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As pegadas de casco que cruzaram Devon numa noite de neve

Em fevereiro de 1855, marcas em fila única subiram telhados e muros no sul da Inglaterra, e os jornais nunca fecharam o caso

Rastro de pegadas em forma de casco sobre neve fresca subindo um muro de pedra, lampião aceso em primeiro plano sob luz âmbar

Pegadas na neve de Devon, fevereiro de 1855

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: na manhã de 9 de fevereiro de 1855, pegadas em forma de casco apareceram em fila única na neve do sul de Devon.

Registro: o vigário Henry Thomas Ellacombe reuniu cartas e decalques, e o Illustrated London News publicou teorias sem escolher nenhuma.

Anomalia: as marcas passavam por cima de muros e telhados.

O Times de Londres noticiou, em 16 de fevereiro de 1855, que as marcas achadas na neve do sul de Devon seguiam em fila única, um casco atrás do outro, como passo de criatura de duas pernas. Duas semanas depois, o anatomista Richard Owen, do Royal College of Surgeons (Colégio Real de Cirurgiões), escreveu ao Illustrated London News, semanário ilustrado de Londres, que aquilo era rastro de texugo, bicho de quatro patas.

As marcas surgiram na manhã de 9 de fevereiro, depois de uma nevasca na noite anterior, em vilarejos que margeiam o estuário do rio Exe: Topsham, Lympstone, Exmouth e Woodbury, e mais ao sul Dawlish e Teignmouth. Quem abriu a porta cedo encontrou pegadas em forma de ferradura pequena, com cerca de 10 centímetros de comprimento e uns 20 centímetros entre uma e outra.

O que assustou foi o percurso. As pegadas subiam em telhados, passavam por cima de muros altos sem desviar, entravam em canos de escoamento estreitos e reapareciam na saída. Em certos quintais, cruzavam o jardim, iam até a porta da casa e davam meia-volta.

Em poucos dias, a notícia correu a região. Nas igrejas, pregadores falaram em visita do Diabo, e grupos de homens armados com porretes e espingardas seguiram as trilhas pelos campos atrás do dono dos cascos. Em Dawlish, segundo o relato do Times, um grupo levou cães pela trilha até um matagal, e os animais recuaram latindo sem entrar. Ninguém encontrou bicho algum.

Somadas, as trilhas relatadas cobriam dezenas de quilômetros, de vila em vila, e a imprensa de Londres passou a publicar cartas de leitores com teorias: texugo, lontra, rato, cisne, canguru fugido. Nenhuma dava conta de tudo que as testemunhas descreviam.

A investigação começa pelos papéis de quem estava lá: um vigário que guardou cartas e desenhos das marcas, e o que esses documentos contam quando lidos de perto.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, Os papéis do vigário de Clyst St George

As Pegadas do Diabo de Devon têm uma fonte principal fora dos jornais: o arquivo do reverendo Henry Thomas Ellacombe, vigário de Clyst St George, paróquia vizinha de Topsham. Nas semanas seguintes à nevasca, ele juntou cartas de moradores, anotações próprias e decalques (desenhos feitos por cima da marca, copiando o contorno) das pegadas encontradas na região.

Ellacombe pretendia publicar um relato completo, e parte do material chegou ao Illustrated London News, que em 24 de fevereiro de 1855 imprimiu uma gravura das marcas. O texto descrevia pegadas em forma de casco, sem sinal de garra, alinhadas como se o animal pusesse um pé exatamente na frente do outro.

O arquivo do vigário ficou esquecido por quase um século. Nos anos 1950, a folclorista Theo Brown localizou os papéis numa coleção de Devon e passou a estudá-los. Em 1994, o historiador britânico Mike Dash publicou a transcrição do conjunto na Fortean Studies, revista dedicada a fenômenos sem explicação, e a leitura dos originais mudou o caso.

O que os decalques mostram

Os desenhos não batem entre si. Uns trazem casco inteiro, fechado como ferradura; outros mostram casco fendido, dividido em duas partes, feito pata de cabra. Os tamanhos variam de um vilarejo a outro, e o espaço entre as pegadas também. Para quem lia só o jornal, era uma criatura; para quem lê os decalques, parecem vários rastros diferentes.

Nenhuma testemunha viu a trilha inteira; cada uma viu o próprio quintal.

A mesma dispersão aparece no mapa. As cartas falam de marcas em lugares separados por quilômetros de campo aberto, mas ninguém percorreu a linha de ponta a ponta na mesma manhã. A trilha contínua de dezenas de quilômetros nasceu da soma de relatos isolados, costurados depois pelos jornais.

Uma sensação considerável foi despertada nas cidades de Topsham, Lympstone, Exmouth, Teignmouth e Dawlish, no sul de Devon, em consequência da descoberta de um grande número de pegadas de natureza das mais estranhas e misteriosas.

The Times, Londres, 16 de fevereiro de 1855

O detalhe mais citado é a travessia do Exe. Relatos da época dizem que as marcas apareciam em Powderham, na margem oeste do estuário, e voltavam a surgir em Lympstone, na margem leste, com cerca de três quilômetros de água no caminho. Nenhuma carta do arquivo mostra alguém seguindo a pegada até a beira do rio numa margem e reencontrando a mesma trilha na outra.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Texugo, canguru ou balão de ensaio

Richard Owen, o anatomista que mais tarde dirigiu as coleções de história natural do Museu Britânico, foi a voz científica mais alta do caso. Na carta ao Illustrated London News, publicada em 3 de março de 1855, ele disse que o texugo, ao andar, põe a pata traseira sobre a marca da dianteira, o que deixa uma pegada só por passo e dá a impressão de fila única.

A explicação resolvia o alinhamento, mas não o resto. Texugo não sobe telhado, e a pegada dele mostra dedos e garras, ausentes nos decalques de Ellacombe. Moradores que conheciam os bichos da região escreveram ao jornal dizendo que nunca tinham visto rastro de texugo com aquele desenho.

O canguru veio de um púlpito. O reverendo George Musgrave, vigário de Withycombe Raleigh, perto de Exmouth, mencionou aos fiéis que cangurus haviam escapado de uma coleção particular de animais exóticos. Em carta ao mesmo semanário, ele admitiu depois que lançou a hipótese para acalmar a paróquia, sem prova de fuga alguma.

A hipótese que chegou 130 anos depois

A explicação mais engenhosa só apareceu em 1985. O escritor Geoffrey Household, ao editar o livro The Devil's Footprints (As Pegadas do Diabo), reproduziu o relato de um certo Major Carter: o avô dele trabalhava no estaleiro da Marinha em Devonport e teria contado, em família, que um balão experimental escapou naquela noite arrastando duas correntes com argolas presas nas cordas.

As argolas batendo na neve, em intervalos regulares, deixariam marcas em linha, e o balão passaria por cima de muros e telhados sem esforço. O problema está na geografia e no papel: Devonport fica perto de Plymouth, a cerca de 50 quilômetros a oeste do Exe, e nenhum registro do estaleiro menciona balão perdido em 1855. A fonte é uma lembrança de família contada 130 anos depois.

Cada teoria explicava um pedaço e deixava outro sem resposta.

As cartas publicadas trouxeram ainda lontras, ratos que andam aos saltos, cisnes e até sapos. O Illustrated London News imprimiu várias delas nas semanas seguintes, sem tomar partido, e encerrou a cobertura quando as cartas pararam de chegar. O caso saiu das páginas sem que o jornal escolhesse uma explicação.

O que as teorias têm em comum é a premissa: todas tentam achar um único autor para uma trilha contínua. Se a trilha contínua nunca existiu, a pergunta muda de forma, e deixa de ser qual animal fez tudo para virar quantos animais fizeram cada pedaço.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Uma noite só, ou várias trilhas somadas

Mike Dash chegou a essa conclusão depois de ler as cartas de Ellacombe. No artigo de 1994, ele argumentou que as pegadas vinham de fontes diferentes, deixadas por bichos diferentes, talvez em noites diferentes, e que a imprensa transformou marcas espalhadas numa trilha só. Entre os candidatos, citou roedores que se movem aos saltos, como o rato-do-campo, cujas patas caem juntas e formam uma marca parecida com casco.

A neve daquele fevereiro ajuda a leitura. Houve degelo parcial durante o dia e congelamento à noite, e esse ciclo alarga qualquer marca pequena e arredonda as bordas. Um rastro de ave ou de roedor, depois de derreter um pouco e endurecer de novo, pode ganhar o contorno liso de uma ferradura.

Essa soma de causas é a hipótese mais aceita entre quem estudou os documentos. Ela, porém, fica no campo do plausível. Dash nunca provou qual bicho fez qual trilha, e ninguém mais poderá provar.

O que faltou em 1855

A primeira lacuna é física. Nenhuma pegada foi fotografada, embora a fotografia já existisse, e nenhum molde em gesso foi tirado da neve. O que sobrou são decalques feitos à mão por pessoas assustadas, sem escala padronizada e sem data exata de cada desenho.

A prova derreteu na primeira manhã de sol.

A segunda lacuna é o percurso. Ninguém desenhou um mapa com a posição de cada trilha naquela semana, e os relatos dão nomes de vilarejos, não de ruas ou campos. Sem mapa, é impossível dizer se as marcas de Topsham e as de Dawlish pertenciam ao mesmo rastro ou a rastros sem relação.

A terceira é a travessia do estuário. Se alguém tivesse confirmado a trilha nas duas margens do Exe, na mesma direção e com o mesmo tamanho de passo, o caso ganharia um fato duro. Essa confirmação não existe nas cartas, e o detalhe mais famoso da história segue sem testemunha que o sustente.

O desfecho, então, é este: o autor das Pegadas do Diabo de Devon segue desconhecido, porque a evidência derreteu antes que alguém a medisse com método, e os papéis que restaram mostram marcas diferentes demais para caber num único animal.

Uma noite de neve em que vários bichos comuns deixaram rastros que os jornais costuraram numa trilha só, ou um único rastro que atravessou o Exe e ninguém conseguiu seguir. Os papéis de Ellacombe sustentam a primeira leitura; as testemunhas de 1855 juravam pela segunda.

 
 
 
A Resposta das Pirâmides: oito perguntas, uma por dia: Quem levantou a pedra, e por que não foram escravos, Como um bloco de várias toneladas anda no deserto, O que corta pedra sem ferro, A rampa que ninguém achou em Gizé, Como acertaram o norte sem bússola, Quanto tempo levou, segundo quem estava lá, Por que o Egito parou de erguer pirâmide, A pergunta do alienígena, e de onde ela veio. Começar pelo dia 1.

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Quiz da edição

Na carta que enviou ao Illustrated London News, que mecanismo o anatomista Richard Owen usou para explicar as pegadas em fila única?

ACangurus fugidos de uma coleção particular exótica saltavam eretos, deixando marcas alternadas
BO texugo pisa com a pata de trás bem em cima da marca da pata da frente, sobrando uma marca só por passada
CCorrentes com argolas presas a um balão de ensaio bateram na neve em intervalos regulares
DCisnes deslizavam pela neve gelada arrastando as patas em linha reta

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