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ED 084

A cela murada de Dunhuang e os cinquenta mil rolos

Um monge que varria areia num corredor de Mogao derrubou o reboco e achou uma cela entulhada de manuscritos até quase o teto.

Uma sala de conservação de manuscritos à noite, com um rolo de papel parcialmente aberto e preso nas pontas sobre a mesa de madeira, um invólucro de seda desbotado com etiqueta escrita à mão, cadernos costurados amarrados com cordão, lupa e espátula de osso, um prato com fragmentos secos de reboco pintado e a planta de um corredor de gruta com a cela lacrada marcada a tinta, tudo sob luz âmbar focal

Os maços de Dunhuang na mesa de catalogação

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 1900, um monge taoista que limpava a areia do corredor de uma gruta de Mogao, no noroeste da China, derrubou parte do reboco pintado e abriu uma cela murada do tamanho de um quarto.

Registro: dentro havia cerca de cinquenta mil rolos, cadernos, pinturas em seda e tecidos, em mais de quinze línguas, datados do século V ao ano de 1002.

Anomalia: ninguém sabe quem lacrou a cela, por que a parede foi rebocada e pintada por cima, nem por que a comunidade ao lado jamais voltou para buscar o que guardou.

Do que se escreveu na Ásia central entre os séculos V e X, sobrou uma fração que caberia numa estante grande. Papel apodrece, tinta desbota, inseto come, e um incêndio de mosteiro resolve o resto em uma noite.

Por causa dessa fragilidade, quase todo texto antigo que ainda se lê chegou até aqui por cópia. Alguém copiou à mão, outra pessoa copiou a cópia, e a corrente seguiu geração após geração até a imprensa. O original quase nunca sobrevive. Sobrevive a linhagem.

O outro caminho é o do acaso. É o documento que ninguém achou digno de copiar e que mesmo assim ficou, porque foi parar num lugar seco o bastante para não apodrecer: areia de deserto, cripta selada, lixeira de guarnição militar, poço entupido.

A diferença entre os dois caminhos é enorme. A cópia entrega o cânone, aquilo que alguma autoridade julgou digno de repetir por séculos. O acaso entrega o resto: o recibo, a lista de compras, a carta de reclamação, o contrato de venda de um burro.

Historiador nenhum consegue escolher. Quem estuda a Ásia central medieval trabalha quase sempre com escritura religiosa copiada e recopiada, e adivinha o cotidiano por dedução.

No noroeste da China, onde o corredor de Gansu encosta no deserto de Gobi, existe um lugar em que o acaso entregou os dois de uma vez. Cânone e cotidiano, sutra e recibo de empréstimo de trigo, no mesmo maço amarrado.

O lugar é um oásis chamado Dunhuang, última parada com água antes de o viajante escolher entre a rota norte e a rota sul do deserto de Taklamakan. Num paredão de conglomerado perto da cidade, monges escavaram e pintaram centenas de grutas ao longo de mil anos.

Uma dessas grutas guardava um cômodo que não constava de mapa nenhum, escondido atrás de reboco pintado, fechado por cerca de novecentos anos. Quem abriu não procurava nada.

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I  O Registro

O que estava dentro da cela murada

Em 1900, Wang Yuanlu limpava areia do corredor de uma das grutas de Mogao, perto do oásis de Dunhuang. Ele era um monge taoista, ex-soldado, instalado ali por conta própria como zelador de um conjunto de grutas budistas quase abandonado.

O trabalho não terminava nunca, porque o deserto devolve areia mais rápido do que um homem tira. Naquele ano, parte do reboco pintado da parede lateral do corredor cedeu e apareceu uma fresta.

Atrás da fresta havia uma cela de cerca de dois metros e meio de lado e três de altura, do tamanho de um quarto pequeno, entulhada quase até o teto. Ela recebeu depois o número 17 no cadastro das grutas e ficou conhecida como gruta da biblioteca.

Dentro estavam, pela estimativa mais aceita, cinquenta mil itens: rolos de papel, cadernos costurados, pinturas em seda, estandartes de procissão, tecidos e tabuinhas de madeira.

Escritura budista e manual de adivinhação. Contrato de venda de terra e recibo de empréstimo de trigo. Caderno de exercício de criança. Receita médica. Ata de confraria de aldeia. Carta que ninguém entregou.

A cela não nasceu depósito. Foi aberta no século IX como capela funerária de Hongbian, o monge que chefiou o clero budista da região e faleceu em 862, e a estela dedicada a ele estava lá dentro.

O material cobre uns seiscentos anos, do começo do século V ao ano de 1002, a data mais recente já lida num documento do acervo. Depois de 1002, nada.

As línguas passam de quinze, entre chinês, tibetano, sânscrito, sogdiano, khotanês, uigur antigo, hebraico e siríaco, distribuídas por mais de vinte sistemas de escrita diferentes.

Um dos rolos é o Sutra do Diamante impresso em xilogravura, com data equivalente a 868 no colofão. É o livro impresso datado mais antigo que existe inteiro em qualquer acervo do mundo.

O que veio depois explica por que o acervo hoje está espalhado. Wang avisou a autoridade local, mandou amostras a um funcionário da província e passou anos sem resposta, tomando conta do achado sozinho.

Em 1907 chegou Aurel Stein, arqueólogo a serviço da Índia britânica, que não lia chinês e negociou por volume. Levou cerca de sete mil manuscritos inteiros, seis mil fragmentos e quase quinhentas pinturas por cento e trinta libras esterlinas, doadas para a restauração do templo.

Em 1908 chegou Paul Pelliot, sinólogo francês que lia chinês corrente. Passou três semanas dentro da cela, à luz de vela, examinando peça por peça, e saiu com dez mil escolhidas a dedo por quinhentos taéis de prata.

Só em 1910 a corte de Pequim mandou recolher o que restava, e chegaram à capital cerca de nove mil peças, com perdas pelo caminho. Expedições japonesa e russa vieram depois, e hoje o acervo está dividido entre Londres, Paris, Pequim, São Petersburgo e Tóquio.

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II  A Pergunta em Aberto

Pressa de guerra ou faxina de mosteiro

A pergunta que organiza o caso não é o que estava lá dentro. É por que a cela foi fechada. Existem duas explicações grandes, e nenhuma das duas fecha sozinha.

A primeira é a do esconderijo. Por volta do ano 1000 a região vivia sob ameaça real: o reino budista de Khotan caiu diante dos caraquânidas por volta de 1006, e refugiados espalharam a notícia pela rota sul. Em 1036 os tangutes tomaram Dunhuang.

Nessa leitura, defendida pelo historiador Rong Xinjiang, os monges recolheram a biblioteca de um templo da região, empilharam tudo na cela e emparedaram a entrada antes que o perigo chegasse.

A favor dela pesa a cronologia. O documento mais recente é de 1002, e não existe uma linha em escrita tangute no acervo inteiro, o que coloca o fechamento antes de 1036.

Contra ela pesa o conteúdo. Quem esconde tesouro esconde ouro, imagem de culto, utensílio de altar. Ali havia papel, boa parte rasgado, e uma fatia grande do conjunto é fragmento sem valor de mercado.

Pesa também o acabamento da parede. Ela não foi levantada às pressas: recebeu reboco e um mural pintado por cima, que dá continuidade à decoração do corredor. Ninguém pinta parede fugindo de exército.

A segunda explicação é a do descarte sagrado, formulada pelo sinólogo japonês Fujieda Akira. A cela teria sido o depósito de material fora de uso de uma biblioteca de mosteiro: cópia estragada, duplicata, papel escrito dos dois lados, texto que os monges não podiam queimar porque trazia o nome do Buda.

A favor dela pesa a composição do acervo. Uma parte grande é sobra de oficina: papel reaproveitado, exercício de aluno, rascunho, maço amarrado sem cuidado, fragmento sem começo nem fim.

Contra ela pesa a qualidade do restante. No mesmo espaço havia pintura em seda intacta, rolo completo em bom estado e estandarte de procissão, peças que nenhum mosteiro classifica como refugo.

Há ainda uma leitura intermediária, de mudança de função. A capela de Hongbian teria virado depósito quando o mosteiro reorganizou a própria biblioteca, e o fechamento seria administrativo, sem nenhuma emergência por trás.

O buraco dessa terceira versão é o mesmo das outras duas, e é o buraco central do caso: ninguém voltou. Depósito administrativo se reabre na semana seguinte. Esconderijo de guerra se desfaz quando a guerra passa.

A cela ficou lacrada cerca de novecentos anos, com a comunidade monástica ativa a poucos metros da parede, escavando e pintando outras grutas.

E não existe documento conhecido, dentro ou fora do acervo, que mencione a cela, o que entrou nela ou a decisão de fechá-la.

 
 

III  O Que Falta Provar

A ordem dos maços que ninguém anotou

O que está firme é o inventário e a cronologia: sabe-se o que estava lá dentro, em que línguas, e que nada é posterior a 1002. O que continua em aberto é a intenção de quem fechou, e há três medidas capazes de estreitar a questão.

A primeira é reconstituir a arrumação. A cela foi esvaziada sem que ninguém anotasse a posição de um único maço, e a posição é a evidência que separa as hipóteses.

Descarte se empilha de um jeito, biblioteca organizada se empilha de outro, e mudança feita às pressas produz um terceiro padrão. Existe uma única descrição do interior antes do esvaziamento, e é de quem não lia a língua.

Amontoados em camadas, mas sem ordem alguma, apareceu à luz fraca da pequena lamparina do sacerdote um bloco compacto de maços de manuscritos, com quase três metros de altura, ocupando, como a medição posterior mostrou, perto de catorze metros cúbicos.

Aurel Stein, Ruins of Desert Cathay, 1912

A reconstituição possível hoje é indireta. Os invólucros de tecido que amarravam os maços sobreviveram em várias coleções, muitos com etiqueta e número de ordem escritos à mão.

Casar cada rolo ao invólucro certo, por fibra de papel, tinta, caligrafia e marca de dobra, refaz maços inteiros e mostra se o que foi guardado junto estava junto por assunto ou por acaso.

A segunda medida é datar o lacre diretamente. A parede quebrada em 1900 era de barro com palha picada, e palha se data por radiocarbono com margem de algumas décadas.

Fragmento do reboco, se ainda existir no entulho do corredor ou em alguma coleção, devolve uma faixa de data para o fechamento. A diferença entre 1006 e 1036 separa as duas hipóteses principais.

A terceira medida é medir o acervo em vez de citá-lo. A tese do descarte prevê proporção alta de material danificado e reaproveitado. A do esconderijo prevê o contrário, um conjunto selecionado e em bom estado.

Ninguém publicou até hoje um censo assim sobre as cinco grandes coleções, porque durante quase um século cada uma foi catalogada em separado, com numeração e critério próprios.

A base para o censo existe desde 1994, quando começou a digitalização conjunta que hoje reúne as coleções numa mesma consulta. O trabalho que falta é de contagem e comparação, não de tecnologia nova.

Fica a assimetria que sustenta o caso. O acervo é um dos mais estudados do planeta, com edições, dicionários, glossários e teses sobre praticamente cada texto que saiu de lá.

O que ninguém tem é a cena. A cela de Mogao continua aberta e vazia, com três metros de altura e nenhuma marca no chão que diga quem empilhou o que ali dentro, nem por quê.

 
 
 
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