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Os garamantes cavaram 750 km de túneis atrás de água fóssil

No Fezzan líbio, um reino do Saara puxou água de um lençol sem reposição e minguou perto do ano 500, com a água ainda no subsolo

Fila de poços de galerias garamantes no deserto do Fezzan ao entardecer

Poços das galerias no Fezzan líbio

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: os garamantes.

Local: Fezzan, Líbia.

Anomalia: reino seco sobre água.

A equipe do arqueólogo britânico David Mattingly mapeou no Fezzan, o sul desértico da Líbia, algo como 750 quilômetros de galerias cavadas à mão, segundo a série The Archaeology of Fazzan (A arqueologia do Fezzan), publicada entre 2003 e 2013. Desde 1996, poços abertos na mesma região empurram água fóssil até Trípoli pelos dutos do Grande Rio Artificial, segundo a Great Man-Made River Authority, a estatal líbia dona da obra.

O povo das galerias se chamava garamantes. O reino deles definhou perto do ano 500, com a água ainda guardada no subsolo.

Os dois fatos convivem mal. A água segue lá embaixo e abastece uma capital moderna. Os donos dos túneis, com 750 quilômetros de obra pronta, ficaram sem ela.

O Fezzan quase não recebe chuva. A água das galerias vinha de um lençol formado milhares de anos antes, quando o Saara era verde, com lagos e savana. Daí o nome água fóssil (água presa na rocha desde outra era do clima, que a chuva atual não repõe).

Os garamantes viviam no Wadi al-Ajal, um vale seco (wadi, em árabe) espremido entre um mar de dunas e uma escarpa de arenito. Ali ergueram a capital, Garama, hoje as ruínas de Germa.

Plantavam trigo, cevada e tâmaras num chão onde nada brota sozinho. Criavam gado, guiavam carros puxados a cavalo e negociavam com Roma.

Os gregos já os conheciam. Heródoto os pôs nas Histórias, no século V antes de Cristo, como um povo muito numeroso do interior da Líbia.

Por muito tempo, os garamantes existiram só nesses textos de fora, escritos por gregos e romanos que nunca pisaram no vale. O povo não deixou crônica própria que alguém consiga ler.

O chão começou a falar no século XX, quando arqueólogos abriram as ruínas de Germa e seguiram, de poço em poço, a linha das galerias pelo deserto.

O registro começa por esses poços, alinhados na areia como pontos de costura.

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I  O Registro

Os poços em fila no Wadi al-Ajal

A resposta de ontem

Que rei sassânida caiu contra os heftalitas em 484?

Foi Peroz I, rei sassânida de 459 a 484. Ele caiu numa campanha contra os heftalitas no leste do império, e o historiador bizantino Procópio de Cesareia, nas Guerras, do século VI, conta que a cavalaria persa despencou num fosso que os inimigos tinham escondido no caminho.

O SÍTIO

Ruínas de Germa, no Wadi al-Ajal, onde ficava Garama, a capital dos garamantes no deserto do Fezzan.

Ruínas de Germa, no Wadi al-Ajal, onde ficava Garama, a capital dos garamantes no deserto do Fezzan.

Foto: Franzfoto, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Os garamantes cavaram as galerias pelo método dos qanats persas (túneis de água em declive, abertos a partir de poços verticais). No Saara, a técnica ganhou o nome árabe de foggara (galeria subterrânea de captação).

Como se abria uma galeria

O trabalho começava no pé da escarpa, onde o lençol ficava mais perto da superfície. Dali, os cavadores abriam uma linha de poços verticais em direção ao vale, a poucos metros um do outro.

No fundo, ligavam os poços por um túnel com leve declive. A água vazava das paredes de rocha, escorria sem bomba nenhuma e saía ao ar livre na beira das roças.

Os poços serviam para tirar a terra escavada e deixar entrar ar. Vistos de cima, aparecem hoje como anéis de entulho em fila, e cada fila marca uma galeria.

Uma galeria só corria enquanto o lençol ficasse acima do piso do túnel.

Quem mapeou os anéis

O arqueólogo inglês Charles Daniels escavou Germa nos anos 1960 e 1970 e fixou a capital garamante no mapa da arqueologia do Saara.

Daniels trabalhou sem satélite à disposição. Mediu muros, abriu túmulos e recolheu cerâmica romana, a pista que datou boa parte das camadas da capital.

O Fezzan Project, de Mattingly, retomou o trabalho em 1997 e cruzou escavação com fotografia aérea e imagem de satélite. Os anéis de entulho, que no chão parecem montes soltos, viram linhas retas quando vistos do alto.

Em 2011, Mattingly e o pesquisador Martin Sterry, ambos de Leicester, anunciaram mais de 100 aldeias e fazendas fortificadas garamantes achadas em imagens de satélite, espalhadas pelo Fezzan.

O que a água sustentava

As galerias regavam roças de trigo, cevada e tamareiras. Sementes carbonizadas recolhidas nas escavações de Germa confirmam as três culturas no prato garamante.

A agricultura no sal impressionou o grego que primeiro escreveu sobre eles. Heródoto anotou nas Histórias, livro IV, no século V antes de Cristo, que os garamantes “espalham terra por cima do sal e então semeiam”.

Ao redor de Germa, o reino deixou cemitérios com milhares de túmulos, alguns em forma de pequenas pirâmides de tijolo de barro. Gente assim enterrada pertencia a um Estado estável, com elite e com tempo livre para monumento.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Por que a água parou de chegar

Os garamantes não perderam a água por uma seca nova. O clima do Fezzan já era árido havia milênios quando a primeira galeria foi aberta. O problema morava embaixo da terra.

Um estoque sem reposição

Água fóssil funciona como poupança sem depósito. Cada balde tirado sai de um estoque que a chuva atual não completa.

Uma galeria aberta não tem torneira. A água escorre dia e noite, regada a roça ou não, e a sobra evapora no canal sob o sol do deserto.

Mattingly e o arqueólogo Andrew Wilson, de Oxford, defendem que o lençol baixou à medida que as galerias puxavam água, século após século. Quando o nível desceu abaixo do piso dos túneis, a água parou de escorrer.

Correr atrás dela exigia galeria nova, mais longa e com poços mais fundos. As filas de anéis mostram linhas abertas em fases, algumas mais compridas, como se a obra perseguisse um lençol em queda.

A foggara dependia da gravidade, e a gravidade não sobe água de um lençol mais fundo do que o próprio túnel.

Os braços da obra

Uma galeria pede gente cavando em poço estreito, no escuro, por meses. Mattingly levanta a hipótese de que boa parte do serviço viesse de cativos trazidos do sul do Saara.

A pista mais velha está de novo em Heródoto. No mesmo livro IV das Histórias, ele escreveu que os garamantes “caçam os etíopes trogloditas em carros de quatro cavalos”, sendo trogloditas o nome grego para povos que moravam em cavernas.

Se o reino dependia de braço cativo, cada galeria mais funda custava mais gente buscada longe. Um lençol em queda apertava a mão de obra e a comida no mesmo movimento.

O vizinho do norte

Roma conhecia o caminho até Garama. Em 20 antes de Cristo, o general Lúcio Cornélio Balbo marchou contra os garamantes e celebrou o triunfo em Roma com o nome da capital deles na lista das conquistas, segundo Plínio, o Velho, na História Natural, do século I.

Depois da guerra veio o comércio. Os túmulos de Germa guardam ânforas de vinho, vidro e cerâmica romanos, trocados no vale por produtos que subiam do deserto.

O que se sabe: os garamantes viviam de água fóssil, puxada por galerias que só funcionavam por gravidade, e o reino encolheu perto do ano 500. O que não se sabe: quanto pesou o lençol e quanto pesaram o fim do comércio romano e a falta de braço cativo.

 
 

III  O Que Falta Provar

O nível exato do lençol no ano 500

A queda do lençol é uma reconstrução. Ninguém no Fezzan mediu o nível da água no tempo dos garamantes, e as galerias secas não guardam marca de nível na parede.

As galerias sem data

A maioria das foggaras nunca foi datada. Um túnel cavado na rocha não guarda carvão nem semente no próprio corte, e sem esse material o radiocarbono (a contagem do carbono 14 que resta em matéria orgânica) não tem o que ler.

Sem data de cada linha, ninguém sabe se as galerias mais longas vieram depois das curtas, como pede a tese do lençol em queda, ou se conviveram no mesmo século.

A escrita que ninguém lê

Os garamantes escreviam. Inscrições no alfabeto líbico (a escrita antiga dos povos berberes, ancestral do tifinague dos tuaregues) aparecem em pedras e túmulos do Fezzan.

As letras se reconhecem, mas os textos garamantes seguem sem leitura segura. Se um deles contar uma seca, uma galeria nova ou um rei, a única voz do próprio povo ainda está muda.

Sem essa voz, a história do reino chega pelos olhos de quem estava de fora: gregos, romanos e, mais tarde, cronistas árabes.

A guerra e o campo fechado

O Fezzan Project perdeu o acesso ao terreno com a guerra civil líbia de 2011. Desde então, o trabalho de campo regular parou, e boa parte da pesquisa segue em satélite e em material já guardado.

O contraste moderno ajuda a medir o problema, sem resolvê-lo. Os poços do Grande Rio Artificial descem com bomba elétrica até onde a gravidade dos garamantes nunca chegaria, e a água fóssil perdida por eles volta à superfície pela força de um motor.

O que uma prova exigiria

1. Datar o entulho dos poços em várias galerias, de ponta a ponta do vale, para saber a ordem em que foram abertas.

2. Medir em laboratório a idade da água e o histórico do lençol nos poços modernos do Fezzan, para estimar quando ele passou abaixo dos túneis.

3. Ler as inscrições líbicas do vale, à procura de qualquer menção a água, obra ou fome.

O reino não sumiu numa noite. No século VII, quando um general árabe chegou ao vale com suas tropas, Garama ainda existia, menor, e já atendia pelo nome de Jarma.

Ler a queda dos garamantes como o fim de um lençol que nenhuma técnica da época alcançaria, ou como o saldo de um reino que gastou a água mais rápido do que a rocha devolvia. O barro seco das galerias aceita as duas leituras.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual general árabe entrou com suas tropas em Garama no século VII, quando o reino já tinha encolhido?

 
 
 
Quiz da edição

Quantos quilômetros de galerias cavadas à mão a equipe de David Mattingly mapeou no Fezzan líbio?

A250 quilômetros
B750 quilômetros
C1.200 quilômetros
D500 quilômetros

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