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Os 1.600 retângulos de pedra do deserto da Arábia

Há 7.000 anos, pastores ergueram cercados de até 600 metros, puseram chifres de gado na câmara do fundo e não moraram em nenhum deles

Cercado retangular de pedra num campo de lava de AlUla

Mustatil em campo de lava, noroeste da Arábia

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: mais de 1.600 cercados de pedra riscam o noroeste da Arábia Saudita.

Registro: uma escavação achou chifres de gado na câmara de um deles.

Anomalia: os construtores não deixaram uma única casa.

A equipe da arqueóloga Melissa Kennedy, da Universidade da Austrália Ocidental, contou mais de 1.600 cercados de pedra no noroeste da Arábia Saudita, segundo o artigo publicado na revista Antiquity em 2021. Nos mesmos levantamentos, a equipe não registrou uma única casa erguida pelo povo que os construiu.

Milhares de muros levantados no deserto, e ninguém morando dentro deles.

Os cercados se chamam mustatils (retângulos, em árabe). Vistos do alto, parecem traços compridos riscados na rocha escura: dois muros baixos e paralelos, fechados nas pontas por plataformas de pedra empilhada.

Os menores têm 20 metros. Os maiores passam de 600, o comprimento de seis campos de futebol em fila. Ficam espalhados pelos condados de AlUla e Khaybar, entre campos de lava, chapadas de arenito e vales secos.

Os muros raramente passam da altura do joelho. De perto, um mustatil quase some na paisagem: parece uma fileira de pedras soltas, das que o deserto tem aos milhões. Só do alto o retângulo inteiro aparece, reto demais para ser obra do acaso.

Por gerações, os beduínos passaram por eles sem dar importância. Fotos aéreas mostraram a escala, e só no fim dos anos 2010 alguém cavou um deles com método.

O que apareceu na ponta de um dos cercados mudou a pergunta. Numa pequena câmara de pedra, os arqueólogos acharam pedaços de chifres e crânios de gado, cabras e gazelas.

A datação por carbono 14 (método que mede quanto carbono radioativo um material orgânico perdeu ao longo dos séculos) situou os chifres em cerca de 5200 antes de Cristo. A data põe os mustatils mais de 2.000 anos antes das primeiras fases de Stonehenge, na Inglaterra, e das pirâmides do Egito.

Sem escrita e sem casa, sobram os muros, os ossos e o mapa. A investigação começa pelas fotos aéreas e pela câmara que guardava os chifres.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, Do avião à câmara dos chifres

Os mustatils entraram no mapa pelas mãos de um especialista em arqueologia aérea. O historiador David Kennedy, da Universidade da Austrália Ocidental, publicou em 2017, na revista Arabian Archaeology and Epigraphy, um levantamento por imagem de satélite com centenas dessas estruturas no harrat Khaybar (o campo de lava de Khaybar).

Ele as chamou de gates (portões, em inglês), porque de cima pareciam duas traves de gol. O nome não pegou. A equipe passou a usar mustatil, a palavra árabe para retângulo, que descreve melhor o desenho.

O salto veio com o projeto de arqueologia aérea financiado pela Comissão Real para AlUla, a partir de 2018. Helicópteros sobrevoaram a região e fotografaram as estruturas uma a uma, e equipes em terra conferiram centenas delas a pé.

Foi nessa fase que a contagem saltou de centenas para mais de 1.600, e que os arqueólogos perceberam que o mesmo desenho se repetia de Khaybar a AlUla.

Como é um mustatil

O desenho se repete com pouca variação. Numa ponta fica a cabeça, uma plataforma alta de pedra. Na outra fica a base, mais baixa. Entre as duas correm dois muros longos, às vezes cortados por muros transversais que formam pátios.

Os muros são baixos, de pedras soltas, e nunca sustentaram telhado. Ninguém se abrigaria ali da chuva ou do sol. A entrada, quando existe, é estreita, e em alguns cercados ela aparece fechada por pedras.

A câmara fica dentro da cabeça. É um nicho pequeno, de lajes, com uma pedra em pé no centro, que os arqueólogos leem como objeto de culto.

O que estava na câmara

A primeira escavação completa saiu no artigo de Melissa Kennedy e Hugh Thomas na Antiquity, em 2021, sobre um mustatil no condado de AlUla. Na câmara da cabeça, entre as lajes, estavam os fragmentos de chifre e de crânio de gado doméstico, de cabras e de gazelas.

Os chifres de gado dominam a coleção. Para pastores do Neolítico (a fase em que os povos passaram a criar animais e a plantar), uma vaca era a riqueza da família. Levar a cabeça dela até a câmara era abrir mão de patrimônio.

Os muros não guardavam gente. Guardavam chifres.

A data dos chifres, cerca de 5200 antes de Cristo, caiu num tempo em que a Arábia era outra. No período úmido do Holoceno (a época geológica atual, iniciada há 11.700 anos), chovia mais, havia lagos rasos e pasto onde hoje só existe rocha nua.

O registro fecha num retrato claro: pastores de gado, num deserto mais verde, empilharam pedras em cercados enormes e depositaram cabeças de animal numa câmara. Falta saber para quê.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Procissão até a pedra em pé

A leitura da equipe da Universidade da Austrália Ocidental é ritual. No artigo de 2021, Kennedy e Thomas descrevem os mustatils como espaços de cerimônia, onde grupos de pastores se reuniam para oferecer animais a uma ou mais divindades.

O argumento vem da forma. Um muro que não protege, um pátio sem casa e uma câmara com pedra em pé e chifres na frente fazem pouco sentido como curral ou abrigo. Como palco de procissão, fazem: quem entra pela base caminha centenas de metros até a cabeça.

A pedra em pé dentro da câmara pesa na mesma direção. Em vários povos antigos do Oriente Próximo, uma pedra erguida marcava a presença de um deus, e os chifres em volta seriam a parte do sacrifício entregue a ele.

O trabalho de levantar

A segunda pista é o esforço. Ninguém ergue um muro de 600 metros sozinho: o cercado grande pede gente reunida por semanas, arrancando e carregando pedra à mão, e pastores que viviam espalhados precisavam de um motivo para se juntar.

O motivo, na leitura dos arqueólogos, era a própria cerimônia. Construir junto amarrava grupos que passavam o ano separados atrás de pasto, e o cercado ficava como marca do encontro.

Muitos povos pastores conhecidos pela etnografia (o estudo dos costumes de povos vivos) fazem encontros sazonais desse tipo, com troca de animais, casamentos e festas. A comparação ajuda a imaginar a cena, mas não prova que os construtores dos mustatils faziam o mesmo.

Os mustatils também aparecem em grupos, em encostas visíveis de longe. Vários ficam colados uns aos outros, como se gerações seguidas voltassem ao mesmo lugar para erguer o seu.

Por que tantos

A quantidade é a parte que a hipótese ritual ainda não explica bem. Mais de 1.600 cercados espalhados por cerca de 200.000 quilômetros quadrados, segundo a contagem publicada na Antiquity em 2021, sugerem um costume dividido por muita gente.

Outra leitura vê nos cercados marcos de território. Num pasto disputado, um muro enorme com chifres de gado diria a quem chegasse que aquele vale tinha dono. A hipótese explica a quantidade e a posição em encostas, e ainda não tem escavação que a sustente.

As datas disponíveis caem numa janela de poucos séculos. Se a janela se confirmar, a região viveu uma febre de construção, e ninguém sabe o que a provocou.

O fim também segue sem prova. Uma hipótese liga o abandono à seca: quando as chuvas do período úmido minguaram, os pastos encolheram e os grupos que se reuniam ali se dispersaram. Nenhum cercado escavado mostra essa mudança de forma direta.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Os construtores sem endereço

A maior lacuna do caso é a ausência de moradia. Os pastores que ergueram os mustatils precisavam dormir, cozinhar e guardar o rebanho em algum lugar, e esses acampamentos ainda não apareceram no registro.

A explicação mais simples é a mobilidade. Pastores que seguiam a chuva com o gado viviam em tendas e abrigos leves, de pele e madeira, que não deixam muro. O vento e os milênios apagaram o rastro.

A explicação é razoável, mas não está provada. Um acampamento de pastores deixa fogueiras, ossos de refeição e lascas de pedra, e o achado desses restos perto dos cercados ainda não foi publicado com a mesma idade dos chifres.

O que falta escavar

Três provas faltam para fechar o caso. A primeira são os acampamentos. Achá-los diria quantas pessoas viviam na região, por quanto tempo ficavam e se eram as mesmas que levavam chifres à câmara.

A segunda são as datas. Só uma fração pequena dos mais de 1.600 cercados foi escavada e datada até agora. Com tão poucas datas, não se sabe se todos são do mesmo tempo ou se o costume atravessou mil anos.

A terceira é o destinatário. Os chifres mostram oferta, e a pedra em pé sugere um deus, mas nenhum símbolo, gravura ou objeto diz a quem se oferecia. Sem escrita, o nome da divindade, se houve uma, ficou com os pastores.

Mais de 1.600 cercados, e nenhuma casa de quem os ergueu.

O tempo também trabalha contra. Em vários cercados, povos posteriores reaproveitaram as pedras para montar túmulos próprios, o que mistura épocas no mesmo monte de pedra e confunde a leitura.

A procura segue. A Comissão Real para AlUla mantém escavações na região, e cada câmara aberta acrescenta ossos à coleção e datas à cronologia.

Até lá, os muros seguem riscados no basalto, compridos e baixos, apontando para câmaras onde só ficaram chifres.

Um santuário de pastores que se juntavam para entregar a melhor cabeça do rebanho a um deus de pedra, como leem Kennedy e Thomas, ou um marco de território, em que cada grupo provava a posse do pasto com muros e chifres. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá à pedra em pé ou ao mapa dos cercados.

 
 
 
A Resposta das Pirâmides: oito perguntas, uma por dia: Quem levantou a pedra, e por que não foram escravos, Como um bloco de várias toneladas anda no deserto, O que corta pedra sem ferro, A rampa que ninguém achou em Gizé, Como acertaram o norte sem bússola, Quanto tempo levou, segundo quem estava lá, Por que o Egito parou de erguer pirâmide, A pergunta do alienígena, e de onde ela veio. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Na escavação da equipe de Melissa Kennedy, publicada na Antiquity em 2021, o que foi encontrado dentro da câmara de pedra na cabeça do mustatil?

AOssos humanos
BFerramentas de pedra lascada
CChifres e crânios de gado, cabra e gazela
DMoedas antigas

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