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O artigo de 2024 chama a cena de narrativa, porque as figuras parecem agir juntas: cercam o porco, estendem objetos, ocupam o mesmo pedaço de teto. Se a leitura estiver certa, Leang Karampuang guarda a história contada em imagem mais antiga conhecida.
O título do artigo, “Narrative cave art in Indonesia by 51,200 years ago”, aposta nessa palavra. A aposta tem dois pontos frágeis, e o primeiro é a autoria.
Os candidatos sem osso
Sulawesi teve gente muito antes da pintura. Em 2016, Gerrit van den Bergh e equipe publicaram na Nature ferramentas de pedra de Talepu, no sul da ilha, com pelo menos 118.000 anos.
Ninguém sabe quem fez aquelas ferramentas. Nenhum fóssil humano daquela idade foi achado na ilha, e a espécie fica em aberto. Na ilha vizinha de Flores viveu o Homo floresiensis, um hominínio (parente humano extinto) de cerca de um metro de altura.
A leitura mais aceita entrega a pintura ao Homo sapiens, a nossa espécie, de passagem pela região a caminho da Austrália. Chris Clarkson e equipe publicaram em 2017, na Nature, ocupação humana de pelo menos 65.000 anos no abrigo de Madjedbebe, no norte australiano.
Para chegar lá, alguém atravessou as ilhas da Indonésia de barco ou jangada. Sulawesi fica no caminho do norte, e uma parada de algumas gerações caberia na data da caverna.
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A pintura tem data mínima, e o pintor não tem corpo, nome de espécie confirmado nem túmulo.
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O DNA da jovem de Leang Panninge não resolve a questão. Ela viveu cerca de 44 mil anos depois da cena e pertencia a uma população com mistura de grupos antigos da região.
Uma cena ou figuras somadas
O segundo ponto frágil é o tempo da composição. Três figuras e um porco na mesma parede podem ter sido pintados numa tarde ou ao longo de séculos.
A calcita só garante que tudo embaixo dela é anterior ao seu crescimento. Se uma figura nasceu mil anos depois da outra, a crosta cobriu as duas igual, e a cena parece única.
A equipe argumenta que o estilo, a cor e a escala das figuras combinam, e que elas se voltam para o mesmo animal. Os críticos lembram que a mão humana repete estilo por gerações.
A leitura dos pesquisadores
Para os autores, as figuras de Leang Karampuang e de Leang Bulu' Sipong 4 mostram uma tradição de contar caçadas em imagem, com personagens em ação. A Europa, palco clássico da arte das cavernas, não tem cena figurativa datada com segurança tão cedo.
O pesquisador Maxime Aubert defende a comparação desde o artigo de 2014. A arte figurativa, segundo ele, não nasceu num lugar só, e a Indonésia entra no mapa ao lado das cavernas da França e da Espanha.
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