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Madagascar e a língua que atravessou o Índico

A ilha fica a 400 km da África e fala uma língua de Bornéu, trazida por um grupo que o DNA conta em cerca de trinta mulheres

Canoa com flutuador numa praia de Madagascar ao entardecer

Canoa com flutuador, costa leste de Madagascar

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: Madagascar fala uma língua de Bornéu, a mais de 6 mil quilômetros.

Registro: em 2012, Murray Cox e colegas estimaram em cerca de trinta as mulheres asiáticas fundadoras.

Anomalia: a ilha fica a 400 quilômetros da África.

O malgaxe, língua falada em Madagascar, tem como parente mais próximo o maanyan, falado no vale do rio Barito, no sul de Bornéu, segundo o linguista norueguês Otto Christian Dahl, que publicou a comparação em 1951. A costa de Moçambique fica a cerca de 400 quilômetros da ilha, e o estudo genético de Denis Pierron e colegas, publicado na revista PNAS em 2017, achou nos malgaxes mais ancestralidade africana do que asiática.

O vizinho está perto e deixou metade do sangue. A língua veio do outro lado do oceano.

Entre o sul de Bornéu e a costa leste de Madagascar há mais de 6 mil quilômetros de mar aberto em linha reta. Nenhum outro povo da família austronésia (o tronco de línguas que vai de Taiwan ao Havaí) se fixou tão a oeste.

Quem chega a Antananarivo, a capital, ouve palavras que um morador de Bornéu reconheceria. Os números de um a dez, as partes do corpo e os nomes da família seguem o modelo austronésio. Até o arroz, prato de toda refeição na ilha, se chama vary, parente do beras malaio.

A outra metade do povo está nos rebanhos, nos nomes de animais e na música. O gado zebu, trazido da África, conta como riqueza em quase toda a ilha, e a palavra malgaxe para boi, omby, vem de línguas bantas do continente.

O quadro que se forma é de duas origens misturadas numa ilha que ficou vazia de gente por muito tempo. Madagascar foi uma das últimas grandes terras do planeta a receber moradores fixos.

Em 2012, a genética deu um tamanho ao grupo que atravessou o oceano. Um estudo com o DNA de centenas de malgaxes chegou a uma estimativa pequena demais para uma frota, e a data que ele aponta cai no fim do primeiro milênio.

A investigação começa pelo linguista que abriu o mapa, com um dicionário numa mão e uma lista de palavras de Bornéu na outra.

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I  O Registro

I, A lista de palavras de Otto Dahl

Otto Christian Dahl, missionário luterano e linguista norueguês, viveu décadas em Madagascar e aprendeu o malgaxe no uso diário. Em 1951 publicou em Oslo a tese Malgache et Maanjan (Malgaxe e Maanyan), que comparou a língua da ilha com a de um povo do interior de Bornéu.

A semelhança entre o malgaxe e as línguas da Malásia já tinha sido notada no século XVII por viajantes europeus. O que faltava era o endereço exato. Dahl encontrou no maanyan as mesmas mudanças de som, as mesmas terminações de verbo e boa parte do vocabulário básico.

Vocabulário básico é o grupo de palavras que uma língua raramente toma emprestado: olho, mão, água, pedra, os números. Quando esse núcleo coincide, os linguistas leem parentesco, e não contato de comércio.

O que o malaio acrescentou

O retrato ficou mais fino com o linguista holandês Alexander Adelaar, da Universidade de Melbourne. Em estudos publicados a partir de 1989, ele mostrou que o malgaxe carrega também empréstimos do malaio e do javanês, e palavras do sânscrito (a língua clássica da Índia) que chegaram por esses dois idiomas.

Para Adelaar, a pista aponta uma travessia comandada por mercadores malaios, que já navegavam pelo Índico, com tripulação ou mão de obra recrutada no vale do Barito. O maanyan seria a língua do povo que remava e ficou; o malaio, a dos que mandavam no barco.

A gramática veio de Bornéu, e o comércio veio da Malásia.

A camada africana também está nas palavras. Adelaar e outros linguistas registraram termos de origem banta para animais, plantas e criação de gado, o que mostra que os dois povos já conviviam quando o malgaxe tomou a forma que tem.

A língua, porém, não conta quantos vieram nem quando. Dahl calculou a chegada pelos empréstimos do sânscrito, que só entraram nas línguas de Bornéu depois do século IV. A data exata ficou para outra disciplina.

Essa disciplina foi a genética. O biólogo Murray Cox, da Universidade Massey, na Nova Zelândia, liderou a equipe que publicou em 2012, na revista Proceedings of the Royal Society B, o estudo A small cohort of Island Southeast Asian women founded Madagascar (Um pequeno grupo de mulheres do Sudeste Asiático insular fundou Madagascar).

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Trinta mulheres num barco

A equipe de Murray Cox analisou o DNA mitocondrial (a parte do material genético que passa só de mãe para filhos) de 266 malgaxes de três grupos étnicos. Comparou as linhagens com as de quase três mil pessoas da Indonésia e de outras ilhas do Sudeste Asiático.

Uma linhagem chamou atenção: o chamado motivo polinésio, uma variante que existe na Indonésia oriental e no Pacífico e aparece em muitos malgaxes. A partir da variedade dessas linhagens, a equipe simulou quantas mulheres seriam necessárias para produzir o que se vê hoje.

O resultado mais provável ficou perto de trinta mulheres asiáticas fundadoras, com a chegada estimada perto do ano 830. As simulações de Cox também indicaram que a população cresceu devagar depois do desembarque, sem novas levas grandes vindas da Ásia.

Trinta mulheres bastam para explicar a metade asiática de um povo inteiro.

O que o número não diz

A cifra fala de mulheres porque o DNA mitocondrial só segue a linha materna. O estudo não conta quantos homens vieram, e grupos desse tipo costumam trazer mais homens do que mulheres, o que deixa o total da travessia em aberto.

O número também não prova um barco só. Trinta fundadoras podem ter chegado juntas ou em poucas viagens separadas por anos. O modelo só diz que o grupo de mães asiáticas de onde descendem os malgaxes de hoje era pequeno.

Um estudo maior veio depois. Denis Pierron, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, publicou em 2017, na PNAS, a análise do genoma de mais de 700 malgaxes de 257 aldeias. A equipe mediu cerca de 59% de ancestralidade banta e 37% austronésia, com variação grande de região para região.

Pierron e colegas dataram a mistura entre as duas origens em algum ponto dos últimos mil anos, o que combina com a data de Cox. O trabalho também apontou que o lado asiático se parece mais com os povos do sul de Bornéu, como o maanyan, reforçando o endereço que Dahl tinha achado na gramática.

A pergunta que o DNA levanta, porém, é o motivo. Nenhum dos dois estudos diz por que um grupo tão pequeno cruzou o Índico. As hipóteses vão de rota de comércio desviada por tempestade até migração planejada, e nenhuma tem prova escrita, porque Bornéu não deixou registro da viagem.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, As pegadas antes dos navegadores

A data genética perto do ano 830 esbarra na arqueologia. Robert Dewar, da Universidade Yale, e colegas publicaram em 2013, na PNAS, ferramentas de pedra achadas em Lakaton'i Anja, no norte da ilha, com datas que recuam a cerca de 2000 a.C.

Em 2018, James Hansford, da Sociedade Zoológica de Londres, publicou na revista Science Advances ossos de aves-elefante (aves gigantes extintas da ilha, que passavam dos três metros) com marcas de corte datadas de cerca de 10 mil anos atrás.

As duas descobertas são contestadas. Outros arqueólogos questionaram a datação das camadas de Lakaton'i Anja, e parte dos especialistas lê as marcas nos ossos como feitas por outros animais ou pelo tempo, e não por lâminas humanas.

A prova mais esperada viria de DNA antigo: ossos dos primeiros moradores, datados e sequenciados, que mostrariam quando as duas linhagens se encontraram. O clima quente e úmido da ilha destrói material genético, e até hoje nenhum esqueleto malgaxe anterior ao ano 1000 teve o genoma lido.

Visitantes ou fundadores

Mesmo que as datas antigas se confirmem, elas não mostram aldeias. Caçadores podem ter passado pela ilha, vindos da África, sem deixar descendentes. O povo que fala malgaxe hoje descende de quem ficou, e o DNA não encontra nele sinal de uma população muito anterior.

Passar pela ilha e fundar um povo são dois fatos distintos.

Falta provar também o caminho. A rota direta pelo Índico, com os ventos das monções, é possível para canoas com flutuadores laterais, o tipo de barco que os malgaxes ainda usam na costa. Uma rota pela costa da Índia e da África, com paradas, explicaria melhor a mistura com os povos bantos.

Nenhum naufrágio, porto ou acampamento da travessia foi achado. Os sítios mais antigos com cerâmica, arroz e ferro na ilha são posteriores à data genética, e o elo entre o barco e a primeira aldeia segue sem prova no chão.

Há ainda a pergunta do encontro. Não se sabe se os bantos chegaram antes, depois ou na mesma época dos austronésios, nem como a língua asiática venceu num povo de sangue mais africano. A explicação mais citada é prestígio: a língua de quem trazia o arroz e o comércio pesava mais que a de quem trazia o gado, mas não há registro que confirme.

Trinta mulheres de Bornéu num barco malaio, fundando um povo que ainda fala a língua delas, ou visitantes antigos da África, cujo rastro nas pedras a genética ainda não achou. As datas das duas versões estão acima, e escolher entre elas depende de quanto peso você dá ao DNA ou à pedra.

 
 
 
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