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100% escolheram Homo floresiensis. Aqui está.
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O esqueleto de 1,06 metro achado na caverna de Liang Bua
A datação de 2004 pôs o crânio LB1 a 18 mil anos; a revisão de 2016, feita pela mesma equipe no mesmo piso, levou o osso a 60 mil
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A caverna de Liang Bua, na ilha de Flores
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: a escavação de Liang Bua, na ilha indonésia de Flores, tirou do piso em 2003 o esqueleto parcial de uma adulta de 1,06 metro e crânio de cerca de 380 centímetros cúbicos.
Registro: Peter Brown e Michael Morwood descreveram o material na Nature em 2004 e batizaram a espécie de Homo floresiensis.
Anomalia: a revisão de Thomas Sutikna, na mesma revista em 2016, recuou a idade do esqueleto de 18 mil para entre 100 mil e 60 mil anos.
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O esqueleto catalogado como LB1 saiu do piso da caverna de Liang Bua, na ilha indonésia de Flores, em setembro de 2003, e mede 1,06 metro de altura, com uma caixa craniana de cerca de 380 centímetros cúbicos. O paleoantropólogo Peter Brown, da Universidade de Nova Inglaterra, e o arqueólogo Michael Morwood publicaram essas medidas na revista Nature em outubro de 2004 e dataram o material em torno de 18 mil anos. Em março de 2016, na mesma Nature, o arqueólogo Thomas Sutikna, do Centro Nacional de Arqueologia da Indonésia, assinou uma revisão da estratigrafia da própria caverna que recuou o esqueleto para uma faixa entre 100 mil e 60 mil anos.
Nenhum osso foi trocado entre um trabalho e outro. O que mudou foi a leitura das camadas de sedimento em volta dele.
Uma adulta de 1,06 metro com o cérebro do tamanho de uma toranja não cabia no que se ensinava sobre o Pleistoceno tardio. A hipótese aceita dizia que, depois dos neandertais, restara uma única espécie humana no planeta, e um parente de crânio minúsculo vivendo numa ilha do sudeste asiático até dezoito mil anos atrás punha outra forma de gente andando pelo mundo enquanto se pintavam as paredes de Lascaux.
A revisão de 2016 desfez a parte mais desconfortável da conta. Entre 60 mil e 50 mil anos atrás, a presença humana moderna na região ainda é rarefeita, e o encontro entre as duas linhagens deixa de ser um cruzamento inevitável para virar uma questão de datas que ninguém fechou.
Flores é uma ilha de vulcões, separada do continente asiático por trechos de mar profundo que nunca secaram. Quem chegou lá atravessou água. O piso de Liang Bua guardou, além dos ossos pequenos, restos de um elefante anão do gênero Stegodon, de um rato gigante e de uma cegonha de quase um metro e oitenta.
O registro de hoje começa pelo que a escavação realmente tirou daquele piso, camada por camada, antes de qualquer discussão sobre espécie.
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I O Registro
I, O crânio a seis metros de fundura
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O SÍTIO
A boca da caverna de calcário de Liang Bua, na ilha de Flores, cujo piso guarda mais de onze metros de sedimento escavado camada por camada.
Foto: Rosino, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0
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A espécie se chama Homo floresiensis, e o primeiro indivíduo dela, o esqueleto LB1, apareceu no fundo de um poço de escavação aberto dentro de Liang Bua, nome que significa caverna fria no idioma manggarai, falado na região. O escavador Benyamin Tarus tocou o topo do crânio em 2 de setembro de 2003, a quase seis metros de profundidade, num trabalho dirigido pelo arqueólogo indonésio Raden Pandji Soejono e por Michael Morwood, da Universidade de Nova Inglaterra.
O material recuperado é generoso para um fóssil de hominínio: crânio quase completo, mandíbula, boa parte da perna direita, bacia, pedaços de mão e de pé. A bacia indicou uma fêmea adulta, o desgaste dos dentes apontou idade avançada para o padrão da época, e o fêmur permitiu calcular a estatura de 1,06 metro e uma massa corporal entre 25 e 35 quilos.
A caixa craniana virou o dado central do caso. A primeira medição deu cerca de 380 centímetros cúbicos, valor recalculado depois para perto de 426 por tomografia, ainda assim menos de um terço do volume médio de um cérebro humano atual e comparável ao de um chimpanzé.
Brown e Morwood descreveram a combinação de traços como incompatível com qualquer população humana conhecida.
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A combinação de características primitivas e derivadas atribui este hominínio a uma nova espécie, Homo floresiensis.
Peter Brown e colegas, Nature, 27 de outubro de 2004
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A frase pesa porque nomear espécie nova a partir de um indivíduo só é decisão que a paleoantropologia costuma evitar. Os autores a tomaram amparados na lista de traços do esqueleto: ausência de queixo, ombro com a clavícula curta e girada, pés desproporcionalmente longos e um punho de arquitetura arcaica.
As escavações seguintes tiraram do mesmo piso restos atribuídos a pelo menos nove indivíduos diferentes, entre eles a mandíbula catalogada como LB6, com a mesma ausência de queixo e as mesmas proporções. Nenhum outro crânio completo apareceu, o que mantém LB1 como peça única do conjunto.
Junto dos ossos vieram milhares de lascas de pedra, ossos de Stegodon florensis insularis queimados e marcados por corte, e restos de dragão-de-komodo. O quadro que a escavação monta é de hominínios pequenos caçando filhotes de elefante anão dentro de uma ilha fechada.
O caso ainda carrega um episódio de laboratório. Em dezembro de 2004, o paleoantropólogo Teuku Jacob, da Universidade Gadjah Mada, retirou o material de Jacarta para análise própria; as peças voltaram em fevereiro de 2005 com dano físico, incluindo a bacia quebrada e marcas de molde tiradas sem autorização da equipe escavadora.
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