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As esculturas de Lepenski Vir são seixos de arenito do próprio rio, alguns com meio metro de altura. O escultor aproveitava a forma redonda da pedra e entalhava pouco: sulcos para os olhos, uma saliência para o nariz e o corte largo da boca.
Em várias peças, linhas descem pelo corpo da pedra e terminam em dedos, como braços cruzados sobre a barriga. Em outras há só padrões de ziguezague e espirais, sem rosto nenhum.
Srejović apelidou as mais famosas. Uma ficou conhecida como Praroditeljka (a Antepassada, em sérvio), com mãos abertas e um sexo marcado. Outra recebeu o apelido de Ribolika (a parecida com peixe), pelo rosto de boca caída e olhos redondos.
Um rosto de gente com boca de peixe, posto ao lado do fogo. |
O peixe não era enfeite. O Danúbio das Portas de Ferro recebia a subida anual dos esturjões, peixes enormes que vinham do mar Negro para desovar, e os restos de esturjão aparecem nos sítios da garganta, segundo os estudos de ossos de animais do zoólogo László Bartosiewicz.
As três leituras
Desde as escavações, três respostas foram propostas para o que os rostos representam:
• Seres míticos do rio, meio gente e meio peixe, ligados à origem do grupo, como propôs Dragoslav Srejović no livro de 1972 sobre a escultura do sítio.
• Corpos em transformação, gente virando peixe e peixe virando gente, leitura do arqueólogo Dušan Borić no Cambridge Archaeological Journal em 2005.
• Guardiões dos mortos num santuário, leitura de Ivana Radovanović no livro The Iron Gates Mesolithic, de 1996, que via as casas como lugares de rito e de enterro, além de moradia.
A primeira leitura nasceu do próprio escavador e marcou o sítio por décadas, mas se apoia em analogia: nenhum mito daquela gente chegou até hoje, e a semelhança com deuses de povos posteriores não prova parentesco.
A segunda tem a seu favor as próprias pedras. As peças vão do rosto quase humano ao quase peixe, e Borić leu essa gradação como o retrato de uma passagem, ideia comum entre povos caçadores que viam animais e pessoas como seres que trocam de forma.
A terceira explica os mortos sob o piso e o arranjo fixo das lareiras, mas esbarra nos restos de comida, ferramentas e lixo de cozinha achados nas casas, sinais de vida diária.
Nenhuma das três tem prova direta. Os blocos não trazem inscrição, e a gente de Lepenski Vir não conhecia escrita.
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