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ED 082

Os 5.178 cacos que voltaram a ser gigantes

Um arado bateu numa cabeça de calcário em 1974, e o campo devolveu 5.178 pedaços de um exército de pedra que ninguém sabe quem derrubou.

Uma mesa de laboratório de restauro à noite coberta de fragmentos numerados de calcário de uma escultura antiga, um caco de escudo curvo e um pedaço de antebraço com bracelete talhado apoiados em suportes de espuma cinza, etiquetas de papel amarradas a cada peça, calibre, pincéis e uma seringa de resina ao lado de um caderno de campo e da planta desenhada à mão de uma fileira de tumbas de poço, uma relha de arado enferrujada encostada no pé da mesa, tudo sob luz âmbar focal

Os cacos de calcário na mesa de restauro

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: em março de 1974, dois lavradores que preparavam o terreno num campo ao pé do Mont'e Prama, em Cabras, na Sardenha, travaram o arado numa cabeça de calcário do tamanho de um balde.

Registro: as campanhas de 1975 a 1979 retiraram 5.178 fragmentos do mesmo terreno, entre eles 15 cabeças, 27 bustos, 176 pedaços de braço e 784 cacos de escudo, deitados ao lado de uma fileira de tumbas individuais.

Anomalia: remontadas, as peças formam arqueiros, lutadores e guerreiros de até 2,5 metros, com olhos gravados em círculos concêntricos, e nenhuma linha de escrita diz quem são nem quem os reduziu a cacos.

A Sardenha tem mais de sete mil torres de pedra ainda de pé. São os nuraghi, erguidos em pedra seca entre cerca de 1800 e 700 a.C., alguns com três andares e vinte metros de altura, sem argamassa e sem arco.

Cada um é engenharia por acumulação. Blocos de basalto encaixados em círculo, cada anel um pouco menor que o de baixo, até fechar a cúpula em falsa abóbada. Alguns blocos pesam dezenas de toneladas e continuam no lugar três mil anos depois.

Nenhuma dessas torres veio com legenda. A gente que as levantou não deixou uma única linha legível: nenhuma inscrição decifrada, nenhum arquivo, nenhum nome de rei, de povoado ou de divindade escrito pela própria mão.

Tudo que se sabe da civilização nurágica vem de coisa, não de texto. A planta das torres, o poço sagrado revestido de pedra polida, o osso dentro da tumba, o bronze deixado como oferenda.

O retrato que essa gente deixou de si mesma cabia na palma da mão. São os bronzetti, figuras fundidas de dez a trinta centímetros: arqueiros de capacete com dois chifres, lutadores, chefes com bastão, mães com o filho no colo, gente em fila para uma oferenda.

Por quase um século, a galeria da ilha foi essa e só essa. Nada maior que um antebraço. O manual dizia que a Sardenha nurágica fundia bronze pequeno e empilhava pedra grande, e que estátua humana em tamanho monumental no Mediterrâneo ocidental veio depois, com fenício e grego.

A distância entre a figura de bronze de vinte centímetros e a estátua de dois metros e meio não é de escala. É de projeto. Exige pedreira, transporte, oficina, encomenda e alguém com poder para mandar fazer.

Um campo qualquer da península do Sinis, plantado e arado todo ano como os vizinhos, guardava a prova de que a conta estava errada. Ela apareceu pelo motivo mais banal que existe, e no pior estado possível.

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I  O Registro

A cabeça de calcário sob o arado

Em março de 1974, dois lavradores preparavam a terra num campo ao pé do Mont'e Prama, uma elevação baixa perto de Cabras, na costa oeste da Sardenha. O arado travou numa pedra grande.

Sisinnio Poddi e Battista Meli tiraram do sulco uma cabeça de calcário. O dono do terreno, Giovanni Corrias, chamou o estudioso local Giuseppe Pau, que avisou a Superintendência Arqueológica de Cagliari e Oristano.

A primeira sondagem saiu em 1975, com Alessandro Bedini, e abriu 33 tumbas. Em 1977 vieram Maria Luisa Ferrarese Ceruti e Carlo Tronchetti, com cerca de trinta. Em 1979, Tronchetti conduziu a escavação sistemática.

As tumbas eram poços individuais cavados na rocha, um corpo em cada, fechados por laje, em fila ao longo de uma faixa estreita do terreno.

Por cima e ao lado da fila estava o resto. Do campo saíram 5.178 fragmentos de calcário, cerca de dez toneladas de pedra quebrada.

Quinze cabeças. Vinte e sete bustos. Cento e setenta e seis pedaços de braço, cento e quarenta e três de perna e setecentos e oitenta e quatro cacos de escudo.

A pedra não era do lugar. É calcarenito de uma pedreira a dezesseis quilômetros dali, ou seja, bloco de tonelada arrastado por dezesseis quilômetros antes do primeiro golpe de cinzel.

Terminada a campanha de 1979, os fragmentos foram para o depósito do Museu Arqueológico Nacional de Cagliari. Ficaram lá cerca de trinta anos.

A remontagem começou em 2007, no centro de restauro de Li Punti, em Sassari, sob direção de Roberto Nardi, e se estendeu até 2011.

A regra do trabalho foi não furar. Nenhum pino de metal, nenhum furo novo na pedra antiga: as peças foram unidas só com resina reversível, que qualquer leitura futura pode desmontar.

Daquele primeiro bloco saíram 28 figuras: 16 lutadores, 6 arqueiros e 6 guerreiros, além de maquetes de nuraghe talhadas em pedra e de betilos, os blocos cônicos que a ilha usava como marco.

As campanhas de 2014, de 2015 e 2016 e de 2022 somaram material novo, e o conjunto remontado chega hoje perto de quarenta figuras humanas.

De pé, as maiores medem 2,5 metros. Os arqueiros levam capacete de dois chifres e o arco atravessado no peito. Os lutadores seguram um escudo curvo acima da cabeça. Os guerreiros trazem o escudo à frente do corpo.

O rosto se repete em quase todas: sobrancelha reta, nariz em T, boca fina e, no lugar dos olhos, dois círculos concêntricos gravados na pedra.

Onze estão expostas hoje no museu cívico Giovanni Marongiu, em Cabras. Trinta e três estão no museu arqueológico nacional de Cagliari.

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II  A Pergunta em Aberto

Quem derrubou o exército de pedra

A pergunta que organiza o caso cabe em três palavras. Quem quebrou aquilo.

O chão firme é curto. Nenhuma das figuras foi achada de pé, no ponto onde teria sido erguida. Os fragmentos estavam deitados sobre a fila de tumbas, ao lado dela e numa faixa livre à frente.

Também é firme o que falta. Não há inscrição, não há nome, não há marca de oficina. O conjunto inteiro é mudo.

A primeira leitura é Cartago. Entre e sob os fragmentos apareceram cacos de ânfora púnica que não são anteriores ao século IV a.C., e Cartago tomou o litoral sardo nesse período. Derrubar o monumento da aristocracia local é gesto conhecido de conquista.

O buraco é a distância. Se as figuras foram talhadas no século IX ou VIII a.C., teriam passado quatrocentos anos de pé sem deixar outro rastro, e a ânfora pode ter chegado ao nível por terra revolvida depois.

A segunda leitura é interna. A quebra teria vindo de comunidades nurágicas vizinhas, ou do próprio grupo, num ato deliberado de encerramento do santuário.

A favor pesa a arrumação. Os pedaços não estavam espalhados a esmo pelo campo. Aparecem depositados sobre as tumbas e organizados em faixa, como quem desmonta uma coisa e a guarda no lugar dela.

O buraco é o esforço. Reduzir quarenta figuras de calcário a mais de cinco mil cacos é trabalho de dias com marreta, e nenhuma prática conhecida da ilha pede a destruição do próprio monumento.

A terceira leitura aponta para Tharros, a cidade fenícia a poucos quilômetros dali, na mesma península, ativa desde o século VIII a.C., com disputa provável pela laguna de Cabras.

O buraco é a camada. As sequências escavadas não registram o nível de conflito que uma investida assim deixaria, e parte dos fragmentos mostra alteração por fogo que ninguém encaixou em versão nenhuma.

Há um dado que nenhuma leitura acomoda bem. A conta entre gente e estátua não fecha: a necrópole reúne cerca de 150 tumbas de poço, e as figuras remontadas são cerca de quarenta.

Quem está nos poços também não é amostra de aldeia. São quase todos homens jovens, entre 13 e 50 anos, com inserção muscular marcada no osso. Criança, idoso e mulher quase não aparecem.

A posição do enterro puxa na mesma direção. Cada corpo foi posto sentado, com os joelhos dobrados contra o tronco, dentro de um poço estreito e coberto por laje.

A cronologia tampouco está fechada. Os estudos recentes situam tumbas e esculturas entre o fim do século IX e a primeira metade do VIII a.C., e radiocarbono de fases da necrópole puxa datas bem mais antigas.

Nenhuma das leituras fecha sozinha. Cada uma explica um trecho e trava no seguinte, e o quadro continua o mesmo: uma civilização gastou pedreira e oficina para se retratar acima do tamanho natural, e o retrato terminou em cacos sobre a própria fileira de tumbas.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que o georadar achou embaixo do campo

O que está sólido é a lista de peças. O que continua em aberto é quase todo o resto, e há três medidas concretas capazes de destravar o caso.

Em 2014 o sítio foi varrido com georadar pelas universidades de Sassari e Cagliari. A leitura cobriu cerca de 6,6 hectares e mostrou estruturas muito além da faixa aberta nos anos 1970.

A escavação feita até hoje é uma fração do terreno. O resto continua embaixo do campo, com a fileira de tumbas seguindo provavelmente além do limite conhecido.

A mesma campanha tirou de lá duas estátuas de um tipo que ninguém esperava: lutadores com o escudo enrolado junto ao corpo, iconografia até então conhecida só por um bronze pequeno achado numa tumba em Cavalupo, em Vulci.

Em maio de 2022 apareceram mais dois torsos do mesmo tipo, a poucos metros de uma estrada vicinal, o que mostra o quanto ainda está raso.

A leitura mais citada sobre o que o conjunto significava é de Giovanni Lilliu, o arqueólogo que organizou o estudo da civilização nurágica.

O conjunto seria um grande donativo votivo aos antepassados heróis, de um santuário monumental de linhagem.

Giovanni Lilliu, La grande statuaria nella Sardegna nuragica, 1997

A proposta de Lilliu segue sendo leitura, não prova. Nada no sítio diz o nome de um antepassado, nem garante que quem está nos poços é quem está nas estátuas.

A primeira medida é escavar o que falta sob protocolo único. As campanhas dos anos 1970 são anteriores ao registro estratigráfico de hoje, e boa parte da relação entre cada caco e cada tumba se perdeu no caminho até o depósito.

A segunda é o osso. Os cerca de 150 sepultados podem responder por isótopo e por DNA antigo de onde vieram, o que comiam e se eram parentes entre si. O método já rodou em material sardo antigo e devolveu resultado utilizável.

A terceira é a pedreira. Comparar veio de rocha, marca de ferramenta e proporção entre as figuras pode dizer se o conjunto saiu de uma oficina só ou de gerações diferentes de escultores.

Fica a regra do começo, virada do avesso. Uma gente que levantou milhares de torres e não deixou linha legível acabou entregando um autorretrato de dois metros e meio, com olho de círculo concêntrico e escudo no braço.

Alguém reduziu o autorretrato a 5.178 pedaços e o deitou ao lado da fileira de tumbas, num campo que seguiu sendo arado por três mil anos. Sobrou o rosto sem o nome.

 
 
 
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