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Gonur Depe, a cidade dos selos sem escrita

No delta do Murghab, no Turcomenistão, uma cidade da Idade do Bronze gravou selos e acendeu salas de fogo, e ficou muda quando o rio partiu

Muralhas de tijolo cru de Gonur Depe no deserto ao entardecer

Muralhas de barro de Gonur Depe, no Turcomenistão

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: a cidade muda de Gonur Depe.

Local: delta do Murghab, Turcomenistão.

Anomalia: selos sem escrita.

Das ruínas de Gonur Depe, no Turcomenistão, saíram centenas de selos de pedra, osso e bronze, catalogados pelo arqueólogo soviético Viktor Sarianidi no livro "Gonur Depe: City of Kings and Gods", de 2005. Das mesmas ruínas, em mais de trinta anos de escavação descritos no mesmo livro, não saiu uma única tabuleta, inscrição ou linha de texto.

Selo serve para marcar posse, fechar um pote, autorizar uma entrega. É ferramenta de quem administra. Gonur tinha a ferramenta e não tinha a escrita.

A cidade fica no sul do Turcomenistão, a cerca de 60 quilômetros ao norte da atual cidade de Mary, segundo o livro de Sarianidi de 2005. Hoje o entorno é deserto de Karakum (em turcomeno, "areia negra"). Há quase quatro mil anos, era a ponta verde de um rio.

O rio é o Murghab, que desce das montanhas do Afeganistão e morre na areia, abrindo-se num leque de braços chamado delta interior. Onde a água chegava, havia trigo, cevada, pomar e gado. Onde ela parava, começava a duna.

Gonur nasceu dentro desse leque, por volta de 2300 antes de Cristo, na datação de Sarianidi. Tinha muralha de tijolo cru com torres quadradas, um grande edifício central, oficinas, cisternas e um cemitério com milhares de covas.

Tinha também salas com altares de barro cobertos de cinza, que o escavador chamou de templos do fogo. A leitura dele virou disputa acadêmica, e a disputa ainda não terminou.

Por volta de 1600 antes de Cristo, os moradores foram embora. O braço do Murghab que alimentava a cidade tinha mudado de lugar, e a vida da região desceu atrás da água para o sul.

Ficaram os muros, os selos e as cinzas. Nenhuma palavra.

O registro começa pelo homem que passou a vida inteira cavando ali e pelo que ele conseguiu tirar do chão.

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I  O Registro

Quarenta anos de pá no Karakum

O SÍTIO

Muralhas e salas de tijolo cru de Gonur Depe, no deserto de Karakum, Turcomenistão, escavadas a partir de 1972.

Muralhas e salas de tijolo cru de Gonur Depe, no deserto de Karakum, Turcomenistão, escavadas a partir de 1972.

Foto: David Stanley, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Gonur Depe era só um morro baixo de entulho, com o nome que os pastores lhe davam ("depe" quer dizer colina, em turcomeno), quando Viktor Ivanovich Sarianidi abriu ali a primeira trincheira, em 1972. Nascido em 1929 em Tashkent, no Uzbequistão, filho de família grega, ele percorria o Karakum desde os anos 1950.

O trabalho durou até a morte dele, em 2013, em Moscou. Foram quatro décadas de temporadas de campo, quase sempre no outono, quando o calor do deserto dá trégua.

O nome que ele deu

Sarianidi batizou a cultura de Complexo Arqueológico Bactria-Margiana, sigla BMAC em inglês. Bactria é o antigo nome do norte do Afeganistão; Margiana, o do delta do Murghab. Gonur seria a maior cidade e, na leitura dele, a capital.

O plano que saiu do chão tem duas partes. Ao norte, um recinto murado com o edifício que ele chamou de palácio. Ao sul, um segundo recinto, mais antigo, com muralha própria.

Dentro do recinto norte havia pátios, salas de armazenagem, uma piscina de tijolo e as salas com altares de barro. Nas paredes de algumas, a cinza se acumulava em camadas grossas, sinal de fogo aceso por muito tempo no mesmo lugar.

O cemitério dos carros

Fora dos muros, a equipe abriu milhares de covas. As mais ricas foram chamadas de túmulos reais: câmaras de tijolo com joias de ouro e prata, mosaicos de pedra colorida, carros de quatro rodas com aros de bronze e animais sacrificados ao lado.

Num desses túmulos havia um carro inteiro, com as rodas enterradas na posição de uso. Em outros, cães, carneiros e jumentos foram sepultados com o mesmo cuidado dos donos.

Gonur tinha muralha, palácio, oficina de bronze e carro de rodas. Faltava só a palavra escrita.

Os selos

Os selos de Gonur são de dois tipos. Os de carimbo, chatos, com a figura em relevo na base. E os cilíndricos, rolados sobre o barro mole para deixar uma faixa contínua de desenho.

As figuras mostram águias de duas cabeças, serpentes, dragões alados, cabras e cenas com homens e feras. Um selo achado por Sarianidi traz um elefante no estilo dos selos do vale do Indo, a civilização de Harappa, a mais de mil quilômetros ao sudeste.

Os desenhos provam contato com o Indo, com o Elam (o reino do sudoeste do atual Irã) e com a Mesopotâmia. Esses três vizinhos escreviam. Gonur copiou o selo deles e deixou a escrita de fora.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Cinza nos altares, efedra nos potes

A primeira briga em volta de Gonur não é sobre a escrita. É sobre o fogo.

Sarianidi leu as salas de altar como templos de uma religião anterior ao zoroastrismo, a fé persa que tem o fogo como símbolo sagrado. No livro "Margiana and Protozoroastrism", de 1998, ele defendeu que Gonur guardava os primeiros passos desse culto, séculos antes do profeta Zaratustra.

A prova que ele ofereceu

Para sustentar a tese, Sarianidi apontou potes de cerâmica numa sala que chamou de "templo branco". Segundo ele, os resíduos dentro dos potes eram de efedra (um arbusto estimulante) e de papoula, as plantas que alguns estudiosos ligam ao haoma, a bebida ritual descrita no Avesta, o livro sagrado dos zoroastrianos.

Se a leitura estivesse certa, Gonur seria o lugar em que o ritual do haoma foi preparado pela primeira vez de que se tem notícia.

A análise que discordou

A botânica holandesa Corrie Bakels, da Universidade de Leiden, examinou amostras do mesmo contexto e publicou o resultado em 2003. Ela achou restos de milhete (um cereal de grão miúdo) e nenhum sinal seguro de efedra.

Ninguém fechou a questão depois disso. As amostras originais nunca passaram por uma análise química independente que outros laboratórios pudessem repetir, e Sarianidi manteve a interpretação até o fim da vida.

O que se pode afirmar com segurança é menor. Houve fogo aceso por muito tempo em salas especiais, com altares fixos e cinza acumulada. Chamar o lugar de templo do fogo zoroastriano é uma leitura; dizer que ali se queimava algo com regularidade é um fato.

Sem texto, cada sala vira um enigma: ninguém consegue ler o nome que os moradores davam ao lugar, ao deus ou ao ritual.

O rio que partiu

A outra pergunta é por que a cidade morreu vazia, sem sinal de guerra nem de incêndio final.

Gonur dependia de um único braço do delta do Murghab. Nos deltas de areia, os braços entopem de sedimento e o rio abre caminho novo. Quando o braço que passava por Gonur secou, os canais de irrigação ficaram sem água.

Os sítios mais novos da Margiana aparecem mais ao sul, mais perto do curso que o Murghab tomou. Sarianidi e os geógrafos que estudaram o delta leem a sequência como uma migração lenta atrás da água, sem fuga súbita.

A cidade não caiu. Foi deixada.

 
 

III  O Que Falta Provar

Uma cidade sem palavra

Gonur Depe é uma das maiores cidades da Idade do Bronze na Ásia Central, e quem morava ali não deixou nenhuma linha que se possa ler hoje. O caso fica entre três hipóteses, e nenhuma tem prova suficiente.

A escrita que apodreceu

A primeira hipótese diz que Gonur escrevia, só não em barro. Couro, madeira, casca de bétula e tecido pintado somem em poucos séculos num solo que molha e seca.

No vale do Indo e na Mesopotâmia, a escrita sobreviveu porque foi gravada em pedra, selo ou tabuleta de argila cozida. Se Gonur usou material mole, o registro inteiro pode ter virado pó.

O problema é a falta de rastro indireto. Nenhum estilete, nenhuma marca de tinta em vaso, nenhum sinal repetido nos selos apareceu de forma que os especialistas aceitem como escrita.

Material mole apaga a escrita e apaga também o rastro de que ela existiu.

O selo no lugar do texto

A segunda hipótese diz que Gonur não precisava escrever. Uma cidade de algumas milhares de pessoas pode administrar armazém, troca e herança com selo, marca no pote e memória de quem manda.

Nesse modelo, cada selo identificava uma pessoa, uma família ou um cargo. O barro selado sobre a boca do jarro dizia quem tinha fechado e quem podia abrir, sem precisar de uma frase.

O problema aqui é o tamanho. Muralha com torres, palácio, oficina de bronze e túmulo com carro pedem gente organizada, imposto e calendário de obra. Na Mesopotâmia e no Elam, cidades desse porte criaram escrita justamente para dar conta dessa máquina. Gonur teria sido a exceção, e nenhum outro sítio da região mostrou como.

A língua que ninguém ouviu

A terceira hipótese olha para a língua. Alguns linguistas, como o holandês Alexander Lubotsky em artigo de 2001, apontaram palavras do sânscrito e do iraniano antigo sem origem conhecida, e propuseram que vieram de uma língua falada na Margiana. Sem texto, essa língua só existe como sombra nas palavras emprestadas.

O que uma prova exigiria

1. Datar por carbono as camadas de cinza dos altares e comparar com a sequência dos selos, para saber se o fogo e a administração cresceram juntos.

2. Rodar análise química nova nos resíduos dos potes do "templo branco", em laboratório independente, para resolver a questão da efedra.

3. Escavar o recinto sul com peneira fina atrás de estilete, tinta ou suporte de escrita que as temporadas antigas possam ter perdido.

O escavador deixou a pá e a cidade continua muda. Gonur Depe escreveu em material que apodreceu e a palavra se perdeu com o couro, ou nunca precisou escrever e governou tudo com o selo e a memória. As duas leituras estão acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Na análise publicada em 2003, o que a botânica holandesa Corrie Bakels encontrou nos potes do templo branco de Gonur Depe?

AVestígios claros de efedra, confirmando a tese de Sarianidi
BRestos de milhete, sem sinal seguro de efedra
CResíduos de vinho fermentado com mel
DSementes de papoula carbonizadas em grande quantidade

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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