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A máscara de ouro de 1.500 anos no paredão do Mustang

Uma tumba cavada a dezenas de metros do chão no Nepal guardou ouro, vidro e ossos, e ninguém sabe como os construtores subiam

Paredão de rocha com dezenas de cavernas no alto, no Nepal

Cavernas no paredão do Alto Mustang, no Nepal

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: a máscara de Samdzong.

Local: Alto Mustang, Nepal.

Anomalia: tumba sem subida.

A máscara funerária de Samdzong, de ouro e prata, tem cerca de 1.500 anos, pela datação da equipe do arqueólogo Mark Aldenderfer, da Universidade da Califórnia em Merced, que a tirou de uma tumba no Nepal em 2010. Para entrar nessa mesma tumba, o alpinista Pete Athans precisou descer de corda pelo paredão, com o equipamento de quem escala o Everest, segundo a reportagem de Michael Finkel na National Geographic de 2012.

Quem enterrou o morto ali não tinha corda de náilon nem mosquetão. Mesmo assim, chegou à parede, cavou a câmara, deixou o corpo e voltou.

O Alto Mustang fica no norte do Nepal, colado ao planalto do Tibete. O rio Kali Gandaki corta ali um vale seco e ventoso, a quase quatro mil metros de altitude, onde quase nada verde cresce sem canal de irrigação.

A região foi o reino de Lo, com capital murada em Lo Manthang, e o governo nepalês só abriu a entrada de estrangeiros em 1992.

Nas encostas do vale, a rocha avermelhada está furada de alto a baixo. São cavernas abertas a mão, umas sozinhas, outras em vários andares ligados por passagens internas, como uma colmeia talhada na pedra.

Muitas bocas ficam a dezenas de metros do chão, numa face quase lisa onde não sobrou degrau, trilha nem encaixe de escada.

Os moradores das aldeias de hoje convivem com as cavernas desde sempre e não guardam relato de como os antigos subiam. Algumas serviram de cela a monges budistas; a maioria passou séculos vazia, visitada só por pombos.

Arqueólogos de vários países passaram as últimas décadas tentando ler essas bocas uma a uma. Cada visita exige corda, capacete e um escalador à frente, porque a rocha esfarela sob a mão e um apoio firme de manhã pode ceder à tarde.

A tumba da máscara estava numa dessas paredes, perto da aldeia de Samdzong, a poucas horas de caminhada da fronteira com o Tibete.

O registro começa pelo que a equipe de Aldenderfer encontrou lá dentro.

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I  O Registro

A câmara de Samdzong

A resposta de ontem

Que templo a rampa de terra de Dura-Europos guardou?

A sinagoga da cidade. A terra jogada contra a muralha cobriu o prédio e salvou os afrescos com cenas da Bíblia hebraica, datados por inscrição de 244. Escavada pela expedição de Yale em 1932, a sala foi remontada parede por parede no Museu Nacional de Damasco, onde está até hoje.

O SÍTIO

Paredão de rocha do Alto Mustang, no Nepal, furado por cavernas abertas a mão a dezenas de metros do chão.

Paredão de rocha do Alto Mustang, no Nepal, furado por cavernas abertas a mão a dezenas de metros do chão.

Foto: Raunak Maskay, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

As cavernas de Samdzong, no Alto Mustang, guardavam um grupo de câmaras funerárias que a equipe de Mark Aldenderfer catalogou como Samdzong 5. O trabalho reuniu arqueólogos americanos e nepaleses e escaladores contratados só para chegar às bocas.

A descida de Athans

Athans desceu de corda desde o topo do penhasco até a abertura da câmara. Lá dentro, o teto baixo obrigava a trabalhar de joelhos, e a poeira fina subia a cada movimento.

As câmaras tinham sido abertas no fundo de um poço vertical, cavado a partir do alto do paredão. Quando a frente da rocha desabou, séculos depois, as câmaras ficaram expostas na face do penhasco, com a boca virada para o vazio.

O trabalho dentro das câmaras era lento. Cada objeto saía embrulhado e descia pela mesma corda, numa bolsa presa ao arnês, até a equipe que esperava no pé do paredão.

A máscara

A peça é uma lâmina fina de ouro com partes de prata, do porte de um rosto pequeno. Olhos, nariz e boca aparecem em relevo, batidos por trás da chapa.

Furos na borda mostram por onde ela foi costurada num tecido. A máscara ficava presa a um pano sobre o rosto do morto, e não solta no chão da câmara.

A máscara cobria o rosto de alguém enterrado num lugar aonde nenhum morador da aldeia sabe subir.

O enxoval

Com ela saíram vasos de cobre, uma taça de bronze, armas de ferro, contas de vidro, restos de caixões de madeira e ossos de animais. Segundo Aldenderfer, parte das contas de vidro veio de longe, provavelmente de oficinas do sul da Ásia ou mais a oeste.

A rota fazia sentido. Pelo vale do Kali Gandaki descia o sal do Tibete rumo às planícies da Índia, e de volta subiam grão, metal e tecido. Quem controlava o vale cobrava passagem e enriquecia.

O ouro não aparece em nenhuma outra tumba conhecida do Mustang com esse acabamento. Para Aldenderfer, o morto de Samdzong pertencia a uma elite local que lucrava com essa passagem de mercadorias.

Os ossos com cortes

A bioarqueóloga Jacqueline Eng, da Universidade Western Michigan, examinou ossos de câmaras do Mustang e achou marcas finas de lâmina. Os cortes indicam que a carne foi retirada dos ossos depois do óbito, num rito funerário feito com cuidado.

O costume lembra o enterro celeste (o rito tibetano em que o corpo é entregue aos abutres), praticado na região até hoje. A ligação entre os dois ritos não está provada: nenhum texto do período sobreviveu para dizer o que os vivos pensavam ao limpar os ossos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Três rotas até a boca da caverna

Ninguém achou nas cavernas do Mustang uma escada antiga, um degrau esculpido na face ou um texto que descreva a subida. Três explicações disputam o lugar, e cada uma tem só prova parcial.

O vale que desceu

O Kali Gandaki e seus afluentes continuam cavando o vale. As paredes são de arenito e de conglomerado (rocha feita de seixos colados por argila e cal), e desmoronam em lascas a cada degelo.

Nessa leitura, as cavernas não nasceram tão altas. Havia saliências, terraços e trilhas na face, e os desabamentos levaram tudo, deixando as bocas penduradas onde antes se chegava a pé.

Do alto para baixo

Em vários conjuntos, as câmaras se ligam por dentro, com buracos no teto e no piso. Quem entrava pelo topo descia de câmara em câmara sem tocar a face externa, como numa casa de andares sem fachada.

Em Samdzong, o caminho mais provável não subia pelo paredão: descia por dentro dele, a partir do platô.

A rota por dentro também explica o silêncio da face externa. Se ninguém subia pelo lado de fora, não havia motivo para talhar degrau ou fixar viga na parede, e a ausência de marcas deixa de ser enigma.

Troncos e cordas

As casas do Mustang ainda usam escadas de um tronco só, com degraus talhados a machado, para chegar ao telhado. Uma escada dessas, apoiada numa saliência, e uma corda de fibra de iaque explicariam a subida, e madeira e fibra apodrecem sem deixar rastro na rocha.

Contra essa hipótese pesa a altura. Nenhum tronco cobre dezenas de metros, e emendar escadas numa face que esfarela exigiria pontos de apoio de que ninguém achou o encaixe.

A favor dela pesa ainda a técnica local. Cavar poço e câmara em rocha macia exige só ferramenta de metal e paciência, recursos que o enxoval de Samdzong prova existirem ali, com o ferro das armas e o cobre dos vasos.

Por que tão alto

Para as tumbas, a altura pode ter servido para afastar o morto dos vivos, dos animais e de quem quisesse saquear o cobre e o ouro do enxoval.

As cavernas de moradia, segundo a equipe de Aldenderfer, são bem mais recentes que as tumbas e coincidem com séculos de disputa entre vilarejos pelo controle da rota do sal. Morar na parede protegia família, grão e água guardada contra o ataque do vizinho.

Nenhuma das três rotas foi comprovada para a câmara da máscara. O poço aberto do platô é a única com vestígio na própria tumba, e mesmo ele está meio destruído pela erosão.

 
 

III  O Que Falta Provar

As bocas ainda fechadas

Só uma parte pequena das cavernas do Mustang recebeu arqueólogo. A maioria nunca foi mapeada por dentro, e cada desabamento apaga câmaras inteiras antes de qualquer registro.

O povo sem texto

Não se conhece a língua nem a crença dos mortos de Samdzong. Os enterros são anteriores à chegada do budismo ao Mustang, e alguns pesquisadores ligam o rito ao Bön (a religião tibetana anterior ao budismo), sem inscrição que confirme.

O que o DNA contou

Em 2016, a equipe do geneticista Choongwon Jeong publicou na revista PNAS a leitura do DNA de ossos de cavernas do Mustang, entre eles os de Samdzong. Os antigos moradores tinham parentesco com povos do planalto tibetano e da Ásia oriental.

O mesmo estudo achou continuidade entre esses mortos e a gente que vive no Mustang hoje. Os descendentes dos construtores podem estar nas aldeias ao pé dos paredões, sem lembrança de como os avós subiam.

O DNA diz de onde vinham os mortos de Samdzong. Não diz como eles chegaram à parede.

Também falta uma cronologia completa das cavernas. Sem datar cada conjunto, não se sabe quantas gerações usaram as tumbas antes que o vale passasse às moradias, nem quanto tempo separa uma fase da outra.

O que uma prova exigiria

Outra lacuna é a da própria máscara. Ninguém sabe se ela foi feita no Mustang ou trazida pronta pela rota do sal, porque não se achou oficina de ouro no vale.

1. Mapear com drone e laser a face dos paredões, atrás de encaixes de viga, furos de estaca e marcas de corda.

2. Datar por radiocarbono a madeira e as fibras de cada câmara, para comparar a idade das tumbas com o ritmo de erosão do vale.

3. Achar a boca superior dos poços de Samdzong no platô, antes que o próximo desabamento leve a parede inteira.

Um vale que desceu e deixou a tumba no alto, ou um povo que escolheu a parede e entrou pelo teto. As marcas na rocha de Samdzong servem às duas rotas, e a escolha fica com quem lê.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a reportagem de Michael Finkel citada no texto, como o alpinista Pete Athans chegou até a câmara da máscara de Samdzong?

ASubiu por uma escada de tronco entalhada a machado
BEntrou por um túnel natural a partir do leito do rio Kali Gandaki
CDesceu de corda pelo paredão, com equipamento de escalada do Everest
DCaminhou por uma trilha natural até a boca da caverna

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