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Os onze crânios fincados em estacas no fundo do lago
A plataforma de pedra submersa de Kanaljorden guardou cabeças de onze pessoas, duas atravessadas por estaca de madeira, e nenhum corpo inteiro
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As estacas de madeira ao lado das bandejas
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: uma plataforma de pedra de cerca de doze por catorze metros, assentada no fundo de um lago raso em Kanaljorden, em Motala, no centro-sul da Suécia, guardava crânios humanos depositados junto a ossos de animais selvagens.
Registro: a escavação conduzida pela Stiftelsen Kulturmiljövård entre 2009 e 2013, publicada em 2018 por Sara Gummesson, Fredrik Hallgren e Anna Kjellström na revista Antiquity, recuperou restos de pelo menos onze pessoas com datação de radiocarbono em torno de 6000 antes da era comum, no Mesolítico, a última fase da Idade da Pedra dos caçadores.
Anomalia: dois crânios tinham estaca de madeira enfiada por dentro, da base para cima, um terceiro guardava na cavidade um fragmento de osso de outra pessoa, e o sítio não devolveu um único esqueleto completo.
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A escavação de Kanaljorden, em Motala, na Suécia, devolveu restos de pelo menos onze pessoas, segundo o exame que Sara Gummesson, Fredrik Hallgren e Anna Kjellström publicaram em 2018 na revista Antiquity. Das onze, nenhuma apareceu como corpo: o depósito é feito de cabeças e de pedaços de cabeça, sem um único esqueleto articulado em toda a área aberta.
O lugar fica na margem norte do rio Motala Ström, no centro-sul da Suécia, num terreno que oito mil anos atrás era a beira alagada de um lago raso. A equipe da Stiftelsen Kulturmiljövård trabalhou ali entre 2009 e 2013, antes de uma obra ferroviária, e encontrou sob a turfa uma plataforma construída de pedra, com algo em torno de doze por catorze metros, assentada de propósito no fundo submerso.
A datação de radiocarbono põe o conjunto em torno de 6000 antes da era comum, no Mesolítico, a fase da Idade da Pedra em que a Escandinávia era ocupada por grupos de caçadores, pescadores e coletores, séculos antes da primeira lavoura na região.
Sobre as pedras havia crânios de adulto, fragmentos de crânio, dentes soltos e poucos ossos de bebê. Faltava o resto: nem coluna, nem costela, nem bacia, nem os ossos longos de braço e perna que uma sepultura normal teria entregue junto.
Dois dos crânios trazem o detalhe que tirou o sítio de qualquer categoria conhecida. Uma estaca de madeira apontada foi enfiada em cada um por dentro, entrando pela base e subindo pela cavidade, e em um deles um pedaço da estaca continuava encaixado no osso quando a escavação chegou.
Um terceiro crânio, de mulher adulta, guardava dentro da própria cavidade um fragmento de osso temporal que não era dela. O pedaço pertence a outra pessoa do mesmo depósito, e alguém o colocou lá.
Junto das cabeças humanas estavam crânios e ossos de animal selvagem, entre eles urso, javali, veado, texugo e alce, mais ferramentas de osso, chifre de cervídeo trabalhado e lâminas de sílex.
O registro de hoje começa por esse inventário, peça por peça, antes de qualquer hipótese sobre o que levou onze cabeças ao fundo de um lago.
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I O Registro
I, O que as pedras no fundo da água guardaram
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A contagem vem de peça anatômica repetida, não de estimativa. Somando crânio inteiro, calota, fragmento de osso frontal e temporal, a osteologia do sítio chegou a um mínimo de onze adultos, mais restos de criança de colo identificados separadamente.
Esse número é um piso, e é assim que se conta gente em depósito quebrado: pelo osso que mais se repete do mesmo lado do corpo. O total real fica acima do piso contado, nunca abaixo.
O que define o sítio é a ausência. Dez dos onze adultos aparecem representados só pela cabeça, e a mandíbula, que normalmente acompanha o crânio, falta na maioria dos casos, o que indica que o corpo se decompôs em outro lugar antes de a cabeça chegar ali.
A plataforma não é acidente de terreno. É uma construção de pedra empilhada de propósito no fundo de água rasa, com limite definido e superfície trabalhada, erguida por gente que entrou na água para montá-la.
As estacas não têm paralelo conhecido. Em dois crânios a madeira apontada entrou pela base, pelo buraco grande por onde passa a medula, e subiu pela cavidade, num gesto que só faz sentido se o objetivo era manter a cabeça presa em pé sobre um suporte.
Num dos dois, o fragmento da estaca ainda estava no lugar quando a escavação chegou, conservado pela turfa encharcada durante oito mil anos. A conservação é o que transformou o caso de hipótese em objeto.
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Os crânios montados em estaca de madeira não têm paralelo conhecido no Mesolítico europeu, e o tratamento dado a eles não se encaixa nas categorias funerárias usadas para descrever o período na Escandinávia.
Sara Gummesson, Fredrik Hallgren e Anna Kjellström, "Keep your head high", Antiquity, 2018
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O crânio com o osso de outra pessoa dentro fecha o quadro de gesto deliberado. Um fragmento de temporal, o osso da região da orelha, de um segundo indivíduo do mesmo depósito, encaixado dentro da cavidade de uma mulher adulta. Nenhum processo natural de sedimento encaixa osso alheio dentro de crânio fechado.
Os traumas cicatrizados contam outra camada. Vários dos crânios traziam marca de golpe antigo, já curado em vida, e a distribuição separa os sexos: nos homens a lesão tende ao alto da cabeça, nas mulheres à parte de trás, padrão que aponta para violência habitual e repetida naquela população, em momento muito anterior à morte.
Os animais ocupam o mesmo espaço, não a periferia. Crânio de urso, de javali, de veado, de texugo e de alce foram depositados na plataforma junto às cabeças humanas, no mesmo nível, e alguns também apresentam tratamento que não é de descarte de caça.
O material de ofício completa o inventário. Ferramenta de osso, chifre trabalhado e lâmina de sílex, em quantidade pequena, suficiente para marcar atividade humana e insuficiente para caracterizar a plataforma como área de moradia.
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