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ED 087

O anel de ossos de 60 mamutes que ninguém habitou

Na planície do Don, um anel de 12,5 metros feito com ossos de pelo menos 60 mamutes, erguido há 25 mil anos e deixado sem morador.

Uma mesa de escavação molhada à noite, com um crânio de mamute-lanoso apoiado em blocos de madeira, uma mandíbula deitada ao lado, uma bandeja rasa com trezentas lascas de sílex de poucos milímetros alinhadas, um pote de vidro com sementes carbonizadas, um paquímetro sobre um fragmento de costela e a planta desenhada à mão de um anel de ossos de doze metros com três fossas marcadas do lado de fora, tudo sob luz âmbar focal

O anel de 12,5 metros erguido com ossos de mamute

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 2014, uma equipe abriu a encosta de Kostenki, na planície do Don, na Rússia, e achou um anel de 12,5 metros montado com ossos de mamute, o maior já registrado na região.

Registro: entraram na parede 64 crânios e 51 mandíbulas, de pelo menos sessenta animais, com a obra datada em torno de 25 mil anos, no ponto mais frio da última era do gelo.

Anomalia: o interior devolveu pouco mais de trezentas lascas de sílex, madeira carbonizada e sementes queimadas, sem o piso de moradia e sem o refugo doméstico de um acampamento de longa duração.

A planície que acompanha o rio Don, no sudoeste da Rússia, não oferecia madeira em quantidade há 25 mil anos. A estepe fria tinha capim, arbusto rasteiro e alguma conífera encolhida no fundo dos vales. Pedra de construção também não sobrava por perto.

O material abundante era osso. O mamute-lanoso circulava em manada por aquele corredor, e um único adulto deixava no chão quase uma tonelada de matéria-prima: crânio, mandíbula, costela, escápula, vértebra, osso longo e presa.

Cerca de setenta construções feitas com esse material já apareceram na Ucrânia e na planície russa ocidental. O desenho se repete com teimosia: um anel denso de ossos de mamute, de alguns metros de diâmetro, quase sempre acompanhado por um conjunto de fossas grandes abertas no loess ao redor.

A leitura herdada da arqueologia soviética chamou o desenho de casa. Os ossos formariam a estrutura, peles cobririam o vão, e o conjunto abrigaria uma família nos meses em que a estepe ficava impossível. Mezhyrich, na Ucrânia, virou o cartão-postal dessa interpretação.

O osso, porém, é uma testemunha estranha. Ele guarda a espécie, o sexo, a idade do animal, a linhagem materna no DNA e a década aproximada da morte no radiocarbono. Não guarda uma linha sobre a intenção de quem o empilhou.

O período pesa na conta. Por volta de 25 mil anos atrás a Europa entrava no trecho mais frio da última era do gelo, e boa parte do continente na mesma latitude já tinha sido abandonada. Ficar ali era decisão dura, e cada semana gasta em obra era semana fora da caça.

Quando uma dessas construções aparece grande demais para ser coberta, limpa demais para ter sido morada e antiga demais para caber na série conhecida, a palavra casa deixa de resolver.

Foi o que saiu de uma encosta acima do Don, num sítio revirado por arqueólogos desde a década de 1950 e que ainda não tinha entregado tudo.

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I  O Registro

O que a encosta do Don entregou em 2014

Kostenki fica na margem direita do Don, a cerca de 40 quilômetros ao sul de Voronej. O nome cobre um conjunto de mais de vinte sítios paleolíticos espalhados por poucos quilômetros de encosta, escavados desde o século XIX.

O sítio numerado como Kostenki 11, também chamado Anosovka 2, foi identificado em 1951 por uma equipe liderada por Alexander Rogachev. Ali já havia um anel de ossos de mamute, escavado nas décadas seguintes e preservado no lugar onde apareceu.

Em 2014, cerca de vinte metros a oeste e um pouco mais alto na encosta, apareceu outra. Uma equipe com Alexander Dudin, do museu de Kostenki, e pesquisadores britânicos abriu a área nas temporadas seguintes.

A planta fechou em 12,5 metros de diâmetro. É o maior anel de ossos de mamute registrado na região e o mais antigo já datado por radiocarbono, com idade em torno de 25 mil anos.

A contagem das peças dá a dimensão do esforço. Entraram na parede 64 crânios de mamute e 51 mandíbulas, além de centenas de outros ossos, vindos de pelo menos sessenta animais diferentes.

O anel não tem entrada visível. A parede fecha o círculo inteiro, sem vão preparado, sem soleira, sem interrupção que sirva de porta para quem chega de fora.

Do lado de fora, três fossas grandes acompanham a construção. É o padrão dos outros sítios, e a função delas segue em disputa: estoque de carne, estoque de osso para queimar, descarte de refugo ou simples buraco de onde se tirou o loess.

Dentro, o material recolhido é escasso. Pouco mais de trezentas lascas de sílex e pedra, quase todas de poucos milímetros, do tipo que cai no chão quando alguém retoca uma ferramenta pronta.

A equipe passou o sedimento por flotação, técnica que separa na água os fragmentos leves que a peneira comum perde. Vieram madeira carbonizada, mais de cinquenta sementes queimadas e restos de tecido vegetal macio, sem lenho.

Fogo houve, portanto, e planta também entrou ali de alguma forma. O que o registro não mostra é o piso de moradia com lareira repetida e cinza acumulada, marca dos acampamentos de estadia longa da mesma região.

Sessenta mamutes na parede. Sessenta e quatro crânios, cinquenta e uma mandíbulas, doze metros e meio de diâmetro. Trezentas lascas de sílex, cinquenta sementes queimadas e nenhuma porta.

O estudo com a datação e a análise do conteúdo saiu na revista Antiquity em 2020, assinado por Alexander Pryor e colegas. É dele que vem a formulação que reabriu o caso das construções de osso.

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II  A Pergunta em Aberto

Moradia, despensa ou monumento

A discussão não é sobre quem levantou a parede. É sobre para que serve um cercado de 12,5 metros que consumiu semanas de trabalho pesado e não guardou dentro o rastro da vida cotidiana.

A hipótese antiga é a da moradia coberta. O anel seria a base de uma tenda de peles apoiada na própria estrutura de ossos, e o interior, o chão onde a família dormia e comia durante o inverno.

Contra ela pesa o vão. Cobrir 12,5 metros de diâmetro exige viga longa que a estepe não fornecia, e os autores do estudo consideram o círculo grande demais para receber um teto prático.

Pesa também a contabilidade do material recolhido no interior.

A intensidade da atividade em Kostenki 11 parece menor do que se esperaria de um acampamento-base de longa duração.

Alexander Pryor e colegas, Antiquity, 2020

A segunda leitura troca casa por despensa. O anel seria a área de processamento e estoque da carne, com as três fossas funcionando como câmara fria natural no solo permanentemente congelado.

A leitura resolve o problema do teto, porque despensa não precisa de cobertura. Resolve mal o resto: as fossas ficam do lado de fora, e pátio de açougue não explica a parede fechada sem porta.

A terceira leitura trata a obra como monumento. Ponto de encontro de grupos dispersos pela estepe, lugar de reunião periódica, marco visível de longe numa paisagem sem referência.

O argumento a favor é o próprio custo. Obra cara feita por muita gente ao mesmo tempo costuma valer como sinal social.

Contra ela pesa a falta de depósito. Não saiu do interior sepultamento, objeto votivo, peça de arte, estatueta ou qualquer material colocado ali de propósito, e o argumento acaba correndo sobre ausências.

Há ainda a pergunta de por que naquele ponto exato da encosta. Alexander Pryor levantou a possibilidade de uma nascente natural no local, capaz de manter água líquida durante o inverno inteiro, coisa rara naquele frio e atrativo tanto para o mamute quanto para quem o caçava.

A nascente explicaria a escolha do endereço. Não explica o desenho da obra, e nenhuma das leituras dá conta de três detalhes ao mesmo tempo.

O primeiro é a ausência de porta num cercado que alguém precisaria usar. O segundo é a escassez de material dentro, num espaço de doze metros que teria servido de abrigo por meses. O terceiro é o abandono, sem camada de reocupação, sem reforma, sem peça reposta.

A conta que sobra é sempre a mesma. No trecho mais frio dos últimos cem mil anos, com a caça definindo a sobrevivência da semana, um grupo destinou semanas de esforço coletivo a uma obra que ninguém consegue mostrar em uso.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que ainda pode sair desses ossos

O que está firme é a matéria: o diâmetro, a contagem, a espécie, a idade aproximada e o inventário do que havia dentro. O que segue aberto é a função, e a linha de ataque mudou de lugar. Saiu da pá e foi para o laboratório.

Em 2025, um estudo publicado na revista Quaternary Environments and Humans levou 39 amostras de osso do anel para análise biomolecular, sob coordenação de Alba Rey-Iglesia, com participação de Alexander Pryor e Eline Lorenzen.

A sexagem por proteína funcionou em trinta indivíduos e devolveu maioria de fêmeas. O número importa porque manada de mamute era grupo de fêmeas e filhotes conduzido por uma matriarca, enquanto o macho adulto vivia sozinho.

O DNA mitocondrial de dezesseis amostras separou seis linhagens maternas distintas. Os mamutes do anel não saíram todos do mesmo grupo familiar, o que descarta a imagem simples de uma única manada abatida numa única temporada.

Dez datações novas de radiocarbono acharam a discrepância mais útil do conjunto.

Duas mandíbulas de mamute são de 200 a 1.200 anos mais velhas que o restante do material datado no sítio, o que sugere que material esquelético de indivíduos mortos havia muito tempo foi recolhido e usado na construção.

Alba Rey-Iglesia e colegas, Quaternary Environments and Humans, 2025

Parte da parede, portanto, veio de ossada antiga. Alguém percorreu a paisagem juntando material de carcaças que já estavam no chão havia séculos, provavelmente num ponto onde os animais se acumulavam naturalmente.

Daí saem três medidas capazes de estreitar a questão da função.

A primeira é datar cada crânio, e não uma amostra do conjunto. Sessenta e quatro datas separadas dizem se a parede subiu numa temporada só ou se cresceu por etapas, ao longo de gerações, com material recolhido aos poucos.

A segunda é ler a química do chão que ficava dentro do anel. Lipídios, esteróis, fosfato e micromorfologia de solo detectam onde se cozinhou, onde se dormiu e onde se descartou, mesmo sem objeto nenhum preservado.

A terceira é identificar as plantas queimadas. As sementes e o tecido macio recuperados na flotação ainda não têm espécie fechada, e a espécie diz se aquilo era combustível, comida ou forragem.

Falta o mesmo aparato aplicado às três fossas externas. O conteúdo delas separa despensa de lixeira de simples buraco de extração de loess, e a resposta muda o sentido do conjunto.

Fica a assimetria que sustenta o caso. Sabe-se quantos animais entraram na parede, de quantas linhagens vieram, quantos eram fêmeas e que alguns já estavam no chão havia séculos.

O que ninguém tem é o motivo. O anel de 1951 continua onde apareceu, sob o telhado do pavilhão de museu erguido em 1979, e nenhum dos 64 crânios do anel de 2014 diz para que a obra servia.

 
 
 
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