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A Muralha de Gorgan subiu num império que escrevia, e escrevia sobre guerra. A ausência de texto pesa justamente por esse motivo.
Os reis que gravavam vitórias
Sapor I, rei sassânida do século III, mandou gravar em três línguas, na pedra da Kaaba de Zoroastro (torre de pedra no sítio de Naqsh-e Rostam), a lista das vitórias dele sobre Roma, com províncias e cidades nomeadas.
Na passagem de Derbent, no Cáucaso, as muralhas sassânidas atribuídas a Cosroes I, do século VI, guardam inscrições em persa médio (a língua escrita da corte sassânida). Ali a obra de defesa traz letra; em Gorgan, nenhuma linha apareceu.
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O mesmo Estado que gravava conquistas em rocha deixou sem palavra a maior barreira dele.
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A crônica real que se perdeu
Quase toda a história escrita dos sassânidas chegou por via indireta. Cronistas de língua árabe e persa, como al-Tabari no século X, trabalharam sobre o Khwaday-namag (Livro dos Senhores, a crônica oficial da corte), que não sobreviveu em original.
Os arquivos do palácio de Ctesifonte, a capital, sumiram com a conquista árabe do século VII. Se a corte anotou a construção, o papel foi com eles.
As tradições que restaram dão obras de muro a vários reis sassânidas, mas nenhum trecho conhecido descreve uma barreira de 195 quilômetros entre o Cáspio e os montes do Golestão.
Há ainda o silêncio do próprio sítio. Nos trechos já abertos, nenhum tijolo carimbado, nenhuma placa de portão e nenhuma moeda de fundação apareceu com o nome de um rei. A arqueologia achou a obra inteira e nenhuma assinatura.
O inimigo da estepe
A data do século V coincide com a pressão dos heftalitas (chamados pelos bizantinos de hunos brancos), povo de cavaleiros que dominou a Ásia Central e atacou o leste persa por décadas.
A planície de Gorgan era a porta natural entre a estepe turcomana e o coração do Irã. Um muro com fosso molhado e fortes a cada poucos quilômetros responde a esse tipo de ameaça: cavalaria rápida, em grande número, vinda do norte.
O que se sabe: a obra é sassânida, do século V, e foi feita no próprio lugar. O que não se sabe: qual rei mandou erguê-la, quanto tempo durou o canteiro e por que nenhum texto a registrou. A hipótese mais aceita, a da crônica perdida, explica o silêncio sem provar nada sobre a obra.
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