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A tomografia achou fratura onde Woolley viu veneno em Ur

Woolley achou 74 corpos em fileiras no Grande Poço de Ur e falou em veneno; um crânio escaneado em 2007 mostrou golpe

Cova escavada no solo do Cemitério Real de Ur, no Iraque

O Cemitério Real de Ur, no sul do Iraque

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: o Grande Poço da Morte.

Local: Ur, sul do Iraque.

Anomalia: 74 corpos sem dono.

Em 1934, o arqueólogo britânico Leonard Woolley publicou que as 74 pessoas do Grande Poço da Morte de Ur tinham tomado veneno e se deitado em fileiras, sem luta. Em 2011, a revista Antiquity publicou a tomografia de um crânio do mesmo poço com a marca de um golpe na cabeça.

Ur fica no sul do Iraque, num morro que os árabes chamam de Tell al-Muqayyar (o morro do betume). Entre 1922 e 1934, Woolley escavou ali para o Museu Britânico e para o Museu da Universidade da Pensilvânia.

Ao pé do zigurate (a torre de degraus do templo), ele abriu o Cemitério Real e registrou, pelas próprias contas, cerca de 1.850 sepulturas. Dezesseis delas destoavam das outras: tinham câmara de pedra, ouro em quantidade e gente enterrada junto com o dono.

A maior dessas covas coletivas recebeu a etiqueta PG 1237 (PG de private grave, sepultura particular, a sigla do catálogo de Woolley). Ele a batizou de Grande Poço da Morte.

No inverno de 1928 para 1929, a equipe limpou o piso do poço. Seis homens estavam perto da rampa de entrada. Sessenta e oito mulheres ocupavam o resto do chão, deitadas de lado, em fileiras, com as pernas um pouco dobradas.

Elas usavam toucados de folhas de ouro, contas de lápis-lazúli e cornalina, brincos em meia-lua e pentes de prata. Entre os corpos havia liras de madeira com cabeças de animais em metal.

Ao lado de muitos deles, Woolley encontrou um copinho de barro, de pedra ou de metal. Daí veio a leitura dele: cada pessoa bebeu uma dose, deitou no lugar marcado e adormeceu, e alguém depois cobriu o poço de terra.

A cena convenceu gerações de leitores. Os ossos, porém, quase não foram examinados. O peso da terra esmagou os esqueletos, e Woolley guardou poucos crânios, retirados do chão dentro de blocos de cera e gesso para não desmanchar.

Oito décadas depois, um desses blocos entrou num tomógrafo em Filadélfia. O registro começa pelo chão do poço e pelo que Woolley anotou nele.

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I  O Registro

Fileiras de ouro no chão do poço

A resposta de ontem

Onde foi parar o mosaico dos navios de Nemi?

Virou mesa de centro num apartamento de Manhattan. A antiquária Helen Fioratti comprou a peça nos anos 1960; em 2017 a promotoria de Manhattan e os Carabinieri a apreenderam, e em 2021 o mosaico voltou à Itália, para o Museu dos Navios Romanos, na margem do lago de Nemi.

O Grande Poço da Morte é uma cova retangular cavada no solo do Cemitério Real, com uma rampa de descida num dos lados. Woolley datou o conjunto pelo estilo dos objetos, e o Museu Penn hoje põe o poço por volta de 2550 antes de Cristo.

Nenhuma câmara de pedra apareceu dentro dele. O poço guardava só os acompanhantes, arrumados no piso de terra batida, coberto de esteiras.

A poucos metros dali ficava a tumba PG 800, de uma mulher chamada Puabi. Um selo cilíndrico (um pequeno rolo de pedra gravado, usado para carimbar argila) achado junto dela trazia o título nin, rainha ou senhora em sumério, e mais de vinte acompanhantes jaziam na cova ao lado.

A rampa e os seis homens

Os seis homens ficavam junto da rampa, onde Woolley os leu como guardas ou servos da entrada. Os ornamentos deles eram simples perto do ouro das mulheres.

A posição deles sugeria a última tarefa: fechar a passagem por onde o cortejo tinha descido.

As mulheres de toucado

As 68 mulheres formavam fileiras regulares, com a cabeça voltada para o mesmo lado. Woolley contou os toucados de ouro para separar uma da outra, porque os ossos tinham virado pó e lascas sob a terra.

Uma delas chamou a atenção dele. A fita de prata para o cabelo estava ainda enrolada, junto da cintura, como se não tivesse dado tempo de prendê-la na cabeça.

Woolley tirou do Grande Poço uma cerimônia serena, e o chão do poço guardava 74 corpos arrumados em fileiras.

O que estava no piso

Perto das mulheres havia liras com caixa de ressonância de madeira. A mais conhecida tem uma cabeça de touro em folha de ouro, com barba de lápis-lazúli, e está no Museu Penn, em Filadélfia.

Saíram também duas estatuetas de um bode empinado contra uma árvore de ouro, feitas de madeira, ouro, lápis-lazúli e concha. Woolley as chamou de Carneiro na Moita (Ram in a Thicket, no original inglês).

O relatório de 1934

Woolley publicou o relatório completo no volume Ur Excavations II, The Royal Cemetery (O Cemitério Real), em 1934. Ali estão as plantas do poço, a posição de cada toucado e a hipótese do veneno.

O relatório mede o poço, numera os objetos e desenha cada fileira. Sobre a causa das 74 mortes, oferece só uma leitura, apoiada nos copinhos espalhados pelo chão.

 

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II  A Pergunta em Aberto

O crânio dentro do bloco de gesso

Em 2007, a equipe do Museu Penn levou dois crânios do Cemitério Real ao Hospital da Universidade da Pensilvânia. Um era de uma mulher do Grande Poço, ainda presa no bloco de cera e gesso, com o toucado no lugar. O outro era de um soldado de outra tumba real, a PG 789.

Os resultados saíram em 2011 na Antiquity, num artigo assinado por Aubrey Baadsgaard, Janet Monge, Samantha Cox e Richard Zettler.

A fratura

A tomografia computadorizada (imagem em fatias feita por raios X) mostrou nos dois crânios fraturas de golpe forte. O formato do furo combinava com uma ponta de metal estreita, parecida com as machadinhas de bronze achadas no próprio cemitério.

Os golpes atingiram a parte de baixo e de trás da cabeça. Para os autores, as vítimas não reagiram: estavam sentadas ou já sem defesa quando a ponta entrou.

A tomografia de 2011 achou no crânio de uma mulher do Grande Poço o furo de uma ponta de bronze.

O crânio da mulher nunca saiu do bloco. A tomografia permitiu enxergar o osso através do gesso de Woolley sem quebrar o toucado, que continua preso à cabeça, exposto no Museu Penn.

O calor e o mercúrio

O estudo achou outra marca. Os ossos mostravam sinais de aquecimento, e o crânio da mulher tinha resíduo de mercúrio, provável vestígio de cinábrio (o sulfeto de mercúrio, um pó vermelho).

Os autores leram os dois sinais como tratamento do cadáver. O calor e o mercúrio retardariam a decomposição enquanto os corpos ficavam expostos, vestidos e enfeitados, até a cova ser fechada.

O veneno ainda cabe

A fratura não elimina o copinho. Uma dose de sedativo antes do golpe explicaria a falta de reação, e nenhum exame químico dos copos foi publicado até hoje.

O artigo mudou a ordem da cena. Em vez de um sono coletivo e voluntário, a leitura nova descreve uma execução feita uma a uma, seguida de preparo dos corpos e arrumação em fileiras.

 
 

III  O Que Falta Provar

A cova sem dono

O Grande Poço tem 74 acompanhantes e nenhum senhor. Woolley procurou a câmara de pedra que justificaria o sacrifício e não a encontrou ao lado da cova.

Ele supôs que a tumba principal ficava num nível perdido ou tinha sido saqueada ainda na Antiguidade. Nenhum selo com nome de rei ou rainha saiu do piso do poço.

A amostra pequena

A tomografia examinou um crânio do Grande Poço. Os outros 73 corpos ficaram esmagados no solo ou se perderam na escavação, e não dá para afirmar que todos morreram do mesmo jeito.

Os autores de 2011 fizeram essa ressalva no próprio artigo: o resultado vale para os dois indivíduos estudados, e a extensão ao poço inteiro é inferência.

Os crânios das outras tumbas seguem guardados em Londres e em Filadélfia, muitos ainda presos à terra ou ao gesso da escavação. Cada um exigiria uma nova sessão de tomógrafo e licença dos dois museus.

O texto sumério

Os sumérios deixaram um poema sobre o enterro do rei Gilgamesh, chamado em sumério de Bilgames. A versão de Me-Turan, publicada por Antoine Cavigneaux e Farouk Al-Rawi em 2000, lista a esposa, os filhos, as concubinas, o músico e os servos que desceram à cova junto com ele.

O poema mostra a ideia do séquito enterrado com o rei. Não diz como essas pessoas morreram nem cita Ur.

As tábuas de Me-Turan saíram de uma escavação de resgate no vale do rio Diyala, no leste do Iraque, e são centenas de anos mais novas do que o Cemitério Real. Servem de eco, sem valor de testemunho direto.

O único texto sumério sobre um séquito enterrado com o rei descreve quem desceu à cova e cala sobre o golpe.

O que uma prova exigiria

1. Achar a câmara do senhor do Grande Poço, com selo ou inscrição que diga quem ele era.

2. Analisar o resíduo dos copinhos guardados nos museus, em busca de sedativo ou veneno.

3. Escanear os crânios restantes do Cemitério Real para saber se o golpe era regra ou exceção.

As duas estatuetas de bode que dividiam o chão com as 74 pessoas atravessaram o século XX longe do Iraque, uma no Museu Britânico, em Londres, e a outra no Museu Penn.

Ler no Grande Poço um cortejo que bebeu e adormeceu, como escreveu Woolley em 1934, ou uma fila de pessoas abatidas uma a uma e preservadas com calor e mercúrio, como sugere a tomografia de 2011. As duas leituras usam os mesmos copinhos e o mesmo chão.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que Woolley chamou de Carneiro na Moita as duas estatuetas de bode do Grande Poço?

 
 
 
Quiz da edição

A tomografia de 2011 achou no crânio da mulher do Grande Poço um resíduo de mercúrio. Segundo o estudo, esse resíduo era provável vestígio de quê?

AArsênico usado para embalsamar
BChumbo de um recipiente de bronze
CCinábrio, o sulfeto de mercúrio
DÓpio misturado à bebida do copinho

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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