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ED 120

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O rapaz que apareceu em Nuremberg em 26 de maio de 1828

O exame de 2002 achou a linhagem de Baden quase idêntica na herança materna; o de 2024 descartou o parentesco com as mesmas amostras

Bancada de exame à noite com duas cartas manuscritas abertas sob vidro, um envelope de papel grosso em pé, um pacote de prova com uma mecha de cabelo sobre feltro, paquímetro de bronze, lupa, escala dobrável, livro de autos do século XIX e bússola, sob luz âmbar focal

O monumento no jardim da corte de Ansbach

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: um rapaz de cerca de 16 anos apareceu na praça Unschlittplatz, em Nuremberg, em 26 de maio de 1828, mal falava e dizia ter crescido numa cela escura, sem ver o rosto de quem o alimentava.

Registro: o juiz Anselm von Feuerbach abriu inquérito, tomou depoimentos e publicou o caso em livro em 1832, e a cidade manteve o rapaz sob tutela oficial até 1833.

Anomalia: três exames de DNA mitocondrial em amostras atribuídas a ele deram respostas divergentes sobre o parentesco com a Casa de Baden, em 1996, em 2002 e em 2024.

O exame de DNA publicado em agosto de 2024 na revista científica iScience, assinado pela geneticista Turi King, da Universidade de Bath, e pelo legista Walther Parson, do Instituto de Medicina Legal de Innsbruck, comparou fios de cabelo guardados como sendo de Kaspar Hauser com a linhagem materna da Casa de Baden e não encontrou parentesco. O exame publicado em 2002 pelo Instituto de Medicina Legal da Universidade de Münster, dirigido por Bernd Brinkmann, tinha encontrado numa série de amostras atribuídas ao mesmo rapaz uma sequência materna quase igual à dos descendentes da grã-duquesa Stéphanie de Beauharnais, com divergência em uma única posição.

Kaspar Hauser é o nome pelo qual o rapaz ficou conhecido, e foi ele mesmo quem o escreveu num papel, com dificuldade, dias depois de aparecer.

Ele surgiu de pé no meio da praça Unschlittplatz, no centro de Nuremberg, no fim da tarde de 26 de maio de 1828. Aparentava uns 16 anos, andava com as pernas bambas, chorava ao ouvir sino e repetia uma frase decorada em dialeto bávaro, dizendo querer ser cavaleiro como o pai tinha sido. Segurava duas cartas endereçadas a um capitão de cavalaria da cidade.

O que ele contou nos meses seguintes, à medida que aprendia a falar, foi uma infância inteira dentro de um cubículo escuro, sentado, com pão e água postos ao lado dele enquanto dormia, sem nunca ter visto o rosto de quem o trancara.

A hipótese que atravessa dois séculos diz que ele seria o filho recém-nascido de Stéphanie de Beauharnais e do grão-duque Carlos de Baden, trocado no berço em setembro de 1812 por um bebê enfermo, para desviar a sucessão do trono ao ramo Hochberg. Quem defende a troca precisa dela para explicar por que alguém esconderia um menino por anos; quem a rejeita cobra um documento que ninguém achou.

O registro de hoje começa pelo que os autos de Nuremberg e de Ansbach realmente guardam sobre aquele rapaz, antes de qualquer teste de laboratório.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, As duas cartas e o inquérito de Feuerbach

O caso nasceu documentado, com autos de tribunal e depoimentos tomados sob juramento, registro raro numa história alemã do século XIX. O sapateiro Georg Weickmann encontrou o rapaz na praça por volta das cinco da tarde e o levou até a casa do capitão Friedrich von Wessenig, cavaleiro do 4º regimento, cujo nome estava no envelope.

As cartas são duas e chegaram juntas. A primeira, sem assinatura, dizia que o menino tinha sido deixado aos cuidados do autor em outubro de 1812, criado dentro de casa sem jamais sair, e mandava o capitão aceitá-lo ou enforcá-lo. A segunda, escrita em outra letra e datada de 1812, se apresentava como bilhete da mãe pobre pedindo que o filho fosse entregue ao regimento aos 17 anos.

O exame de escrita feito na época derrubou a segunda carta. Tinta, papel e traço eram compatíveis com os da primeira, o que indicava um autor só fingindo duas mãos, e o bilhete da mãe não tinha dezesseis anos de idade, como o texto pretendia.

Nuremberg tratou o rapaz como caso de polícia. Ele passou dois meses na torre Luginsland, sob a guarda do carcereiro Andreas Hiltel, que anotou por escrito o que ele comia e como reagia à luz, e o conselho municipal o declarou tutelado da cidade.

O nome maior do processo é Anselm von Feuerbach, presidente do tribunal de apelação de Ansbach e o jurista que escreveu o código penal da Baviera de 1813. Ele interrogou o rapaz várias vezes entre 1828 e 1831 e publicou o caso em 1832, num livro que trata o encarceramento como crime contra a vida mental de uma pessoa.

Kaspar Hauser, exemplo de um crime contra a vida da alma do ser humano.

Anselm von Feuerbach, título do livro publicado em Ansbach, 1832

O título traduz a tese do juiz: para ele, o dano central não estava no corpo do rapaz, e sim nos anos de linguagem, de convívio e de mundo que lhe foram subtraídos antes dos dezesseis.

Os registros clínicos da época sustentam parte do relato. Médicos de Nuremberg descreveram deformação nos joelhos compatível com anos sentado, ausência de calos de caminhada e reação extrema a luz forte, a cheiro de carne e a som de metal.

Há também o contra-registro, e ele é sério. Em outubro de 1829 o rapaz apareceu ferido na testa dizendo ter sido atacado no porão da casa onde morava; a apuração terminou sem autor identificado e com suspeita nos autos de que ele mesmo teria encenado a cena.

Em dezembro de 1833, já morando em Ansbach, ele voltou ferido do Hofgarten, o jardim da corte, com um golpe profundo no peito e uma bolsa de seda com um bilhete em escrita espelhada. Sobreviveu três dias e não resistiu ao ferimento. O bilhete trazia erro de ortografia idêntico aos que ele próprio cometia.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Três exames, três respostas

A hipótese do príncipe de Baden tem data e endereço. Em 29 de setembro de 1812, Stéphanie de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão e esposa do grão-duque Carlos de Baden, deu à luz um menino no castelo de Karlsruhe, e a criança foi declarada sem vida poucos dias depois, sem que a mãe a tivesse visto.

O que alimenta a suspeita é a sucessão. Carlos não deixou herdeiro homem, o trono de Baden passou em 1830 para o tio Luís e depois para o ramo nascido do casamento morganático do avô com Luísa Carolina de Hochberg, exatamente a família que a troca beneficiaria.

O primeiro exame de DNA saiu em novembro de 1996, encomendado pela revista alemã Der Spiegel. O material foi uma mancha de sangue numa peça de roupa íntima guardada como sendo a que ele vestia em 1833, e a análise de DNA mitocondrial, o material genético transmitido apenas por via materna, foi feita no laboratório forense de Birmingham, na Inglaterra.

O resultado de 1996 não bateu. A sequência da mancha divergia da de Astrid von Medem, descendente pela linha feminina de Stéphanie de Beauharnais, e a leitura publicada foi que o rapaz não pertencia à casa grã-ducal.

O segundo exame, de 2002, virou a mesa. Bernd Brinkmann, do Instituto de Medicina Legal de Münster, analisou seis amostras diferentes atribuídas a Kaspar Hauser, entre fios de cabelo e fragmentos de vestuário guardados em museu, e obteve delas um mesmo perfil materno, distinto do perfil da mancha de 1996.

O achado que reabriu tudo foi a proximidade. O haplótipo de 2002, o conjunto de variantes herdado em bloco pela linha materna, ficou a uma única posição de distância do haplótipo dos descendentes de Stéphanie, resultado que não confirma parentesco mas também não permite descartar.

O terceiro exame chegou em agosto de 2024, na iScience. Turi King e Walther Parson sequenciaram o genoma mitocondrial completo de fios de cabelo de três acervos ligados ao rapaz, lendo a molécula inteira, e não os trechos curtos usados nos anos 1990.

O resultado de 2024 foi negativo e estável. Os três acervos entregaram o mesmo perfil materno, o perfil não corresponde ao da linhagem de Baden, e os autores concluíram que o rapaz encontrado em Nuremberg não era filho de Stéphanie de Beauharnais.

O que trava a conclusão é a procedência das amostras. Nenhum dos três exames trabalhou com material colhido do corpo sob cadeia de custódia moderna, todos dependeram de peças doadas a museus ao longo de quase dois séculos, e perfis divergentes entre acervos indicam que pelo menos parte do que se guarda como sendo dele não é dele.

"Três laboratórios sérios, com os mesmos métodos de referência, chegaram a três leituras sobre a mesma pessoa, e nenhum deles pôde examinar o corpo?"

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O exame que ninguém autorizou

A primeira lacuna é o próprio corpo. Kaspar Hauser está sepultado no cemitério municipal de Ansbach desde 1833, a sepultura nunca foi aberta para coleta genética, e uma exumação com autorização judicial encerraria em uma semana a discussão que os acervos de museu arrastam há trinta anos.

A segunda é a contraprova materna do lado de Baden. A linhagem feminina de Stéphanie de Beauharnais tem descendentes vivos e sepulturas identificadas em Karlsruhe, incluindo a do bebê declarado sem vida em 1812, e nenhum desses caminhos fixou o haplótipo de referência de forma independente.

A terceira é a auditoria dos acervos. Os fios de cabelo e as peças de roupa guardados no museu de Ansbach, em coleções privadas e no arquivo municipal nunca passaram por catalogação conjunta com rastreio de doador, e sem ela cada novo exame arrisca medir a linhagem de quem manuseou a peça.

A quarta é documental e está na Baviera. Os autos do inquérito de Nuremberg, os cadernos do carcereiro Hiltel e a correspondência de Feuerbach seguem sem edição crítica integral, e a leitura folha a folha ainda pode entregar nomes de testemunha que os resumos descartaram.

A quinta é criminalística sobre as cartas. As duas folhas de 1828 sobreviveram e permitem análise de fibra, de composição de tinta e de marca-d'água, exames que apontariam oficina de fabricação e região de origem do papel, estreitando de onde o rapaz veio.

A sexta é o registro de nascimento negativo. Nenhum levantamento sistemático cruzou os livros paroquiais da Baviera e de Baden entre 1810 e 1814 procurando um menino registrado e depois sumido dos assentos de crisma e de escola, varredura que hoje é viável em bases digitalizadas.

O caso hoje sustenta duas leituras com as mesmas evidências na mesa. Ou o rapaz era um menino comum sequestrado ou abandonado por razão doméstica que ninguém registrou, e o parentesco com Baden nasceu da vontade romântica do século XIX de dar berço nobre a um enjeitado; ou a troca de 1812 aconteceu, e os exames negativos apenas provam que as relíquias de museu pertencem a outras pessoas.

A escolha decide onde gastar a próxima pesquisa. Apostar no menino comum é ir para os livros paroquiais da Baviera e para a análise de papel das cartas; apostar no príncipe trocado é pedir a exumação em Ansbach e a coleta de referência nas sepulturas de Karlsruhe. As duas contas estão acima.

 
 
 

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Quiz da edição

No fim da tarde de 26 de maio de 1828, quem encontrou o rapaz na praça Unschlittplatz, em Nuremberg, e o levou até a casa do capitão citado no envelope?

AO capitão Friedrich von Wessenig
BO juiz Anselm von Feuerbach
CO sapateiro Georg Weickmann
DO carcereiro Andreas Hiltel

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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