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FICHA DO ARQUIVO
Relato: um preso sem nome declarado passou 34 anos sob o mesmo carcereiro, Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, de Pignerol à Bastilha, com o rosto coberto por uma máscara de veludo preto.
Registro: o tenente do rei Étienne du Junca anotou a chegada dele à Bastilha em 18 de setembro de 1698 e o desfecho em 19 de novembro de 1703.
Anomalia: o registro da paróquia de Saint-Paul inscreveu o corpo com o nome Marchioly, que não corresponde a nenhum preso conhecido do reino.
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Em 18 de setembro de 1698, o tenente do rei na Bastilha, Étienne du Junca, abriu o caderno da prisão para anotar a entrada de um homem trazido da ilha de Sainte-Marguerite numa liteira fechada. Não escreveu o nome do recém-chegado, porque não lhe informaram nenhum. Escreveu que o rosto vinha coberto por uma máscara de veludo preto e que o novo governador da fortaleza o instalou sozinho na terceira câmara da torre da Bertaudière.
O governador se chamava Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, e aquele preso o acompanhava havia quase trinta anos, de praça em praça, como bagagem pessoal. Quando Saint-Mars recebia posto novo, o homem sem nome era despachado junto, sob escolta própria e instruções escritas de silêncio.
A máscara de ferro que batizou o caso não aparece em papel nenhum da época. Ela nasceu na pena de Voltaire, que cumpriu ele próprio onze meses na Bastilha a partir de 1717, ouviu a história com os veteranos da guarnição e publicou a versão em ferro no Siècle de Louis XIV, em 1751. Os documentos administrativos falam de veludo, e apenas de veludo.
O que os arquivos guardam é uma rotina desproporcional para um detento comum. Cela de portas duplas, refeições entregues sem testemunha, proibição de papel e tinta fora do que o carcereiro entregava em mãos, e a ordem expressa de que nenhum subalterno escutasse dele qualquer assunto além das próprias necessidades materiais.
O desfecho também ficou registrado. Em 19 de novembro de 1703, o caderno de Du Junca recebeu a última linha sobre o preso desconhecido, sempre mascarado de veludo preto. No dia seguinte, o corpo foi inscrito no registro da paróquia de Saint-Paul com um nome que nenhum funcionário da corte reconheceu, Marchioly, e com idade declarada em torno de quarenta e cinco anos.
O registro de hoje começa trinta e quatro anos antes desse enterro, no primeiro documento que menciona o preso, uma carta ministerial que ainda traz um nome próprio por extenso.
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O SÍTIO
A fortaleza da Bastilha, em Paris, onde o preso mascarado ocupou sozinho a terceira câmara da torre da Bertaudière entre 1698 e 1703.
Foto: Sam Howzit, Wikimedia Commons, CC BY 2.0
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O primeiro papel do caso tem data de 19 de julho de 1669 e sai do gabinete de François-Michel Le Tellier, marquês de Louvois, ministro da Guerra de Luís XIV. É uma carta a Saint-Mars, então governador do donjon de Pignerol, praça francesa no Piemonte, e anuncia a chegada de um detento chamado Eustache Dauger, descrito como homem de pouca importância, um simples valet de chambre, o criado de quarto que servia refeição e roupa dentro dos aposentos.
O tratamento prescrito na mesma carta não combina com a descrição. Louvois manda preparar uma cela de portas sobrepostas, para que sentinela alguma escute o que se passa dentro, determina que só o próprio Saint-Mars leve comida ao preso e fixa a punição para quem tentasse conversa.
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Fareis saber a ele que, se vos falar alguma vez de outro assunto que não suas necessidades, ireis privá-lo da vida.
Marquês de Louvois, carta a Bénigne Dauvergne de Saint-Mars, 19 de julho de 1669
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Dauger chegou a Pignerol no fim de agosto de 1669, escoltado pelo capitão Alexandre de Vauroy, que o recolheu perto da fronteira. A praça já abrigava dois detentos de alta patente: Nicolas Fouquet, ex-superintendente das finanças, condenado em 1664, e Antonin Nompar de Caumont, conde de Lauzun.
Em 1675, Louvois autorizou uma exceção. Dauger passou a servir Fouquet como criado nos dias em que o valet titular, La Rivière, adoecia. A autorização veio com uma condição rígida e reveladora: o criado podia ficar sozinho com Fouquet, jamais com Lauzun, e nada do que Fouquet soubesse pela boca dele podia sair por escrito.
As quatro mudanças
Fouquet foi encontrado sem vida na cela em março de 1680. A partir daí a administração trata Dauger e La Rivière como um pacote fechado. Numa carta de 1681, Saint-Mars se refere aos dois pelo apelido de seus melros, ao comunicar a transferência para o forte de Exiles, nos Alpes, onde assumiu o comando.
Trinta e quatro anos de cativeiro, quatro fortalezas, um único carcereiro. |
Em 1687, Saint-Mars assumiu o governo das ilhas de Lérins e levou o preso restante para o forte de Sainte-Marguerite, ao largo de Cannes. A viagem durou cerca de doze dias numa liteira coberta de oleado, e a guarnição contou depois que ninguém o viu em nenhuma parada do caminho.
A última mudança levou os dois para Paris em 1698, quando Saint-Mars assumiu a Bastilha. O preso foi acomodado numa câmara preparada com antecedência, recebeu roupa de qualidade acima do padrão da casa e assistiu à missa em lugar reservado, sempre com o rosto coberto, sob ordem de não dirigir palavra a ninguém.
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