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O último casamento nórdico da Groenlândia, em 1408

Sigrid e Thorstein se casaram em Hvalsey em 1408; quando Hans Egede chegou em 1721, a colônia nórdica era só ruína

Ruína da igreja de pedra de Hvalsey diante de um fiorde da Groenlândia

Igreja de Hvalsey, sul da Groenlândia

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: casamento em Hvalsey, 1408.

Registro: ruínas achadas em 1721.

Anomalia: sem partida nem vala comum.

Em 16 de setembro de 1408, Sigrid Björnsdóttir e Thorstein Ólafsson se casaram na igreja de pedra de Hvalsey, no sul da Groenlândia, e duas cartas escritas na Islândia, em 1414 e 1424, confirmam a cerimônia. Em julho de 1721, o missionário norueguês Hans Egede, a serviço do rei da Dinamarca, desembarcou na mesma ilha procurando os descendentes daqueles colonos e encontrou só paredes sem teto.

Entre a última carta e o navio de Egede, a colônia passou três séculos sem uma linha escrita sobre ela.

Os nórdicos da Groenlândia eram cristãos que falavam nórdico antigo (a língua de onde vêm o islandês e o norueguês), descendentes dos colonos que Érico, o Vermelho, trouxe da Islândia por volta do ano 985. Viviam em duas áreas de fiordes na costa sudoeste: o Assentamento Oriental, maior, e o Assentamento Ocidental, mais ao norte.

Tinham bispo, catedral, dízimo e fazendas com estábulo para vacas. Pagavam a Igreja e o rei da Noruega com presas de morsa, peles de urso e couro, mercadorias de luxo nas cidades da Europa.

Hvalsey fica no fundo de um fiorde perto da atual Qaqortoq, ao pé de um morro verde no verão. A igreja tem paredes grossas de pedra assentada, uma porta em arco e janelas que ainda emolduram o fiorde. É a ruína nórdica mais inteira da ilha.

Nenhum documento diz que os moradores foram embora. Nenhuma escavação achou a vala de uma catástrofe. Os cemitérios guardam esqueletos enterrados um a um, em covas com cerimônia, e as casas foram deixadas sem sinal de incêndio ou saque em massa.

Uma colônia de quatro séculos não costuma sumir sem deixar quem conte a história. Esta sumiu.

O que aconteceu com quem morava nos fiordes, se partiu, se definhou ou se misturou a outro povo, é o caso de hoje.

Ele começa pelos poucos papéis que a colônia deixou, e pelo que cada um revela sobre os anos finais.

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I  O Registro

Os papéis de Hvalsey

Os nórdicos da Groenlândia quase não escreveram sobre si mesmos. O que se sabe deles nos anos finais vem de cartas, anais e relatos guardados na Islândia e na Noruega, e o casamento de Hvalsey só entrou nesses arquivos por acaso.

O navio que se perdeu

Em 1406, um navio que ia da Noruega para a Islândia foi empurrado por tempestades até a Groenlândia. Os anais islandeses contam que a tripulação ficou quatro anos na ilha, porque nenhum barco saía de lá com frequência.

Thorstein Ólafsson estava a bordo. Sigrid Björnsdóttir, pelo que indicam as cartas, também era islandesa. Os dois se casaram em Hvalsey depois de três domingos de proclamas (o anúncio público do casamento na missa), como mandava a Igreja.

Em 1410 o grupo embarcou de volta. Anos depois, já na Islândia, testemunhas daquela missa assinaram cartas, em 1414 e 1424, para provar que o casamento era válido. É por causa de uma disputa de herança que o último registro escrito dos nórdicos da Groenlândia sobreviveu.

O último registro da colônia sobreviveu por causa de uma papelada de herança.

A fogueira de 1407

O mesmo grupo de viajantes levou de volta outra notícia. Segundo os anais islandeses, em 1407 um homem chamado Kolgrím foi queimado em Hvalsey, acusado de seduzir por feitiçaria uma mulher casada, Steinunn, filha do juiz local Hrafn. Ela enlouqueceu pouco depois.

O episódio mostra uma comunidade ainda organizada: tinha juiz, igreja ativa, rito de casamento e tribunal capaz de condenar alguém. Nada nesses relatos descreve fome, abandono ou pressa de partir.

O vale que já estava vazio

O sinal de alarme veio antes, do Assentamento Ocidental. Por volta de 1360, Ívar Bárðarson, administrador do bispado de Gardar, subiu a costa com uma expedição para enfrentar os skrælingjar (o nome nórdico para os inuítes) que, diziam, tinham ocupado a região.

Ívar deixou o relato numa descrição da Groenlândia escrita por volta de 1364, que chegou até nós em cópias posteriores. Ele conta que os homens “não acharam ninguém, nem cristão nem pagão, só gado e ovelhas soltos”, comeram o que puderam do rebanho e voltaram.

As escavações do sítio que os arqueólogos chamam de Fazenda sob a Areia, no Assentamento Ocidental, confirmam uma ocupação que termina em meados do século 14. O Assentamento Oriental, onde fica Hvalsey, durou mais algumas gerações.

O registro, então, se resume a três momentos: o vale do norte vazio por volta de 1360, o casamento de 1408 no sul e o silêncio depois de 1410. Nenhum desses papéis diz o que veio em seguida.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Partir, definhar ou misturar-se

Uma colônia com bispo e tribunal não desaparece de uma vez. Quem estuda os nórdicos da Groenlândia trabalha com quatro explicações, e cada uma tem pistas a favor e um ponto fraco.

As quatro hipóteses

1. Frio e seca. A partir do século 14 o Atlântico Norte esfriou, na fase que os climatologistas chamam de Pequena Idade do Gelo. Um estudo de Boyang Zhao, da Universidade Brown, publicado em 2022 na revista Science Advances, analisou lama de um lago perto das fazendas e encontrou sinal de seca, que reduz o capim para o feno do inverno.

2. Mercado perdido. A colônia vivia de vender marfim de morsa. A equipe de James Barrett, da Universidade de Cambridge, mostrou em 2020, na revista Quaternary Science Reviews, que boa parte do marfim de morsa vendido na Europa medieval vinha de animais caçados pelos groenlandeses. Quando o marfim de elefante voltou a chegar da África e a Peste Negra esvaziou a Noruega em 1349, o comprador sumiu.

3. Conflito com os inuítes. O povo Thule, ancestral dos inuítes de hoje, desceu pela costa enquanto os nórdicos recuavam. Os anais islandeses registram um ataque de skrælingjar em 1379, e as histórias inuítes recolhidas pelo dinamarquês Hinrich Rink, publicadas em 1875 no livro Tales and Traditions of the Eskimo, falam de lutas com os antigos moradores das fazendas.

4. Saída organizada. As famílias teriam partido aos poucos para a Islândia e a Noruega, onde havia terra livre depois da Peste Negra, levando o que tinham de valor.

Frio, mercado, guerra ou mudança: as quatro deixam marcas diferentes no chão.

O argumento do teimoso

Jared Diamond popularizou uma quinta leitura no livro Colapso, de 2005: os nórdicos teriam insistido em vacas, igrejas e costumes europeus num lugar que pedia o modo de vida inuíte, e pagado por essa rigidez.

Os ossos contestam essa ideia. A equipe da arqueóloga dinamarquesa Jette Arneborg, do Museu Nacional da Dinamarca, mediu isótopos de carbono e nitrogênio (marcas químicas que mostram o que a pessoa comia) em esqueletos dos cemitérios e publicou em 2012, no Journal of the North Atlantic, que a dieta foi ficando cada vez mais marinha, com foca no centro do prato. Eles se adaptaram.

O que cada hipótese explica

O frio e a seca explicam a pressão sobre as fazendas, mas povos vizinhos atravessaram o mesmo clima. O mercado perdido explica por que os navios pararam de vir, mas não diz para onde foram as pessoas.

O conflito explica o Assentamento Ocidental tomado, mas nenhuma escavação achou casas queimadas em série ou covas de batalha. A saída organizada explica as casas sem sinal de violência, mas não há uma única linha nos arquivos da Islândia ou da Noruega sobre a chegada de groenlandeses em grupo.

A pergunta em aberto, portanto, é dupla: por que a colônia deixou de valer a viagem e, quando deixou, se os moradores ficaram ou embarcaram.

 
 

III  O Que Falta Provar

O túmulo que ninguém achou

O primeiro ponto que falta provar é a data. Os arqueólogos datam por radiocarbono (a medida do carbono que resta em osso, madeira e tecido) as últimas camadas das fazendas do Assentamento Oriental, e as datas mais recentes caem na primeira metade do século 15. A margem de erro do método, porém, não permite dizer se a última família saiu em 1430 ou em 1460.

O segundo ponto é o cemitério de Herjolfsnes, no extremo sul. Em 1921, o arqueólogo dinamarquês Poul Nørlund escavou ali roupas de lã preservadas pelo solo congelado, entre elas capuzes de ponta longa que estavam na moda na Europa do fim da Idade Média.

As roupas provam que algum navio europeu ainda tocava a costa no século 15 e trazia notícias de moda. Elas não dizem se esse navio levou alguém embora.

Sem vala comum, sem lista de passageiros e sem data fina, o fim da colônia segue sem prova.

A carta do papa

Uma carta atribuída ao papa Nicolau V, de 1448, fala de groenlandeses atacados por pagãos trinta anos antes e levados como cativos. Historiadores discutem até hoje se a carta é autêntica e se o texto trata mesmo da Groenlândia, e a dúvida impede que ela feche a questão.

O teste que ainda não veio

Duas medidas separariam as hipóteses:

• DNA antigo dos esqueletos dos últimos enterros comparado com o de islandeses e noruegueses da mesma época, para saber se chegou gente nova ou se a população encolheu sozinha.

• DNA dos inuítes da Groenlândia atual procurando herança nórdica medieval, para testar se houve mistura de nórdicos e inuítes.

Até agora nenhum desses levantamentos foi publicado com amostra grande o bastante para responder. Sem eles, a escolha entre partida e declínio depende de silêncio, e silêncio prova pouco.

O que se sabe com segurança é firme. Os nórdicos da Groenlândia viveram quatro séculos nos fiordes do sudoeste, venderam marfim de morsa para a Europa, comeram cada vez mais foca, abandonaram o norte por volta de 1360 e celebraram em Hvalsey, em 1408, o último casamento que alguém anotou. Quando Hans Egede chegou em 1721, as igrejas estavam de pé e os moradores tinham sumido sem deixar túmulo coletivo.

O resto continua sem prova. Ninguém sabe se a última geração embarcou num navio que nenhum porto registrou ou se ficou nos fiordes até o último morador.

Uma colônia que se esvaziou família por família, em barcos rumo à Islândia e à Noruega, como sugerem as casas sem sinal de violência, ou uma colônia que ficou até o fim, presa a um marfim sem comprador, como sugerem os ossos cheios de foca e o mercado que acabou. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá ao silêncio dos arquivos ou ao silêncio do chão.

 
 
 

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