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Josefo contou 960 em Masada, e Yadin achou 28

O cerco romano terminou no ano 73 ou 74; a escavação dos anos 1960 achou 25 ossadas numa caverna do penhasco sul e 3 no palácio

O platô de Masada sobre o mar Morto, com a rampa romana na face oeste

O platô de Masada, sobre o mar Morto

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: Masada.

Local: deserto da Judeia, 73.

Anomalia: 960 contra 28.

No livro 7 de A Guerra Judaica, escrito em Roma nos anos 70 do século I, Flávio Josefo contou 960 pessoas mortas no alto de Masada quando o cerco romano terminou. Na escavação de 1963 a 1965, a equipe do arqueólogo Yigael Yadin achou restos de 28 pessoas, 25 delas numa caverna do penhasco sul.

As duas cifras falam do mesmo platô, do mesmo cerco e do mesmo fim. Entre elas sobram 932 pessoas sem osso conhecido.

Masada é uma mesa de rocha no deserto da Judeia, sobre a margem oeste do mar Morto. O rei Herodes, o Grande, ergueu ali palácios, armazéns e cisternas no século I antes de Cristo, como refúgio contra inimigos.

Depois da queda de Jerusalém, no ano 70, um grupo de rebeldes judeus ocupou a fortaleza. Josefo os chama de sicários (de sica, o punhal curto que levavam escondido na roupa), e o líder deles era Eleazar ben Yair (filho de Yair).

A Décima Legião romana, comandada pelo governador Lúcio Flávio Silva, cercou o platô e ergueu uma rampa de terra e pedra pela face oeste. Os historiadores datam a queda no ano 73 ou 74.

Segundo Josefo, quando o aríete abriu a muralha, os defensores preferiram tirar a vida das famílias e a sua própria a cair na escravidão. Os romanos entraram e acharam o silêncio. Sobraram duas mulheres e cinco crianças, escondidas num aqueduto subterrâneo.

O número de Josefo virou símbolo nacional no século XX. Os ossos de Yadin viraram túmulo de Estado em 1969.

Faltam ao caso 932 corpos, uma testemunha sem interesse no desfecho e uma data exata. Sobram uma rampa romana, onze cacos de cerâmica com nomes e um relato escrito por um general judeu que trocou de lado.

A pista começa no texto de Josefo, e em quem contou a ele o que se passou no alto da rocha.

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I  O Registro

O relato escrito em Roma

O SÍTIO

O platô de Masada, no deserto da Judeia, visto do alto. Na face oeste ainda se vê a rampa romana do cerco.

O platô de Masada, no deserto da Judeia, visto do alto. Na face oeste ainda se vê a rampa romana do cerco.

Foto: Godot13, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Flávio Josefo nasceu Yosef ben Matityahu (José, filho de Matias) em Jerusalém, no ano 37. Na revolta contra Roma, comandou as forças judaicas da Galileia, rendeu-se em 67 e terminou a vida em Roma, sob a proteção da família imperial dos Flávios, de quem tomou o nome.

Um autor longe da rocha

Josefo não pôs os pés em Masada durante o cerco. Escreveu A Guerra Judaica na capital do império, com acesso aos relatórios de campanha, e entregou o livro aos imperadores Vespasiano e Tito, que aprovaram o texto.

O episódio ocupa o fim do livro 7. Ali, Eleazar ben Yair faz dois discursos aos defensores, longos e retóricos, no estilo dos historiadores gregos. Ninguém de fora ouviu essas falas, e os estudiosos as tratam como composição do próprio Josefo.

Em A Guerra Judaica, concluída nos anos 70 do século I, Josefo põe na boca de Eleazar: “Que nossas esposas partam antes de sofrer abuso, e nossos filhos antes de provar a escravidão.”

A contagem do livro 7

Pelo relato, os homens tiraram a vida das próprias famílias. Depois sortearam dez entre eles para executar os demais, e um último, também por sorteio, executou os nove e se matou. Os romanos acharam 960 corpos de homens, mulheres e crianças.

A fonte da cena, segundo Josefo, foram as duas mulheres sobreviventes. Uma delas era parente de Eleazar, e Josefo a descreve como superior à maioria das mulheres em prudência e instrução. Ela teria contado aos soldados o que ouviu escondida.

O número 960 tem uma fonte só, e ela escreveu para os vencedores.

O que a rocha confirmou

Yigael Yadin, arqueólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém e ex-chefe do Estado-Maior do exército israelense, escavou Masada de 1963 a 1965 com milhares de voluntários vindos de vários países.

A escavação confirmou boa parte da descrição física: os palácios de Herodes em três terraços no lado norte, os armazéns, as cisternas, a muralha de casamata (dupla, com cômodos entre as paredes), oito acampamentos romanos ao pé do platô e a rampa da face oeste, ainda de pé.

Confirmou também o incêndio. Josefo diz que os defensores queimaram seus bens antes do fim e pouparam os depósitos de comida, para mostrar que não caíram por fome. Yadin achou camadas de cinza nos cômodos da muralha.

 

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II  A Pergunta em Aberto

As 28 ossadas sem nome

As ossadas de Masada saíram de dois pontos do platô, e nenhum deles bate com a cena de Josefo, que fala em corpos deitados junto às famílias, espalhados pelo alto da fortaleza.

Três no palácio do norte

No terraço mais baixo do palácio norte de Herodes, a equipe de Yadin achou restos de três pessoas: um homem jovem, uma mulher jovem e uma criança. Junto deles havia cota de malha (armadura de pequenos anéis de ferro), flechas, sandálias e uma trança de cabelo feminino preservada pelo ar seco.

Yadin apresentou o achado como uma família de defensores no instante final. A leitura de família é dele, não dos ossos: nenhum exame publicado ligou os três entre si nem fixou a data deles.

Vinte e cinco na caverna do sul

Os outros 25 estavam numa caverna aberta no penhasco sul, abaixo da muralha, de acesso difícil. O anatomista Nicu Haas, da Universidade Hebraica, examinou os ossos e identificou homens, mulheres e crianças.

Na mesma caverna havia ossos de porco. Em 1998, o antropólogo Joe Zias, que trabalhou na Autoridade de Antiguidades de Israel, escreveu na Biblical Archaeology Review que o achado aponta para outro grupo: soldados romanos, que sacrificavam porcos, ou monges cristãos da época bizantina, que viveram no platô séculos depois.

Zias apontou ainda que o livro de divulgação de Yadin, de 1966, não menciona os ossos de porco. Para ele, a omissão ajudou a vender a caverna como túmulo de rebeldes.

Nenhuma das 28 ossadas tem nome, e nenhuma prova as liga aos 960.

Os cacos com nomes

O achado mais citado de Yadin são onze óstracos (cacos de pote usados como papel), recolhidos perto de um portão da muralha, todos com um nome escrito. Um deles diz ben Yair.

Yadin os leu como as sortes do relato de Josefo. O número não bate: Josefo fala em dez sorteados, e os cacos são onze. Nomes em cerâmica também serviam para racionar comida e marcar turnos de guarda.

O que se sabe: houve gente no alto até a queda, e alguns restos humanos sobreviveram. O que não se sabe: se os 28 eram defensores. Sem data por radiocarbono nem DNA publicados, os ossos não dizem de que século vieram.

 
 

III  O Que Falta Provar

Os 932 corpos fora do mapa

Josefo não diz o destino dos 960 corpos. A guarnição romana ficou no platô depois da queda, e uma tropa acampada ali teria de remover ou queimar os mortos. Nenhum relato descreve a operação, e nenhuma vala comum apareceu nas escavações.

Por esse motivo, o paradeiro de 932 pessoas segue desconhecido: o texto não conta, e a terra aberta até hoje não mostrou.

As leituras críticas

Em 1982, o historiador Shaye Cohen publicou no Journal of Jewish Studies uma comparação entre Masada e outros episódios de suicídio coletivo narrados por autores gregos e romanos. Concluiu que alguns defensores podem ter tirado a própria vida, mas que a cena inteira segue um molde literário da época.

Em 1995, o sociólogo Nachman Ben-Yehuda, da Universidade Hebraica, lançou The Masada Myth (O mito de Masada). O livro mostra como a escavação e a imprensa israelense dos anos 1960 fizeram do relato uma lenda nacional, deixando sem destaque o ataque que, segundo o próprio Josefo, os sicários fizeram contra a aldeia judaica de Ein Gedi.

O verso que a lenda adotou é anterior à escavação. No poema Masada, de 1927, Yitzhak Lamdan escreveu: “Masada não cairá outra vez.” Décadas depois, recrutas do exército israelense passaram a jurar a frase no alto do platô.

O enterro de Estado de 1969 deu honra de herói a ossos sem identificação.

O que provaria o número

1. Datação por radiocarbono das ossadas do palácio e da caverna, para saber se são do século I.

2. DNA antigo e análise de isótopos (marcadores químicos da dieta e da região de origem), para separar gente da Judeia de soldados vindos de fora.

3. Escavação das áreas do platô e da encosta ainda fechadas, atrás de uma vala ou de restos de fogueira funerária.

O obstáculo: os 28 estão sepultados desde 1969 num túmulo militar no sopé de Masada, e reabrir a sepultura exige aval religioso e do Estado de Israel.

O que está firme: um cerco romano terminou em Masada no ano 73 ou 74, e um autor a serviço de Roma contou 960 corpos. O destino de quase todos eles segue em aberto, porque o relato cala e a terra não mostrou.

Reabrir o túmulo de 1969, datar os 28 e testar o DNA, com o risco de achar romanos ou monges sob a lápide de heróis; ou deixar os ossos em paz e manter o número de Josefo como a única contagem do fim de Masada. As duas cifras e as duas leituras estão acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo o relato de Flávio Josefo sobre o fim do cerco, quantas pessoas os romanos encontraram mortas no alto de Masada?

A28
B11
C960
D25

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