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A múmia sem nome enrolada em pele de carneiro
Maspero desenrolou um corpo de mãos amarradas, coberto de resina e envolto numa pele proibida, guardado entre faraós num caixão sem inscrição.
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O caixão liso que chegou ao museu sem inscrição
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: em 1886, no museu do Cairo, Gaston Maspero desenrolou um corpo saído do esconderijo real de Deir el-Bahari e encontrou um homem jovem de mãos e pés amarrados e coberto de resina.
Registro: o caixão que o guardava era de madeira lisa, sem pintura e sem uma sílaba de inscrição, num poço onde cada volume real levava etiqueta de sacerdote.
Anomalia: por cima do corpo havia uma pele de animal proibida no ritual egípcio, e nem o exame de DNA de 2012, que o ligou à linhagem de Ramsés III, devolveu o nome do homem.
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O enterro egípcio era um procedimento com regra escrita, e a primeira delas tratava do nome. Sem o nome gravado em algum lugar, no caixão, na parede ou numa tira de linho, o morto não tinha como ser chamado.
Ser chamado era a condição de continuar existindo. Apagar o nome de alguém era a pena mais dura que o Egito sabia aplicar, e ela era aplicada com cinzel, raspando cartucho de parede.
A segunda regra tratava do material. O corpo preparado ia envolto em linho, às vezes centenas de metros dele, cortado em tiras e assentado camada sobre camada com resina quente.
Linho era tecido de templo, fiado por oficinas ligadas ao culto, e nenhum outro material dividia aquele lugar. Pele de animal ficava de fora, e a de carneiro e a de cabra ficavam de fora com destaque: lã e couro desses bichos eram tidos por impuros no espaço sagrado, e sacerdote não entrava em recinto de culto vestido com eles.
O processo levava cerca de setenta dias. O corpo passava por natrão, o sal mineral que puxa a água do tecido, era esvaziado por um corte no flanco esquerdo, recebia resina e óleo, e saía do ateliê com amuletos posicionados entre as camadas.
A terceira regra tratava da posição. Braços estendidos ou cruzados sobre o peito, pernas juntas e retas, tudo assentado antes de a resina endurecer, porque o corpo precisava atravessar a passagem inteiro e livre. Amarrar mãos e pés era o que se fazia com prisioneiro, nunca com defunto.
Quem quebrava as três regras de uma vez não estava sendo desleixado. Estava dizendo alguma coisa, e dizendo em voz alta, num idioma que qualquer egípcio da época lia sem esforço.
Em junho de 1886, no Cairo, um corpo desenrolado sobre uma mesa apresentou as três quebras juntas, e apresentou uma quarta: estava guardado no meio de faraós, num esconderijo que só um punhado de sacerdotes conheceu.
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I O Registro
O caixão liso no poço de Deir el-Bahari
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A história do achado começa por volta de 1871, quando homens da família Abd el-Rassul, de uma aldeia erguida sobre a necrópole tebana, acharam uma abertura estreita na encosta ao sul de Deir el-Bahari.
Debaixo dela havia um poço vertical de mais de dez metros e um corredor que seguia por dezenas de metros pela rocha. No fim, empilhados, estavam caixões de faraós.
A família guardou o segredo por cerca de dez anos. Papiros e peças de ouro de procedência vaga passaram a aparecer no mercado de antiguidades de Luxor.
Em julho de 1881, sob pressão do Serviço de Antiguidades, um dos irmãos indicou o lugar. Émile Brugsch, assistente de Gaston Maspero, desceu pelo poço e encontrou o depósito intacto.
O esvaziamento levou cerca de quarenta e oito horas. Saíram do buraco perto de cinquenta múmias, entre elas Seqenenre Tao, Amósis I, Tutmés III, Seti I e Ramsés II.
O esconderijo não era uma tumba. Era uma mudança de emergência: com as sepulturas do Vale sendo saqueadas em série, sacerdotes recolheram os corpos reais, refizeram as ataduras e os empilharam num poço sem nenhuma marca do lado de fora.
Cada volume levava etiqueta. Os sacerdotes escreviam em hierático, na atadura ou na tampa, o nome do rei e a data em que o corpo tinha sido movido.
Um caixão saiu do poço fora do padrão. Madeira lisa, sem pintura, sem cena, sem coluna de texto, sem uma única inscrição, e nenhuma etiqueta dizendo quem estava lá dentro.
Gaston Maspero desenrolou o conteúdo em 1886, no museu do Cairo. Apareceu um homem jovem, sem doença aparente nos ossos e sem ferida visível na pele.
As mãos estavam cruzadas sobre o baixo-ventre e os pulsos amarrados. Os tornozelos também estavam presos, com tiras de couro. O rosto tinha a mandíbula caída e a boca escancarada, e foi ele que rendeu à peça o apelido pelo qual circula até hoje.
A preparação era outra anomalia. Não havia corte de embalsamamento no flanco, o cérebro seguia dentro do crânio, e o corpo tinha sido coberto de natrão e de resina em quantidade.
Por cima de tudo havia uma pele de animal, com o pelo virado para dentro. Maspero descreveu pele de carneiro. A equipe que reexaminou o corpo em 2012 descreveu pele de cabra, e a espécie nunca foi determinada em laboratório.
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Mãos amarradas, cérebro no crânio, pele impura por cima, e um caixão que não traz uma sílaba de nome.
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No catálogo das múmias reais ele entrou como Homem Desconhecido E, a quinta letra de uma fila de corpos que ninguém identificou. O nome de catálogo é o único que ele tem.
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II A Pergunta em Aberto
Por que enrolar um corpo em pele impura
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A pergunta central cabe numa linha. Por que alguém quebrou todas as regras do enterro num único corpo e ainda assim o guardou junto dos reis.
O chão firme é curto. O corpo existe, foi fotografado, tomografado e sequenciado, e veio de um depósito com data de fechamento conhecida. O resto é leitura.
A primeira leitura é a punição. O tratamento seria uma sentença executada no cadáver: amarras de prisioneiro, pele impura no lugar do linho, caixão mudo e nenhum nome para ser chamado depois.
A leitura tem apoio no vocabulário egípcio. Apagar o nome de um inimigo do Estado era prática registrada, com cinzel na parede e raspagem no cartucho.
A pena tinha alvo específico. O que o Egito temia não era o desconforto do condenado, era o retorno dele: sem nome e sem oferenda, o morto perdia o canal por onde poderia agir sobre os vivos.
O buraco é o endereço. Um condenado ao esquecimento não deveria terminar no mesmo poço em que sacerdotes esconderam Ramsés II, protegido pelo mesmo resgate e movido junto com a linhagem.
A segunda leitura desmonta o rosto. A boca aberta não seria agonia congelada: quando a mandíbula não é amarrada antes do enrijecimento, ela cai sozinha, e a face seca em volta da abertura.
O buraco é o resto do corpo. A expressão se explica, as amarras não. Pulso e tornozelo presos com couro não aparecem na rotina de nenhum ateliê funerário egípcio conhecido.
A terceira leitura tira o Egito da equação. O homem seria estrangeiro, tratado às pressas por gente sem acesso ao ateliê, ao linho de templo e ao ritual completo.
O buraco é a química. A quantidade de natrão e de resina no corpo indica trabalho longo e material caro, o oposto do improviso feito com o que havia à mão.
A quarta leitura inverte o sinal da pele. Em vez de marca de impureza, ela seria camada de proteção, escolhida por quem precisava conservar o corpo sem poder abri-lo.
O buraco é a ausência de nome. Cuidado no Egito passava por escrever o nome em algum lugar, e quem cobriu o corpo de resina em quantidade não teve dificuldade em achar tinta.
Nenhuma das quatro fecha sozinha, e a razão é a mesma em todas. Cada uma explica bem um pedaço do conjunto e trava no pedaço seguinte.
Preservar sem nomear é a combinação que não fecha. O embalsamamento serve para o morto seguir, e o nome é o que permite chamá-lo. Metade do serviço foi feita com esmero, a outra metade foi recusada.
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III O Que Falta Provar
O nome que o papiro se recusa a escrever
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Existe um documento que ronda o caso desde o primeiro dia, e ele é do século doze antes da era comum. O Papiro Judicial de Turim registra o processo contra os envolvidos numa conspiração dentro do palácio de Ramsés III.
O plano saiu do harém. Tiye, esposa secundária do rei, articulou com funcionários do palácio para tirar Ramsés III do trono e pôr no lugar o filho que ela tinha com ele. O rei não chegou ao fim do trigésimo segundo ano de reinado.
O papiro traz uma peculiaridade. Os réus aparecem com o nome trocado por apelido de escárnio, escolhido pelo escriba: um deles vira Rá o Odeia, outro vira O Mau em Tebas.
O filho da conspiração recebe o mesmo tratamento. Ele entra no processo como Pentawer, e o texto avisa, no meio da própria frase, que aquele não era o nome dele.
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Pentawer, que levava aquele outro nome. Foi posto diante dos oficiais para exame; consideraram-no culpado; deixaram-no em seu lugar; ele acabou com a própria vida.
Papiro Judicial de Turim, na tradução de James Henry Breasted, Ancient Records of Egypt, volume IV, 1906
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O escriba apagou o nome no papel antes de alguém apagar num caixão. O documento que condena o homem é o mesmo que se recusa a escrever como ele se chamava.
A suspeita ficou nesse plano por mais de um século. Ela só ganhou dado em dezembro de 2012, quando saiu no British Medical Journal o estudo que examinou as duas múmias.
O exame de DNA fez o resto. O Homem Desconhecido E e Ramsés III têm o mesmo haplótipo no cromossomo Y e metade do material genético em comum, a assinatura de pai e filho.
O que o exame não fez foi dar um nome. O corpo é de alguém entre dezoito e vinte anos, e Ramsés III teve muitos filhos: ser filho dele não é o mesmo que ser o príncipe julgado no papiro.
Nada no corpo aponta para o processo. Não há etiqueta de sacerdote, não há cartucho, não há hierático na atadura, e o caixão liso continua sem uma palavra.
O que destravaria o caso é medida de laboratório. Datação por carbono na pele e nas ataduras diria se o material é do reinado de Ramsés III ou de séculos depois.
Falta também identificar a espécie. Análise de colágeno resolve em semanas se a pele é de carneiro ou de cabra, e a resposta muda o sentido do gesto.
Fica a regra do começo, virada do avesso. O enterro egípcio existia para o nome sobreviver ao corpo, e aqui o corpo sobreviveu inteiro, com pele, dentes, cabelo e cromossomo Y legível.
O nome é a única coisa que não chegou. Ele atravessou trinta séculos, dois esconderijos e um laboratório de genética, e continua sendo chamado pela letra que um catálogo lhe deu.
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