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Os guanches e as 7 ilhas sem barco

O DNA publicado em 2017 liga o povo das Canárias aos berberes do norte da África, e ninguém achou o barco da travessia

Costa vulcânica de uma ilha das Canárias vista do mar

Costa vulcânica de Tenerife, nas ilhas Canárias

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: os guanches das Canárias.

Local: Ilhas Canárias, Espanha.

Anomalia: ilhas povoadas, sem barco.

Em 2017, a equipe de Ricardo Rodríguez-Varela e Anders Götherström, da Universidade de Estocolmo, publicou na revista Current Biology o DNA de restos guanches de Gran Canaria e Tenerife, e os parentes mais próximos saíram entre os berberes do norte da África. Quando os castelhanos chegaram ao arquipélago, no século XV, os cronistas da conquista não registraram em nenhuma das sete ilhas um barco capaz de alcançar a vizinha.

Um povo vindo do continente atravessou o Atlântico. Seus descendentes viviam cercados de mar e não navegavam.

As Canárias ficam na frente da costa do Saara. Fuerteventura, a ilha mais próxima do continente, está a cerca de 100 quilômetros do cabo Juby, no atual Marrocos, e em dia limpo uma ilha enxerga o perfil da outra.

São sete ilhas grandes de origem vulcânica: Lanzarote, Fuerteventura, Gran Canaria, Tenerife, La Gomera, La Palma e El Hierro. O pico do Teide, em Tenerife, passa dos 3.700 metros e aparece no horizonte de quase todas elas.

A palavra guanche nasceu em Tenerife e designava os nativos daquela ilha. Os europeus estenderam o termo a todos os antigos moradores do arquipélago, embora cada ilha tivesse grupo, chefia e costume próprios.

Os castelhanos acharam nas ilhas cabras, ovelhas, porcos e cães. Acharam também cevada, trigo e lentilha plantados em roças. Nenhum desses bichos ou grãos nasce sozinho numa ilha vulcânica no meio do oceano.

Alguém trouxe tudo por mar, com animais vivos a bordo e semente guardada para plantar. A travessia exigiu barco, água doce e alguma noção de rumo.

A viagem pedia ainda tripulação suficiente para formar famílias nas ilhas. Um casal sozinho não povoa sete ilhas, e o DNA dos restos mostra variedade de linhagens desde os enterros mais antigos.

Depois dela, o barco sumiu da memória dos ilhéus. Os pastores de Tenerife olhavam Gran Canaria do alto dos montes e não tinham como chegar lá.

O isolamento deixou marca em cada ilha, e o registro começa pelo que os conquistadores anotaram ilha por ilha.

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I  O Registro

Sete ilhas, sete povos

Os guanches e os outros povos das Canárias entram na história escrita em 1402, com a expedição normanda de Jean de Béthencourt e Gadifer de La Salle a Lanzarote. Os capelães Pierre Boutier e Jean Le Verrier contaram a viagem na crônica Le Canarien (O Canário), escrita nos anos seguintes.

A conquista em etapas

A tomada do arquipélago levou quase um século. Lanzarote caiu em 1402, Fuerteventura e El Hierro pouco depois, e La Gomera passou ao domínio de senhores castelhanos em meados do século XV.

As ilhas mais povoadas resistiram. Gran Canaria só se rendeu em 1483, La Palma em 1493 e Tenerife em 1496, depois que as tropas de Alonso Fernández de Lugo perderam a primeira batalha de Acentejo, em 1494, para os guerreiros da ilha.

Tenerife estava dividida em nove menceyatos (os reinos governados cada um por um mencey, o chefe da região). Os menceys disputavam pasto e água entre si, e parte deles se aliou aos castelhanos contra os vizinhos.

Cada ilha com seu costume

Em Tenerife, os mortos de posição alta passavam pelo mirlado (a secagem do corpo com gordura, ervas e sol) e iam embrulhados em peles de cabra para cavernas altas. Várias dessas múmias estão hoje no Museu da Natureza e Arqueologia de Santa Cruz de Tenerife.

Em Gran Canaria, os moradores usavam pintaderas (carimbos de barro cozido com desenhos geométricos), e a Cova Pintada de Gáldar guarda paredes pintadas em vermelho, branco e preto.

Em La Gomera, os pastores falavam por assobio de um vale ao outro. O silbo gomero (a língua assobiada da ilha) sobreviveu à conquista e entrou na lista do patrimônio imaterial da Unesco em 2009.

Sete ilhas à vista uma da outra guardaram sete costumes diferentes, porque ninguém atravessava o mar entre elas.

Até a contagem do tempo variava. Os cronistas anotaram nomes diferentes para os meses e para as festas da colheita em cada ilha, e um intérprete de Lanzarote não entendia todas as palavras de um pastor de Tenerife.

A letra dos rochedos

Em Lanzarote, Fuerteventura e El Hierro, os antigos moradores gravaram na pedra inscrições líbico-berberes (o alfabeto usado no norte da África antes da chegada do árabe). O conjunto de Los Letreros, em El Hierro, reúne dezenas de sinais riscados numa corrida de lava.

A escrita é parente do tifinagh (o alfabeto que os tuaregues ainda usam no Saara). Os estudiosos conseguem identificar muitos sinais, mas não traduzem as frases com segurança, e o sentido das inscrições segue desconhecido.

Língua, carimbo, sepultura e alfabeto apontam para o mesmo lado do mar. O DNA de 2017 confirmou a pista com osso: os ancestrais dos ilhéus vieram do norte da África.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Quem trouxe as cabras

Os antigos canários chegaram por mar com rebanho e semente, e a arqueologia não achou o barco, o porto nem a data exata da viagem. Três hipóteses disputam a resposta.

Uma frota berbere esquecida

Na primeira leitura, grupos berberes da costa atravessaram por conta própria, em barcos de couro ou de junco, e povoaram as ilhas em levas. Os animais e grãos das ilhas batem com os da criação e da lavoura do norte da África antigo.

O ponto fraco desta leitura está na costa: os berberes da costa não tinham fama de navegantes de alto mar, e nenhum barco desse tipo apareceu numa escavação das ilhas ou do continente.

A rota romana

No ilhéu de Lobos, colado a Fuerteventura, arqueólogos da Universidade de La Laguna escavam desde 2012 uma oficina romana de púrpura (a tinta vermelho-violeta tirada de um caramujo marinho), com milhares de conchas partidas. O sítio é datado entre o fim do século I antes de Cristo e o século I depois de Cristo.

O escritor romano Plínio, o Velho, contou na História Natural, do ano 77, que o rei Juba II da Mauritânia mandou uma expedição às Ilhas Afortunadas. Segundo Plínio, os enviados acharam numa delas cães enormes, e daí o nome Canária, do latim canis (cão).

Roma sabia o caminho das ilhas e tinha navio para chegar lá.

A partir desses achados, um grupo de pesquisadores defende que gente berbere chegou levada por navios romanos ou púnicos (os cartagineses do norte da África), como mão de obra ou deportada depois de revoltas, e foi deixada sem frota própria.

Contra a rota romana pesa a cultura dos ilhéus. Na chegada dos castelhanos, eles não usavam metal, moeda, roda nem cerâmica de torno, recursos que qualquer grupo ligado a Roma teria conhecido.

A data que não fecha

A terceira questão é o relógio. As datações por radiocarbono de ossos e sementes variam conforme o laboratório e a ilha, e a chegada dos primeiros moradores oscila, nas propostas publicadas, entre o primeiro milênio antes de Cristo e os primeiros séculos da era cristã.

Uma data antiga favorece navegantes berberes ou fenícios. Uma data romana favorece o transporte em navio alheio. Nenhuma das três hipóteses explica sozinha todas as datas, e nenhuma tem o barco para mostrar.

 
 

III  O Que Falta Provar

O barco que ninguém achou

O DNA respondeu de onde vieram os guanches. Faltam o meio de transporte, o porto de partida e o momento da viagem, e cada lacuna depende de um achado que ainda não apareceu.

O que o osso contou

Antes do estudo de 2017, a geneticista Rosa Fregel, da Universidade de La Laguna, já tinha lido em 2009 o DNA mitocondrial (a parte do material genético herdada só da mãe) de restos indígenas das ilhas. Uma linhagem materna típica do norte da África aparecia nos ossos e ainda aparece na população canária de hoje.

O trabalho de Rodríguez-Varela e Götherström foi além e leu o genoma inteiro. Os antigos ilhéus se agruparam com os berberes atuais, e parte dessa herança continua no sangue dos canários modernos, apesar da conquista e da chegada de colonos europeus e de escravizados africanos.

O osso diz quem veio. Não diz em que barco, de que praia nem em que século.

O genoma também mostrou parentesco com antigos agricultores europeus, uma mistura que já existia entre os berberes do continente antes da travessia, segundo a mesma equipe de Estocolmo.

O silêncio dos ilhéus

Nenhuma tradição indígena registrada pelos cronistas conta a travessia. Os relatos colhidos depois da conquista falam de deuses do céu, de montes sagrados e de chefes antigos, sem menção a uma viagem pelo mar.

A causa do esquecimento também segue desconhecida. Pode ter faltado madeira boa nas ilhas, pode ter havido proibição de navegar, ou o barco pode ter caído em desuso porque cada ilha produzia o próprio sustento. Nenhuma dessas três explicações tem prova escrita ou arqueológica.

O que uma prova exigiria

1. Achar no litoral das ilhas ou do norte da África restos de um barco do período, com madeira datável por radiocarbono.

2. Datar no mesmo laboratório os ossos e as sementes mais antigos de cada ilha, para saber se a chegada foi uma só ou em várias levas.

3. Comparar o DNA dos ilhéus antigos com o de esqueletos berberes do mesmo período, para apontar a região exata da partida.

Uma travessia feita por navegantes berberes que depois largaram o mar, ou um povo levado por navios de Roma e deixado nas ilhas sem frota. O DNA serve às duas hipóteses, e a escolha fica com quem lê.

 
 
 
Quiz da edição

O estudo genético de 2017, publicado na revista Current Biology, mostrou que os parentes mais próximos dos guanches de Gran Canaria e Tenerife vieram de onde?

ADos fenícios do Mediterrâneo oriental
BDos berberes do norte da África
CDos vikings do norte da Europa
DDos povos celtas da Península Ibérica

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