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ED 118
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A parede de sinais cavados no leito de um riacho da Paraíba

Vinte e quatro metros de gnaisse gravados em Ingá, tombados em 1944, seguem sem data de gravação e sem povo autor identificado

Bancada de exame à noite com o decalque de um painel rupestre gravado aberto sobre a mesa, ficha de tombamento presa em pé, fragmento de gnaisse cinza com covinhas polidas sobre feltro, paquímetro de bronze, lupa, escala dobrável, trena e bússola, sob luz âmbar focal

A parede gravada no leito seco do riacho

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: uma parede de gnaisse no leito do riacho Bacamarte, no município de Ingá, agreste da Paraíba, coberta de sinais cavados na face voltada para a água.

Registro: o painel principal corre por cerca de vinte e quatro metros e foi inscrito pelo serviço federal de patrimônio no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico em 1944.

Anomalia: a gravação em rocha não deposita matéria orgânica que um laboratório possa datar, nenhuma escavação com camadas datadas foi publicada ao lado do painel, e nenhum povo autor foi identificado por evidência material.

A Pedra do Ingá está sob proteção legal do Estado brasileiro desde 1944, quando o serviço federal de patrimônio a inscreveu no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Oito décadas depois, nenhum laboratório publicou data para os sinais cavados na rocha, e nenhum povo autor foi identificado por evidência material recolhida no lugar.

O monumento fica no leito do riacho Bacamarte, no município de Ingá, no agreste da Paraíba, a cerca de cem quilômetros de João Pessoa.

O que existe ali é uma parede de gnaisse, rocha metamórfica dura e listrada, que emerge do leito e mostra para o curso d'água uma face inteiramente trabalhada. O painel principal corre por cerca de vinte e quatro metros de extensão e alcança alguns metros de altura acima do fundo do riacho.

O nome regional do conjunto vem do tupi: itacoatiara, que se traduz por pedra riscada. A palavra batiza dezenas de afloramentos gravados espalhados pelo agreste nordestino, e a de Ingá é a mais visitada de todos eles.

Os sinais foram abertos por percussão e polimento. Quem gravou bateu na rocha com um percutor mais duro até rebaixar a superfície, depois alisou o fundo do sulco por atrito com areia e água, e o resultado é um baixo relevo de bordas suaves que resistiu a séculos de enxurrada.

O repertório gravado reúne formas fechadas que lembram animais, figuras humanas estilizadas de braços abertos, espirais, retângulos com divisões internas e dezenas de cúpulas, as covinhas circulares cavadas na rocha que aparecem em sítios gravados do mundo inteiro.

O riacho é intermitente. Na estação de chuva a água sobe e cobre parte do painel, na estiagem o leito seca e a parede aparece inteira, e essa alternância lavou por séculos o sedimento fino que um arqueólogo precisaria para datar qualquer coisa.

O registro de hoje começa pelo que a rocha mostra de perto e pelo que o exame direto do painel já permite afirmar, antes de qualquer hipótese sobre autoria.

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I  O Registro

I, O que se lê na rocha do riacho Bacamarte

O SÍTIO

A parede de gnaisse do riacho Bacamarte, em Ingá, na Paraíba, com os sinais cavados em baixo relevo na face voltada para o leito.

A parede de gnaisse do riacho Bacamarte, em Ingá, na Paraíba, com os sinais cavados em baixo relevo na face voltada para o leito.

Foto: Claudio JJ, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A geometria do painel é a parte firme do caso. A face gravada acompanha a margem rochosa, volta-se para o curso d'água e concentra a maior densidade de sinais na porção central, onde as figuras chegam a se sobrepor umas às outras.

A sobreposição carrega uma informação valiosa: sinal cavado por cima de sinal cavado prova sequência. Alguém gravou primeiro, outro alguém gravou depois, e o painel não nasceu de uma única jornada de trabalho.

A técnica também está estabelecida pelo exame direto. Percussão indireta com percutor de pedra mais dura abre o sulco, o polimento posterior com abrasivo e água arredonda o fundo, e as duas operações deixam microvestígios distintos na superfície, legíveis com lupa e luz rasante.

A profundidade média dos sulcos é pequena, de poucos centímetros, o que explica a aparência de desenho em baixo relevo, e ao mesmo tempo torna o conjunto vulnerável ao atrito das cheias e ao contato de visitantes.

O repertório também é descritível sem controvérsia. Há formas que remetem a quadrúpedes, há figuras antropomorfas, com feitio humano, de braços e pernas abertos, há espirais simples e duplas, há campos de cúpulas alinhadas e há blocos retangulares compartimentados.

O que a descrição não sustenta é a leitura do conjunto como escrita. Sistema de escrita produz repetição regular de um número limitado de sinais, com frequências estáveis e combinações recorrentes, e o painel de Ingá não apresenta esse comportamento.

Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interêsse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.

Brasil, "Decreto-Lei nº 25", artigo 1º, 1937

O tombamento de 1944 aplicou esse texto ao afloramento e a seu entorno, o que congelou juridicamente a paisagem: obra, extração de pedra e alteração do curso d'água passaram a depender de autorização federal.

A proteção legal, porém, não produziu escavação. Nenhum relatório de escavação estratigráfica, com camadas de solo registradas e material associado, foi publicado para a margem imediata do painel, e sem camada não existe âncora de tempo.

A dificuldade é da própria técnica gravada. Pintura rupestre deposita pigmento, que às vezes carrega carvão datável; gravação apenas remove rocha, não acrescenta matéria nenhuma, e o laboratório fica sem amostra para medir.

Restariam dois caminhos indiretos: datar a pátina, a película de alteração química que se forma sobre a superfície exposta, ou medir a microerosão dos sulcos. Nenhum dos dois foi aplicado ao painel de Ingá em trabalho publicado e replicado.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Quem cavou os sinais e o que eles registram

A leitura mais econômica atribui o painel a grupos pré-coloniais do agreste, horticultores e caçadores que ocuparam a região muito antes da chegada europeia e deixaram afloramentos gravados por toda a área.

O que sustenta essa leitura é a distribuição regional. A Pedra do Ingá não está sozinha: sítios com o mesmo vocabulário de espirais, cúpulas e figuras compartimentadas aparecem na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, formando um conjunto regional reconhecível.

O que a enfraquece é a falta de vínculo material com gente. Sem sítio de habitação escavado e datado ao lado do painel, sem lasca, sem fogueira, sem cerâmica em camada associada, a atribuição continua sendo inferência por vizinhança geográfica.

A segunda leitura trata o painel como instrumento de observação do céu. O engenheiro espanhol Francisco Pavía Alemany publicou nos anos 2000 um estudo arqueoastronômico propondo que parte das cúpulas e dos alinhamentos gravados registraria posições do sol ao longo do ano.

O que sustenta essa leitura é a existência real de cúpulas dispostas em fileiras e a orientação da face gravada, que recebe luz rasante em horários determinados e faz as covinhas saltarem à vista.

O que a enfraquece é a aritmética do acaso. Painel com dezenas de pontos gera alinhamentos aos montes por sorte, e nenhum teste estatístico publicado comparou os alinhamentos observados com o que uma distribuição aleatória de pontos produziria na mesma parede.

A terceira leitura é a mais antiga e a mais frágil. O pesquisador austríaco Ludwig Schwennhagen, no livro "Antiga História do Brasil", de 1928, defendeu que inscrições rupestres do Nordeste brasileiro seriam obra de navegantes fenícios chegados ao continente na Antiguidade.

O que sustenta essa leitura é apenas semelhança visual apontada a olho nu entre alguns sinais gravados e caracteres de alfabetos do Mediterrâneo antigo.

O que a enfraquece é a ausência total de material. Nenhum objeto fenício, nenhuma âncora, nenhuma cerâmica de importação e nenhum enterramento com ajuar mediterrâneo foi recuperado em solo paraibano, e a semelhança de traço sozinha não prova contato.

Há ainda uma quarta possibilidade, menos discutida e nada exótica: o painel pode ter função ritual ou territorial, marcando um ponto de água permanente numa região de seca, sem codificar mensagem nenhuma. Marca de lugar dispensa alfabeto e dispensa calendário.

O que ninguém consegue afirmar é a idade da gravação. Sem camada datada, sem pátina medida e sem material associado, o intervalo possível abrange desde alguns séculos antes da chegada europeia até vários milênios, e a escolha de um número dentro desse intervalo hoje é preferência, não medição.

"Vinte e quatro metros de rocha cavada à mão, protegidos por lei desde 1944, e nem uma camada de solo escavada ao lado para dizer quando alguém bateu o primeiro golpe?"

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Os exames que a rocha ainda não recebeu

A primeira lacuna é de escavação. Sondagens na margem do riacho e no terraço acima do leito, conduzidas com registro de camadas, diriam se houve acampamento junto ao painel e entregariam carvão, lasca ou cerâmica para datar o entorno.

A segunda é de datação da superfície. Medir a espessura da pátina sobre o fundo dos sulcos e compará-la com a da rocha não gravada daria ordem de grandeza para o tempo decorrido desde a cavação, com margem larga, mas com número.

A terceira é de registro completo. Levantamento tridimensional do painel inteiro, com contagem publicada de cada sinal e mapa de posição, substituiria os desenhos manuais de cópia que circulam desde o século XIX e que divergem entre si no número e na forma das figuras.

A quarta é de microscopia das marcas de ferramenta. As cicatrizes deixadas pelo percutor no fundo do sulco indicam o tipo de pedra usada, e comparar essas marcas com percutores recolhidos na região ligaria o painel a uma indústria lítica conhecida.

A quinta é de comparação sistemática. Confrontar sinal a sinal o repertório de Ingá com o dos demais afloramentos gravados do agreste mostraria se todos pertencem à mesma tradição e se existe ordem de precedência entre eles.

A sexta é de arquivo. Os relatos de viajantes, as cópias de desenhistas do século XIX e a documentação do processo de tombamento guardam informação sobre o estado do painel antes do turismo e permitiriam medir quanto sinal se perdeu por erosão e por contato.

O caso hoje sustenta duas leituras com a mesma parede diante dos olhos. Ou o painel de Ingá é um documento denso de um grupo pré-colonial do agreste, gravado em etapas por gerações que se sobrepuseram na rocha; ou é um monumento cuja função continuará indecidível enquanto a arqueologia não abrir uma trincheira ao lado dele.

A escolha decide onde gastar a próxima verba. Apostar no documento é ir para a escavação da margem, para a pátina e para a comparação regional sinal a sinal; apostar na indecidibilidade é gastar em conservação, cercar o leito, controlar a visitação e registrar em três dimensões o que ainda resta antes que a cheia seguinte leve mais um pedaço. As duas contas estão acima.

 
 
 
A Resposta das Pirâmides: oito perguntas, uma por dia: Quem levantou a pedra, e por que não foram escravos, Como um bloco de várias toneladas anda no deserto, O que corta pedra sem ferro, A rampa que ninguém achou em Gizé, Como acertaram o norte sem bússola, Quanto tempo levou, segundo quem estava lá, Por que o Egito parou de erguer pirâmide, A pergunta do alienígena, e de onde ela veio. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Segundo o registro, por quantos metros de extensão corre o painel principal gravado na parede de gnaisse do riacho Bacamarte?

A12 metros
B40 metros
C24 metros
D8 metros

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