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O jardim que nenhum escriba babilônico anotou
Nabucodonosor descreve muros, portões e canais nas próprias inscrições sem citar jardim algum, e Stephanie Dalley leva a obra para Nínive
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Terraços irrigados na maravilha sem endereço
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: das sete maravilhas do mundo antigo, só os jardins suspensos não têm sítio arqueológico confirmado, e a lista grega os coloca na Babilônia de Nabucodonosor II.
Registro: as inscrições reais do próprio Nabucodonosor, entre elas o cilindro da East India House, detalham muralhas, portões, templos e canais da cidade sem uma linha sobre jardins sobre terraços; em 2013, a assirióloga Stephanie Dalley publicou pela Oxford University Press a tese de que a obra ficava em Nínive, erguida por Senaqueribe por volta de 700 a.C. e abastecida por uma rede de canais com cerca de 80 quilômetros.
Anomalia: a cidade mais documentada do Oriente antigo, com dezenas de milhares de tabuinhas administrativas lidas, não registrou em barro a construção que o mundo grego considerou uma das sete maiores obras da humanidade.
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A lista das sete maravilhas circula desde o epigrama de Antípatro de Sídon, no século II a.C., preservado na Antologia Palatina, e nela os jardins suspensos aparecem com terraços plantados no alto da Babilônia. Nas inscrições reais de Nabucodonosor II, que descrevem obra por obra o que o rei mandou levantar na cidade, jardim suspenso nenhum aparece.
Os dois documentos existem e podem ser lidos hoje. O epigrama grego sobreviveu na tradição manuscrita bizantina, e o texto do rei está gravado num cilindro de argila conhecido como Inscrição da East India House, guardado no Museu Britânico, onde Nabucodonosor enumera muralhas, portões, o templo de Marduk, os canais e o palácio que reformou.
O silêncio não vem de falta de arquivo. A Babilônia é uma das cidades mais documentadas do mundo antigo, com dezenas de milhares de tabuinhas administrativas já publicadas por assiriólogos, listas de rações, contratos de aluguel, inventários de templo, recibos de tâmaras e cevada. Nenhuma delas descreve manutenção, irrigação ou pessoal de um jardim erguido sobre terraços dentro da cidade.
Heródoto reforça o vazio pelo lado grego. O primeiro livro das Histórias dedica um trecho longo à Babilônia, mede a muralha em côvados, descreve o templo escalonado, as pontes e o rio cortando a planta urbana, e não registra jardim algum suspenso sobre arcos.
As descrições detalhadas que chegaram até nós são todas posteriores em séculos ao rei que teria construído a obra. Diodoro Sículo, Estrabão, Quinto Cúrcio Rufo e Filo de Bizâncio escreveram entre o século I a.C. e a Antiguidade tardia, longe da Mesopotâmia, e nenhum deles afirma ter visto o jardim de pé.
Das sete maravilhas, só ela ficou sem endereço. O farol tem a ilha de Faros, o templo de Ártemis tem as fundações em Éfeso, o mausoléu tem Halicarnasso, a pirâmide continua em Gizé. O jardim tem uma lista de autores gregos e um mapa em branco.
O dossiê de hoje começa pelo barro e pelo papel: o que o próprio rei escreveu, o que os gregos escreveram depois e o que a pá encontrou quando finalmente foi cavar.
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I O Registro
I, Mil linhas de inscrição, jardim nenhum
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O primeiro elemento do dossiê é a voz do rei. Nabucodonosor II reinou de 605 a 562 a.C. e deixou uma das maiores coleções de inscrições de construção do Oriente antigo, textos em que o soberano lista com orgulho administrativo cada obra pública, com material, dimensão e finalidade, num gênero que existia justamente para gravar a magnitude do que ele fez.
A Inscrição da East India House é o exemplar mais conhecido. O cilindro de argila cobre dez colunas de escrita cuneiforme com a reforma da muralha Imgur, os portões, o templo de Marduk, o canal e o palácio novo que o rei ergueu, descrito como obra de admiração para todos os povos, sem uma única menção a terraços plantados ou a máquinas de elevar água para o alto.
O registro grego mais próximo da fonte veio de um sacerdote babilônio. Beroso escreveu a Babyloniaca por volta de 290 a.C., já sob domínio helenístico, e o trecho que sobreviveu em citação de Flávio Josefo atribui a Nabucodonosor a construção de um parque elevado dentro do palácio, feito para agradar a esposa, criada nas montanhas da Média e infeliz na planície.
O problema do trecho de Beroso é a cadeia de cópias. A Babyloniaca se perdeu, o texto chega por citação de terceiro escrita séculos depois, e o próprio Josefo estava argumentando sobre a antiguidade dos povos orientais quando reproduziu a passagem, num contexto em que a comparação com as glórias gregas pesava mais do que a topografia da cidade.
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O jardim suspenso foi construído por um rei sírio posterior, para agradar uma concubina que, sendo persa de nascimento e saudosa dos prados das montanhas, pediu ao rei que imitasse com plantações o relevo da terra dela.
Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, livro II, século I a.C.
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A pá chegou à Babilônia no fim do século XIX. Robert Koldewey escavou o sítio de 1899 a 1917 pela Deutsche Orient-Gesellschaft, expôs a Porta de Ishtar, a via processional e o traçado dos palácios, e apontou como candidato ao jardim um edifício abobadado no palácio norte, com paredes grossas e um poço de três compartimentos que ele leu como sistema de elevação de água em corrente.
A identificação de Koldewey caiu com a leitura dos textos. As tabuinhas encontradas naquele mesmo edifício registram distribuição de rações de óleo e cevada, entre elas as porções entregues a Joaquim, rei deportado de Judá, o que descreve um depósito administrativo de palácio, não a base de um parque suspenso.
Nenhuma escavação posterior recuperou a estrutura. O sítio da Babilônia foi trabalhado por missões alemãs, iraquianas e, mais tarde, por projetos de conservação internacionais, sofreu reconstrução em tijolo nos anos 1980 e ocupação militar em 2003, sem que jamais aparecesse fundação compatível com terraços irrigados sobre arcos.
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