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A Muralha de Gorgan gastou 200 milhões de tijolos sem uma inscrição

A barreira sassânida corre 195 quilômetros no norte do Irã, apoia mais de 30 fortes e nenhum texto persa da época a menciona

Trecho de tijolo vermelho da Muralha de Gorgan na planície ao entardecer

A Muralha de Gorgan, no Golestão

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: Muralha de Gorgan.

Local: norte do Irã, século V.

Anomalia: obra sem registro.

A Muralha de Gorgan, no norte do Irã, levou algo como 200 milhões de tijolos cozidos, segundo a estimativa publicada em 2013 pela equipe irano-britânica de Jebrael Nokandeh e Eberhard Sauer no livro Persia's Imperial Power in Late Antiquity (O poder imperial da Pérsia na Antiguidade Tardia). Nenhuma inscrição, crônica ou carta persa do século V, quando o muro subiu, registra a obra, segundo o mesmo livro.

Os dois dados não se encaixam. Um império capaz de reunir fornos, canal e tropa nessa escala deixou a própria barreira sem nome, sem data e sem dono por escrito.

O muro corre 195 quilômetros, do litoral do mar Cáspio até os montes Pishkamar, na província do Golestão. Mais de 30 fortes se apoiam no lado sul. Na frente, voltado para a estepe do norte, corre um fosso largo.

A Muralha de Adriano, na Grã-Bretanha romana, tem 118 quilômetros. A de Gorgan passa da soma dela com a de Antonino, a outra barreira romana da ilha, com 63 quilômetros.

Quem morava na região não guardou o nome original. Os persas chamaram a obra de Sadd-e Eskandar (Barreira de Alexandre), por uma lenda que a punha nas mãos do conquistador macedônio, morto oito séculos antes da obra.

Os turcomanos da planície a chamam de Qizil Alan (Serpente Vermelha), pela cor do tijolo que aflora no capim como uma espinha comprida.

Sem papel e com a lenda grega por cima, a idade do muro ficou em disputa por quase todo o século XX. Houve quem o pusesse entre os partos, a dinastia anterior, séculos mais velho. Houve quem o desse a Cosroes I, rei sassânida do século VI.

O impasse começou a ceder quando a data foi buscada no carvão dos fornos de tijolo, enterrados rente à base do muro.

O registro físico começa nesses fornos, e na amostra que tirou séculos da idade atribuída à barreira.

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I  O Registro

O carvão dos fornos de tijolo

O SÍTIO

Trecho escavado da Muralha de Gorgan, no Golestão, com o tijolo cozido sassânida do século V exposto.

Trecho escavado da Muralha de Gorgan, no Golestão, com o tijolo cozido sassânida do século V exposto.

Foto: Amir Ali Razzaghi, Wikimedia Commons, CC BY 4.0

A Muralha de Gorgan recebeu um levantamento sistemático pioneiro nos anos 1970, com o arqueólogo iraniano Mohammad Yusuf Kiani, que percorreu a linha e abriu trechos de fortes. As escavações dele confirmaram o tamanho, mas não fecharam a data.

Os fornos rentes ao muro

A partir de 2005, a Organização do Patrimônio Cultural do Irã e as universidades de Edimburgo e Durham montaram um projeto conjunto, chefiado por Jebrael Nokandeh, Hamid Omrani Rekavandi e Eberhard Sauer.

Ao longo do muro, a equipe achou restos de fornos de tijolo em sequência, colados à obra. O tijolo era fabricado no próprio canteiro, trecho a trecho, e não trazido de longe.

Os tijolos seguem um padrão quadrado, com uns 40 centímetros de lado, segundo o relatório do projeto. A uniformidade sugere uma ordem central e fôrmas repetidas por quilômetros.

O canal e a água dos tijolos

O fosso da frente recebia água por canais que desciam dos rios da região, conforme a leitura da equipe de Sauer. Tijolo cozido pede barro amassado com água, e água em volume pede canal.

O mesmo canal servia de obstáculo para cavalaria. Um cavaleiro da estepe precisava atravessar o fosso molhado antes de chegar ao paredão.

As amostras dos fornos dataram a obra no século V, sob a dinastia sassânida, e não entre os partos.

Como a data saiu do chão

A equipe usou dois métodos. Um deles foi o radiocarbono (a contagem do carbono 14 que resta no carvão), aplicado aos restos de lenha queimada nos fornos.

O outro foi a luminescência opticamente estimulada, ou OSL (técnica que mede há quanto tempo um grão de areia ficou longe da luz), aplicada aos sedimentos do fosso e das camadas da obra.

Os dois métodos convergiram para o século V depois de Cristo. A barreira ganhou enfim a dinastia certa, os sassânidas, que governaram a Pérsia de 224 a 651.

No interior dos fortes escavados apareceram fileiras de alojamentos em plano repetido. A equipe calculou ali espaço para 15 mil a 36 mil soldados, segundo o livro de 2013, uma faixa larga porque não se sabe quantos fortes ficavam ocupados ao mesmo tempo.

Mais ao sul, uma segunda linha, a Muralha de Tammisheh, liga as montanhas do Alborz ao Cáspio. Ela fecha a estreita passagem costeira por onde um invasor contornaria a barreira principal.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Um império que escrevia em outro lugar

A Muralha de Gorgan subiu num império que escrevia, e escrevia sobre guerra. A ausência de texto pesa justamente por esse motivo.

Os reis que gravavam vitórias

Sapor I, rei sassânida do século III, mandou gravar em três línguas, na pedra da Kaaba de Zoroastro (torre de pedra no sítio de Naqsh-e Rostam), a lista das vitórias dele sobre Roma, com províncias e cidades nomeadas.

Na passagem de Derbent, no Cáucaso, as muralhas sassânidas atribuídas a Cosroes I, do século VI, guardam inscrições em persa médio (a língua escrita da corte sassânida). Ali a obra de defesa traz letra; em Gorgan, nenhuma linha apareceu.

O mesmo Estado que gravava conquistas em rocha deixou sem palavra a maior barreira dele.

A crônica real que se perdeu

Quase toda a história escrita dos sassânidas chegou por via indireta. Cronistas de língua árabe e persa, como al-Tabari no século X, trabalharam sobre o Khwaday-namag (Livro dos Senhores, a crônica oficial da corte), que não sobreviveu em original.

Os arquivos do palácio de Ctesifonte, a capital, sumiram com a conquista árabe do século VII. Se a corte anotou a construção, o papel foi com eles.

As tradições que restaram dão obras de muro a vários reis sassânidas, mas nenhum trecho conhecido descreve uma barreira de 195 quilômetros entre o Cáspio e os montes do Golestão.

Há ainda o silêncio do próprio sítio. Nos trechos já abertos, nenhum tijolo carimbado, nenhuma placa de portão e nenhuma moeda de fundação apareceu com o nome de um rei. A arqueologia achou a obra inteira e nenhuma assinatura.

O inimigo da estepe

A data do século V coincide com a pressão dos heftalitas (chamados pelos bizantinos de hunos brancos), povo de cavaleiros que dominou a Ásia Central e atacou o leste persa por décadas.

A planície de Gorgan era a porta natural entre a estepe turcomana e o coração do Irã. Um muro com fosso molhado e fortes a cada poucos quilômetros responde a esse tipo de ameaça: cavalaria rápida, em grande número, vinda do norte.

O que se sabe: a obra é sassânida, do século V, e foi feita no próprio lugar. O que não se sabe: qual rei mandou erguê-la, quanto tempo durou o canteiro e por que nenhum texto a registrou. A hipótese mais aceita, a da crônica perdida, explica o silêncio sem provar nada sobre a obra.

 
 

III  O Que Falta Provar

O trecho sob o Cáspio e o rei sem nome

A Muralha de Gorgan foi escavada em pontos escolhidos, não de ponta a ponta. A maior parte dos 195 quilômetros segue sob terra, plantação e capim.

O trecho sob o Cáspio

A ponta oeste da muralha some no mar Cáspio, cujo nível sobe e desce ao longo dos séculos. Na Antiguidade Tardia, a linha da costa ficava mais longe do que hoje, e o muro avançava por terra seca.

Quanto do muro está submerso e onde ele terminava de fato segue sem levantamento completo. Sem mergulho sistemático, o comprimento original é uma estimativa.

O rei sem nome

As datas apontam a segunda metade do século V e o começo do VI. Nesse intervalo reinaram mais de um rei sassânida, e o que governava em 484 caiu numa campanha contra os heftalitas no leste.

Os números do radiocarbono e da OSL têm margem de décadas. Uma data assim aponta uma faixa e não basta para pôr um nome na obra.

Um selo, uma placa de portão ou uma moeda num alicerce bastariam para ligar a barreira a um reinado.

O que uma prova exigiria

1. Escavar os portões dos fortes ainda fechados, onde uma inscrição de fundação teria mais chance de aparecer.

2. Datar mais fornos e fortes, em trechos distantes entre si, para saber se a obra subiu num só reinado ou em várias campanhas.

3. Mapear por mergulho e sonar o trecho submerso no Cáspio, para medir o comprimento real.

O número de soldados também espera prova. A faixa de 15 mil a 36 mil mede espaço nos alojamentos, não gente presente, e a equipe de Sauer nunca a tratou como contagem de tropa.

Outra lacuna está nos próprios fortes. Os que foram escavados mostram ocupação longa, com reformas e camadas de lixo de cozinha, mas a maioria nunca recebeu uma sondagem. Cada forte aberto pode antecipar ou atrasar a data do canteiro naquele trecho.

O fim da muralha tem a mesma névoa. Ela perde a função com a queda dos sassânidas no século VII, mas a data do abandono de cada forte ainda não foi medida.

Ler a muralha como obra de um rei pressionado pelos heftalitas, cuja ordem se perdeu com a crônica real, ou como obra tão rotineira para a corte que nenhum escriba a julgou digna de pedra. Os tijolos sustentam as duas leituras.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que rei sassânida caiu em combate contra os heftalitas em 484, na década provável da obra?

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que abastecia o fosso na frente do muro e fornecia a água usada para fabricar os tijolos?

APoços cavados ao longo da muralha
BChuva sazonal acumulada em cisternas
CCanais que desciam dos rios da região
DO mar Cáspio, bombeado por aquedutos

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