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O preso que trocou de fortaleza quatro vezes sem trocar de carcereiro

Entrou em Pignerol em 1669, seguiu Saint-Mars por quatro prisões e foi inscrito em 1703 com um nome que nenhum funcionário reconheceu

Porta de cela de carvalho cravejado do século XVII em quase escuridão, com uma máscara de veludo preto sobre mesa de madeira gasta, carta de pergaminho com selo de cera vermelha rompido, castiçal de latão e molho de chaves de ferro pendurado na parede de pedra, sob luz âmbar focal

A cela da torre da Bertaudière, na Bastilha

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: um preso sem nome declarado passou 34 anos sob o mesmo carcereiro, Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, de Pignerol à Bastilha, com o rosto coberto por uma máscara de veludo preto.

Registro: o tenente do rei Étienne du Junca anotou a chegada dele à Bastilha em 18 de setembro de 1698 e o desfecho em 19 de novembro de 1703.

Anomalia: o registro da paróquia de Saint-Paul inscreveu o corpo com o nome Marchioly, que não corresponde a nenhum preso conhecido do reino.

Em 18 de setembro de 1698, o tenente do rei na Bastilha, Étienne du Junca, abriu o caderno da prisão para anotar a entrada de um homem trazido da ilha de Sainte-Marguerite numa liteira fechada. Não escreveu o nome do recém-chegado, porque não lhe informaram nenhum. Escreveu que o rosto vinha coberto por uma máscara de veludo preto e que o novo governador da fortaleza o instalou sozinho na terceira câmara da torre da Bertaudière.

O governador se chamava Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, e aquele preso o acompanhava havia quase trinta anos, de praça em praça, como bagagem pessoal. Quando Saint-Mars recebia posto novo, o homem sem nome era despachado junto, sob escolta própria e instruções escritas de silêncio.

A máscara de ferro que batizou o caso não aparece em papel nenhum da época. Ela nasceu na pena de Voltaire, que cumpriu ele próprio onze meses na Bastilha a partir de 1717, ouviu a história com os veteranos da guarnição e publicou a versão em ferro no Siècle de Louis XIV, em 1751. Os documentos administrativos falam de veludo, e apenas de veludo.

O que os arquivos guardam é uma rotina desproporcional para um detento comum. Cela de portas duplas, refeições entregues sem testemunha, proibição de papel e tinta fora do que o carcereiro entregava em mãos, e a ordem expressa de que nenhum subalterno escutasse dele qualquer assunto além das próprias necessidades materiais.

O desfecho também ficou registrado. Em 19 de novembro de 1703, o caderno de Du Junca recebeu a última linha sobre o preso desconhecido, sempre mascarado de veludo preto. No dia seguinte, o corpo foi inscrito no registro da paróquia de Saint-Paul com um nome que nenhum funcionário da corte reconheceu, Marchioly, e com idade declarada em torno de quarenta e cinco anos.

O registro de hoje começa trinta e quatro anos antes desse enterro, no primeiro documento que menciona o preso, uma carta ministerial que ainda traz um nome próprio por extenso.

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I  O Registro

I, A carta de julho de 1669

O SÍTIO

A fortaleza da Bastilha, em Paris, onde o preso mascarado ocupou sozinho a terceira câmara da torre da Bertaudière entre 1698 e 1703.

A fortaleza da Bastilha, em Paris, onde o preso mascarado ocupou sozinho a terceira câmara da torre da Bertaudière entre 1698 e 1703.

Foto: Sam Howzit, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

O primeiro papel do caso tem data de 19 de julho de 1669 e sai do gabinete de François-Michel Le Tellier, marquês de Louvois, ministro da Guerra de Luís XIV. É uma carta a Saint-Mars, então governador do donjon de Pignerol, praça francesa no Piemonte, e anuncia a chegada de um detento chamado Eustache Dauger, descrito como homem de pouca importância, um simples valet de chambre, o criado de quarto que servia refeição e roupa dentro dos aposentos.

O tratamento prescrito na mesma carta não combina com a descrição. Louvois manda preparar uma cela de portas sobrepostas, para que sentinela alguma escute o que se passa dentro, determina que só o próprio Saint-Mars leve comida ao preso e fixa a punição para quem tentasse conversa.

Fareis saber a ele que, se vos falar alguma vez de outro assunto que não suas necessidades, ireis privá-lo da vida.

Marquês de Louvois, carta a Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, 19 de julho de 1669

Dauger chegou a Pignerol no fim de agosto de 1669, escoltado pelo capitão Alexandre de Vauroy, que o recolheu perto da fronteira. A praça já abrigava dois detentos de alta patente: Nicolas Fouquet, ex-superintendente das finanças, condenado em 1664, e Antonin Nompar de Caumont, conde de Lauzun.

Em 1675, Louvois autorizou uma exceção. Dauger passou a servir Fouquet como criado nos dias em que o valet titular, La Rivière, adoecia. A autorização veio com uma condição rígida e reveladora: o criado podia ficar sozinho com Fouquet, jamais com Lauzun, e nada do que Fouquet soubesse pela boca dele podia sair por escrito.

As quatro mudanças

Fouquet foi encontrado sem vida na cela em março de 1680. A partir daí a administração trata Dauger e La Rivière como um pacote fechado. Numa carta de 1681, Saint-Mars se refere aos dois pelo apelido de seus melros, ao comunicar a transferência para o forte de Exiles, nos Alpes, onde assumiu o comando.

Trinta e quatro anos de cativeiro, quatro fortalezas, um único carcereiro.

Em 1687, Saint-Mars assumiu o governo das ilhas de Lérins e levou o preso restante para o forte de Sainte-Marguerite, ao largo de Cannes. A viagem durou cerca de doze dias numa liteira coberta de oleado, e a guarnição contou depois que ninguém o viu em nenhuma parada do caminho.

A última mudança levou os dois para Paris em 1698, quando Saint-Mars assumiu a Bastilha. O preso foi acomodado numa câmara preparada com antecedência, recebeu roupa de qualidade acima do padrão da casa e assistiu à missa em lugar reservado, sempre com o rosto coberto, sob ordem de não dirigir palavra a ninguém.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Quatro nomes para um rosto coberto

A hipótese mais antiga nasceu literária. Voltaire sugeriu, nas Questions sur l'Encyclopédie de 1771, que o mascarado era irmão mais velho e ilegítimo de Luís XIV, e Alexandre Dumas transformou a sugestão em irmão gêmeo no romance Le Vicomte de Bragelonne, publicado em folhetim entre 1847 e 1850. Nenhum documento de arquivo sustenta parentesco real, e a corte francesa registrava nascimentos de sangue com obsessão notarial.

A candidatura mais discutida entre historiadores tem nome italiano. Ercole Antonio Mattioli, conde e secretário de Carlos IV de Gonzaga, duque de Mântua, negociou em segredo a venda da praça de Casale à França, vazou a negociação para as cortes rivais e foi sequestrado por agentes franceses em maio de 1679, perto de Turim, indo parar justamente em Pignerol. O nome Marchioly do registro paroquial soa como afrancesamento de Mattioli.

O problema da tese italiana está na cronologia e no sigilo. Os despachos de Sainte-Marguerite situam o rastro de Mattioli até 1694, cinco anos antes da entrada do mascarado na Bastilha, e o segredo que ele carregava já circulava impresso em panfleto europeu desde 1682, o que dispensaria uma máscara.

A terceira candidatura volta ao criado da carta de 1669. O historiador francês Jean-Christian Petitfils sustenta, na biografia que publicou em 1970 e revisou em 2003, que o mascarado é o próprio Eustache Dauger, e que o segredo dele dizia respeito a um serviço sujo prestado a gente grande da corte. O historiador norte-americano Paul Sonnino, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, propôs em livro de 2016 que Dauger sabia da origem da fortuna acumulada pelo cardeal Jules Mazarin, primeiro-ministro até 1661, patrimônio que passou em parte à própria família real.

O general da cifra

A quarta candidatura veio da criptografia. Étienne Bazeries, oficial do Exército francês, decifrou em 1893 um lote de despachos escritos na Grande Cifra de Luís XIV, o sistema de códigos numéricos da chancelaria criado por Antoine e Bonaventure Rossignol. Num deles, Louvois manda prender o general Vivien de Labbé de Bulonde, que levantou o cerco de Cuneo em 1691 por medo de reforços austríacos.

Bazeries leu na ordem a instrução de manter o general mascarado nas saídas e concluiu ter achado o homem. A tese perdeu força pela aritmética simples: Bulonde foi preso em Pignerol, saiu depois e teve o falecimento registrado publicamente em 1709, seis anos depois do enterro de Saint-Paul.

Quatro candidatos, e o único documento que traz nome próprio é de 1669.

Os quatro nomes disputam as mesmas provas. O que separa as teses não é evidência nova, e sim o peso que cada historiador dá ao valor do preso para a coroa: quem parte do custo da operação procura alguém de sangue ou de Estado; quem parte da carta de Louvois aceita que um criado bem informado valia trinta e quatro anos de cela silenciosa.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O que os arquivos não guardaram

A primeira lacuna é de papel. A correspondência entre Louvois e Saint-Mars sobreviveu parcial, e os despachos do gabinete da Guerra que explicariam a ordem de 1669 nunca foram localizados. Em 14 de julho de 1789, quando a Bastilha foi tomada, parte dos arquivos da prisão foi jogada pelas janelas; o material recolhido depois compõe o fundo guardado na Biblioteca do Arsenal, com falhas admitidas nos inventários.

A segunda é de corpo. O cemitério da paróquia de Saint-Paul recebeu o enterro em 20 de novembro de 1703 e foi desativado no século XVIII, com os restos transferidos em remessas para as catacumbas de Paris, onde os ossos foram empilhados por origem e não por indivíduo. Não existe sepultura identificável, e portanto não existe amostra para exame genético.

A terceira é de idade. O registro paroquial declarou cerca de quarenta e cinco anos, número que não fecha com candidato nenhum: Mattioli teria sessenta e três, e Dauger passaria dos sessenta. Párocos estimavam idade por aparência, e a cifra vale como indício fraco, nunca como prova.

A quarta é a própria máscara. As anotações de Du Junca, na Bastilha, são a única fonte administrativa que descreve o veludo preto. Nenhum documento de Pignerol ou de Exiles menciona rosto coberto, e o relato da ilha de Sainte-Marguerite veio tarde, pela pena do padre Jean-Pierre Papon, que visitou o forte em 1778 e colheu o testemunho de um velho da guarnição. O ponto exato em que a ordem de cobrir o rosto começou permanece sem documento.

A quinta é o nome inscrito. Marchioly não corresponde a preso algum dos registros do reino, e a paróquia escreveu o que a autoridade lhe ditou. Se o nome era pista, disfarce ou erro de audição, o papel não diz, e não existe segunda ocorrência para comparar grafia.

O caso hoje sustenta apenas o esqueleto factual. Um homem entrou em Pignerol em 1669, seguiu o mesmo carcereiro por Exiles, Sainte-Marguerite e Bastilha, e foi enterrado sob nome falso em 1703. A identidade segue desconhecida porque a operação foi desenhada para apagá-la, e os arquivos que desfariam o apagamento chegaram incompletos.

O que desempataria a conta é material, não interpretativo. Um despacho inédito do gabinete da Guerra entre 1669 e 1681, um registro de guarnição de Exiles com descrição física, ou a identificação do preso nos livros de pagamento que Saint-Mars prestava à Tesouraria, onde cada detento aparecia por uma verba diária. Enquanto essas três séries não forem varridas até o fim, o nome fica onde o escrivão o deixou.

"O segredo valia trinta e quatro anos de silêncio, ou o silêncio virou rotina depois que ninguém mais sabia por que o homem estava preso?"

 
 
 
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Quiz da edição

Segundo o registro da paróquia de Saint-Paul, com que nome o corpo do preso mascarado foi inscrito em 20 de novembro de 1703?

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