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ED 090

A legião que some das listas de Roma

Atestada em pedra em York por volta de 108, a Nona Legião sai dos registros do exército imperial sem uma linha explicando o destino dela.

Uma mesa de exame de madeira numa tenda de campo à noite, com uma laje de calcário partida e letras capitais romanas cinzeladas sobre feltro cinza, três telhas de barro com carimbo retangular de legião, um diploma militar de bronze dobrado sob vidro, um mapa a tinta da Britânia e do baixo Reno com três pontos de achado marcados em papel milimetrado, a planta de um portão de forte legionário, um gráfico cronológico impresso com um vão em branco entre dois blocos de datas e um paquímetro sobre o mapa, tudo sob luz âmbar focal

A placa de pedra que fecha o rastro da Nona

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: por volta de 108, a Nona Legião gravou o próprio nome numa placa de pedra do portão do forte de Eboracum, a York de hoje, e essa é a última data que ela assina na Britânia.

Registro: quando Roma gravou a lista das legiões do império em meados do século II, a Nona não constava, e nenhum autor antigo escreveu derrota, dissolução ou transferência dela.

Anomalia: carimbos de tijolo em Nimega, na Holanda, e carreiras de oficiais posteriores a 120 sugerem que a unidade ainda existia longe da Britânia, sem que nada feche onde e quando ela acabou.

Roma mantinha a contabilidade do próprio exército à vista de todo mundo. Uma legião existia em placa de pedra de obra pública, em carimbo de telha, em altar de aniversário de unidade, em lápide de veterano e em lista gravada em mármore, e cada um desses suportes funcionava como recibo administrativo.

No império de Adriano circulavam por volta de trinta legiões, cada uma com uns cinco mil homens em armas, sem contar a tropa auxiliar acoplada. Mexer uma delas de província era obra de estado: rota, abastecimento, quartel novo, olaria com o carimbo da unidade e uma leva de diplomas de bronze quando o auxiliar completava o tempo de serviço.

Por causa dessa papelada toda, legião não sai de vista sem deixar buraco. Quando uma delas some do registro, ou o papel dela se perdeu, ou a unidade deixou de existir e ninguém achou conveniente escrever a razão.

A Nona é o caso mais estudado dessa segunda hipótese. A Legio VIIII Hispana serviu na Panônia, entrou na Britânia com a invasão de 43, apanhou feio na revolta liderada por Boudica em 61 e foi recomposta com tropa vinda das guarnições do Reno.

No começo do século II ela estava em Eboracum, a York de hoje, trocando por pedra o forte de madeira e terra que ocupava desde os anos 70. É dessa obra que sai o último documento em que a legião aparece na ilha com data segura.

Depois disso o rastro fica raro, muda de país e some. Em meados do século II, quando um funcionário em Roma gravou numa laje a relação das legiões do império, a Nona não estava na lista.

O que sobrou é um punhado de objetos pequenos, espalhados hoje por três países, que cada geração de historiador remonta numa ordem diferente.

O ponto de partida é a última data que a própria legião assinou.

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I  O Registro

A última pedra que a legião assinou

Em York, sob a catedral e as ruas do centro, está a planta de um forte legionário retangular de cerca de vinte hectares. Foi fundado por volta de 71, na campanha de Quinto Petílio Cerial contra os brigantes, e a Nona foi a unidade que o ocupou.

O achado que fixa a data é uma placa de pedra do portão sudeste, recuperada em pedaços e remontada. O texto traz a titulatura do imperador Trajano com o número de tribunícia potestade que corresponde ao ano 108, e nomeia a Legio VIIII Hispana como responsável pela obra.

A placa não é uma lápide nem um troféu. É registro de construção, o gênero mais burocrático da epigrafia romana, e serve para dizer uma coisa só: naquele ano, aquela legião estava ali, com dinheiro e mão de obra para levantar um portão de pedra.

A partir daí o dossiê muda de natureza. Nenhuma inscrição posterior coloca a Nona na Britânia.

Em torno de 122, na visita de Adriano à província, quem aparece em Eboracum é a Legio VI Victrix, trazida da Baixa Germânia pelo governador Aulo Platório Nepos. O forte segue funcionando, com outra unidade dentro.

Há um segundo documento, e ele é o mais citado da discussão. Uma laje encontrada em Roma traz a relação das legiões do império organizada por província, gravada em meados do século II, e a Nona não consta em lugar nenhum dela.

Uma unidade de cinco mil homens sai da lista oficial do exército imperial e nenhum autor romano sobrevivente escreveu uma linha dizendo por quê.

O terceiro bloco de evidência veio de fora da ilha, e é material de olaria. Em Nimega, na Holanda, na margem do Reno, apareceram telhas com o carimbo da Nona.

O contexto de Nimega tem data de partida. A Legio X Gemina, que ocupava o forte de lá, saiu para a Panônia por volta de 104, o que empurra os carimbos da Nona para depois dessa saída.

Há ainda o quarto bloco, feito de carreiras individuais. Inscrições honoríficas listam os postos que cada oficial romano ocupou, em ordem, e o caso mais discutido é o de Lúcio Emílio Karus, que aparece como legado da Nona e depois como governador da Arábia por volta de 142.

Reunidos, os quatro blocos formam um retrato incômodo. A legião existe em pedra até 108 na Britânia, provavelmente existe no Reno em algum ponto depois disso, talvez ainda exista nos anos 120, e não existe mais quando Roma faz a lista.

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II  A Pergunta em Aberto

Aniquilada no norte ou apagada do mapa

A pergunta que divide a bibliografia é curta. A Nona acabou num campo de batalha ou apenas saiu de cena por decisão administrativa em algum lugar do império?

A tese da aniquilação na Britânia é a mais antiga. Theodor Mommsen a defendeu no fim do século XIX, ligando o sumiço a uma revolta no norte da ilha no começo do reinado de Adriano.

O apoio textual vem de uma frase de Marco Cornélio Frontão, tutor e correspondente de Marco Aurélio, escrita por volta de 162 para consolar o imperador depois de um desastre militar no oriente.

Quantos soldados foram abatidos pelos judeus, quantos pelos britanos no reinado de Adriano.

Marco Cornélio Frontão, De bello Parthico, c. 162

A frase prova que houve perda romana séria na Britânia sob Adriano. O que ela não faz é nomear a unidade perdida, e nenhuma outra fonte antiga preenche esse nome.

Há um argumento circunstancial a favor dessa leitura. A Britânia recebeu reforço pesado nos anos 120: a Legio VI Victrix veio da Germânia e a muralha de Adriano começou a ser construída de leste a oeste, obra defensiva de escala inédita na província.

A réplica é que reforço não é prova de catástrofe. O império fortificou fronteiras em vários pontos no mesmo período, e a chegada da Sexta pode ser rotação normal de guarnição.

A tese da transferência trabalha com a evidência de olaria. Se os carimbos de Nimega são posteriores a 104, a Nona esteve na Baixa Germânia depois da obra de York, o que a tira da Britânia viva e inteira.

Eric Birley formulou a versão mais influente dessa leitura, montando um itinerário continental para a unidade.

Os carimbos do Reno e as carreiras de oficiais permitem seguir a Nona fora da Britânia depois de 120, o que retira o desastre britânico da lista de explicações necessárias.

Eric Birley, The Fate of the Ninth Legion, 1971

Se a legião saiu da ilha, sobram dois teatros para o fim dela. O primeiro é a Judeia da revolta de Bar Kokhba, entre 132 e 136, campanha longa e cara, com perda romana reconhecida pelas fontes.

O segundo é a Capadócia de 161, no desastre de Elegeia, quando o governador Marco Sedácio Severiano perdeu uma força inteira diante dos partas.

Cada teatro tem o mesmo defeito de prova. Nenhum deles produziu inscrição, carimbo ou estela que traga o nome da Nona no lugar e na data certa.

Existe ainda uma terceira leitura, mais burocrática e menos narrativa. Uma legião podia ser dissolvida por indisciplina ou por desonra, com o nome apagado do registro público e os homens redistribuídos, e nesse cenário a ausência na lista é resultado de decisão, não de batalha.

A disputa gira em torno de um ponto único. Cada tese explica bem o silêncio documental e nenhuma produz o objeto que fecharia a questão.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que ainda cabe medir em tijolo e bronze

O que está firme é curto. A Nona existiu, ocupou Eboracum, assinou uma obra em pedra por volta de 108, foi substituída ali pela Sexta em torno de 122 e não aparece na lista de legiões gravada em meados do século II.

O que segue aberto é o lugar e a data do fim, e a resposta depende de material novo ou de material antigo reexaminado.

A primeira medida é a olaria de Nimega. Análise de argila por composição química e mineralógica separa produção local de telha trazida pronta, e um lote produzido no próprio Reno colocaria a legião fisicamente lá, em vez de material reaproveitado.

A segunda é datar melhor o contexto arqueológico desses carimbos, com estratigrafia e moeda associada. Carimbo solto num aterro é evidência fraca, carimbo em camada selada com moeda datada é evidência forte.

A terceira é varrer os diplomas militares de bronze ainda em coleção particular. Cada diploma lista as unidades da província do titular na data da concessão, e um exemplar posterior a 122 que citasse a Nona resolveria a geografia da unidade num único documento.

A quarta é o corpus de inscrições de carreira, quase todo publicado no século XIX. A releitura com iluminação rasante e fotogrametria já corrigiu números e nomes em outros conjuntos.

A releitura de inscrições fragmentárias com técnica moderna mudou datas consolidadas em vários dossiês militares romanos.

Duncan B. Campbell, The Fate of the Ninth, Ancient Warfare, 2010

A quinta é o subsolo de York. Boa parte do forte legionário está debaixo de construção viva, o que limita a escavação, mas prospecção geofísica e resgate em obra continuam devolvendo material do período.

A sexta é a Judeia. Escavações ligadas à revolta de Bar Kokhba já devolveram equipamento militar romano, e uma peça com marca de unidade daria à hipótese oriental o apoio material que falta.

A sétima é a Capadócia, e ela é a menos trabalhada. O sítio do desastre de Elegeia nunca recebeu escavação sistemática, e um campo de batalha romano identificado ali mudaria a discussão de patamar.

Falta ainda combinar as duas pontas. Um levantamento único, que trate carimbos, diplomas, carreiras e listas oficiais como um só banco de dados datado, permitiria testar as três teses com o mesmo critério, em vez de cada autor pesar o material que prefere.

A assimetria é toda de uma linha. Ninguém discute que a legião existiu, nem que estava em York em 108, nem que sumiu do registro imperial antes do fim do século II.

O que falta é o documento que Roma nunca produziu, ou produziu e não guardou, e enquanto ele não aparece a Nona segue sendo a única unidade do exército imperial que sai de cena sem uma linha de explicação.

 
 
 
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Na placa de pedra do portão sudeste do forte de Eboracum, cuja titulatura fixa o ano 108 como a última data certa da Nona Legião na Britânia, qual imperador está nomeado?

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