Sponsored by

Mistérios Milenares   Mistérios Milenares
ED 109
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

A figura que ficou trinta anos desmontada numa caixa

Mais de 200 lascas de marfim de mamute recolhidas em 1939 no vale do Lone remontam uma escultura de 31 centímetros com cabeça de leão

Uma bancada de arquivo à noite com dezenas de lascas claras de marfim dispostas em grade numerada sobre feltro preto, uma figura de marfim em pé num berço de museu, lâminas de sílex ao lado de um bloco de presa bruta, um mapa de gruta com uma câmara lateral marcada a tinta e um caderno de escavação de 1939 aberto num desenho estratigráfico, sob luz âmbar focal

Marfim de mamute remontado lasca por lasca

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 25 de agosto de 1939, na gruta de Hohlenstein-Stadel, o geólogo Otto Völzing recolheu mais de 200 lascas de marfim de mamute numa câmara ao fundo do corredor, e a escavação foi encerrada dias depois pela guerra.

Registro: as lascas ficaram no Museu de Ulm até 1969, quando o arqueólogo Joachim Hahn as remontou e reconheceu uma figura em pé; a escavação de Claus-Joachim Kind desde 2009 devolveu centenas de fragmentos, e o restauro de 2013 fixou a altura em 31 centímetros, com radiocarbono da camada aurignacense entre 35 mil e 41 mil anos.

Anomalia: a escultura une corpo humano e cabeça de leão num marfim só, e Wulf Hein levou mais de 300 horas para refazê-la com lascas de sílex.

A escultura tem cerca de 31 centímetros de altura e figura entre as obras figurativas mais antigas já recuperadas por escavação, com datação por radiocarbono da camada em que estava entre 35 mil e 41 mil anos, segundo a equipe do Landesamt für Denkmalpflege de Baden-Württemberg dirigida por Claus-Joachim Kind. Ela passou trinta anos guardada numa caixa do Museu de Ulm como um punhado de fragmentos de marfim sem forma reconhecida.

Os dois fatos vêm do mesmo material. As lascas foram recolhidas em 25 de agosto de 1939, na gruta de Hohlenstein-Stadel, no vale do Lone, em campanha da Universidade de Tübingen sob direção de Robert Wetzel, e quem as tirou do sedimento foi o geólogo Otto Völzing, no último dia útil da temporada.

A escavação parou logo depois. A mobilização militar esvaziou o campo, os caixotes seguiram para Ulm, e a anotação registrava apenas fragmentos de marfim de uma câmara no fundo do corredor.

O reconhecimento veio em 1969. O arqueólogo Joachim Hahn abriu o material, encaixou algumas dezenas de pedaços e viu que os planos de fratura fechavam numa figura em pé, com pernas humanas, braços colados ao tronco e uma cabeça que não era humana.

O restauro completo levou mais quarenta anos. A peneiração de sedimento antigo nos anos 1980 e a reabertura do sítio a partir de 2009, sob Claus-Joachim Kind, recuperaram centenas de fragmentos, e a remontagem final, concluída em 2013 na oficina do Museu de Ulm, entregou a altura de 31 centímetros e uma cabeça de leão sobre corpo humano.

O custo de fabricação foi medido por experimento. O arqueólogo experimental Wulf Hein esculpiu uma réplica em marfim de mamute usando apenas lâminas e buris de sílex, técnica compatível com o instrumental aurignacense, e contabilizou mais de 300 horas de trabalho até chegar ao acabamento da original.

Trezentas horas num grupo de caçadores-coletores do último período glacial não são horas quaisquer. São semanas de alguém que não caça, não curte pele e não mantém fogo, sustentado pelo trabalho dos outros para produzir um objeto que não corta, não fura e não aquece.

O dossiê de hoje começa pelo que a gruta entregou e pelo que o laboratório datou, antes da parte que o sedimento não resolve.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, Duzentas lascas e uma câmara no fundo do corredor

O sítio fica num paredão calcário do Jura da Suábia. Hohlenstein-Stadel é uma das galerias do maciço de Hohlenstein, no vale do rio Lone, região onde o conjunto de grutas com material aurignacense foi inscrito pela UNESCO em 2017 como sítio de patrimônio mundial sob o nome de Cavernas e Arte da Era do Gelo do Jura da Suábia.

A camada de origem tem assinatura clara. Os fragmentos vieram de um nível aurignacense, o horizonte cultural associado às primeiras populações de humanos modernos na Europa central, e as datações por radiocarbono publicadas pela equipe de Kind em 2014 colocam o depósito na faixa entre 35 mil e 41 mil anos calibrados.

A posição do achado não é a de um objeto largado. As lascas apareceram numa câmara lateral escura, longe da zona de entrada onde se concentram os restos de refeição e de lascamento, e nas proximidades foram registrados dentes perfurados de raposa e de cervídeo e outros elementos de adorno.

O material é marfim de mamute-lanoso. A presa foi trabalhada com percussão e raspagem por instrumental lítico, e as marcas de superfície conservadas mostram o trabalho de sulco e polimento que dá volume aos ombros, ao dorso e às orelhas erguidas da cabeça felina.

A figura combina traços de leão e de ser humano de tal maneira que não se pode dizer se representa um homem com máscara ou uma criatura própria. Ela permanece ambígua, e a ambiguidade parece ter sido intencional.

Joachim Hahn, Kraft und Aggression, 1986

A remontagem foi feita em três ondas, com décadas de intervalo. Hahn trabalhou em 1969 sobre o lote de 1939; Elisabeth Schmid retomou o conjunto nos anos 1980, com fragmentos vindos de peneiração de sedimento arquivado, e alterou a leitura de detalhes anatômicos; a campanha aberta em 2009 devolveu centenas de estilhas do próprio depósito revolvido pelas escavações antigas.

Cada onda mudou a figura. O braço esquerdo, a nuca e parte da cabeça só ganharam volume completo depois de 2009, e a altura oficial passou de cerca de 28 centímetros, na versão dos anos 1980, para os 31 centímetros do restauro concluído em 2013, quando a colagem antiga foi desmanchada e refeita com adesivo reversível.

A figura não está sozinha no vale. Em 2003, uma escavação da Universidade de Tübingen na gruta de Hohle Fels, no vale vizinho do Ach, recuperou uma segunda figura de marfim com cabeça de leão e corpo ereto, de cerca de dois centímetros e meio, o que retira a peça grande da condição de acidente isolado e a coloca num repertório repetido.

 

Quem banca a edição de hoje

Smarter CRM. Less Busywork.

Disconnected data and tools make it harder to understand your customers. HubSpot's Agentic Customer Platform brings your data, teams, and tech stack together with AI built in to help your business work faster and create more personalized customer experiences.

Why HubSpot and what's new

  • Use AI powered tools to take action faster

  • Unify your data, teams, and tech stack in one place

  • Create one shared view of customer data

  • Connect teams around the same customer context

  • Bring your business tools into one place

Connect more of your business in one place and give every team a smarter way to work. Get set up quickly and start checking off your hardest tasks.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

II  A Pergunta em Aberto

II, Um corpo humano com a cabeça errada

A anatomia da cabeça foi lida como leão desde a primeira remontagem. O focinho curto, as orelhas altas e arredondadas e a linha de mandíbula correspondem ao leão-das-cavernas, Panthera spelaea, espécie presente na fauna do sítio, e as representações do animal na arte parietal europeia do período aparecem sem juba, o que fecha com a cabeça lisa da escultura.

O corpo abaixo do pescoço é humano em proporção. As pernas são retas e separadas, com joelhos indicados, os braços descem colados ao tronco e terminam em antebraços de comprimento humano, e a postura ereta não corresponde a nenhum felino.

O sexo da figura nunca foi resolvido. Elisabeth Schmid defendeu nos anos 1980 uma leitura feminina, apoiada na ausência de juba e em detalhes do ventre; Joachim Hahn lera antes traços masculinos na região púbica, e o restauro de 2013 acrescentou marfim justamente nessa zona sem produzir consenso entre os pesquisadores que trabalharam a peça.

As sete linhas gravadas no braço esquerdo continuam sem tradução. São incisões paralelas, regulares e profundas, feitas com buril, e a literatura já as tratou como cicatrizes rituais representadas, como marcas de contagem e como convenção decorativa, sem que nenhuma das três leituras tenha apoio independente.

O desgaste da superfície acrescenta um dado de uso. Partes da peça apresentam polimento que a escultura não teria só pela fabricação, compatível com manuseio repetido ao longo do tempo, o que sugere um objeto que circulou entre mãos em vez de ter sido depositado logo depois de pronto.

O contexto de descoberta empurra na mesma direção. A câmara ao fundo, escura, sem lixo doméstico e com adornos por perto, descreve um espaço separado do cotidiano da gruta, e o conjunto tem sido lido como local reservado a alguma prática coletiva.

Nada disso identifica a criatura. Um ser híbrido do repertório de crenças, o retrato de uma pessoa que vestia pele e cabeça de leão em cerimônia, um ancestral, uma divindade, um brinquedo de transmissão de histórias: cada hipótese explica algumas evidências e nenhuma explica as três de uma vez, o custo de 300 horas, as sete incisões e a câmara ao fundo.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O que o marfim ainda não disse

A primeira pendência é a datação direta da própria escultura. As idades disponíveis vêm de ossos e carvão da camada, não do marfim da figura, e uma datação por radiocarbono em microamostra da peça, hoje tecnicamente possível com destruição mínima, diria se ela é contemporânea do depósito ou se foi guardada por gerações antes de parar ali.

A segunda é a análise de superfície em alta resolução. Microscopia e varredura tridimensional comparadas com a réplica de Wulf Hein separariam as marcas de fabricação das marcas de uso, e localizariam onde o polimento se concentra, o que indicaria como a figura era segurada, se era carregada, esfregada, apoiada ou suspensa.

A terceira é o encaixe cronológico com Hohle Fels. As duas figuras de cabeça de leão saíram de vales vizinhos, e datar a pequena com a mesma precisão da grande mostraria se as duas convivem na mesma geração, o que descreveria uma convenção compartilhada, ou se estão separadas por milênios, o que descreveria uma tradição longa de transmissão.

A quarta é o resto do sedimento antigo. Boa parte do material removido nas campanhas do século XX foi despejada sem peneiração fina, e a triagem sistemática desses depósitos, que já devolveu centenas de estilhas depois de 2009, ainda pode entregar fragmentos que fechem as lacunas restantes do corpo e resolvam a região disputada do ventre.

A quinta é o entorno imediato do achado. O registro de 1939 é sumário, feito às pressas na véspera do encerramento, e uma escavação moderna do que sobrou daquela câmara, com registro estratigráfico completo e coleta de micro-restos, diria se existiam ali fogueira, ossos selecionados ou depósito organizado em vez de acúmulo casual.

O caso tem duas leituras que o material sustenta por igual. Ou a figura é objeto de uso coletivo, manuseada por muita gente durante muito tempo dentro de uma prática regular, e o desgaste, o esconderijo ao fundo e a repetição do tema em Hohle Fels apontam para lá; ou ela é peça de fabricação única, feita por um indivíduo em semanas de trabalho custeado pelo grupo, e o polimento vem da própria confecção e do transporte.

A escolha muda o que 300 horas significam. Aceitar a leitura coletiva é afirmar que uma sociedade de caçadores do último glacial já mantinha um objeto ritual em circulação por gerações, sem escrita e sem edifício; aceitar a leitura individual é afirmar que um artesão do Aurignacense conseguiu ser dispensado do sustento por semanas para esculpir marfim. As duas contas estão descritas acima.

 
 
 

Ebook + app · 8 dias

Capa do ebook
+
O app no celular
1
2
3
4
5
6
7
8

o plano de 8 dias, dentro do app

Em 8 dias, 1 pergunta por dia. O ebook ensina, o app cobra.

📖O ebook ensina: O que a arqueologia já provou sobre a construção, explicado pra vencer qualquer discussão em 60 segundos.
📱O app treina: 1 pergunta por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Quantas horas o arqueólogo experimental Wulf Hein levou para recriar a escultura usando só lâminas e buris de sílex?

AMais de 100 horas
BMais de 200 horas
CMais de 300 horas
DMais de 500 horas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🗝️🗝️🗝️🗝️🗝️  ótima 🗝️🗝️🗝️🗝️  boa 🗝️🗝️🗝️  ok 🗝️🗝️  ruim 🗝️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Marcas Memoráveis

Marcas Memoráveis

O movimento que fez a marca ser lembrada, o bastidor do branding e o erro que saiu caro, em dois minutos. No seu email todo dia às 18:18.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um investigador pro enigma

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook A Resposta das Pirâmides
ebook A Resposta das Pirâmides

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
Amanhã nesta news

ED 111 · amanhã às 20:20

O navio de Oseberg

O navio de 21,5 metros enterrado no outono de 834 na Noruega guardava duas mulheres, uma de cerca de 80 anos…

 

Amanhã, abrimos outro. Mysterium manet.

MISTÉRIOS MILENARES

Cada noite, um mistério. Com a profundidade que você quer

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos