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A caça pintada há 51.200 anos em Sulawesi

Numa caverna da Indonésia, a idade da cena sai da crosta de calcita crescida sobre o ocre, e a tinta segue sem data própria

Teto de caverna de calcário com pintura em ocre

A parede de Leang Karampuang, em Sulawesi

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FICHA DO ARQUIVO

Caso: a caçada de Leang Karampuang.

Local: Sulawesi, Indonésia.

Anomalia: data mínima, pintor sem osso.

Numa parede de calcário de Sulawesi, na Indonésia, uma cena de caça pintada em ocre tem pelo menos 51.200 anos, segundo o artigo de Adhi Agus Oktaviana, Maxime Aubert e Adam Brumm publicado na revista Nature em julho de 2024. O único esqueleto antigo da mesma ilha com DNA lido, o de uma jovem enterrada na caverna de Leang Panninge, tem cerca de 7.200 anos (Selina Carlhoff e equipe, Nature, 2021).

A pintura é sete vezes mais velha que o corpo mais antigo, com genética conhecida, de alguém que viveu naquela ilha.

A caverna se chama Leang Karampuang e fica no carste de Maros-Pangkep (carste é o relevo de rocha dissolvida pela água, cheio de grutas), no sul de Sulawesi. Leang, na língua local, quer dizer caverna.

No teto baixo de uma das câmaras, três figuras de forma humana cercam um porco-verrugoso de Sulawesi, o javali nativo da ilha. Uma delas parece estender uma vara na direção do bicho. Outra aparece de cabeça para baixo, com as pernas abertas.

O traço é vermelho-escuro e já está gasto. Parte do porco sumiu sob manchas claras.

O pigmento é ocre, terra rica em óxido de ferro, moída e misturada com água. O ocre não guarda carbono de origem viva, e sem esse carbono o radiocarbono (a datação pelo carbono 14) não tem o que medir.

Por cima da tinta, porém, cresceu outra camada. A água que escorre pelo calcário deposita calcita, o mesmo mineral das estalactites, em crostas pequenas e granuladas que lembram pipoca.

A idade medida pertence a essa crosta. Ela se formou depois da pintura, então a tinta embaixo só pode ser da mesma idade ou mais antiga.

O número 51.200 funciona como um piso. Marca o mínimo, e não o dia em que alguém molhou o dedo no ocre.

Nenhum osso dos pintores apareceu dentro da caverna. Nenhum pincel, nenhuma lasca de ocre usada, nenhum resto de fogueira com a mesma idade.

O registro começa pelo laser que leu a crosta camada por camada, sem raspar um grão da tinta.

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I  O Registro

Um laser sobre a crosta de calcita

A data de Leang Karampuang saiu em 3 de julho de 2024 na Nature, no artigo “Narrative cave art in Indonesia by 51,200 years ago” (arte rupestre narrativa na Indonésia há 51.200 anos). Assinam Adhi Agus Oktaviana, da agência nacional de pesquisa da Indonésia, a BRIN, Maxime Aubert e Adam Brumm, da Universidade Griffith, na Austrália, e Renaud Joannes-Boyau, da Universidade Southern Cross, entre outros.

A pintura já constava nos levantamentos de arte rupestre de Maros-Pangkep. Faltava a idade, e a idade dependia de achar calcita no lugar certo, colada sobre o traço.

O relógio do urânio

A técnica se chama datação por série do urânio. A água que forma a calcita traz urânio dissolvido e quase nenhum tório. Preso no mineral, o urânio se transforma em tório num ritmo conhecido, e a proporção entre os dois diz há quanto tempo a crosta se fechou.

O método já tinha datado a arte da região. Em 2014, Maxime Aubert publicou na Nature estênceis de mão (contornos de mão feitos soprando pigmento sobre a palma encostada na rocha) de Maros com pelo menos 39.900 anos.

Em 2019, de novo na Nature, a mesma equipe datou uma cena de caça na caverna de Leang Bulu' Sipong 4 em pelo menos 43.900 anos. As figuras ali são meio humanas e meio animais, e perseguem porcos e búfalos-anões.

O laser no lugar da broca

Até então, a equipe raspava um pouco de pó da crosta e analisava a amostra inteira de uma vez. O problema mora nas camadas: se a água lavou a parte de baixo e levou urânio embora, a conta envelhece ou rejuvenesce a amostra sem aviso.

Em 2024, o grupo trocou a raspagem pela ablação a laser, em que um feixe arranca partículas microscópicas da amostra e as manda para um espectrômetro de massa (aparelho que separa e conta os átomos pelo peso). O laser varre a lasca de calcita em linhas finas e monta um mapa de idades.

A tinta nunca entra no laboratório: quem fala é a pedra crescida por cima dela.

O mapa mostra onde a crosta ficou fechada e onde a água mexeu. A idade aceita vem da faixa intacta mais próxima da tinta, a primeira a se depositar.

Duas paredes, dois números

Em Leang Karampuang, a equipe tirou lascas de crostas sobre partes diferentes do painel. A mais antiga deu pelo menos 51.200 anos.

No mesmo artigo, o laser voltou a Leang Bulu' Sipong 4. A idade mínima publicada em 2019 subiu para pelo menos 48.000 anos.

A revisão foi para cima por um motivo mecânico. A raspagem antiga misturava camadas jovens com camadas velhas e puxava a média para baixo. O mapa a laser separa as camadas e deixa ler só a mais funda.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Quem segurava o pincel

O artigo de 2024 chama a cena de narrativa, porque as figuras parecem agir juntas: cercam o porco, estendem objetos, ocupam o mesmo pedaço de teto. Se a leitura estiver certa, Leang Karampuang guarda a história contada em imagem mais antiga conhecida.

O título do artigo, “Narrative cave art in Indonesia by 51,200 years ago”, aposta nessa palavra. A aposta tem dois pontos frágeis, e o primeiro é a autoria.

Os candidatos sem osso

Sulawesi teve gente muito antes da pintura. Em 2016, Gerrit van den Bergh e equipe publicaram na Nature ferramentas de pedra de Talepu, no sul da ilha, com pelo menos 118.000 anos.

Ninguém sabe quem fez aquelas ferramentas. Nenhum fóssil humano daquela idade foi achado na ilha, e a espécie fica em aberto. Na ilha vizinha de Flores viveu o Homo floresiensis, um hominínio (parente humano extinto) de cerca de um metro de altura.

A leitura mais aceita entrega a pintura ao Homo sapiens, a nossa espécie, de passagem pela região a caminho da Austrália. Chris Clarkson e equipe publicaram em 2017, na Nature, ocupação humana de pelo menos 65.000 anos no abrigo de Madjedbebe, no norte australiano.

Para chegar lá, alguém atravessou as ilhas da Indonésia de barco ou jangada. Sulawesi fica no caminho do norte, e uma parada de algumas gerações caberia na data da caverna.

A pintura tem data mínima, e o pintor não tem corpo, nome de espécie confirmado nem túmulo.

O DNA da jovem de Leang Panninge não resolve a questão. Ela viveu cerca de 44 mil anos depois da cena e pertencia a uma população com mistura de grupos antigos da região.

Uma cena ou figuras somadas

O segundo ponto frágil é o tempo da composição. Três figuras e um porco na mesma parede podem ter sido pintados numa tarde ou ao longo de séculos.

A calcita só garante que tudo embaixo dela é anterior ao seu crescimento. Se uma figura nasceu mil anos depois da outra, a crosta cobriu as duas igual, e a cena parece única.

A equipe argumenta que o estilo, a cor e a escala das figuras combinam, e que elas se voltam para o mesmo animal. Os críticos lembram que a mão humana repete estilo por gerações.

A leitura dos pesquisadores

Para os autores, as figuras de Leang Karampuang e de Leang Bulu' Sipong 4 mostram uma tradição de contar caçadas em imagem, com personagens em ação. A Europa, palco clássico da arte das cavernas, não tem cena figurativa datada com segurança tão cedo.

O pesquisador Maxime Aubert defende a comparação desde o artigo de 2014. A arte figurativa, segundo ele, não nasceu num lugar só, e a Indonésia entra no mapa ao lado das cavernas da França e da Espanha.

 
 

III  O Que Falta Provar

A parede começa a descascar

O primeiro limite já está dito pela química. A data de 51.200 anos marca o mínimo, e a idade máxima da pintura continua desconhecida.

Para saber quantos anos a tinta ficou exposta antes de a calcita chegar, seria preciso datar uma camada embaixo do ocre, ou um resto de pigmento preso entre duas crostas. Nenhuma das amostras publicadas trouxe essa camada.

A rocha que solta lascas

O segundo limite é o próprio suporte. Em 2021, Jillian Huntley e equipe publicaram na revista Scientific Reports um estudo sobre a arte de Maros-Pangkep: sais cristalizam dentro do calcário, incham e soltam lascas da superfície.

O estudo ligou o ritmo das lascas aos ciclos de chuva e seca da monção, mais extremos com o aquecimento do clima. Nas cavernas medidas, painéis inteiros perderam pedaços em poucas décadas.

As manchas claras sobre o porco de Leang Karampuang são lascas que já caíram. Cada lasca perdida leva junto traço e calcita, isto é, imagem e relógio ao mesmo tempo.

A parede com a cena mais antiga da região perde superfície enquanto a ciência ainda mede a sua idade.

O pintor e a mão

O terceiro limite é a autoria. Sem fóssil humano da época em Sulawesi, a atribuição ao Homo sapiens vem da comparação com outras regiões, e não de um osso achado no lugar.

Escavações no chão das cavernas de Maros-Pangkep acharam ferramentas e restos de comida de idades variadas. Nenhuma camada até agora casou ossos humanos com a idade da pintura.

O que uma prova exigiria

1. Achar e datar uma camada de calcita embaixo do ocre, para fixar a idade máxima da cena.

2. Escavar o piso de Leang Karampuang atrás de ocre usado, ferramentas ou ossos com a mesma idade.

3. Datar cada figura em separado, com crostas próprias, para saber se a cena saiu de uma vez.

Duas leituras sobram na parede. Uma cena composta de uma vez por um mesmo grupo, a primeira história contada em imagem, ou figuras somadas por gerações e só depois seladas pela mesma crosta. Escolha a sua.

 
 
 
Quiz da edição

Qual material forneceu a idade de 51.200 anos usada para datar a cena de caça de Leang Karampuang?

AO ocre vermelho da pintura, datado por radiocarbono
BA crosta de calcita que cresceu sobre o ocre, datada pela série do urânio
CUm osso de um dos pintores encontrado na caverna
DCarvão de uma fogueira da mesma camada

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