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II A Pergunta em Aberto
II, Um corpo humano com a cabeça errada
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A anatomia da cabeça foi lida como leão desde a primeira remontagem. O focinho curto, as orelhas altas e arredondadas e a linha de mandíbula correspondem ao leão-das-cavernas, Panthera spelaea, espécie presente na fauna do sítio, e as representações do animal na arte parietal europeia do período aparecem sem juba, o que fecha com a cabeça lisa da escultura.
O corpo abaixo do pescoço é humano em proporção. As pernas são retas e separadas, com joelhos indicados, os braços descem colados ao tronco e terminam em antebraços de comprimento humano, e a postura ereta não corresponde a nenhum felino.
O sexo da figura nunca foi resolvido. Elisabeth Schmid defendeu nos anos 1980 uma leitura feminina, apoiada na ausência de juba e em detalhes do ventre; Joachim Hahn lera antes traços masculinos na região púbica, e o restauro de 2013 acrescentou marfim justamente nessa zona sem produzir consenso entre os pesquisadores que trabalharam a peça.
As sete linhas gravadas no braço esquerdo continuam sem tradução. São incisões paralelas, regulares e profundas, feitas com buril, e a literatura já as tratou como cicatrizes rituais representadas, como marcas de contagem e como convenção decorativa, sem que nenhuma das três leituras tenha apoio independente.
O desgaste da superfície acrescenta um dado de uso. Partes da peça apresentam polimento que a escultura não teria só pela fabricação, compatível com manuseio repetido ao longo do tempo, o que sugere um objeto que circulou entre mãos em vez de ter sido depositado logo depois de pronto.
O contexto de descoberta empurra na mesma direção. A câmara ao fundo, escura, sem lixo doméstico e com adornos por perto, descreve um espaço separado do cotidiano da gruta, e o conjunto tem sido lido como local reservado a alguma prática coletiva.
Nada disso identifica a criatura. Um ser híbrido do repertório de crenças, o retrato de uma pessoa que vestia pele e cabeça de leão em cerimônia, um ancestral, uma divindade, um brinquedo de transmissão de histórias: cada hipótese explica algumas evidências e nenhuma explica as três de uma vez, o custo de 300 horas, as sete incisões e a câmara ao fundo.
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III O Que Falta Provar
III, O que o marfim ainda não disse
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A primeira pendência é a datação direta da própria escultura. As idades disponíveis vêm de ossos e carvão da camada, não do marfim da figura, e uma datação por radiocarbono em microamostra da peça, hoje tecnicamente possível com destruição mínima, diria se ela é contemporânea do depósito ou se foi guardada por gerações antes de parar ali.
A segunda é a análise de superfície em alta resolução. Microscopia e varredura tridimensional comparadas com a réplica de Wulf Hein separariam as marcas de fabricação das marcas de uso, e localizariam onde o polimento se concentra, o que indicaria como a figura era segurada, se era carregada, esfregada, apoiada ou suspensa.
A terceira é o encaixe cronológico com Hohle Fels. As duas figuras de cabeça de leão saíram de vales vizinhos, e datar a pequena com a mesma precisão da grande mostraria se as duas convivem na mesma geração, o que descreveria uma convenção compartilhada, ou se estão separadas por milênios, o que descreveria uma tradição longa de transmissão.
A quarta é o resto do sedimento antigo. Boa parte do material removido nas campanhas do século XX foi despejada sem peneiração fina, e a triagem sistemática desses depósitos, que já devolveu centenas de estilhas depois de 2009, ainda pode entregar fragmentos que fechem as lacunas restantes do corpo e resolvam a região disputada do ventre.
A quinta é o entorno imediato do achado. O registro de 1939 é sumário, feito às pressas na véspera do encerramento, e uma escavação moderna do que sobrou daquela câmara, com registro estratigráfico completo e coleta de micro-restos, diria se existiam ali fogueira, ossos selecionados ou depósito organizado em vez de acúmulo casual.
O caso tem duas leituras que o material sustenta por igual. Ou a figura é objeto de uso coletivo, manuseada por muita gente durante muito tempo dentro de uma prática regular, e o desgaste, o esconderijo ao fundo e a repetição do tema em Hohle Fels apontam para lá; ou ela é peça de fabricação única, feita por um indivíduo em semanas de trabalho custeado pelo grupo, e o polimento vem da própria confecção e do transporte.
A escolha muda o que 300 horas significam. Aceitar a leitura coletiva é afirmar que uma sociedade de caçadores do último glacial já mantinha um objeto ritual em circulação por gerações, sem escrita e sem edifício; aceitar a leitura individual é afirmar que um artesão do Aurignacense conseguiu ser dispensado do sustento por semanas para esculpir marfim. As duas contas estão descritas acima.
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