|
Em 1986, Kihachiro Aratake tocava uma operação de mergulho na ilha de Yonaguni, o ponto habitado mais ocidental do Japão, a cerca de cento e dez quilômetros da costa de Taiwan.
O trabalho dele naquele inverno era achar um lugar bom para ver tubarão-martelo, que se junta em cardume na estação fria. Perto do cabo Arakawabana, na costa sul, ele desceu e encontrou outra coisa.
A poucos metros abaixo da superfície havia uma parede reta de arenito e, acima dela, um terraço plano. O ponto entrou na carta de mergulho com o nome de Iseki, ruína em japonês, e virou atração da ilha.
Yonaguni tem vinte e nove quilômetros quadrados e cerca de mil e setecentos moradores. A formação fica a poucas centenas de metros da praia, num trecho de correnteza forte.
O bloco principal mede cerca de cem metros de comprimento por cinquenta de largura. O topo do terraço mais alto está a uns cinco metros da superfície e a base desce até perto de vinte e cinco.
|
Degraus de até um metro de altura. Terraços planos que se cruzam em ângulo de noventa graus. Dois pilares gêmeos em pé, lado a lado. Uma calha reta que corre junto da parede. Uma depressão triangular no meio do platô.
|
A rocha tem nome e idade. É arenito e argilito do grupo Yaeyama, depositado no Mioceno inferior, com cerca de vinte milhões de anos, o mesmo pacote que forma os penhascos da ilha acima da água.
Esse pacote é estratificado em camadas quase horizontais e cortado por dois conjuntos de fraturas verticais que se cruzam perto de noventa graus. Onde o mar ataca a rocha, ela se desfaz em blocos retangulares.
A partir dos anos 1990, o geólogo marinho Masaaki Kimura, da Universidade das Ilhas Ryukyu, mergulhou ali com regularidade, mapeou a formação e batizou cada feição: a estrada, o estádio, a tartaruga, o rosto.
Em 1997 desceu ali Robert Schoch, geólogo da Universidade de Boston.
O que nunca aconteceu foi levantamento oficial. Nem a Agência de Assuntos Culturais do Japão nem o governo da província de Okinawa reconhecem a formação como bem cultural, e nenhum dos dois pesquisou o local.
E há a lista do que não saiu de lá em quase quarenta anos de mergulho. Nenhuma ferramenta de pedra, nenhum caco de cerâmica, nenhum osso, nenhuma fogueira, nenhum resto de povoado, nenhuma inscrição aceita como escrita.
Sobra a conta do nível do mar. Para a formação inteira estar seca, o oceano precisava estar mais de vinte e cinco metros abaixo do atual, o que valeu até algo entre dez e oito mil anos atrás.
|