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FICHA DO ARQUIVO
Relato: uma parede de gnaisse no leito do riacho Bacamarte, no município de Ingá, agreste da Paraíba, coberta de sinais cavados na face voltada para a água.
Registro: o painel principal corre por cerca de vinte e quatro metros e foi inscrito pelo serviço federal de patrimônio no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico em 1944.
Anomalia: a gravação em rocha não deposita matéria orgânica que um laboratório possa datar, nenhuma escavação com camadas datadas foi publicada ao lado do painel, e nenhum povo autor foi identificado por evidência material.
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A Pedra do Ingá está sob proteção legal do Estado brasileiro desde 1944, quando o serviço federal de patrimônio a inscreveu no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Oito décadas depois, nenhum laboratório publicou data para os sinais cavados na rocha, e nenhum povo autor foi identificado por evidência material recolhida no lugar.
O monumento fica no leito do riacho Bacamarte, no município de Ingá, no agreste da Paraíba, a cerca de cem quilômetros de João Pessoa.
O que existe ali é uma parede de gnaisse, rocha metamórfica dura e listrada, que emerge do leito e mostra para o curso d'água uma face inteiramente trabalhada. O painel principal corre por cerca de vinte e quatro metros de extensão e alcança alguns metros de altura acima do fundo do riacho.
O nome regional do conjunto vem do tupi: itacoatiara, que se traduz por pedra riscada. A palavra batiza dezenas de afloramentos gravados espalhados pelo agreste nordestino, e a de Ingá é a mais visitada de todos eles.
Os sinais foram abertos por percussão e polimento. Quem gravou bateu na rocha com um percutor mais duro até rebaixar a superfície, depois alisou o fundo do sulco por atrito com areia e água, e o resultado é um baixo relevo de bordas suaves que resistiu a séculos de enxurrada.
O repertório gravado reúne formas fechadas que lembram animais, figuras humanas estilizadas de braços abertos, espirais, retângulos com divisões internas e dezenas de cúpulas, as covinhas circulares cavadas na rocha que aparecem em sítios gravados do mundo inteiro.
O riacho é intermitente. Na estação de chuva a água sobe e cobre parte do painel, na estiagem o leito seca e a parede aparece inteira, e essa alternância lavou por séculos o sedimento fino que um arqueólogo precisaria para datar qualquer coisa.
O registro de hoje começa pelo que a rocha mostra de perto e pelo que o exame direto do painel já permite afirmar, antes de qualquer hipótese sobre autoria.
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O SÍTIO
A parede de gnaisse do riacho Bacamarte, em Ingá, na Paraíba, com os sinais cavados em baixo relevo na face voltada para o leito.
Foto: Claudio JJ, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
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A geometria do painel é a parte firme do caso. A face gravada acompanha a margem rochosa, volta-se para o curso d'água e concentra a maior densidade de sinais na porção central, onde as figuras chegam a se sobrepor umas às outras.
A sobreposição carrega uma informação valiosa: sinal cavado por cima de sinal cavado prova sequência. Alguém gravou primeiro, outro alguém gravou depois, e o painel não nasceu de uma única jornada de trabalho.
A técnica também está estabelecida pelo exame direto. Percussão indireta com percutor de pedra mais dura abre o sulco, o polimento posterior com abrasivo e água arredonda o fundo, e as duas operações deixam microvestígios distintos na superfície, legíveis com lupa e luz rasante.
A profundidade média dos sulcos é pequena, de poucos centímetros, o que explica a aparência de desenho em baixo relevo, e ao mesmo tempo torna o conjunto vulnerável ao atrito das cheias e ao contato de visitantes.
O repertório também é descritível sem controvérsia. Há formas que remetem a quadrúpedes, há figuras antropomorfas, com feitio humano, de braços e pernas abertos, há espirais simples e duplas, há campos de cúpulas alinhadas e há blocos retangulares compartimentados.
O que a descrição não sustenta é a leitura do conjunto como escrita. Sistema de escrita produz repetição regular de um número limitado de sinais, com frequências estáveis e combinações recorrentes, e o painel de Ingá não apresenta esse comportamento.
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Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interêsse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
Brasil, "Decreto-Lei nº 25", artigo 1º, 1937
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O tombamento de 1944 aplicou esse texto ao afloramento e a seu entorno, o que congelou juridicamente a paisagem: obra, extração de pedra e alteração do curso d'água passaram a depender de autorização federal.
A proteção legal, porém, não produziu escavação. Nenhum relatório de escavação estratigráfica, com camadas de solo registradas e material associado, foi publicado para a margem imediata do painel, e sem camada não existe âncora de tempo.
A dificuldade é da própria técnica gravada. Pintura rupestre deposita pigmento, que às vezes carrega carvão datável; gravação apenas remove rocha, não acrescenta matéria nenhuma, e o laboratório fica sem amostra para medir.
Restariam dois caminhos indiretos: datar a pátina, a película de alteração química que se forma sobre a superfície exposta, ou medir a microerosão dos sulcos. Nenhum dos dois foi aplicado ao painel de Ingá em trabalho publicado e replicado.
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