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Os nórdicos da Groenlândia quase não escreveram sobre si mesmos. O que se sabe deles nos anos finais vem de cartas, anais e relatos guardados na Islândia e na Noruega, e o casamento de Hvalsey só entrou nesses arquivos por acaso.
O navio que se perdeu
Em 1406, um navio que ia da Noruega para a Islândia foi empurrado por tempestades até a Groenlândia. Os anais islandeses contam que a tripulação ficou quatro anos na ilha, porque nenhum barco saía de lá com frequência.
Thorstein Ólafsson estava a bordo. Sigrid Björnsdóttir, pelo que indicam as cartas, também era islandesa. Os dois se casaram em Hvalsey depois de três domingos de proclamas (o anúncio público do casamento na missa), como mandava a Igreja.
Em 1410 o grupo embarcou de volta. Anos depois, já na Islândia, testemunhas daquela missa assinaram cartas, em 1414 e 1424, para provar que o casamento era válido. É por causa de uma disputa de herança que o último registro escrito dos nórdicos da Groenlândia sobreviveu.
O último registro da colônia sobreviveu por causa de uma papelada de herança. |
A fogueira de 1407
O mesmo grupo de viajantes levou de volta outra notícia. Segundo os anais islandeses, em 1407 um homem chamado Kolgrím foi queimado em Hvalsey, acusado de seduzir por feitiçaria uma mulher casada, Steinunn, filha do juiz local Hrafn. Ela enlouqueceu pouco depois.
O episódio mostra uma comunidade ainda organizada: tinha juiz, igreja ativa, rito de casamento e tribunal capaz de condenar alguém. Nada nesses relatos descreve fome, abandono ou pressa de partir.
O vale que já estava vazio
O sinal de alarme veio antes, do Assentamento Ocidental. Por volta de 1360, Ívar Bárðarson, administrador do bispado de Gardar, subiu a costa com uma expedição para enfrentar os skrælingjar (o nome nórdico para os inuítes) que, diziam, tinham ocupado a região.
Ívar deixou o relato numa descrição da Groenlândia escrita por volta de 1364, que chegou até nós em cópias posteriores. Ele conta que os homens “não acharam ninguém, nem cristão nem pagão, só gado e ovelhas soltos”, comeram o que puderam do rebanho e voltaram.
As escavações do sítio que os arqueólogos chamam de Fazenda sob a Areia, no Assentamento Ocidental, confirmam uma ocupação que termina em meados do século 14. O Assentamento Oriental, onde fica Hvalsey, durou mais algumas gerações.
O registro, então, se resume a três momentos: o vale do norte vazio por volta de 1360, o casamento de 1408 no sul e o silêncio depois de 1410. Nenhum desses papéis diz o que veio em seguida.
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