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Calígula lançou 2 navios de 70 metros no lago de Nemi

Os cascos saíram da lama em 1932 e viraram cinza em 1944, sem que nenhum texto romano dissesse para que serviam

Casco romano de madeira no leito seco de um lago de cratera

Leito seco do lago de Nemi, nos anos 1930

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: os navios de Nemi.

Local: lago de Nemi, Itália.

Anomalia: cascos de mar num lago.

O lago de Nemi, cratera de um vulcão extinto nos montes Albanos, ao sul de Roma, mede 1,6 quilômetro de uma margem à outra. No fundo dele, o engenheiro Guido Ucelli registrou, no livro Le navi di Nemi (Os navios de Nemi), de 1940, dois cascos de 70 e 73 metros de comprimento.

Navio desse porte foi feito para cruzar mar aberto. Em Nemi, a proa encontrava a margem oposta depois de pouco mais de vinte comprimentos do próprio casco.

Os cascos pertenciam a Calígula, Caio Júlio César Augusto Germânico, imperador de Roma entre 37 e 41 depois de Cristo. Ele reinou menos de quatro anos e deixou no lago as maiores embarcações conhecidas do mundo romano até então.

O lago não era um lugar qualquer. Na margem norte ficava o santuário de Diana Nemorensis (a Diana do bosque), e os romanos chamavam a água parada de Speculum Dianae (o espelho de Diana).

Os pescadores da região sabiam dos cascos havia séculos. As redes enroscavam num obstáculo no fundo e voltavam com tábuas, pregos de bronze e cacos de telha.

Em 1446, o cardeal Prospero Colonna contratou o arquiteto Leon Battista Alberti para tirar um dos navios da água. Alberti usou barris, cordas e ganchos de ferro, arrancou um pedaço da proa e desistiu.

Em 1535, Francesco De Marchi desceu ao fundo dentro de um sino de mergulho (uma campânula aberta embaixo, que prende o ar lá dentro). Mediu tábuas, recolheu pregos e voltou com a cabeça ferida pelo esforço.

Nenhum dos dois respondeu à dúvida central. Um imperador mandou construir dois palácios flutuantes num lago sem saída para o mar, a poucas horas de cavalo de Roma, e nenhum autor antigo, de Suetônio a Dião Cássio, deixou uma linha sequer sobre eles.

Tácito, que escreveu sobre quase tudo do século I, também não fala dos navios. A única assinatura veio do próprio fundo do lago, quatro séculos depois de Alberti.

O registro começa pelo dia em que a água baixou e pelos canos de chumbo que trouxeram a marca do dono.

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I  O Registro

Os canos de chumbo com o selo do imperador

A resposta de ontem

Que obra Necho II abandonou antes da viagem?

Foi o canal entre o Nilo e o mar Vermelho. Heródoto, no livro II das Histórias, conta que Necho II parou a escavação depois de um oráculo avisar que ele trabalhava para o estrangeiro. Cerca de um século depois, o rei persa Dario I terminou o canal e marcou a obra com estelas de granito ao longo do traçado.

A PEÇA

Um dos cascos de Calígula exposto no leito seco do lago de Nemi, durante a drenagem dos anos 1930.

Um dos cascos de Calígula exposto no leito seco do lago de Nemi, durante a drenagem dos anos 1930.

Foto: AnonymousUnknown author, Wikimedia Commons, Public domain

No outono de 1928, o governo de Benito Mussolini mandou esvaziar o lago de Nemi. Em vez de cavar um canal novo, os engenheiros reaproveitaram o emissário romano, um túnel de drenagem escavado na rocha da cratera muitos séculos antes.

As bombas vieram da empresa milanesa Riva, dirigida por Guido Ucelli. A água começou a descer devagar, e a lama do fundo foi aparecendo em faixas, uma margem de cada vez.

O primeiro casco

O primeiro navio emergiu em 1929. Os operários encontraram o fundo de madeira inteiro, com o convés desabado por cima e coberto de telhas, lajotas e pedaços de mármore.

O segundo casco, mais fundo, só ficou à vista em 1931. Os dois foram puxados para a margem sobre trilhos e guardados em barracões provisórios, enquanto o governo erguia um museu ao lado.

O selo nos canos

Entre os destroços, a equipe achou canos de chumbo (fístulas, no termo dos romanos) usados para levar água a bordo. Neles estava gravado, em letras de molde, C. CAESARIS AUG. GERMANICI (de Caio César Augusto Germânico).

A inscrição encerrou uma discussão de quatro séculos. Ali estava o nome oficial de Calígula, o apelido que os soldados lhe deram na infância e que ele detestava.

Calígula mandou gravar o próprio título no encanamento de dois navios que nenhum cronista romano mencionou.

O que o barro guardou

O lodo do fundo protegeu, por dezenove séculos, o que um saqueador teria levado sem pensar duas vezes. Saíram cabeças de leão, de lobo e de Medusa em bronze, cada uma segurando uma argola, usadas para amarrar os barcos ou para enfeitar as vigas.

Saíram também uma bomba de pistão para tirar água do porão e uma plataforma que girava sobre esferas de bronze, um mecanismo parente do rolamento moderno.

A âncora de um dos navios tinha cepo móvel (a barra transversal que se encaixa e se tira), desenho que a Marinha britânica adotaria como padrão só no século XIX.

O casco por dentro

Os cascos eram forrados de lã embebida em piche e cobertos por chapas finas de chumbo, presas com pregos de cobre. O convés tinha piso de mosaico, colunas e canos de água quente com torneira de bronze.

Em 1936, os dois navios passaram a morar no Museu dos Navios Romanos, construído na margem do lago. Ficaram ali oito anos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Palácio, templo ou capricho

Sem texto antigo, sobra o barco. E o barco aponta para direções diferentes ao mesmo tempo.

O luxo dos navios

A leitura mais antiga vê nos cascos palácios de recreio. Termas, mármore, mosaico e água quente servem mais a um banquete do que a uma viagem.

Suetônio, na Vida dos Doze Césares, escrita por volta de 121 depois de Cristo, descreve outros barcos de Calígula, no mar da Campânia. Eram liburnas (galeras leves de guerra) “com popas cravejadas de pedras preciosas, velas de várias cores, termas, pórticos e salas de banquete, e até videiras e árvores de fruta”.

O trecho prova o gosto do imperador por barcos de festa. Não prova Nemi: Suetônio fala do litoral, e não do lago.

A deusa do bosque

A outra leitura olha para a margem. O santuário de Diana atraía peregrinos de toda a região do Lácio, e um imperador que se apresentava como deus teria motivo para ancorar ali um templo flutuante.

O lago tinha um sacerdote estranho, o rex Nemorensis (o rei do bosque). Era um escravo fugido que assumia o cargo ao vencer o ocupante anterior em combate, e o perdia do mesmo jeito.

Suetônio conta, no capítulo 35 da vida de Calígula, que o imperador mandou um desafiante mais forte contra o rei do bosque porque o sacerdote já estava no posto havia anos demais. O detalhe mostra um imperador atento ao culto do lago.

A hipótese de Ísis

Calígula também favoreceu o culto egípcio de Ísis em Roma. A festa da deusa, o Navigium Isidis (a navegação de Ísis), lançava um barco sagrado à água toda primavera.

Para os defensores dessa leitura, um dos cascos de Nemi seria o santuário, e o outro, o apoio. Nenhuma estátua de Ísis saiu do fundo do lago, porém.

Os navios de Nemi juntam o mobiliário de um palácio e o endereço de um santuário, e nenhum objeto decide entre os dois.

O afundamento

Também não se sabe como os navios foram ao fundo. Calígula foi assassinado em janeiro de 41 por oficiais da própria guarda, e o Senado tentou apagar a memória dele.

Afundar os barcos do imperador odiado combinaria com esse clima. Nenhum documento confirma a ordem, e os cascos podem ter afundado sozinhos, décadas depois, por abandono.

 
 

III  O Que Falta Provar

A noite de 31 de maio de 1944

O incêndio dos navios tem data, hora aproximada e testemunhas, e mesmo assim ninguém resolveu o caso. Na noite de 31 de maio para primeiro de junho de 1944, o museu de Nemi pegou fogo com os dois cascos dentro.

A linha de frente

Naquela semana, os Aliados avançavam de Anzio rumo a Roma. Soldados alemães de uma bateria antiaérea estavam acampados no museu e em volta dele.

Quando o fogo apagou, sobraram as paredes, alguns pregos retorcidos e as chapas de chumbo derretidas no chão. A madeira de quase dois mil anos virou carvão em poucas horas.

As duas versões

Uma comissão italiana, montada logo depois da libertação de Roma, concluiu em 1944 que os soldados alemães atearam o fogo antes de recuar. O relatório falava em incêndio proposital.

O comando alemão deu outra versão. Para ele, a artilharia americana acertou o prédio durante o avanço, e o fogo começou com os disparos.

Nenhum documento militar publicado até hoje encerrou a disputa. Faltam a ordem escrita, de um lado, e o registro de tiro sobre o alvo, do outro.

Os navios de Calígula atravessaram dezenove séculos debaixo da água e não resistiram a uma noite em terra firme.

O que sobrou

Os bronzes escaparam porque estavam guardados em Roma. Hoje ficam no Museu Nacional Romano, no Palácio Massimo, e mostram as cabeças de leão, de lobo e de Medusa.

O museu de Nemi reabriu em 1953 com modelos dos navios em escala de um para cinco, feitos com base nas plantas da escavação.

O que uma prova exigiria

1. Encontrar um texto romano, em papiro ou inscrição, que cite os navios do lago e diga para que serviam.

2. Achar, entre os bronzes guardados em Roma, uma peça de culto com dedicatória a Diana ou a Ísis.

3. Localizar, num arquivo alemão ou aliado de 1944, a ordem de incêndio ou o registro do disparo sobre o museu.

Nem tudo virou carvão naquela noite. Um pedaço do piso de mosaico tinha deixado Nemi antes do incêndio e atravessou o século XX longe do lago.

Ver nos navios o palácio de festa de um imperador vaidoso, ou o templo flutuante da deusa do bosque. Os bronzes servem às duas leituras e estão no Palácio Massimo.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde foi parar o pedaço de mosaico dos navios de Nemi?

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que confirmou que os dois cascos do lago de Nemi pertenciam a Calígula?

AUma moeda de bronze com o perfil do imperador encontrada dentro do casco
BUm trecho de Suetônio que cita os navios pelo nome
CA inscrição gravada nos canos de chumbo usados para levar água a bordo
DUma placa de mármore no convés com o título do imperador

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