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Heródoto recusou o sol à direita dos fenícios de Necho II

Por volta de 600 a.C., marinheiros do faraó deram a volta na África em 3 anos, e o grego descartou a única pista astronômica da viagem

Barco fenício diante de um cabo rochoso no sul da África

Costa sul da África, na rota dos fenícios

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: a frota de Necho II.

Local: costa da África.

Anomalia: o sol do lado errado.

No livro IV das Histórias, escrito por volta de 430 antes de Cristo, Heródoto conta que marinheiros fenícios a serviço do faraó Necho II deram a volta na África em três anos. No mesmo trecho, ele avisa que não acredita num detalhe trazido por eles: navegando para oeste, tinham o sol do meio-dia à direita.

A astronomia de posição registra o outro fato. Ao sul do trópico de Capricórnio, o sol do meio-dia passa sempre pelo lado norte do céu, e quem rumava para oeste ali o via à direita do barco.

Os dois fatos convivem mal. O historiador descartou como fantasia justamente a parte do relato que um marinheiro do Mediterrâneo não teria como inventar.

Necho II governou o Egito entre 610 e 595 antes de Cristo, na dinastia saíta (a 26ª, governada a partir da cidade de Saís, no delta do Nilo). Era um faraó voltado para o mar, traço raro no trono egípcio.

Heródoto o descreve construindo trirremes (navios de guerra com três fileiras de remos) no Mediterrâneo e no golfo Arábico, o atual mar Vermelho. Faltava ao Egito gente capaz de levar esses barcos longe da costa conhecida.

Essa gente vinha da Fenícia, a faixa de cidades portuárias no litoral do atual Líbano, com Tiro e Sídon à frente. Os fenícios já tinham fundado colônias além do estreito de Gibraltar, como Gadir, a atual Cádis, na Espanha.

Segundo Heródoto, os marinheiros partiram do mar Vermelho, desceram rumo ao sul e voltaram ao Egito pelas Colunas de Héracles (o estreito de Gibraltar, para os gregos). A viagem levou dois anos inteiros e entrou pelo terceiro.

O grego escreveu esse relato cerca de 170 anos depois da viagem. Não conheceu nenhum dos marinheiros, nem viu diário de bordo. Ouviu a história no Egito, de sacerdotes e intérpretes, e a guardou junto com a própria dúvida.

A dúvida ficou registrada com a mesma tinta da viagem; a frase dele, guardada assim, ainda serve de pista.

O registro começa pelo trecho exato em que ele conta a volta ao continente, e pelo método estranho que a tripulação usou para comer pelo caminho.

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I  O Registro

O trigo semeado na costa africana

A resposta de ontem

Qual general árabe entrou em Garama no século VII?

Foi Uqba ibn Nafi, o comandante árabe que nos anos 660 avançou pelo Fezzan e submeteu Jarma, o nome árabe de Garama. O episódio está na Futuh Misr (A conquista do Egito), crônica do historiador Ibn Abd al-Hakam, do século IX. Depois dele, o vale entrou na rota das caravanas islâmicas do Saara.

O relato de Necho II ocupa poucas linhas, no capítulo 42 do livro IV das Histórias. Heródoto o usa como prova de um argumento geográfico: a Líbia, nome grego para a África inteira, é cercada de água por todos os lados, menos no trecho que a liga à Ásia.

A ordem do faraó

Segundo o texto, Necho II mandou os fenícios embarcarem com uma instrução simples: voltar ao Egito passando pelas Colunas de Héracles. Sair pelo leste, contornar o continente e entrar de volta pelo Mediterrâneo.

Os barcos partiram do mar Eritreu (o nome grego para o mar Vermelho e as águas do Índico ao sul dele) e seguiram pelo que Heródoto chama de mar do Sul.

A direção importa. Ao descer pela costa leste e subir pela oeste, a frota rodava o continente no sentido horário, com a terra sempre do lado direito do casco.

A pausa para a colheita

O detalhe mais concreto do relato nada tem de astronômico. A cada outono, conta Heródoto, os marinheiros desembarcavam onde estivessem, semeavam a terra e esperavam a colheita.

Com o grão colhido, voltavam ao mar. A viagem andava no ritmo de uma lavoura por ano, e três lavouras dão conta dos três anos do relato.

O método resolve a demora. Uma frota sem porto amigo por milhares de quilômetros não tinha onde comprar comida, e um barco a remo e vela não carrega provisão para três anos.

Os fenícios contornaram a África no ritmo da lavoura: um plantio por ano, em terra estranha.

A frase que o grego recusou

Então vem o trecho famoso. Heródoto escreve, nas Histórias, por volta de 430 antes de Cristo, que os marinheiros “contaram, e eu não acredito, mas outro talvez acredite, que ao navegar em volta da Líbia tiveram o sol à direita”.

Para um grego, a lógica era firme. No Mediterrâneo, o sol do meio-dia fica sempre ao sul. Quem navega para oeste o tem à esquerda, sem exceção, a vida inteira.

Heródoto não trabalhava com a ideia de uma Terra esférica, nem sabia que a África cruza o equador e desce até perto dos 35 graus de latitude sul. Para ele, o sol à direita soava como lorota de marinheiro.

O segundo navegador

Logo depois, no capítulo 43, Heródoto conta o contraexemplo. Sataspes, um nobre persa condenado pelo rei Xerxes, recebeu a chance de escapar da pena se desse a volta na África.

Sataspes saiu pelas Colunas de Héracles, navegou para o sul por meses e desistiu. Disse ao rei que o barco tinha parado e não avançava mais. Xerxes recusou a desculpa e mandou cumprir a pena antiga, o empalamento.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Por que o sol trocou de lado

A pergunta divide os estudiosos há mais de dois mil anos e cabe numa linha. A viagem aconteceu, ou Heródoto registrou uma boa história de porto?

O que o sol prova

Ao sul do trópico de Capricórnio, o sol do meio-dia passa sempre pelo lado norte do céu. Uma frota que dobrava o extremo sul da África rumo a oeste via a luz entrar pela direita, dia após dia, por semanas.

Entre o equador e o trópico, o sol muda de lado conforme a estação. Uma tripulação que passou meses nessa faixa, parada para plantar e colher, teria visto a troca acontecer diante dos olhos.

Um marinheiro do Mediterrâneo, sem a ideia de uma Terra redonda, dificilmente inventaria esse detalhe. A mentira útil seria a que agradasse ao ouvinte, e esta irritou o principal deles.

O detalhe que Heródoto chamou de mentira só podia vir de quem esteve abaixo do equador.

O mar a favor

O sentido horário também conversa com a física do oceano. Pela costa leste, a corrente das Agulhas (a corrente quente que desce rente ao litoral de Moçambique e da África do Sul) empurra quem vem do norte em direção ao cabo.

Pela costa oeste, a corrente de Benguela (a corrente fria que sobe ao longo de Namíbia e Angola) corre para o norte, rumo ao golfo da Guiné. Os dois empurrões favorecem justamente o sentido descrito no relato, do mar Vermelho para Gibraltar.

Sataspes, que tentou o caminho inverso, saiu de Gibraltar e voltou sem dobrar o continente. O relato dele e o dos fenícios, lado a lado, batem com o mapa das correntes.

Os céticos

A dúvida também tem defensores antigos. O geógrafo grego Estrabão, na Geografia, escrita no começo do século I, tratou com desconfiança as histórias de volta completa à África, entre elas a de Eudoxo de Cízico, navegador grego do século II antes de Cristo.

Os céticos modernos apontam o trecho do cabo da Boa Esperança, com ondas e ventos que assustaram navegadores bem mais equipados. O português Bartolomeu Dias só dobrou o cabo em 1488, com caravela, bússola e cartas náuticas.

Para eles, o sol à direita pode ter chegado ao relato por outro caminho, como lembrança de viagens parciais ao sul pelo mar Vermelho e pelo Índico, costuradas depois numa volta inteira.

O que se sabe e o que não

O que se sabe: Heródoto ouviu o relato no Egito, registrou os três anos, o plantio anual e o sol à direita, e recusou só este último. O que não se sabe: se a viagem existiu inteira ou se foi montada a partir de pedaços de outras viagens.

 
 

III  O Que Falta Provar

Nenhuma âncora no extremo sul

Nenhum objeto fenício do tempo de Necho II apareceu ao sul do equador africano. A viagem, se aconteceu, não deixou rastro material conhecido.

O silêncio do Egito

Nenhum texto egípcio menciona a expedição. Nem inscrição, nem papiro, nem estela de Necho II fala de fenícios dando a volta no continente.

O silêncio não derruba o relato. Pouco sobrou dos arquivos da dinastia saíta, e o solo úmido do delta do Nilo, onde ficava a corte, conserva mal o papiro.

O outro périplo

Os cartagineses deixaram o melhor texto de comparação. O Périplo de Hanão (relato de viagem costeira de Hanão, almirante de Cartago) narra uma frota que saiu de Gibraltar e desceu pela costa oeste africana, provavelmente no século V antes de Cristo.

O texto sobreviveu numa tradução grega de uma placa que, segundo a própria tradição, ficava num templo de Cartago. Os estudiosos discutem até onde Hanão chegou, e nenhuma leitura séria o põe abaixo do equador.

O périplo cartaginês mostra a ambição da época e mostra também o limite. Descer a costa da África era viável; voltar dela, contra o vento e a corrente, era o problema.

O barco que refez a rota

Em 2008, o navegador britânico Philip Beale partiu da costa da Síria a bordo do Phoenicia, uma réplica de barco fenício feita com técnicas antigas, e contornou a África no sentido horário. Voltou ao Mediterrâneo em 2010.

A réplica mostrou que um casco daquele tipo aguenta a volta, inclusive o cabo. Não mostrou que alguém a fez por volta de 600 antes de Cristo.

O que uma prova exigiria

1. Achar, na costa sul ou oeste da África, um objeto fenício ou egípcio numa camada datada dos séculos VII ou VI antes de Cristo.

2. Encontrar, em arquivo egípcio ou fenício, uma menção à frota de Necho II independente de Heródoto.

3. Identificar restos de trigo ou cevada do Mediterrâneo cultivados numa costa africana distante na mesma época, sinal das paradas para colheita.

Necho II não entrou para a memória do Egito pela viagem. Antes de mandar os fenícios ao mar, ele largou pela metade uma obra gigante, e Heródoto contou essa obra com mais detalhe do que a volta à África.

Confiar nos fenícios pelo sol que Heródoto recusou, ou exigir o casco, a âncora ou a inscrição que ninguém achou. As duas posições estão sobre a mesa.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que obra Necho II abandonou antes de mandar os fenícios contornar a África?

 
 
 
Quiz da edição

No livro IV das Histórias, qual detalhe os marinheiros fenícios contaram sobre a volta à África, e que Heródoto se recusou a acreditar?

ASol do meio-dia sempre à esquerda do barco
BNoites com o céu sem nenhuma estrela conhecida
CSol do meio-dia à direita do barco, navegando para oeste
DMaré que empurrava o barco contra a proa

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