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Por-Bazhyn, a fortaleza de 777 onde ninguém morou

Um palácio murado numa ilha da Sibéria tem pátios, salões e telhado de cerâmica, mas quase nenhum sinal de vida doméstica

Muros de terra de Por-Bazhyn numa ilha do lago Tere-Khol

Por-Bazhyn, no lago Tere-Khol, em Tuva

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: um viajante russo desenhou em 1891 ruínas muradas numa ilha de lago em Tuva.

Registro: a madeira das vigas foi cortada em 777.

Anomalia: quase ninguém morou lá dentro.

A madeira das vigas de Por-Bazhyn foi cortada no verão de 777, segundo a datação por anéis de árvore publicada pela equipe da pesquisadora Margot Kuitems, da Universidade de Groningen, na revista PNAS em 2020. As escavações de 2007 e 2008, chefiadas pela arqueóloga russa Irina Arzhantseva, da Academia Russa de Ciências, quase não acharam lareira, lixo ou objeto de uso diário dentro dos muros.

Uma obra datada até a estação do ano, e quase nenhum morador para usá-la.

Por-Bazhyn, que na língua tuvana quer dizer “casa de barro”, ocupa uma ilha inteira no lago Tere-Khol. O lago fica na República de Tuva, no sul da Sibéria russa, a poucos quilômetros da fronteira com a Mongólia, cercado de montanhas a cerca de 2.300 metros de altitude.

Quem chega de barco vê primeiro os muros. São paredes de terra socada (barro úmido compactado em camadas dentro de fôrmas de madeira), que ainda hoje sobem vários metros acima da água.

Lá dentro, o desenho é de cidade imperial chinesa. Um portão no lado leste, um pátio, um segundo pátio, e no centro uma plataforma com as bases de colunas de um salão de madeira coberto de telhas.

Nada ali combina com o lugar. Tuva era terra de pastores nômades, que viviam em tendas de feltro e mudavam de pasto com as estações. Ninguém da região construía com telha, coluna e pátio fechado.

Os construtores vieram de longe, a serviço do Grão-Canato Uigur, o império de cavaleiros turcos que dominou as estepes da Mongólia entre 744 e 840.

A data dos anéis de árvore caiu bem no reinado de um soberano que tinha acabado de trocar de religião. E, dois anos depois do corte da madeira, esse soberano foi derrubado.

O que se ergueu em 777, para quem e por que ficou vazio, é o caso de hoje.

Ele começa com um viajante do século 19 e um mapa que não explicava as ruínas.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, As ruínas que o viajante desenhou

O SÍTIO

As ruínas muradas de Por-Bazhyn ocupam uma ilha inteira do lago Tere-Khol, em Tuva, no sul da Sibéria.

As ruínas muradas de Por-Bazhyn ocupam uma ilha inteira do lago Tere-Khol, em Tuva, no sul da Sibéria.

Foto: Oschtan, Wikimedia Commons, Public domain

Em 1891, o etnógrafo russo Dmitri Klementz percorreu Tuva a serviço da Sociedade Geográfica Russa e descreveu as ruínas da ilha. Ele desenhou os muros e anotou que os moradores da região atribuíam a obra a um tempo anterior aos seus avós, sem saber dizer quem a fez.

A primeira escavação séria veio em 1957 e 1963, com o arqueólogo soviético Sevyan Vainshtein. Ele abriu trincheiras no salão central, achou telhas e fragmentos de reboco pintado e concluiu que a construção era uigur, do século 8.

Vainshtein já estranhou o vazio. As trincheiras renderam material de construção e pouquíssimo do que uma casa produz: ossos de refeição, cerâmica de cozinha, cinza de fogão.

A escavação de 2007

Meio século depois, o sítio ganhou uma campanha grande. A Fundação Por-Bajin, criada com apoio do governo russo, reuniu arqueólogos, geólogos e restauradores, e a equipe de Arzhantseva abriu o complexo inteiro em duas temporadas.

Os números do levantamento, publicados pela própria fundação, dão a escala: um retângulo de cerca de 215 por 162 metros, com muros externos que chegavam a 10 metros de altura. Dentro deles, os escavadores contaram mais de 30 construções menores encostadas nos muros, além do conjunto central.

O salão principal ficava sobre uma plataforma de terra, com dezenas de bases de coluna em fileiras. As telhas eram do tipo usado nos palácios da dinastia Tang, que governava a China no mesmo século, e algumas traziam ornamento moldado na ponta.

O vazio medido

O resultado mais comentado das temporadas de 2007 e 2008 foi o que faltou. Nas construções laterais, onde se esperaria encontrar quartos de guarda ou de servos, quase não havia lareira. Os escavadores acharam pouco osso de animal, pouca cerâmica quebrada e quase nenhuma ferramenta.

Arzhantseva escreveu nos relatórios da fundação que o complexo parecia ter sido construído e logo abandonado, sem ter recebido uma população fixa. Algumas paredes internas pareciam inacabadas.

Muros de 10 metros, um salão de colunas e quase nenhuma panela.

O registro também mostrou estragos. Rachaduras e desníveis nos muros indicavam um terremoto, e parte das estruturas tinha marcas de incêndio, causado por um terremoto da Baixa Idade Média, séculos depois do abandono.

O registro fixa a obra, o estilo e o vazio. Ele não diz o que o soberano uigur queria fazer numa ilha de lago na borda do império.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Um palácio sem dono

Os anéis de árvore apertaram a busca. Kuitems e colegas mediram o carbono 14 anel a anel nas vigas de lariço do complexo e acharam a casca ainda presa em parte da madeira. O último anel completo marca o verão de 777, o momento exato em que as árvores foram derrubadas.

Em 777, o Grão-Canato Uigur era governado por Bögü Khan, que reinou de 759 a 779. Em 762, ele levou a cavalaria uigur à China para ajudar a dinastia Tang contra a rebelião de An Lushan, e voltou para casa com sacerdotes maniqueístas da cidade de Luoyang.

O maniqueísmo é a religião fundada pelo profeta persa Mani no século 3, que divide o mundo em luz e trevas e exigia dos fiéis mais rigorosos uma vida de jejum, celibato e oração. Bögü Khan adotou essa fé como religião do Estado, caso raro na história.

As quatro leituras

Desde Vainshtein, quatro funções foram propostas para o complexo:

• Um palácio de verão do khan, junto à fronteira norte do império.

• Um mosteiro maniqueísta, isolado na água, como pedia a vida reclusa dos eleitos da religião.

• Um memorial a um soberano ou príncipe, no estilo dos templos funerários turcos da Mongólia.

• Um posto de fronteira, ou uma prisão para nobres caídos em desgraça.

A equipe de 2007 descartou a fortaleza militar. Os muros altos não têm torres de flanco nem uma segunda linha de defesa, e o portão único dá direto para o pátio cerimonial.

Arzhantseva e o arqueólogo alemão Heinrich Härke, que trabalhou com ela nas escavações, inclinaram-se para o mosteiro. O plano lembra os mosteiros do Turquestão chinês, e a quietude da ilha combina com a vida dos eleitos maniqueístas.

Uma obra de Estado, feita para uma religião que acabava de chegar.

O golpe de 779

A data de Kuitems ganhou peso porque bate com a crise política. Em 779, Bögü Khan foi derrubado por um parente, Tun Baga Tarkhan, que tomou o trono, perseguiu os maniqueístas e mandou executar o próprio khan e cerca de dois mil parentes e seguidores, segundo os anais chineses da dinastia Tang.

O canato uigur sobreviveu ao golpe. Os sucessores de Tun Baga Tarkhan acabaram voltando a tolerar o maniqueísmo, e o império durou até 840, quando os quirguizes do alto Ienissei tomaram a capital, Ordu-Baliq, e espalharam os uigures para o oeste e para o sul. Nenhum desses governantes deixou registro de ter voltado à ilha.

Se o complexo era um projeto religioso de Bögü Khan, a queda dele explicaria o abandono sem ocupação. O novo governante não teria motivo para terminar a casa de uma fé que perseguia.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O que a ilha não entregou

O primeiro ponto que falta provar é a função. Não há inscrição no sítio. Nenhum altar, livro, pintura ou objeto de culto maniqueísta apareceu nas escavações, e sem ele a leitura do mosteiro se apoia só no desenho da planta e na data.

A leitura do palácio enfrenta o mesmo problema pelo lado oposto. Um palácio usado, mesmo por poucas semanas por ano, deixaria restos de banquete, joias perdidas e cinza de cozinha, e quase nada desses restos foi achado.

A data de chegada e a de saída

O segundo ponto é a cronologia fina. Os anéis dizem quando a madeira foi cortada, não quando a obra parou. Kuitems e colegas sugerem que a construção levou poucos anos, mas a camada do abandono não traz material datável que a encaixe antes ou depois de 779.

O terremoto que rachou os muros também não tem data. Se veio cedo, pode ter sido o motivo do abandono, sem nenhuma relação com o golpe. Se veio séculos depois, só atingiu ruínas já vazias.

A madeira tem data exata. O abandono não tem nenhuma.

A ilha que derrete

O terceiro ponto tem prazo. A ilha está assentada sobre permafrost (solo que fica congelado o ano todo), e o degelo e a subida do lago vêm erodindo as margens e as bases dos muros, como registrou a equipe de Kuitems no estudo de 2020. Parte das camadas que poderiam responder às perguntas pode ir para a água antes de ser escavada.

O que se sabe com segurança é firme. A madeira foi cortada em 777, a obra seguiu o estilo dos palácios Tang a serviço do canato uigur, e quase não há vestígio de vida doméstica dentro dos muros.

Por que o complexo foi erguido, se chegou a ser concluído e por que ficou vazio, ninguém conseguiu demonstrar. Falta um objeto que diga a função, e falta uma data para o abandono.

Um mosteiro maniqueísta de Bögü Khan, largado vazio quando o golpe de 779 derrubou o khan e a fé dele, como propõem Arzhantseva e Härke, ou um palácio de fronteira que perdeu o sentido por outro motivo, talvez o terremoto que rachou os muros. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá à coincidência das datas ou ao silêncio dos objetos.

 
 
 
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Quiz da edição

Segundo o relato, quantos anos depois do corte da madeira usada em Por-Bazhyn (777) o soberano uigur que mandou construir o complexo foi derrubado?

A10 anos depois
B5 anos depois
C2 anos depois
D20 anos depois

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