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O navio de 21,5 metros com duas donas possíveis
Duas mulheres na mesma câmara de carvalho em Vestfold, e nenhum objeto que diga qual delas foi enterrada com a outra
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A câmara de carvalho sob luz rasante
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: Gabriel Gustafson, do Museu de Antiguidades da Universidade de Oslo, escavou em 1904 um navio de carvalho enterrado sob um monte de turfa e argila na fazenda Oseberg, em Slagen, Vestfold.
Registro: o casco tem cerca de 21,5 metros de comprimento, a câmara funerária encostada no mastro guardava duas mulheres, e a análise osteológica de Per Holck, publicada em 2006 pela Universidade de Oslo, estimou cerca de 80 anos para uma e entre 50 e 55 para a outra.
Anomalia: o carvão recolhido em 1996 por Robert Fletcher, Terry Cameron e Bradley Lepper devolveu idades em torno de 1070 d.C., e o carvão recolhido em 2014 pela equipe de William Romain devolveu cerca de 300 a.C. para o mesmo monumento.
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O monte da fazenda Oseberg devolveu em 1904 o maior conjunto de madeira entalhada da era viking já recuperado no norte da Europa, com trenós, uma carroça de quatro rodas, camas, tonéis e postes de cabeça de animal conservados pela argila azul do aterro. Do mesmo monte não saiu um grama de ouro, e nem uma peça de prata inteira, segundo o registro de campo de Gabriel Gustafson, do Museu de Antiguidades da Universidade de Oslo.
Quem entrou antes de Gustafson escolheu com cuidado. Um túnel foi aberto pelo topo do monte até a câmara funerária, o metal precioso saiu, e a madeira entalhada, os tecidos e os utensílios domésticos ficaram onde estavam.
O trabalho de Jan Bill, do Museu de Navios Vikings, com datação dos toros usados no túnel e das pás de madeira deixadas para trás, situou a abertura em meados do século X, num artigo publicado em 2012 na revista Antiquity. Quase cento e vinte anos depois do enterro, portanto, e não numa noite qualquer de ladrões apressados.
O enterro tem data estreita. A análise dos anéis de crescimento dos toros de carvalho da câmara funerária aponta o outono de 834 para a construção do compartimento, e o navio em si foi datado como bem mais antigo que a sepultura, um casco já usado no mar antes de virar túmulo.
Dentro da câmara estavam duas mulheres. A análise osteológica assinada por Per Holck e publicada em 2006 pela Universidade de Oslo estimou para uma delas cerca de 80 anos, com alterações ósseas compatíveis com uma condição hormonal, e para a outra uma idade entre 50 e 55 anos.
Os ossos das duas foram encontrados fora de ordem, espalhados entre a câmara e a boca do túnel, misturados ao material remexido pelo saque. Nenhuma das duas estava intacta no lugar em que foi deposta.
E aqui aparece a pergunta que o conjunto inteiro não resolve. Uma sepultura tem uma titular, e a outra pessoa entra como acompanhante, mas nada no navio de Oseberg diz qual das duas ocupava cada papel.
O registro de hoje começa pelo que a argila conservou, pelas medidas do casco e pelo inventário que o túnel deixou passar.
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I O Registro
I, O que a argila azul de Slagen conservou
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O monte tinha altura suficiente para aparecer na paisagem. O aterro sobre o navio media cerca de seis metros de altura e quarenta de diâmetro na base, feito de turfa empilhada sobre argila, e foi a argila, densa e pobre em oxigênio, que impediu a madeira de apodrecer durante mais de mil anos.
Gustafson escavou entre junho e dezembro de 1904, depois de o proprietário da fazenda ter aberto o topo do monte por conta própria e levado peças de madeira ao museu em Oslo. A escavação seguiu por meses, com o material sendo retirado em pedaços encharcados e embalado ainda úmido.
O casco é de carvalho, construído em tábuas sobrepostas e rebitadas, no sistema que os construtores nórdicos usavam nos barcos de mar aberto. Tem cerca de 21,5 metros de comprimento e por volta de 5 metros na maior largura, quinze pares de remos, mastro único e uma popa e uma proa que sobem em espiral entalhada.
A embarcação é de navegação costeira mais que de travessia oceânica. O bordo livre é baixo, o casco é largo e raso, e a estrutura em torno da base do mastro é considerada frágil por parte dos pesquisadores que reconstruíram réplicas navegáveis, o que sugere um barco de prestígio para águas abrigadas.
A câmara funerária foi montada atrás do mastro, com toros de carvalho inclinados formando um telhado de duas águas coberto por camadas de tecido. Dentro dela estavam duas camas, edredons de penas, tapeçarias narrativas com figuras de carroças, cavalos e pessoas em procissão, e o material têxtil mais rico já recuperado de um contexto viking.
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A câmara estava revestida de tecidos, e os fragmentos de tapeçaria mostravam procissões de figuras humanas, carroças e cavalos, em um estado de conservação que nenhum outro achado nórdico havia oferecido até então.
Haakon Shetelig, Osebergfundet, volume I, Universitetets Oldsaksamling, 1917
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O inventário fora da câmara é de casa inteira. O convés e o porão levavam quatro trenós ornamentados, uma carroça de quatro rodas com painéis entalhados, cinco postes terminados em cabeça de animal, teares, baldes, panelas de ferro, um tonel, arcas, remos e uma cadeira de madeira.
Também foram sacrificados animais em quantidade. Quinze cavalos, quatro cães e dois bois foram achados dentro e ao redor do navio, e os corpos estavam distribuídos entre o convés, a proa e a área externa junto ao casco, um investimento de rebanho que só uma casa muito rica bancaria.
O metal precioso é a única categoria ausente do inventário. Ferro há bastante, em pregos, rebites, correntes e ferramentas, e existem restos de decoração metálica arrancada de peças de madeira, mas de ouro e prata não sobrou conjunto identificável, o que separa Oseberg de qualquer sepultura de elite comparável do período.
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