da medição. O músico esloveno Ljuben Dimkaroski, tocador de instrumentos de sopro, construiu réplicas do fêmur com ossos de urso e passou anos tirando som delas.
Com a técnica certa, soprando de lado pela ponta quebrada, ele conseguiu escalas inteiras, e as gravações circularam em palestras e documentários. Turk e Dimkaroski apresentaram o resultado como prova de que o desenho funciona como instrumento.
O osso toca. A pergunta é quem o furou. |
O registro mostra um fêmur de filhote, furos alinhados, uma camada com ferramentas neandertais e uma réplica que soa. Nenhum desses dados, sozinho, diz se a linha de furos nasceu de uma intenção.
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