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Em 1900, Wang Yuanlu limpava areia do corredor de uma das grutas de Mogao, perto do oásis de Dunhuang. Ele era um monge taoista, ex-soldado, instalado ali por conta própria como zelador de um conjunto de grutas budistas quase abandonado.
O trabalho não terminava nunca, porque o deserto devolve areia mais rápido do que um homem tira. Naquele ano, parte do reboco pintado da parede lateral do corredor cedeu e apareceu uma fresta.
Atrás da fresta havia uma cela de cerca de dois metros e meio de lado e três de altura, do tamanho de um quarto pequeno, entulhada quase até o teto. Ela recebeu depois o número 17 no cadastro das grutas e ficou conhecida como gruta da biblioteca.
Dentro estavam, pela estimativa mais aceita, cinquenta mil itens: rolos de papel, cadernos costurados, pinturas em seda, estandartes de procissão, tecidos e tabuinhas de madeira.
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Escritura budista e manual de adivinhação. Contrato de venda de terra e recibo de empréstimo de trigo. Caderno de exercício de criança. Receita médica. Ata de confraria de aldeia. Carta que ninguém entregou.
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A cela não nasceu depósito. Foi aberta no século IX como capela funerária de Hongbian, o monge que chefiou o clero budista da região e faleceu em 862, e a estela dedicada a ele estava lá dentro.
O material cobre uns seiscentos anos, do começo do século V ao ano de 1002, a data mais recente já lida num documento do acervo. Depois de 1002, nada.
As línguas passam de quinze, entre chinês, tibetano, sânscrito, sogdiano, khotanês, uigur antigo, hebraico e siríaco, distribuídas por mais de vinte sistemas de escrita diferentes.
Um dos rolos é o Sutra do Diamante impresso em xilogravura, com data equivalente a 868 no colofão. É o livro impresso datado mais antigo que existe inteiro em qualquer acervo do mundo.
O que veio depois explica por que o acervo hoje está espalhado. Wang avisou a autoridade local, mandou amostras a um funcionário da província e passou anos sem resposta, tomando conta do achado sozinho.
Em 1907 chegou Aurel Stein, arqueólogo a serviço da Índia britânica, que não lia chinês e negociou por volume. Levou cerca de sete mil manuscritos inteiros, seis mil fragmentos e quase quinhentas pinturas por cento e trinta libras esterlinas, doadas para a restauração do templo.
Em 1908 chegou Paul Pelliot, sinólogo francês que lia chinês corrente. Passou três semanas dentro da cela, à luz de vela, examinando peça por peça, e saiu com dez mil escolhidas a dedo por quinhentos taéis de prata.
Só em 1910 a corte de Pequim mandou recolher o que restava, e chegaram à capital cerca de nove mil peças, com perdas pelo caminho. Expedições japonesa e russa vieram depois, e hoje o acervo está dividido entre Londres, Paris, Pequim, São Petersburgo e Tóquio.
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