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O estanho do Tajiquistão no navio de Uluburun

Afundado na Turquia perto de 1320 a.C., o navio levava uma tonelada de estanho, e a química de 2022 achou a mina de parte dele na Ásia Central

Lingotes de metal corroídos em forma de couro de boi

Lingotes do naufrágio de Uluburun

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: o navio de Uluburun.

Local: cabo Uluburun, Turquia.

Anomalia: estanho da Ásia Central.

As cartas de Amarna, a correspondência que os faraós do século 14 a.C. trocaram com os reis vizinhos, não citam nenhuma cidade da Ásia Central. Em 2022, a equipe do geoquímico Wayne Powell publicou na revista Science Advances que um terço do estanho do navio de Uluburun saiu de uma mina no Tajiquistão.

O navio afundou perto de 1320 a.C. junto ao cabo de Uluburun, na costa sul da Turquia. Os destroços ficam entre 44 e 61 metros de profundidade, segundo o Instituto de Arqueologia Náutica, do Texas, que escavou o sítio.

No porão havia cerca de dez toneladas de cobre e uma tonelada de estanho, os dois metais do bronze. A proporção do carregamento, dez partes para uma, é a receita da liga que deu nome à época.

O cobre tinha origem conhecida. Na década de 1990, o laboratório de Noel Gale e Zofia Stos-Gale, na Universidade de Oxford, ligou a maior parte dele às minas de Chipre.

O estanho era o problema. O Mediterrâneo oriental quase não tem jazidas desse metal, e quem fundia bronze no Egito ou no Egeu dependia de estanho trazido de longe.

Por décadas, a origem dos lingotes de estanho do naufrágio ficou em aberto. O metal se corrói no mar, perde a superfície e não carrega marca de oficina que diga de onde veio.

A resposta veio de dentro do metal. Átomos de chumbo e de estanho guardam proporções que mudam de jazida para jazida, e essas proporções sobrevivem à fundição, ao transporte e a mais de três mil anos debaixo da água.

O resultado puxou a rota do estanho para o leste, até o vale do rio Zeravshan, e abriu um problema que as tabuinhas da época não resolvem: quem levou o metal de lá até a costa turca, e por quantas mãos ele passou.

A investigação começa no fundo do mar, com um mergulhador de esponjas e as placas de metal que ele descreveu como biscoitos com orelhas.

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I  O Registro

Os lingotes do cabo Uluburun

O SÍTIO

Lingotes de cobre em forma de couro de boi tirados do naufrágio de Uluburun, expostos no Museu de Arqueologia Subaquática de Bodrum.

Lingotes de cobre em forma de couro de boi tirados do naufrágio de Uluburun, expostos no Museu de Arqueologia Subaquática de Bodrum.

Foto: Martin Bahmann, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Em 1982, o mergulhador de esponjas turco Mehmed Çakır avistou perto de Kaş placas de metal que descreveu ao capitão do barco como biscoitos com orelhas. Eram lingotes de cobre, e o achado virou o naufrágio de Uluburun.

Onze anos de mergulho

O Instituto de Arqueologia Náutica escavou o sítio de 1984 a 1994, primeiro sob o arqueólogo americano George Bass e depois sob o arqueólogo turco Cemal Pulak. O instituto contabiliza mais de 22 mil mergulhos na escavação.

Os mergulhadores tiraram do fundo 354 lingotes de cobre no formato de couro de boi (placas retangulares com quatro pontas puxadas, boas de carregar no ombro), segundo a contagem publicada pelo próprio instituto.

O estanho veio em lingotes do mesmo formato e em pedaços cortados deles. Boa parte chegou à superfície corroída, com o metal transformado em óxido, e as análises de origem esperaram técnicas mais finas.

Cemal Pulak datou o naufrágio pelos anéis de crescimento da lenha guardada a bordo e pela cerâmica do carregamento. As duas pistas apontam para os últimos anos do século 14 a.C.

Sem estanho, o cobre fundido sai mole. Com perto de um décimo de estanho, a liga endurece, funde em temperatura menor e enche melhor o molde, e por essa razão o metal valia tanto quanto a distância que percorria.

O que os isótopos contam

Isótopo é a versão de um mesmo elemento químico com peso diferente no núcleo do átomo. O chumbo tem quatro isótopos estáveis, e a mistura entre eles depende da idade e da rocha de cada jazida.

O estanho tem dez isótopos estáveis, mais do que qualquer outro elemento da tabela periódica. As proporções entre eles variam pouco, mas o bastante para separar minas quando medidas num espectrômetro de massa (aparelho que separa os átomos pelo peso).

Em 2022, Wayne Powell, do Brooklyn College, Michael Frachetti, da Universidade Washington em St. Louis, e Cemal Pulak publicaram em Science Advances a análise dos lingotes de estanho de Uluburun.

A equipe cruzou três medidas: isótopos de chumbo, isótopos de estanho e elementos-traço (impurezas em quantidade mínima, que funcionam como sotaque da rocha). Depois comparou as amostras com minérios do Irã, do Afeganistão, da Ásia Central, da Europa e da Anatólia.

Um terço do estanho do naufrágio bateu com a mina de Mušiston, no Tajiquistão.

Os outros dois terços combinaram com Kestel, nos montes Taurus, dentro da própria Anatólia. Mušiston fica no vale do Zeravshan, a mais de 3 mil quilômetros em linha reta do cabo onde o navio afundou.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Quantas mãos levaram o metal

Para chegar ao porto onde o navio foi carregado, o estanho de Mušiston precisou cruzar as montanhas da Ásia Central, o planalto iraniano ou as estepes, a Mesopotâmia e a Anatólia. A pergunta do caso é como ele fez a viagem.

Uma corrente de trocas curtas

Powell e Frachetti defendem no artigo de 2022 que nenhuma grande casa comercial levou o metal de ponta a ponta. Para eles, o estanho passou de comunidade em comunidade, em trocas de pequena escala, cada uma cobrindo um trecho curto.

Os primeiros elos, segundo a equipe, seriam os pastores dos vales da Ásia Central, que subiam e desciam as montanhas com os rebanhos entre as pastagens de verão e de inverno. Frachetti estuda há anos as trilhas que essas migrações sazonais abriram nas serras.

Mušiston guarda sinais de mineração da Idade do Bronze, com ferramentas e cerâmica de grupos ligados à cultura de Andronovo (pastores das estepes do segundo milênio a.C.), segundo as escavações citadas no artigo.

O modelo cobra um preço de quem o defende. Trocas curtas não deixam contrato, selo nem lista de carga, e a corrente inteira só aparece na química dos lingotes que chegaram à outra ponta.

As tabuinhas de Mari

Há registro escrito de estanho vindo do leste séculos antes do naufrágio. As tabuinhas do palácio de Mari, no rio Eufrates, do século 18 a.C., anotam remessas de estanho que chegavam de Elam, no atual Irã, e seguiam para cidades da Síria.

Os escribas de Mari registraram o metal só no trecho em que ele passava pelo palácio. Nenhuma tabuinha diz de onde Elam tirava o estanho, e a cadeia anterior fica fora do arquivo.

O arquivo de Mari mostra um elo da corrente e para na fronteira do Irã.

A mina vizinha

A outra metade do enigma fica perto da costa. A arqueóloga turca Aslıhan Yener escavou Kestel e a vila de mineiros de Göltepe nos anos 1980 e 1990 e defendeu que a mina produziu estanho na Idade do Bronze, tese contestada por geólogos que acharam o teor de minério baixo demais.

O resultado de 2022 dá razão a Yener: dois terços do estanho do navio bateram com Kestel. Fica a dúvida de por que um carregamento com mina anatólia tão próxima ainda trazia metal da Ásia Central.

O artigo não fecha a resposta. A hipótese dos autores é que Kestel produzia pouco para a demanda dos fundidores, e o metal do leste completava o carregamento. Nenhuma tabuinha ou medição confirmou o volume que a mina rendia.

 
 

III  O Que Falta Provar

Assinaturas que se cruzam

A ligação com Mušiston depende de uma comparação, e a comparação só vale para as jazidas que alguém já amostrou e mediu.

Minas sem amostra

O planalto iraniano e o Afeganistão têm depósitos de estanho pouco estudados, alguns de acesso difícil há décadas por guerra e fronteira fechada. Uma jazida ainda sem medição pode ter assinatura parecida com a de Mušiston e mudar a leitura.

Os isótopos de chumbo também se sobrepõem entre minas de idade geológica parecida. Por essa razão a equipe somou os isótopos de estanho e os elementos-traço, mas o banco de referência do estanho segue menor que o do chumbo.

Um caminho sem pegadas

Entre o Zeravshan e a costa turca, nenhum sítio arqueológico guardou até agora estanho com a mesma assinatura e da mesma época. Sem esses pontos intermediários, a rota está provada só nas duas pontas.

A data também aperta. O navio afundou no século 14 a.C., e a mineração em Mušiston precisa cair nos séculos certos para o metal ter saído de lá a tempo de embarcar.

A rota tem começo e chegada provados, e nenhuma parada confirmada entre eles.

O que uma prova exigiria

1. Medir isótopos de estanho em bronzes datados de sítios do Irã, da Mesopotâmia e da Anatólia oriental, para achar as paradas da rota.

2. Amostrar as jazidas de estanho do Irã e do Afeganistão que ainda não entraram no banco de referência.

3. Datar por radiocarbono o carvão das galerias de Mušiston e de Kestel, para fixar quando cada mina funcionou.

Os três testes usam objetos que já estão em museus ou em minas conhecidas. Nenhum depende de achar outro navio.

Ficam duas maneiras de ler o terço do Tajiquistão. Uma corrente de pastores e mercadores que passaram o metal de mão em mão, sem que nenhum deles soubesse onde ele terminaria, ou uma rota organizada por gente que conhecia as duas pontas e lucrava com a distância. As duas leituras estão acima, e os lingotes não escolhem por você.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a análise de isótopos publicada em 2022, que fração do estanho do navio de Uluburun veio da mina de Mušiston, no Tajiquistão?

AMetade
BUm terço
CDois terços
DA quase totalidade

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