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A queda do lençol é uma reconstrução. Ninguém no Fezzan mediu o nível da água no tempo dos garamantes, e as galerias secas não guardam marca de nível na parede.
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As galerias sem data
A maioria das foggaras nunca foi datada. Um túnel cavado na rocha não guarda carvão nem semente no próprio corte, e sem esse material o radiocarbono (a contagem do carbono 14 que resta em matéria orgânica) não tem o que ler.
Sem data de cada linha, ninguém sabe se as galerias mais longas vieram depois das curtas, como pede a tese do lençol em queda, ou se conviveram no mesmo século.
A escrita que ninguém lê
Os garamantes escreviam. Inscrições no alfabeto líbico (a escrita antiga dos povos berberes, ancestral do tifinague dos tuaregues) aparecem em pedras e túmulos do Fezzan.
As letras se reconhecem, mas os textos garamantes seguem sem leitura segura. Se um deles contar uma seca, uma galeria nova ou um rei, a única voz do próprio povo ainda está muda.
Sem essa voz, a história do reino chega pelos olhos de quem estava de fora: gregos, romanos e, mais tarde, cronistas árabes.
A guerra e o campo fechado
O Fezzan Project perdeu o acesso ao terreno com a guerra civil líbia de 2011. Desde então, o trabalho de campo regular parou, e boa parte da pesquisa segue em satélite e em material já guardado.
O contraste moderno ajuda a medir o problema, sem resolvê-lo. Os poços do Grande Rio Artificial descem com bomba elétrica até onde a gravidade dos garamantes nunca chegaria, e a água fóssil perdida por eles volta à superfície pela força de um motor.
O que uma prova exigiria
1. Datar o entulho dos poços em várias galerias, de ponta a ponta do vale, para saber a ordem em que foram abertas.
2. Medir em laboratório a idade da água e o histórico do lençol nos poços modernos do Fezzan, para estimar quando ele passou abaixo dos túneis.
3. Ler as inscrições líbicas do vale, à procura de qualquer menção a água, obra ou fome.
O reino não sumiu numa noite. No século VII, quando um general árabe chegou ao vale com suas tropas, Garama ainda existia, menor, e já atendia pelo nome de Jarma.
Ler a queda dos garamantes como o fim de um lençol que nenhuma técnica da época alcançaria, ou como o saldo de um reino que gastou a água mais rápido do que a rocha devolvia. O barro seco das galerias aceita as duas leituras.
Fica a pergunta · até amanhã Qual general árabe entrou com suas tropas em Garama no século VII, quando o reino já tinha encolhido? |
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