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Os rostos de peixe de Lepenski Vir, no Danúbio

Casas trapezoidais de piso vermelho olhavam o mesmo redemoinho do rio por volta de 6000 a.C., e blocos de arenito guardam rostos sem nome

Escultura de arenito com rosto meio humano meio peixe de Lepenski Vir

Lepenski Vir, nas Portas de Ferro do Danúbio

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: barqueiros conheciam o redemoinho do Danúbio.

Registro: casas trapezoidais de piso vermelho por volta de 6000 a.C.

Anomalia: rostos meio humanos meio peixe sem nome.

Os ossos enterrados em Lepenski Vir guardam a marca química de uma dieta quase toda de peixe de rio, segundo a análise de isótopos (variantes do carbono e do nitrogênio que a comida deixa no osso) publicada por Clive Bonsall e colegas no Journal of European Archaeology em 1997. Na mesma margem, esses pescadores sem lavoura talharam em arenito o que o arqueólogo Dragoslav Srejović chamou, no título do livro de 1972, de primeira escultura monumental da Europa.

Escultura monumental se esperava de quem plantava. Quem fez aquelas pedras não plantava.

Lepenski Vir fica na margem direita do Danúbio, no lado sérvio das Portas de Ferro (Đerdap, em sérvio), a garganta estreita onde o rio corta as montanhas dos Cárpatos e separa a Sérvia da Romênia.

A palavra vir quer dizer redemoinho. O sítio tomou emprestada a designação do remanso que o Danúbio forma ali, um giro de água que os barqueiros da região conheciam bem e que prendia peixe junto à margem.

As casas ficavam num terraço baixo, em forma de ferradura, apertado entre o rio e as encostas. Tinham planta de trapézio, com o lado largo virado para a água, e piso de cal endurecida, em muitos casos tingido de vermelho.

Todas olhavam para o mesmo trecho do rio. Na margem romena, bem em frente, sobe o monte Treskavac, cuja silhueta lembra um trapézio deitado.

Junto às lareiras das casas estavam os blocos. São seixos grandes de arenito, arredondados pela correnteza, com olhos saltados, nariz achatado e uma boca larga de cantos caídos, a boca de um peixe num rosto que ainda parece de gente.

O sítio apareceu em 1960, numa prospecção (a busca de vestígios a pé, antes de qualquer escavação) feita no vale por arqueólogos de Belgrado. O que ele guardava só veio à tona alguns anos adiante, e sob pressa.

Quem viveu nessas casas, o que os rostos de pedra representam e por que todas as portas encaravam o redemoinho, é o caso de hoje.

Ele começa com uma escavação feita contra o relógio de uma barragem.

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I  O Registro

I, As casas que olhavam o redemoinho

O SÍTIO

As casas trapezoidais de Lepenski Vir, remontadas sob o teto de vidro do museu, na margem sérvia do Danúbio.

As casas trapezoidais de Lepenski Vir, remontadas sob o teto de vidro do museu, na margem sérvia do Danúbio.

Foto: Myself, Wikimedia Commons, CC BY 3.0

A Iugoslávia e a Romênia tinham assinado o projeto da usina de Đerdap I, uma barragem que ia erguer o nível do Danúbio em toda a garganta. Cada sítio da margem precisava ser escavado antes que a água chegasse.

Dragoslav Srejović, professor de arqueologia da Universidade de Belgrado, assumiu Lepenski Vir em 1965. Ele trabalhou ali até 1970, temporada após temporada, sabendo que o terraço ia sumir.

O que saiu das camadas foi uma aldeia inteira. Srejović descreveu dezenas de construções trapezoidais, sobrepostas em fases, e publicou o conjunto no livro Lepenski Vir, lançado em Belgrado em 1969.

O piso vermelho

Cada casa seguia a mesma receita. O chão era uma camada de cal misturada com areia e cascalho, alisada e endurecida até virar uma espécie de reboco, e em várias delas a superfície recebeu um tom avermelhado.

No eixo da casa ficava a lareira, uma vala retangular forrada de lajes de pedra fincadas em pé. A lareira, o piso e a abertura larga do trapézio apontavam todos na direção do rio.

Toda porta abria para o mesmo trecho do Danúbio.

As esculturas ocupavam um lugar fixo nesse arranjo. A maioria estava junto à lareira, na cabeceira da casa, como se o rosto de pedra vigiasse o fogo e a água ao mesmo tempo.

Os mortos sob o chão

Os moradores enterravam gente dentro da aldeia. Havia adultos sepultados entre as casas e bebês colocados debaixo dos pisos, um costume que Dušan Borić e Sofija Stefanović analisaram no artigo publicado na revista Antiquity em 2004.

As datas vieram de outro trabalho de Borić. No artigo de 2002 na Antiquity, ele reuniu as medições de radiocarbono (a medida do carbono que resta em ossos e carvão) e pôs a fase das casas trapezoidais entre cerca de 6200 e 5900 a.C.

Em 1971, antes que a represa enchesse, as casas e as esculturas foram desmontadas e remontadas num terraço mais alto da encosta. O lugar original ficou debaixo do lago, e o museu aberto no sítio em 2011 cobre a reconstrução com um teto de vidro.

O registro fixa a planta, o piso, a direção das casas, os mortos e a data. Ele não diz o que eram os rostos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Os rostos que ninguém sabe nomear

As esculturas de Lepenski Vir são seixos de arenito do próprio rio, alguns com meio metro de altura. O escultor aproveitava a forma redonda da pedra e entalhava pouco: sulcos para os olhos, uma saliência para o nariz e o corte largo da boca.

Em várias peças, linhas descem pelo corpo da pedra e terminam em dedos, como braços cruzados sobre a barriga. Em outras há só padrões de ziguezague e espirais, sem rosto nenhum.

Srejović apelidou as mais famosas. Uma ficou conhecida como Praroditeljka (a Antepassada, em sérvio), com mãos abertas e um sexo marcado. Outra recebeu o apelido de Ribolika (a parecida com peixe), pelo rosto de boca caída e olhos redondos.

Um rosto de gente com boca de peixe, posto ao lado do fogo.

O peixe não era enfeite. O Danúbio das Portas de Ferro recebia a subida anual dos esturjões, peixes enormes que vinham do mar Negro para desovar, e os restos de esturjão aparecem nos sítios da garganta, segundo os estudos de ossos de animais do zoólogo László Bartosiewicz.

As três leituras

Desde as escavações, três respostas foram propostas para o que os rostos representam:

• Seres míticos do rio, meio gente e meio peixe, ligados à origem do grupo, como propôs Dragoslav Srejović no livro de 1972 sobre a escultura do sítio.

• Corpos em transformação, gente virando peixe e peixe virando gente, leitura do arqueólogo Dušan Borić no Cambridge Archaeological Journal em 2005.

• Guardiões dos mortos num santuário, leitura de Ivana Radovanović no livro The Iron Gates Mesolithic, de 1996, que via as casas como lugares de rito e de enterro, além de moradia.

A primeira leitura nasceu do próprio escavador e marcou o sítio por décadas, mas se apoia em analogia: nenhum mito daquela gente chegou até hoje, e a semelhança com deuses de povos posteriores não prova parentesco.

A segunda tem a seu favor as próprias pedras. As peças vão do rosto quase humano ao quase peixe, e Borić leu essa gradação como o retrato de uma passagem, ideia comum entre povos caçadores que viam animais e pessoas como seres que trocam de forma.

A terceira explica os mortos sob o piso e o arranjo fixo das lareiras, mas esbarra nos restos de comida, ferramentas e lixo de cozinha achados nas casas, sinais de vida diária.

Nenhuma das três tem prova direta. Os blocos não trazem inscrição, e a gente de Lepenski Vir não conhecia escrita.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O encontro com os lavradores

O primeiro ponto que falta provar é o sentido dos rostos. As três leituras usam as mesmas pedras e chegam a conclusões diferentes, e nenhum achado novo no sítio pode desempatar, porque o terraço original está submerso.

O segundo ponto é a forma das casas. Srejović ligou o trapézio ao monte Treskavac, como se a aldeia copiasse a montanha da outra margem. A hipótese é bonita e nunca foi testada com nada além da semelhança de silhuetas.

O encontro com os lavradores

O terceiro ponto é o mais disputado. Por volta de 6000 a.C., lavradores vindos do sul dos Bálcãs, ligados à cultura de Starčevo (os primeiros agricultores da Sérvia, conhecidos pela cerâmica), já ocupavam terras perto da garganta.

O DNA antigo confirmou o contato. No estudo da equipe de Iain Mathieson publicado na revista Nature em 2018, parte dos sepultados de Lepenski Vir tinha ascendência de agricultores da Anatólia (a atual Turquia), ao lado de outros com ascendência dos caçadores locais.

Borić já tinha notado, no artigo de 2002, que as datas das casas trapezoidais caem justamente na época desse encontro. Se ele estiver certo, a fase mais monumental de Lepenski Vir foi a resposta de uma aldeia de pescadores à chegada de vizinhos com outra vida.

As casas mais belas surgem quando os lavradores chegam.

O que não se sabe é a direção da influência. Os pescadores podem ter criado casas e rostos para marcar quem eram diante dos recém-chegados, ou podem ter sido os recém-chegados a trazer a ideia de construir assim.

O quarto ponto é o fim. Depois de cerca de 5900 a.C., as casas trapezoidais deixam de ser feitas, e a ocupação seguinte tem cerâmica e outro tipo de construção. As camadas não mostram ataque nem incêndio que explique a troca.

O que se sabe com segurança é firme. Gente que comia sobretudo peixe ergueu casas trapezoidais de piso de cal vermelha, viradas para o redemoinho, enterrou bebês sob o chão e talhou rostos meio humanos meio peixe em seixos do rio, entre cerca de 6200 e 5900 a.C.

O resto continua sem prova. Falta um mito, um sinal ou uma camada intacta que diga o que os rostos eram e quem inventou aquela aldeia.

Pescadores que criaram sozinhos a primeira escultura monumental da Europa, como lia Srejović, ou uma aldeia que ganhou casas e rostos de pedra quando os lavradores de origem anatólia chegaram ao vale, como sugerem as datas de Borić e o DNA de 2018. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá à dieta de peixe ou à data do encontro.

 
 
 
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Quiz da edição

A datação por radiocarbono reunida por Dušan Borić (Antiquity, 2002) situa a fase das casas trapezoidais de Lepenski Vir entre quais anos?

AEntre 8200 e 7900 a.C.
BEntre 6200 e 5900 a.C.
CEntre 4200 e 3900 a.C.
DEntre 3200 e 2900 a.C.

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