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A primeira leitura possível é a prática. Chaco dependia de fora: vigas de pinheiro vinham das serras Chuska e do monte Taylor, a turquesa chegava de minas distantes, e o milho de outras aldeias completava a colheita do cânion. Estradas largas facilitariam cargas, filas de carregadores e encontros de muita gente.
O problema é o destino. O Kutz Canyon não tem madeira, turquesa, argila rara nem terra boa para plantar. Uma rota de carga que corre 50 quilômetros até um vale improdutivo e desce uma escada para o nada não fecha a conta de ninguém que só quisesse transportar carga.
A leitura cósmica
Em 1989, a pesquisadora Anna Sofaer, fundadora do Solstice Project, publicou com Michael Marshall e Rolf Sinclair o estudo The Great North Road: a cosmographic expression of the Chaco culture of New Mexico (A Grande Estrada Norte: uma expressão cosmográfica da cultura de Chaco). O argumento: a via foi traçada para apontar o norte verdadeiro, e a direção importava mais que o ponto de chegada.
Nas tradições dos povos Pueblo, o norte costuma ser associado à origem. Os keres, povo pueblo de Acoma e de aldeias do rio Grande, falam de Shipap, o lugar de emergência, a abertura por onde os primeiros humanos subiram do mundo de baixo. Nas kivas (câmaras cerimoniais redondas, semienterradas), um pequeno buraco no piso, o sipapu (a passagem para o mundo de baixo), repete essa ideia.
Uma estrada que escolhe a direção antes do destino. |
Lida assim, a escada ganha sentido. Descer do planalto para o fundo de um cânion ao norte seria encenar a volta ao lugar de origem, uma procissão, não uma viagem de carga. As pistas paralelas perto de Pueblo Alto também caberiam: faixas que ninguém precisava para tráfego fazem sentido para cerimônia e para grupos que andavam separados.
Quatro pistas para o mesmo rumo
O próprio Pueblo Alto reforça a hipótese de encontro. Escavações do Chaco Center, lideradas pelo arqueólogo Thomas Windes, encontraram ali um monte de lixo com enorme quantidade de cerâmica quebrada, mais do que os moradores fixos da casa produziriam. A leitura mais aceita é de banquetes e reuniões periódicas, com gente vinda de longe.
Há outra linha, mais ampla. Em 1999, o arqueólogo Stephen Lekson propôs, no livro The Chaco Meridian (O Meridiano de Chaco), que os chacoanos alinharam seus centros num eixo norte e sul: Chaco, depois Aztec Ruins, ao norte, e mais tarde Paquimé, no México. Nessa leitura, a Grande Estrada Norte seria o primeiro traço visível desse eixo.
Em 1992, o arqueólogo John Roney, também do Bureau of Land Management, lembrou que muitas estradas chacoanas são trechos curtos que saem das grandes casas e somem. Para ele, parte do sistema servia de monumento em volta dos edifícios, e a observação serve de aviso contra ler cada linha como caminho longo.
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A primeira lacuna é a data. Estrada não tem viga para datar por anéis de árvore. A idade da Grande Estrada Norte vem da cerâmica achada no leito e das casas que a acompanham, e a cerâmica permite dizer em que época ela estava em uso, mas não em que ano começou nem quanto tempo levou.
A segunda lacuna é a continuação. A estrada termina na escada do Kutz Canyon, ou seguia pelo fundo do vale até o rio San Juan e as grandes casas de Salmon e Aztec, mais ao norte? Nenhum levantamento confirmou leito do outro trecho. O vale é de terra que desmancha com chuva, e uma via rasa não resistiria mil anos de erosão ali.
Três lacunas no chão
Essa ausência corta dos dois lados. Quem defende a peregrinação diz que a via acabava de propósito na escada. Quem defende o meridiano de Lekson diz que o trecho seguinte simplesmente se perdeu. O terreno, como está, não permite escolher: falta leito para provar a continuação, e falta prova de que nunca houve continuação.
A terceira lacuna é a própria escada. Os degraus estão tão gastos que não dá para medir quantos eram, nem se havia apoio de madeira, nem se a descida era usada por muita gente ou por poucos em datas marcadas. Sem desgaste de piso legível, a frequência de uso fica fora de alcance.
O chão mostra como fizeram, nunca o motivo. |
Resta a memória viva. Hopis, zunis, acomas e outros povos Pueblo consideram Chaco lugar de ancestrais e mantêm tradições sobre ele. Parte desse conhecimento é cerimonial e não é partilhada com pesquisadores de fora, por decisão das próprias comunidades, e a arqueologia não tem como exigir o que elas escolhem guardar.
O desfecho, então, é este: o propósito da Grande Estrada Norte de Chaco segue desconhecido, porque o povo que a abriu não deixou escrita, a via termina onde não havia recurso algum, e a erosão do Kutz Canyon apagou a única pista física que diria se a escada era ponto final ou passagem.
Uma via de peregrinação que levava ao ponto onde a terra se abre para o norte, ou o trecho que sobrou de uma rota até as grandes casas do rio San Juan, apagada depois da escada. A escada no fim do planalto sustenta a primeira leitura; as ruínas de Aztec e Salmon, ao norte, sustentam a segunda.
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